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quinta-feira, 1 de março de 2018

"Tale of Tales" (Il racconto dei racconti, 2015)


“Tale of Tales” é uma película apresentada em estilo mosaico composta por contos tão antigos que precedem os ilustres irmãos Grimm. Essas estórias integram “Il Pentamerone”, obra póstuma do poeta e autor Giambattista Basile do séc. XII, que se situam algures numa Itália imbuída do espírito do estilo Barroco.

“The Queen” – No reino de Longtrellis vive uma rainha (Salma Hayek) infeliz por ser incapaz de gerar um filho. Ao rei (John C. Reilly) basta-lhe o amor de casal mas ela não consegue aquietar aquela dor. Para cumprir o desejo violento de ser mãe, a Rainha convoca uma bruxa que afirma ser capaz de lhe dar o que pretende. No entanto, o preço por perverter as leis da natureza será elevado. Para uma vida nova terá de existir uma morte também.

“The Flea” – Um rei despreocupado (Toby Jones) deixa-se toldar pela obsessão com um animal de estimação invulgar: uma pulga. Esta cresce alimentada com todo o seu afecto e até sangue, ao mesmo tempo que negligencia Violet (Bebe Cave), a sua única filha. Após a morte do bicho o rei decide oferecer a mão de Violet em casamento a quem acertar num enigma. Rei e corte ficam chocados quando um ogre é o único a apresentar a solução correta e a pobre rapariga é forçada a casar com ele.

“The Two Old Women” – Em Strongcliff reside um rei (Vincent Cassel) que não consegue aplacar a sua luxúria constante. Um dia ouve uma voz angelical e fica obcecado por descobrir a quem pertence. A voz é de Dora (Hayley Carmichael) uma velha marcada pelas agruras de uma vida de trabalho duro e que tem por única companhia a tola irmã Imma (Shirley Henderson). Quando o rei bate à sua porta, Dora vê a oportunidade de ter por fim a possibilidade de conhecer o outro lado da sociedade, junto à elite, de paixão, riqueza e sem o esforço do quotidiano.

Se algo não faltou em “Tale of Tales” foi ambição. Cada um dos segmentos tem uma estória original, nunca antes adaptada ao cinema; em cada uma existem pelo menos um ou dois actores de peso e os cenários são tão fantásticos – com as ocasionais bestas míticas pelo meio –, que parecem saídos da fábrica de milhões, mais conhecida por Hollywood. A cinematografia e o design de produção, são o que melhor vende o filme. Os cenários são reconhecíveis, desde castelos italianos a bosques encantados e, ao mesmo tempo, estranhos o suficiente para enquadrar “Tale of Tales” no reino da fantasia. O seu calcanhar de Aquiles reside numa montagem trapalhona. É difícil destrinçar aquando da transição entre segmentos e a escolha por cortar certos segmentos em determinados locais também é duvidosa. Em alguns, a narrativa arrasta-se de tal modo que não fosse a beleza do que se vê no ecrã, seria caso para dormitar. Por outro, quando alguns dos segmentos aceleram o ritmo ou partem momentos de revelação cruciais passamos para a estória seguinte. No terceiro acto, quando todas as estórias são por fim interligadas, esse momento é o oposto de climático e é até desnecessário. Os segmentos ainda que não tivessem uma ligação narrativa tinham em comum o tema das obsessões tão fortes que consomem e dilaceram tudo no seu caminho pelo que a opção de reunir fisicamente os diversos reinos é redundante. Todas as personagens principais à excepção de Elias, em “The Queen” são profundamente imperfeitas ou têm graves falhas de carácter. A Rainha é profundamente egoísta e ciumenta. O rei que oferece a filha a um ogre é vaidoso e irresponsável. A própria princesa, com um destino tão triste, de início não é mais do que uma tolinha superficial. O rei de Strongcliff é incapaz de ver além da satisfação dos seus desejos primitivos. Dora não é mais do que o reflexo do rei, mas sob a perspectiva feminina, velha e pobre. E todos têm muito a perder só que não se apercebem até ser demasiado tarde. A vida tem lições de crueldade e contas a prestar com todos eles.
Em poucas obras é tão explícito o lado sombrio dos contos de fadas, como em “Tale of Tales” que nunca tenta ser subtil a esse respeito. Os temas são escuros e a imagética é opulenta e brutal, mesmo quando sob a forma de metáfora, brilhantemente enquadrados pela composição minimalista e desconcertante de Alexandre Desplat. A narrativa baseia-se em contos menos conhecidos de um compêndio na qual constavam os primórdios de uma “Cinderella” ou de uma “Bela Adormecida” que são agora recordados com a nostalgia de quem viu em pequenino os filmes da Disney. Mas ao investir em “The Queen”, “The Flea” ou “The Two Old Women” nunca surge esse perigo de contágio, podendo ser consideradas demasiado pessimistas ou até uma fraude, por quem viveu uma infância repleta de finais felizes. Três estrelas e meia.


Realização: Matteo Garrone
Argumento: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso e Giambattista Basile (contos)

Em "The Queen"
Salma Hayek como Rainha de Longtrellis
John C. Reilly como King of Longtrellis
Christian Lees como Elias, Príncipe de Longtrellis
Jonah Lees como Jonah

Em "The Flea"
Toby Jones como Rei de Highhills
Bebe Cave como Violet, Princesa de Highhills
Massimo Ceccherini como Artista de Circo
Alba Rohrwacher como Artista de Circo
Guillaume Delaunay como Ogre

Em "The two Old Women"
Vincent Cassel como Rei de Strongcliff
Shirley Henderson como Imma
Hayley Carmichael como Dora
Stacy Martin como jovem Dora

Estes e outros contos foram repescados e editados já em 2016 sob o nome "Tale of Tales",se quiserem conhecer um pouco mais sobre a mitologia de Giambattista Basile.

Próximo Filme: "The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku, 2001)

domingo, 7 de junho de 2015

"Sweet Rain" (Suwîto rein: Shinigami no seido, 2008)


A morte é gira, anda de fato, faz incursões pela Terra para ir buscar as suas vítimas e não, não se chama “Joe Black”. Esse é o filme de 1998. No caso presente, a personagem da Morte (e ele encarna-a tão bem), pertence a Takeshi Kaneshiro numa versão ingénua e doce.
Ele é conhecido por Chiba e é um dos enviados especiais para os assuntos da Terra relacionados com vida e morte. O procedimento é tão eficiente quanto simples. Abre-se um portal para o deixar transitar para o mundo dos vivos, introduz-se na vida da pessoa que lhe foi indicada e, em pouco tempo, terá de tomar uma decisão sobre a sua existência. O seu único companheiro, nesta tarefa solitária a maior parte do tempo é um cão negro que comunica com ele através da telepatia e sabe, e viu, muito mais do que ele. Ele faz de juiz e carrasco das pessoas que lhe são indicadas até que conhece Kazue Fujiki (Manami Konishi), uma jovem mulher triste que abraçaria com prazer uma morte precoce. Passam alguns anos Chiba é inserido numa estória sórdida que envolve um órfão que perdeu o norte e a máfia japonesa (yakuza). A sua terceira missão, mais calma, revolve uma cabeleireira que pretende cumprir um último desejo antes de transitar para o outro lado.

O questionamento sobre o sentido da vida não é a ideia mais brilhante ou mais original que já perpassou pelo cinema. A abordagem à temática já batida é o mais interessante. Doce como indica o título. Ao contrário de “Meet Joe Black”, “Sweet Rain” não se detém numa estória e tenta espremer todo o melodrama patente na realização de um romance impossível. “Sweet Rain” foca-se nas nuances, na sugestão ténue de um amor e apontamentos cómicos que não destoam com a seriedade da morte. Conhecido pela sua eficácia, Chiba questiona pela primeira vez a facilidade com que aceita o destino tal qual este lhe é apresentado. Perante uma situação de desespero, ao invés de aceitar com facilidade a morte como a única opção possível, sente um pesar pela incapacidade de realização do potencial da vítima. Sentimento que lhe era até então estranho. Caracterizado como convém a cada missão (atente-se ao vestuário questionável e penteando chunga na segunda missão ou a aparência de membro de uma boyband na última), ajudado pela sua boa parecença (pois que as pessoas estão mais predispostas a confiar em quem consideram bonito) e uma inocência que é mal julgada como humor, os personagens acabam por confiar com facilidade no estranho.

Chiba é intemporal mas é uma criança. Como se a existência como mensageiro da morte, fosse ela própria uma aprendizagem. Chiba atravessa três épocas diferentes e, a cada uma delas, as suas decisões vão se tornando menos extemporâneas, à medida que a sua compreensão das suas acções se aproxima de algo cada vez mais parecido com clareza. Também é comum o sentimento de melancolia a que não é alheia a selecção musical e que impacta ela própria as personagens. Para Chiba é uma das maiores criações da humanidade, para outras personagens significa dor, nostalgia ou catarse. Em simultâneo, Chiba lamenta o facto de as suas missões serem sempre acompanhadas de chuva. Irá ele ver um dia de sol?
“Sweet Rain” é bem carregado pelos ombros experientes de Takeshi Kaneshiro. À semelhança de outras grandes estrelas de Hollywood ele foi abençoado e amaldiçoado por uma aparência que faria pensar que é pouco mais uma face gira que será ultrapassada em breve pelas gerações mais novas e, tão parcas em talento quanto ele. Nada podia encontrar-se mais longe da verdade. “Sweet Rain” é como um calmo dia de chuva. Possui vários acontecimentos de elevada gravidade, no entanto, estes nunca são capazes de provocar reacções de choque. No final, permanece a sensação de que ar ficou mais leve, acompanhado de um aroma doce. Tal doçura pode ser atribuída ao desempenho sólido, mas subtil de Kaneshiro e de Manami Konishi e Sumiko Fuji em curtas aparições, que parecem querer dizer para a audiência olhar ao todo e não a cada uma das partes. Três estrelas e meia.

O melhor:
- O desempenho do elenco
- Uma nova abordagem a um tema muito explorado

O pior:
- Inexistência do factor uau que pode provocar algum aborrecimento
- Sentimento de que “Sweet Rain” nunca pretende ser pouco mais do que bom

Takeshi Kaneshiro como Chiba
Manami Konishi como Kazue Fujiki
Sumiko Fuji como Junko Fuji
Mitsuru Fukikoshi como Kentaro Oomachi
Takuya Ishida como Shinji Akutsu
Ken Mitsuishi como Toshiyuki Fujita
Jun Murakami como Aoyama
Erika Okuda como Takeko

Próximo filme: "13 Beloved" (13 game sayawng, 2006)

domingo, 26 de abril de 2015

"Missing" (Sam hoi tsam yan, 2008)


Trailer, poster e créditos iniciais vendem um mistério aquático. Com duas horas em excesso, a verdade revela-se bem menos interessante. 

Num dos mergulhos de rotina ao profundo azul, a Dra. Gao Jing (Angelica Lee) perde-se do amado Dave Chen (Xiaodong Guo). Ela acaba por emergir com Chen Xiao Kai (Isabella Leong), a irmã deste, mas nunca mais volta a vê-lo vivo. Quando um cadáver é recuperado Gao Jing recusa-se a acreditar que o corpo encontrado seja dele. Sem memória do que sucedeu debaixo de água, ela aceita submeter-se a uma sessão de hipnotismo com o Dr. Edward Tong (Tony Ka Fai Leung) para descobrir a verdade. Desesperada com a perspectiva de nunca mais ver Dave, Gao Jing decide deixar-se enredar na aura de mistério que envolve Simon (Chen Chang), um dos seus pacientes, convencido que é assombrado pela namorada morta. Esta descrição é uma súmula rápida e simplificada desta não descomplicada película. Podem agradecer-me mais tarde.

Os créditos iniciais brindam-nos com uma paisagem costeira fabulosa. De facto, se algum elogio é totalmente merecido é o de uma cinematografia maravilhosa. Atente-se à magnífica utilização do azul do oceano. As cenas de mergulho impecáveis parecem saídas de um documentário da National Geographic. Já fora de água e estas cenas estão em maioria, existe com frequência um apontamento de azul para fazer recordar a tragédia que agora se investiga. A paixão pelo mergulho e pela fotografia aquática foi o que uniu Gao Jing e Dave, acabando por ser também, por ironia do destino, aquilo que os separou.
“Missing” descreve na perfeição esta obra de Tsui Hark. Mais do que um desaparecimento, falta-lhe toda uma variedade de decisões que o podiam ter tornado bastante superior. Em primeiro lugar, a decisão da edição. Tsui Hark é enxergado com reverência por filmes como “Once upon a Time in China” (1991) que recuperaram os clássicos de artes marciais com um ainda jovem Jet Li ao leme. E parece ser neste género onde se encontra a sua área de conforto (veja-se “Detective Dee and the Mystery of the Phantom Flame” de 2010) e, com toda a fraqueza, o melhor local para empregar os seus talentos. Quando sai do género parece perder toda a confiança, caindo na armadilha do familiar. “Missing” também não tem problemas com uma linearidade excessiva do argumento. Antes pelo contrário. Peca por querer parecer mais perspicaz e complexo do que na realidade é. Anunciado como um mistério, deambula entre o thriller sobrenatural e o drama romântico até perto das duas horas em que estabiliza, por fim, na opção menos excitante das duas. Extirpado dos inúmeros subenredos que incluem Chen Xiao Kai, do Dr. Tong (Isabella Leong e Tony Leung Ka Fai inutilizados até à infelicidade) e de Simon, “Missing” seria de mais fácil compreensão e não perderia nenhuma qualidade. Fosse um mistério criminal, seria interessante explorar a vertente da amiga com uma paixão proibida, o terapeuta rejeitado ou o paciente com uma visão mais lúcida que a dos que o rodeiam. Faltam ideias, sejam elas quais forem!
 Já para Angelica Lee é mais do mesmo. Ela está habituada a ser a protagonista para as neuroses do marido Oxide Pang Chun em “The Eye” (2002), “Sleepwalker 3D” (2010), entre outros e, faz tudo o que lhe pedem, ainda que isso signifique observar o vazio durante segundos mais que o necessário. O que me leva à constatação óbvia, para quem já visionou quase toda a obra dos irmãos Pang, que “Missing” parece uma cópia descarada, da actriz principal às reviravoltas da dupla. O que em si, se não é completamente ético podia ao menos resultar numa experiência de visionamento agradável. Está presente a devida homenagem com a icónica cena do elevador assombrado (reinventada por Tsui Hark, claro), existe uma Angelica Lee chorosa (quantas lágrimas já ela verteu), o recurso à imagem gerada por computador com uma qualidade tão duvidosa e inesperada que é de bradar aos céus, e mais do que um final… Para quem almejou tanto, “Missing” é de um vazio atroz. A imagem é na maior parte impressionante, desde uns créditos iniciais que passeiam por entre escarpas costeiras ou a calmaria da fauna oceânica. A questão que se coloca é se estão dispostos a perder duas horas de vida para ver uma estória absurda a despeito das imagens bonitas quando há muito melhor oferta. Duas estrelas.

O melhor:
- Cinematografia e as paisagens naturais

O pior:
- O argumento
- Efeitos digitais
- Banda-sonora
- Os três desenlaces diferentes

Realização: Tsui Hark
Argumento: Tsui Hark e Ho Leung Tau
Angelica Lee como Dra. Gao Jing
Isabella Leong como Chen Xiao Kai
Chen Chang como Simon
Xiaodong Guo como Dave Chen Guo Dong
Tony Ka Fai Leung como Dr. Edward Tong

Próximo Filme: "The Second Sight", Chit sam phat 3D (2013)

domingo, 25 de maio de 2014

"Just another pandora's box" (Yuet gwong bo hup, 2010)


São fãs de “Red Cliff” (2008-2009), “A Chinese Odissey” (1995), “Titanic” (1997) ou mesmo salpicos de “The Matrix” (1999)? Não se preocupem que “Just Another Pandora’s Box” apresenta todas estas estórias, ao mesmo tempo. Batidas, não mexidas.

“Just Another Pandora’s Box” é um produto que podia ter sido manufacturado e cospido pela máquina de Hollywood. A única diferença é que o humor, regional, dificilmente poderá apelar a quem desconhece algum dos filmes reinterpretados nesta produção cantonesa.

Qing Yise (Ronald Cheng) é um bandido com um péssimo timing. Ele consegue enganar uma deusa para lhe roubar uma espada mística que decerto lhe irá valer um bom preço no mercado negro, mas comete o erro de a desembainhar mediante o embuste de outro Deus. Rose (Betty Sun) acorda para um Qing a empunhar a espada e jura persegui-lo para todo o sempre quer este queira ou não. É que ela jurou unir-se àquele que fosse capaz de a desembainhar. E aqui teríamos um bom título alternativo para o filme ("Perseguição sem Tréguas"?) já que Qing foge de Rose como o diabo da cruz, agindo até como se ela fosse hedionda (ela é das actrizes chinesas mais bonitas da actualidade). E aí reside parte da piada. A piada remanescente encontra-se nos inúmeros gags que atravessam eras e eventos históricos como a célebre batalha de Red Cliff, sempre com Qing a tentar escapar-se da Deusa carente, por entre aparições de personagens locais míticos como o feroz guerreiro Guan Yu. Após salvar o filho de Liu Bei (Yuen Biao) e inadvertidamente entregar a caixa mágica que lhe permite viajar no tempo ao vilão Cao Cao (Guo De-Gang) Qing vê-se forçado a colaborar com a longa lista de personalidades históricas para conseguir regressar ao seu próprio tempo. Dizem até os créditos iniciais que Jackie Chan, Stephen Chow, Jet Li, Chow Yun-Fat, Maggie Cheung, Zhang Ziyi e a Angelina Jolie, recusaram todos participar no filme. Se depois disto ainda estiverem à espera de um filme com algum grau de seriedade preparem-se para uma grande desilusão.

O elenco não chega para as inúmeras oportunidades de comédia que quase se atropelam umas após as outras. Quase que para evitar que a audiência perca o sorriso, são apresentados gags sucessivos, a ver se algum cola. Por outro lado, ninguém pode levar a sério grandes actores se estes surgirem em pouco mais que uma cena. Quando estivermos refeitos do choque já terá sido apresentado novo actor famoso / starlet / ídolo do cantopop actual. Melhor conselho que o de (re)ver os clássicos em que se baseia não existirá. Se bem que o facto de “Kung Fu Panda’s”, “Matrix” e “Titanic” (a personagem feminina até se chama Rose, duh!) e outros que tais surgirem em catadupa ajudam a uma melhor compreensão de que coisa estranha se encontra a passar no ecrã, mas estaria a mentir se considerasse que estes chegam para o efeito. Se tanto, no conjunto da película, estas cenas constituem os momentos mais fracos de “Just Another Pandora’s Box” pois fogem do nicho popular e mitologia locais em que a película se encontrava para tentar agradar a uma audiência mais vasta que por essa altura já desistiu do filme.
“Just Another Pandora’s Box” é aquele tipo de comédia auto-referencial que conhece as audiências que está a tentar atingir e nem sequer se preocupa em ser um pouco original. Para quê mexer em fórmula vencedora? Vale pelos cenários e pelas caras conhecidas que de estória tem muito pouco. Duas estrelas.

Realização: Jeffrey Lau
Argumento: Jeffrey Lau
Ronald Cheng como Zhao Yun
Betty Sun como Rose
Gigi Leung como Emaixadora do Turquestão
Athena Chu como Nuvem Roxa
Eric Tsang como Zhuge
Bo Huang como Zhou Yu
Yuen Biao como Liu Bei
Guo De-Gang como Cao Cao
Yi Huang como Xiao Qiao
Lik-Sun Fong como Guan Yu

Próximo Filme: "Dark Skies" (2013)

quarta-feira, 14 de março de 2012

"Troll Hunter" (Trolljegeren, 2010)

ATENÇÃO, trailer com spoilers!


Quando o género found footage definha em termos criativos e já não há paciência para fantasmas, monstros, bruxas e demónios eis que surge uma nova esperança sob a forma de um troll. Não é uma comédia nem é anedota. "Troll Hunter” é um filme sobre trolls feios, brutos e maus. 

A Escandinávia alberga um folclore tão rico que dá para alimentar filmes durante algumas décadas. Nenhuma criatura possui tanta magia e ao mesmo tempo foi tão pouco explorada, fora do seu lar, como o troll, essa besta primitiva milenar que habita cavernas, montanhas ou florestas de vegetação alta. Ele só pensa em comer, defecar e dormir. Nestes aspectos, não é muito diferente das outras criaturas do reino animal. Nisto, entra a mitologia, o troll caça durante a noite e dorme durante o dia num qualquer buraco obscuro. Os raios de sol não podem entrar em contacto com a sua pele, caso contrário, transforma-se em pedra. É por isso que as crianças não têm o que temer durante o dia e não se devem aventurar fora de casa após o crepúsculo. A pouca razão do troll possui vai para a sua aversão aos cristãos. O simples farejar de um põe-no doido, fora de si. A crença cristã está além da sua compreensão. É natural que a uma criatura egoísta e, ocasionalmente, devoradora de homens, o sacrífico e a compaixão façam confusão.
A narrativa inicia-se com o aparecimento de um número invulgar de ursos mortos. Um grupo de estudantes universitários suspeita de caça ilegal e decide realizar um documentário sobre o sucedido. A equipa, liderada pelo inquisitivo Thomas (Glenn Erland Tosterud) depressa tropeça numa estória mais interessante do que à partida se podia esperar. Se os ursos estão a ser atacados por um urso de outra espécie, maior, por que é que as feridas contradizem a teoria? Se os animais são o alvo de caçadores ilegais, por que é que estes não levam troféus? E mais estranho ainda, por que andam agentes governamentais a rondar os locais dos ataques? O documentário conhece grandes desenvolvimentos quando os estudantes começam a seguir uma carrinha peculiar que surge com frequência, junto dos cenários de crime. Quando finalmente se acercam do condutor as suas convicções são abaladas. Ele é Hans (Otto Jespersen), um caçador de trolls. Eles existem na Noruega e são eles os autores dos ataques recentes. Os estudantes dividem-se entre a incredulidade e o gracejo. Não deve existir muito mais naquela estória do que uma explicação racional. Um urso perdido com certeza anda a provocar todos aqueles estragos. Provavelmente será melhor regressar à universidade com o pouco crédito que ainda têm, antes de se tornarem a anedota do campus. Então, o excêntrico convida-os para uma caçada de trolls. Apenas Thomas acredita que vale a pena continuar a seguir Hans.
Por estapafúrdia que a ideia da existência de um troll da Noruega seja, esta imagem não é mais irrealista que um pocong indonésio ou um pontianak malaio. Cada região, sua superstição. E “Troll Hunter” é tratado com um cuidado tal, seja pela adaptação do folclore escandinavo e uma atenção aos pormenores elevada, que a narrativa se distancia do absurdo e surge com um mínimo de credibilidade. O caçador é um homem de meia-idade experiente, que vive como um nómada. O seu dever é assegurar que as pessoas desconheçam a existência dos trolls. Por que não? Eles já cá andam há tanto tempo quanto o ser humano e são tão estúpidos que, mantidos à distância, dificilmente causarão algum problema. Mas ele está tão saturado e é tão solitário que estar rodeado de jovens entusiastas é um mal menor. A sua frieza é calculada, um mero artifício para esconder a satisfação de ser seguido, admirado até. Admiramo-lo pois claro. Como não admirar quem vive da caça de uma besta gigante, sem ninguém para o apoiar, sem saber se irá regressar? “Troll Hunter” é humor, sátira e terror num só pacote. Øvredal oferece-nos todas as emoções do terror de uma caçada inesperada, como se de um qualquer animal selvagem e perigoso se tratasse, com a dose certa de humor de casa de banho. Isto, enquanto ridiculariza os crédulos, que acreditam nas estórias que o Governo lhes conta. É o desejo de segurança, de conforto e ignorância consentida que lhe dá, ao Governo, a liberdade de fazer o que ele quiser com a sua liberdade. Podiam ser trolls, podia ser outra coisa qualquer. Em simultâneo, a narrativa não possui grandes soluções. É mais um conjunto de buracos que deixamos passar, por tão entretidos que estamos. Uma linha de alta tensão em círculo? Quem se importa com isso? E como dizia o Mike Soonian do “All Things Horror”, no outro dia, os trolls terão sido criados em imagem gerada por computador, mas fariam um Jim Henson orgulhoso. Não posso concordar mais. Já estou à espera de um found footage sobre fadas. Três estrelas e meia.


Realização: André Ovredal
Argumento: André Ovredal e Havard S. Johansen
Otto Jespersen como Hans (caçador de trolls)
Glen Erland Tosterud como Thomas
Johanna Morck como Johanna
Thomas Alf Larsen como Kalle

Próximo Filme: "Tumbok", 2011

domingo, 8 de janeiro de 2012

"Re-cycle" (Gwai Wik, 2006)

O cérebro é uma coisa fascinante. Não nos deixa esquecer as memórias que mais teimamos em abandonar e é implacável com aquelas que nos são preciosas. Ting-yin (Sinjie Lee) é uma escritora que está finalmente pronta a abandonar o passado. Um romance falhado deu-lhe material para quatro livros de grande sucesso mas enquanto a sua vida profissional floresce, a sentimental é inexistente. Ting-yin decide fazer o corte do modo mais radical: escrever um livro sobre o sobrenatural. Fiel ao seu método que melhor conhece, o de vivenciar aquilo que escreve, Ting-yin anseia por ter uma experiência sobrenatural.
O antigo amor, aquele que lhe deu inspiração para uma vida inteira de romances trágicos de sucesso ressurge disposto a comprometer-se. Entretanto, também o seu manager Lawrence (Lawrence Chow), anuncia o título do novo livro de Ting-yi sem esta ter ainda escrito uma linha. Perturbada com o regresso do que lhe provocou tanta dor e a pressão de escrever um novo livro, a tarefa é-lhe mais difícil do que nunca. Escreve, apaga, reescreve, desiste e deita fora o papel. Este ritual repete-se até que as suas linhas principiam a transpor para a realidade. Os aparelhos começam a tomar vida própria e as torneiras abrem-se sozinhas. Ting-yi sente-se assombrada. É real ou está tudo na sua cabeça? Não era afinal o que Ting-yin queria? Apostada em compreender o que se está a passar, Ting-yin entra numa dimensão paralela, onde os seus medos se tornam realidade. Dificilmente se encontrarão dois capítulos mais distintos numa película. Os primeiros quarenta minutos são típicos dos irmãos Pang, onde se podem vislumbrar truques ou variações das técnicas presentes na série de filmes “The Eye” (2002). A segunda metade do filme também é típica dos Pang com a ligeira diferença de que a dupla aposta tudo nos aspectos visuais em detrimento do desenvolvimento da narrativa. E que festim para a vista: temos um parque de diversões made in hell, um batalhão de zombies, uma gruta de fetos abortados… Sim, eles foram lá. E mais não digo para não furtar a surpresa à experiência visual. “Re-cycle” apresenta uma confluência de fontes de inspiração que não são assim tão difíceis de encontrar. Temos desde a entrada de Tyng-yi na nova realidade paralela qual “Alice no País das Maravilhas” do Lewis Carrol, passando pelo imaginário de Tarsem Singh [“The Cell”(2000) e “The Fall” (2006)] e pela obra extraordinária do Terry Gilliam até ao universo dos jogos de vídeo e computador com “Sillent Hill” (2006). A homenagem, não se sabe se intencional ou não, é inócua e está ao nível dos exemplos anteriormente citados. É onde o cinema e a arte se encontram de mãos dadas, discorrendo livre, sem interferências explícitas do estúdio. “Re-cycle” é sobre a perda e a mudança, sobre como podemos passar a vida real para o papel e lhe podemos dar um final feliz. “Re-cycle” é também a lembrança de tudo o que descartámos ou deixámos para trás: sonhos, pensamentos, desejos e acções, seguindo um caminho diferente na estrada sinuosa da vida. Mas toda esta reflexão é abandonada para dar lugar ao espectáculo visual.
Os temas são abordados superficialmente, por um ancião e uma pequenina que acabam por se tornar os guardiões de Ting-yi na dimensão. Mas parece não existir um esforço consciente para dar continuidade às temáticas. Nem Ting-yin está interessada em buscar um significado para a experiência simultaneamente fantástica e assombrosa que está a viver, nem retomadas as questões levantadas logo de início pelos novos personagens. Ting-yin sobressai como uma mulher vulnerável que só quer fugir do pesadelo onde se enfiou por desejo próprio. Explorar a sua própria psique e encontrar a resposta tão óbvia para a sua presença ali é a sua última preocupação. A recém-descoberta vulnerabilidade de Ting-yin contrasta com a personagem quase glacial a que fomos apresentados pelos Pang. Tivesse Sinjie Lee um pouco de argumento e seriamos brindados com uma representação digna do seu talento. Sinjie Lee é na verdade Angelica Lee actriz preferida dos Pang desde que contracenou em “The Eye” (2001) e comprova mais uma vez por que é a musa perfeita para as obras focadas no sobrenatural da dupla de realizadores. E o seu próximo esforço também está quase ai, “Sleepwalker” (2011), no qual é dirigida pelo marido, nada mais, nada menos, que Oxide Pang Chun. A ela junta-se também Lawrence Chow, outro habitué nos filmes dos cineastas. Um passeio no parque para os Pang. Estes irmãos não são consensuais e têm obras bastante questionáveis, mas depois de obras com a mestria de “Re-cycle” uma pessoa começa a questionar-se se os problemas de concretização estão no talento da realização ou nas pressões dos estúdios. Outro ponto controverso será a forte mensagem pró-vida do filme que certamente provocará uns risos nervosos nos defensores mais fervorosos do aborto. Visualmente perfeito e a gritar por uns óculos 3D, “Re-cycle” é uma película imperfeita que pede mais do que uma visualização até que o olhar humano consiga apurar todos os pormenores magníficos da obra desta dupla de Hong Kong. Três estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun e Danny Pang
Argumento: Cub Chin, Sam Lung, Oxide Pang Chun, Danny Pang e Thomas Pang
Sinje Lee como Ting-yin
Ekin cheng como Jeong Man
Lawrence Chow como Manager de Ting-yin
Siu Ming-Lau como Velho
Yaqi Zheng como Ting-yu
Próximo Filme: "Ju-on: The Grudge" (Ju-on, 2003)
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