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domingo, 1 de novembro de 2015

"Crimson Peak" (2015)


Crimson Peak” abre as hostilidades com a lágrima solitária da personagem principal… gerada por um computador. Aos primeiros segundos lá estava ele, o primeiro indício do artificialismo que se faria sentir ao longo de toda a duração do filme. Para quê contratar uma Mia Wasikowska que até consegue verter todas as lágrimas desejadas, quando se pode recorrer aos efeitos digitais?

Mia é Edith Cushing, a única filha do magnata empreendedor Carter Cushing, um self-made man à boa maneira americana. Ela aspira tornar-se escritora numa época em que as mulheres ainda eram vistas como pouco mais que frágeis peças de porcelana. Apresenta-se como uma desafiadora de convenções, não quer ser uma Jane Austen mas a ideia de uma Mary Shelley não lhe desagrada. Crítica, talvez com demasiado arrojo, os seus pares, pois que não parece ter noção da sorte em ter um pai indulgente naquela época. As suas paixões sofrem um abanão sob a forma do hipnótico Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) um baronete que veio com a irmã Lucille (Jessica Chastain) para a América para angariar fundos para a máquina de extracção de argila nas decrépitas paisagens da sua propriedade de família. Carter Cushing (Jim Beaver) é um homem vivido e com uma perspectiva muito pouco romântica da vida. Tudo quanto possui, foi obtido à custa de trabalho intenso e não vê como é que a “máquina mágica” de um baronete falido irá ajudá-lo a recuperar a glória perdida. Mais, ele sente um desconforto face aos dois irmãos, que uma Edith inexperiente não consegue detectar e que se acentua sobremaneira com as investidas amorosas de Thomas sobre a sua filha. Edith nunca chega a ter conhecimento desta suspeição pois que Carter sofre uma morte súbita, brutal. A despeito das objecções de todos quanto a rodeiam, incluindo o jovem médico Alan McMichael (Charlie Hunnam) que sempre a amou, Edith abandona a razão e a América pela paixão numa decrépita mansão inglesa. Porque ela é assim, prefere a excitação da incerteza a uma vida aborrecida. Para trás ficam também avisos além-mundo para ter cuidado com “Crimson Peak”.

A ideia de Guillermo del Toro, Tom Hiddelston, Jessica Chastain e Mia Wasikowska, unidos num mesmo drama de terror em tom romântico gótico é excelente na teoria. A qualquer deles não faltam credenciais para comprovar a existência de boas ideias e a abundância de talento e, no entanto, não se pode se não lamentar quão aquém destas capacidades “Crimson Peak” ficou. A expressão que melhor descreve “Crimson Peak” é déjà vu. Os cenários e o guarda-roupa emulam quase na perfeição o início do século XX e o ambiente sombrio (Gótico!) evocam obras de autores como Poe, as irmãs Bronte ou, mais tardiamente, um H.P. Lovecraft; e o argumento se não dista destas referências e das estórias de crimes chocantes à época ainda tem espaço para incluir referências desde então até ao novo milénio. “Crimson Peak” é uma amálgama de ideias, parentes pobres de obras primordiais de del Toro como um “Devil’s Backbone”, “Pan’s Labyrinth” ou “The Orphanage”. Não existe uma sensação de deslumbramento e curiosidade como nas obras anteriores. Onde se mantém coerência é nas magníficas criaturas que são horrendas e fascinantes em igual medida.
As personagens de del Toro têm em comum o facto de terem como ponto de partida situações de grande vulnerabilidade e é este sofrimento e conhecimento do mundo que as faz sobressair em tempos de desespero. Apresentando-se de início como uma representação feminista da mulher numa sociedade retrógrada, Edith redunda numa heroína frágil, que abandona a racionalidade por um amor perigoso. Del Toro atribui-lhe a característica que lhe é tão querida e tão premente nos seus filmes anteriores, que é a de contactar com criaturas que se encontram noutro plano da realidade. Mas se uma primeira interacção com o outro mundo, não surte efeito sobre as suas acções, o que pode ser atribuído à ingenuidade – e vá, também não custava nada às criaturas serem menos vagas e assustadoras –, nunca ela questiona o porquê de possuir esta capacidade nem o seu potencial. A completar o trio de actores principal, encontram-se um Tom Hiddelston que vai desaparecendo, em proporção aos ardores teatrais crescentes de uma Chastain demasiado imersa na personagem trágica que encarna. Ao fim de dez minutos (menos?), os papéis e a bagagem emocional das personagens é perceptível na totalidade. A pequena que se considera demasiado inteligente para seu próprio bem mas é afinal de uma ingenuidade perigosa, o homem experiente que topa a perfídia a quilómetros, o casal que advém um passado de desgraça e para lá arrasta todos quantos se cruzam no seu caminho... Enfim, personagens e estórias que a dada altura se cruzaram no caminho de cada um de nós, desde a telenovela mais carregada de melodrama às referências literárias já mencionadas… Dificilmente material original. Duas estrelas e meia.

Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro e Matthew Robbins
Mia Wasikowska como Edith Cushing
Jessica Chastain como Lucille Sharpe
Tom Hiddleston como Thomas Sharpe
Charlie Hunnam como Dr. Alan McMichael
Jim Beaver como Carter Cushing

Próximo Filme: "Diary", (Mon Seung, 2006)

domingo, 16 de novembro de 2014

"Happy Birthday to Me" (1981)


A blogger que mais amam completou X primaveras em Novembro (não estavam mesmo à espera que dissesse quantos aninhos fiz, pois não?) e decidiu que a melhor forma de comemorar esse grande evento seria procurar um filme retro, de preferência sobre um aniversário – que esta pessoa não tem jeito para metáforas –, e chorar para o ecrã enquanto assiste a algumas mortes originais (à época). Como tal e bem poderão inferir, a semi-ausência desta excelsa pessoa deveu-se a estar a fazer “coisas”, aka há vida além do computador e filmes para ver sobre os quais nunca irão ler uma linha escrita por mim.

De facto, de há uns tempos a esta parte, esta pessoa tem-se entretido a recuperar alguns clássicos americanos (incluindo Canadá), nomeadamente ente o final dos anos 70 e inícios dos anos 80 (“Halloweeen”, Tourist Trap”, “Black Christmas”, The Funhouse”, por aí fora). Enfim, os anos que verdadeiramente importam, no que toca ao subgénero slasher americano e redescobri duas questões: que os filmes eram tão mais divertidos na altura e as mulheres eram ainda olhadas com uma visão ingénua. Talvez uma bomba sexual, talvez uma frágil donzela mas, raramente uma assassina. Insólito para um blog que faz vida da desmontagem do mito da descabelada que sai de aparelhos eléctricos e mata as suas vítimas de susto.

“Happy Birthday to me” segue a fórmula quando esta ainda nem sequer era identificada como tal. Uma heroína frágil, um grupo mais ou menos extenso de jovens que irão sofrer uma morte horrenda e um assassino com requintes de malvadez. Para quem aprecia o género pouco mais se exige, não é? Ginny Wainwright, interpretada por Melissa Sue Anderson que tenta descolar-se da sua personagem em “Little House on the Prairie” (1974-1983) pertence à elite de jovens ricos da Academia Crawford que se auto-denominam “Top Dez”. Ela esteve uns anos afastada devido a um evento traumático no passado. Quando os amigos começam a ser assassinos por um desconhecido, as memórias dolorosas que tinham recalcado são despoletadas. Segue-se um jogo de interrogações: é Ginny a culpada ou não? Se não, quem será? Porque se não, a realização está a fazer um esforço tremendo para que todos os caminhos vão dar a Ginny…

Sendo um clássico “Happy Birthday to me” acerta em todas notas habituais excepto na da nudez. Quase um dado adquirido, nos filmes anteriores e nos que lhe seguirem em “Happy Birthday to me” o expoente máximo de marotice é quando Etienne (Michel-René Labelle) rouba umas cuecas do quarto de Ginny. O cinema americano alimentando o sonho de stalkers desde sempre. O elenco é deliciosamente terrível. Ver adultos a interpretar adolescentes hormonais com as falas mais pirosas de sempre é aquilo de que são feitos os sonhos tecnicolores dos anos 80. É isso e os penteados e roupas datados. E tentar imaginar o que terá acontecido com as carreiras daqueles actores após o filme. Tirando um Matt Craven reconhecível, a obscuridade e a idade ocupou-se de todos eles. Apesar de datado “Happy Birthday to Me” é tudo quanto se poderia esperar de um slasher. O assassino é elusivo e algumas mortes são interessantes. Ter pena de "miúdos" que pertencem a um clube de elite que personifica tudo o que está mal com a sociedade contemporânea é para fracos. De destacar uma morte que faz recordar o incidente mortal infeliz de Isadora Duncan, o pior pesadelo de um halterofilista e ainda a cena icónica que teve direito ao poster clássico do filme, “morte por uma espetada”. A ideia é bastante superior à concretização mas que é inventivo, isso, ninguém pode negar. De referir que, com um bom número de personagens para matar, o filme é sempre abrir. Para os habituados ao género “Happy Birthday to Me” não assustará mais do que as criancinhas que espreitam pela primeira vez por entre a fresta de uma porta para descobrir o que é o “terror” e porque é que os mauzões dos pais não a deixam assistir àquilo. Vale mais pelo jantar diabólico final, onde um plano maléfico é revelado, com o velho crime passional com laivos de complexo de Electra e muito mimo à mistura a constituírem o motivo, enquanto se entoa a solitária canção: “Parabéns a mim”...

O melhor:
- Mortes inventivas
- Segue fórmula slasher à risca (se gostarem disso claro)
- Faz-nos suar para tentar perceber quem é o assassino.

O pior:
- Reviravolta final
- Datado


Realização: J. Lee Thompson
Argumento: John C. W. Saxton, Peter Jobin e Timothy Bond
Melissa Sue Anderson como Virginia “Ginny” Wainwright
Glenn Ford como Dr. David Faraday
Lawrence Dane como Hal Wainwright
Sharon Acker como Estelle Wainwright
Frances Hyland como Mrs. Patterson
Tracey E. Bregmam como Ann Thomerson
Jack Blum como Alfred Morris
Matt Craven como Steve Maxwell
Lenore Zann como Maggie
David Eisner como Rudi
Lisa Langlois como Amelia
Michel-René Labelle como Etienne Vercures
Richard Rebiere como Greg Hellman
Lesleh Donaldson como Bernadette O'Hara

Próximo Filme: "Rigor Mortis" (Geung si, 2013)
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