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domingo, 8 de julho de 2018

"Annihilation" (2018)


Unsettling. Esta palavra pode ser entendida na língua portuguesa como inquietante ou perturbadora. Ainda assim, perde a força na tradução. Como se as palavras não conseguissem suportar em toda a dimensão o desconforto que se pretende apontar. Unsettling tem sido uma das palavras mais repetidas nas últimas semanas, aqui como na imprensa internacional a respeito do filme “Hereditary”(2018). É a segunda vez que a aplico num espaço de três meses a respeito de um filme, depois de “Annihilation”. Curiosamente, (ou talvez não), estão ambos no meu top 5 de filmes de 2018, sendo que descrever qualquer um deles como um filme de terror é apenas redutor.

“Annihilation” é a adaptação do primeiro capítulo da trilogia literária “Southern Reach” de Jeff Van derMeer, que acompanha uma expedição de cientistas à Área X. Onde antes se encontrava um parque natural está agora uma região isolada envolvida por espécie de campo electromagnético conhecido como “The Shimmer” ou “O Brilho”. Apesar das similitudes com um “The Simpsons Movie” (2007) ou a obra “Under the Dome” de Stephen King mas as referências não se ficam por aqui seja na temática ou no estilo. “Blade Runner” (1982) “Under the Skin” (2013) flutuam à mente. 

Têm sido enviadas sucessivas expedições científicas e militares para explorar uma zona chamada Área X mas até ali nenhuma das missões voltou a comunicar com o exterior. Lena, interpretada por uma fria Natalie Portman, é uma professora de biologia e ex-militar ainda a lidar com a dor do desaparecimento do marido Kane (Oscar Isaac) após este partir numa missão – adivinharam – à Área X. Um dia ele surge como por magia em casa de ambos. A alegria do regresso mistura-se à certeza de que Kane já não é a mesma pessoa que partiu. Determinada a compreender o que sucedeu a Kane e salvar o marido de uma maleita súbita que se abate rápida e furiosa sobre ele, Lena junta-se a uma expedição feminina de cientistas à zona misteriosa. A equipa inclui a Dra. Ventress, (Jennifer Jason Leigh) uma psicóloga pragmática com um segredo; Anya (Gina Rodriguez), Shepard (Tuva Novotny) e Josie (Tessa Thompson), especialistas em diversas áreas do conhecimento com passados sombrios e motivos muito próprios para encetarem uma viagem ao desconhecido da qual poderão não regressar. Escusado será dizer que após entrar em “The Shimmer” já não estão no Kansas. Tudo é igual e em simultâneo diferente. Para citar um cientista: “na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. E mesmo as próprias cientistas, cuja percepção do tempo também se encontra difusa sentem a permanente transformação. Imaginem o Brilho como uma grande liquidificadora onde animal, planta ou o minério se misturam e são cuspidos com uma nova forma. A esse respeito refira-se uma das criaturas com um dos designs mais originais e aterradores que surgiram em cinema ultimamente, a par de um “The Ritual”. Ambos com orçamentos muito modestos para os resultados apresentados. Durante vários dias, não se falava de outra coisa nas redes sociais, se não, naquela CENA. Naquela besta. Claro que podemos falar de aberrações mas também podemos falar de evolução. Porque no Brilho é como se estivessem num novo planeta, e numa nova atmosfera há novas regras. Não serão as cientistas, o elemento estranho? Não serão elas as aberrações? A própria banda-sonora acentua a sensação de estranheza à medida que os instrumentos de percussão dão lugar a sintetizadores. O orgânico, natural, dá lugar ao que é artificial, alvo de intervenção externa.

Alex Garland retoma em “Annihilation”, temas que já o obcecavam em “Ex Machina” (2014), como o que significa ser humano e como é que essa humanidade se manifesta. Incidentalmente, as personagens, que identificamos enquanto humanas e sabemos serem humanas, parecem desconectadas de tudo e quando demonstram sinais de humanidade não é bonito o que se vê. Lena em particular representa o Homem com todas as suas idiossincrasias. Ela é profundamente egoísta e é por isso que decide incorrer na Área X. Ela sente uma tremenda culpa e sente que se fizer aquilo, irá expiar o seu pecado e ter um final feliz. Um dos maiores pecados de “Annihilation” encontra-se nas sucessivas analepses e prolepses, com exposição desnecessária sobre os motivos de Lena e o seu apetite por auto-destruição, que nos é repetido e insinuado ínfimas vezes bem como o relato na primeira pessoa dos eventos que ocorreram na Área X a terceiros. Ainda assim, “Annihilation” incorre onde poucos foram antes e tiveram sucesso. Estranho pode ser bom. Quatro estrelas.
Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland e Jeff VanderMeer (Livro)
Natalie Portman como Lena
Benedict Wong como Lomax
Oscar Isaac como Kane
Jennifer Jason Leigh como Dra. Ventress
Gina Rodriguez como Anya Thorensen
Tuva Novotny como Cass Sheppard
Tessa Thompson como Josie Radek

Próximo Filme: "The Lies she Loved" (Uso wo Aisuru Onna, 2017)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Kung Fu Yoga" (Gong Fu yu jia, 2017)


“Botched” é um programa americano exibido em Portugal no canal E!, de entretenimento entenda-se, que dá a conhecer sem censura starlets e outros cidadãos anónimos que contactam os cirurgiões de serviço para corrigir ou esconder a porcaria que outros cirurgiões fizeram nas suas mais diversas partes do corpo. A maioria das vezes os cirurgiões do programa conseguem fazer algo para conseguir resgatar a dignidade perdida ou apenas uma aparência estética mais agradável. Digamos que “Kung Fu Yoga” é um filme chinês submetido a uma cirurgia plástica para se assemelhar a uma verdadeira colaboração com o cinema de Bollywood mas a operação cosmética não correu muito bem.

Jackie Chan é Jack um professor de arqueologia do museu chinês de soldados de terracota que se junta uma especialista indiana, a professora Asmita (Disha Patani), para encontrar o fabuloso tesouro Magadha que se deve encontrar algures no Tibete. Ao chegar lá, eles e os seus assistentes, entre outros Jones Lee - Aarif Rahman numa homenagem ao famoso Dr. Jones –, Xiaoguang (Zhang Yixing) e Noumin (Miya Muqi) são surpreendidos por Randall (Sonu Sood) um indiano rico que pretende ficar com o tesouro para si.

Dizer que a homenagem aos filmes de “Indiana Jones” é flagrante é um eufemismo. A personagem de Aarif Rahman não só se chama Jones e utiliza um chicote como é um arqueólogo intrépido. No entanto, todos os indícios de que estariam grandes aventuras por vir não passam disso mesmo. Ele é apenas mais uma das personagens que se passeiam pelo ecrã na qualidade de eye candy e sem apresentar um contributo importante para a narrativa, ela própria pouco mais que perceptível. Por outro lado, não é uma grande novidade e mais uma vez fica bem expresso no ecrã que Jackie Chan já não é o atleta de outros tempos. Ora isso não tem mal nenhum e deixem assentar por um momento a informação de que Chan nasceu em 1954. À data deste filme e com 63 anos ele consegue fazer movimentos com o corpo que jovens com metade da sua idade são incapazes. O seu carisma permanece intacto e ele continua a ser quem tem o melhor timing cómico do elenco multicultural. Com tantos jovens atléticos incluindo novas esperanças do mandopop como Yixing Zhang que tem aptidão para coreografias complexas é surpreendente que este potencial nunca chegue a ser explorado para criativas cenas de acção que possam preencher as evidentes lacunas de Chan. As cenas de acção ficam pois aquém daquilo de que Chan já fez e o vasto elenco poderia fazer. Talvez. Nunca saberemos. Mais estranho ainda é o facto de “Kung Fu Yoga” constituir uma das reuniões menos felizes de Chan com Stanley Tong, depois de “Rumble in the Bronx” (1995) ou “The Myth” (2005). Quem não soubesse diria que não estiveram para despender muita energia. “Kung Fu Yoga” também representa um retrocesso na carreira de Chan que já demonstrou ter capacidade dramática e parecia estar a encaminhar a sua carreira para escolhas mais calmas para o seu físico. Ainda que sejam sempre um regalo para a vista as cómicas e complexas sequência de acção de Jackie Chan, ele já fez muito melhor e, na verdade, quem é que quer ver Chan tornar-se embaraçoso, numa carreira antes gloriosa enquanto artista de cinema e artes marciais?

Uma das cenas mais marcantes deste filme envolve ainda Chan e um animal virtual que é representativo do pior CGI de que o cinema chinês é capaz, como também sucedeu no recente “The Mermaid” (2016) de Stephen Chow, um dos filmes com maior sucesso de bilheteira no país de sempre, e que falha de forma tão arrasadora no campo dos efeitos gerados por computador. Também a colaboração entre a Índia e a China se revela desinspirada. De facto o filme parece adoptar uma perspectiva etnocêntrica que é claramente desvantajosa no que respeita ao retrato da Índia. De facto, todas as alusões ao país surgem sobre a forma de estereótipos chineses do que é o grande país. Algumas situações são retiradas quase a papel químico dos filmes dos anos 80 e 90 como o “Indiana Jones”. Um sucedâneo de qualidade inferior made in China que não o consegue disfarçar. Duas estrelas.
Realização: Stanley Tong
Argumento: Stanley Tong
Jackie Chan como Jack
Disha Patani como Ashmita
Amyra Dastur como Kyra
Aarif Rahman como Jones
Miya Muqi como Nuomin
Sonu Sood como Randall
Paul Philip Clark como Max
Yixing Zhang como Xiaoguang

Próximo Filme: "Annabelle: creation" (2017)

domingo, 3 de agosto de 2014

Ragnarok (Gaten Ragnarok, 2013)


Há quanto tempo não assistem a um filme de aventura? Ou melhor, qual foi o último verdadeiro filme de aventura a que assistiram que não envolva robots ou heróis da Marvel e que não seja uma sequela? Foi o que me pareceu.

“Gaten Ragnarok” inicia-se com uma obsessão. Sigurd Svendsen (Pål Sverre Hagen) é um arqueólogo trintão e pai de dois filhos que vive para o trabalho. Desde a morte da mulher (a quantidade de viúvos desgraçados por esse cinema fora), que Sigurd descura a vida a pessoal e busca, de modo compulsivo, uma grande descoberta relacionada com um antigo navio viking. Na sua mente perturbada pela dor, Sigurd crê que a falecida mulher ficaria feliz por ele. Acho que criar os filhos para se tornarem jovens adultos saudáveis faria mais pela felicidade de todos os que ainda vivem mas isso sou eu que sou esquisita. Na verdade Sigurd não está a fazer grande coisa nem pelos filhos nem pela carreira, pois mais não faz senão andar em círculos. Para o director do museu (Terje Strømdahl) onde trabalha é a gota de água, depois de mais um discurso fantasioso de Sigurd perante potenciais patrocinadores que provoca o corte de uma vital bolsa de investigação. Ele experimentou dizer-lhe que seguisse outra linha de trabalho, aconselhou até que acompanhasse mais os filhos e nada. Tudo parece perdido para Sigurd quando desilude a pequena Ragnhild (Maria Annette Tanderød Berglyd) pela enésima vez e vê, perante si, a possibilidade de anos a fio sem aventura, limitado ao papel de mero guia dos visitantes do museu. Quantos não desejariam um simples trabalho de escritório pago? É o colega Allan (Nicolai Cleve Broch) quem vem abalar a realidade monótona que decerto se abateria sobre o homem ainda novo e inconformado. Uma antiga pedra, com runas milenares revela informação fulcral sobre um dos momentos mais obscuros e interessantes da mitologia nórdica, o “Ragnarok”, ou a série de ocorrências que levarão ao fim do mundo como este é conhecido na actualidade. Determinados e empurrados pela informação recém-descoberta Sigurd e Allan partem com as crianças para Finnmark, a região de beleza inóspita mais ao norte da Noruega que faz fronteira com a Rússia. Lá reúnem-se a Elisabeth (Sofia Helin) uma exploradora experiente e a Leif (Bjørn Sundquist) um guia com mau feitio, para encontrar mais artefactos arqueológicos, vestígios da era soviética e algo de que ninguém estava à espera (se não tiverem visto mais do que o 1.º trailer, claro).

Sabem aquele ditado que diz qualquer coisa como não ser o destino que conta mas a viagem que se faz para lá chegar? Não é isto. As paisagens são magníficas e atravessar terras que poucos pisaram tem algo de excitante mas é Sigurd é um completo idiota. Trouxe os filhos a reboque apenas por obrigação e pouco mais que a atenção de Elisabeth o atrai quando não está à procura de pistas para o “maior achado arqueológico nórdico de sempre”.  Está completamente cego quanto ao que tem à sua frente. Por isso, quando finalmente se apercebe do seu erro pode ser tarde demais para salvar os filhos e o novo interesse amoroso.
Esta entrada oriunda da gelada Noruega encontra na sua própria terra e na mitologia escandinava os ingredientes certos para um filme de aventura. Os planos gerais de fiordes noruegueses e montanhas virgens parecem gritar por um grupo de intrépidos exploradores e evoca personagens como Indiana Jones ou James Bond cujo encanto ia além da sua própria persona. A audiência queria saber de que estes personagens eram capazes quando eram inseridos, por vezes inadvertidamente, em ambientes que não eram o seu e se conseguiam testar-se até ao fim das suas forças. Se a “Gaten Ragnarok” falta algo presente nestas narrativas é “O” personagem. Sigurd não inspira simpatia, ainda que a sua demanda desponte a curiosidade, Allan não deixa de ser um sidekick, mas até ele tem os seus defeitos e Elisabeth que se demonstra forte e corajosa, uma mulher alfa, se quiserem, não surge no ecrã tempo suficiente para roubar o estrelato. Mas os problemas não se quedam por aí. O ângulo da mitologia ou da presença soviética tal como o julgávamos, perde-se demasiado rápido e dá lugar a efeitos gerados por computador que deixam muito a desejar. As cartadas do argumento são depois, por demais previsíveis e inofensivas, (digamos que os maus têm o que merecem) deixando até abertura para uma sequela. Mas num deserto de filmes de aventura sem o predicado da originalidade, “Gaten Ragnarok” torna-se quase um “mal” necessário. Pode não ser o filme de aventura que queremos mas o filme de aventura que precisamos. Para ver com os miúdos. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Filme para ver em família
- Factor aventura
- Produto light, refrescante e inofensivo

O pior:
- Efeitos especiais fraquinhos, fraquinhos...
- Sigurd e Allan são capazes de ser os piores arqueólogos de sempre
- Sigurd também não é exactamente o pai do ano
- Necessitava de mais uns minutos de acção.

Realização: Mikkel Brænne Sandemose
Argumento: John Kåre Raake
Pål Sverre Hagen como Sigurd Svendsen
Nicolai Cleve Broch como Allan
Bjørn Sundquist como Leif
Sofia Helin como Elisabeth
Maria Annette Tanderød Berglyd como Ragnhild
Julian Podolski como Brage
Terje Strømdahl como Director do Museu



Próximo Filme: "The Raid 2: Berandal", 2014

sábado, 17 de agosto de 2013

É um filme de monstros, duh!


Quando já todos deram a sua opinião (ainda que indesejada) sobre “Pacific Rim”, eis que o Not a Film Critic, surge atrasado e fora de contexto na luta pela 34959434879 crítica. Na verdade, o que motivou este arranque tardio, bem depois do tiro de partida foi o aparecimento obsessivo de algumas vozes condescentes: “o filme é mau e nós vamos explicar-vos porquê”. Que interessa que o público até pudesse gostar do filme? Mas é a velha história, o papel do crítico é: “traçar a luz sobre”, “indicar”, “encaminhar”, sem se entusiasmar demasiado com isso. Porém há alturas em que os iluminados, inspirados pela raiva do sucesso ou pelo facto de o seu objecto de ódio de estimação, constituir antes um grande amor, se esquecem de tecer grande luz ele. A conformidade e racionalidade sobrepõe-se à necessidade de informar aqueles que procuram as suas palavras para conduzir (nunca substituir), as suas opções de visionamento. Segue-se pois um período de decomposição à unidade mais mínima, mais miserável, para comprovar, a ele e aos outros por que é que “Pacific Rim” é mau. É o criticocêntrismo, misto de enfoque excessivo na crítica com o cepticismo advindo de já ter visto muitas, demasiadas obras. Curiosamente, num site com nome jocoso de que poucos parecem dar-se conta e tido como respeitável, o “Rotten Tomatoes”, apresenta uma taxa de aprovação de 71%. O horror. O crítico especialista Bob Grimm do conhecidíssimo “Reno News and reviews” diz tudo: “It’s stupid but I liked it”. Façamos um momento de silêncio para apreciar a imensidão destas palavras. Aqui, seguindo as tendências da moda, laivo infeliz de criatividade, vamos realizar o mesmo processo mas de uma perspectiva inversa. O Not a Film Critic vai provar que o “Pacific Rim” é um bom filme e que possui um grau de profundidade aceitável para que não o considerem acéfalo e sim digno do pagamento de um bilhete de cinema. Se não gostam de “Pacific Rim” porque é básico, então vamos procurar argumentos para provar que o filme é profundo e por conseguinte gostarem dele. Segue-se pois um conjunto de palavras previamente estudadas para conferir uma pseudo-intelectualidade ao conteúdo, que o torne pois, credível.

Sinopse: Do misterioso oceano Pacífico começa a emergir um conjunto de monstros que invadem em vagas sucessivas as áreas costeiras, deixando atrás de si um rasto de destruição. Depois de toda a artilharia conhecida falhar, a humanidade junta-se para iniciar o programa Jaeger, que visa criar robots à escala dos atacantes que sejam capazes de os neutralizar. À beira da derrota final o Marechal Petecoast (Idris Elba), convoca os últimos robots operacionais para um ataque derradeiro.

A defesa da criatura revelou-se mais difícil que o esperado pois, a cada novo dado, surgiam mais duvidas. Imaginem então, num cenário hipotético (o do filme vá), que as nações costeiras começam a ser atacadas por monstros que saem de uma brecha no Pacífico. Como lá chegaram não se sabe. Como nunca tinha ainda sido detectada ainda menos, mas façamos o esforço de acreditar. Por muito interessante que seja a corporização de um holocausto nuclear num monstro por uma nação traumatizada, à la “Godzilla”, a verdade é que para muitos este filme é ainda apenas sobre um monstro que invade uma cidade e destrói tudo o que lhe aparece à frente. Do mesmo modo “Pacific Rim” identifica um inimigo distante, o alienígena, porque as possibilidades são infinitamente mais interessantes. Além de que não existe o perigo (óbvio?) de o transformar numa metáfora qualquer que ofenda alguma nação do planeta.
Divago. Os monstros crescem em número e poder destrutivo. O poder bélico do Homem não está à altura destes seres. Claro, tantos anos a desenvolver armas químicas e nucleares contra atacantes invisíveis, como poderiam ter algo à altura de um monstro gigante? A ideia brilhante surge na forma de um robot gigante, uma “big, mean, fighting machine”, que consegue distrair, afastar das costas e aniquilar (na melhor das hipóteses), os monstros. O robot é operado por uma dupla que luta corpo-a-corpo com a besta, com a assistência de um centro de apoio distante que lhes fornece instruções de localização e atividade do alvo. Isto levanta logo à partida, uma série de questões. Porque é que o combate não é conduzido à distância? A tecnologia para o efeito já existe. Não me vão dizer que não é possível enviar instruções para a máquina realizar a parte mais simples que é seguir indicações de combate. Mais porque terá o Homem de estar envolvido no processo? Será algum complexo de Super-herói? Recorda-me aquela cena marcante do “Independence Day” (1996), em que os pilotos de aviões vários se sacrificam pela grande causa de combater os alienígenas e mandá-los para seja lá onde for que vieram. Já na altura o envio de aviões sem tripulação era uma impossibilidade… É assim tão insensato deixar a perícia do combate para uma entidade programada para tal? Alguns poderão argumentar que a máquina só iria “agir” dentro do que lhe foi “ensinado”, escapando-lhe a capacidade de improviso. Mesmo que esta se revele estritamente necessária por que não deixar o ónus para uma inteligência artificial? Medo que a máquina se rebelasse contra o criador? Hello?! A humanidade está a ser atacada por monstros gigantes e está a perder. A situação não pode ficar pior do que já está. Mas sim, admitamos que se o Homem tem grande capacidade de improviso, também é verdade que ele tem o talento de tomar decisões irreflectidas nos piores momentos possíveis, com consequências terríveis. O erro humano, esse, é um dado adquirido. Significa morte, a perda do combate, perdas de vidas, danos de milhares, já para não falar da perda irrevogável do robot.

A ligação à máquina é um dos aspectos mais interessantes e polémicos do processo. Por muito que del Toro negue a influência (ele deve julgar que os Geeks são el totós), o anime “Neon Genesis Evangelion” (1995) é estranhamente familiar. Os pilotos estão conectados à máquina mediante um sistema neural que lhes permite, entre outras coisas, aceder às mentes uns dos outros, ver as suas memórias. Eles atingem um nível de sintonia tal, que agem como um só. Isto esclarece, creio eu, leiga nestas coisas de funcionamento do cérebro (e, infelizmente, não tenho aqui um António Damásio ao lado para me explicar), porque é que um dos pilotos comanda as operações. Duas mentes não podem desatar a mandar informações díspares ao mesmo tempo, uma terá forçosamente de liderar. Portanto temos que o Herc Hansen lidera a equipa de pai e filho do robot Stryker Eureka, Yancy Becket a equipa de irmãos do "Gipsy Danger" e assim sucessivamente, numa espécie de mente dominante/mente dominada que, em qualquer dos casos, não abona nada a favor das mentes passivas. Há toda uma série de questões em torno do habitáculo para sobrevivência em ambientes hostis: espaço e oceano. Os robots adaptam-se às duas situações com uma facilidade surpreendente. Não se admirem se no futuro se encontrar um “Pacific Rim 2: Space Invaders” (não me julguem).

domingo, 29 de julho de 2012

"Old Road Mistery" (Misteri Jalan Lama, 2011)


Já alguma vez tiveram a sensação de que o universo se uniu para vos pregar uma grande partida? Ou que estão perante uma anedota que mais ninguém parece entender? “Old Road Mistery” é o exemplo perfeito. Estarei cega? Estarei demasiado exigente? Terei perdido o sentido de humor? Gosto de me considerar tolerante mas há alturas em que e difícil separar o “crítico”, seja lá o que isso for, do fã de cinema e,“Diabos me Levem”, se consigo evitar uma certa subjectividade sobre um filme que é uma tão fraca amostra de cinema.

Indra (Hans Isaac) e Ilya (Qué Haidar) são dois irmãos muito diferentes. Enquanto Indra é o típico bad boy, piloto de corridas ilegais e jogador compulsivo que não se pode apanhar com dinheiro no bolso, Ilya, o irmão mais novo, é o filho pródigo destinado a grandes feitos se ao menos seguir as normas e os valores incutidos. A morte inesperada do seu pai Isakandar (Ahmad Tarmimi Serigar) leva-os numa viagem por uma estrada velha até à aldeia natal, cujo percurso irá testar os laços que unem os dois irmãos e os conduzirá a um destino além da sua imaginação.

O argumento de “Old Road Mistery” também tem um percurso misterioso alternando com uma perigosa falta de à-vontade entre os géneros: terror, melodrama, aventura e, por fim, fantástico. O mistério da estrada velha tenta ser tudo, acabando por redundar em nada. Com um orçamento extremamente limitado, o realizador e argumentista Afdlin Shauki aposta na megalomania, da qual resultam péssimos valores de produção como atestam o péssimo casting para o elenco, um argumento atroz, com falas proferidas com convicção nula ou, em alternativa, exagerada, imagem com grão, cinematografia desenquadrada e desinteressada da película, cenários, adereços e guarda-roupa miseráveis. O grau de tolerância desce consideravelmente quando são tantos os aspectos negativos que se torna quase impossível vislumbrar algum pormenor com qualidade em “Old Road Mistery”.

A dupla principal impressiona pela completa ausência de química, mais semelhante à dinâmica entre cães e gatos, é tão-somente incompatível. O que poderia salvar, em parte, o facto dos dois irmãos não aparentarem partilhar um único gene, seriam personagens, cada uma a seu modo, simpática. Mas a audiência não seria brindada com tal sorte, já que Indra é um marido e pai ausente que vive de expedientes egoísta e oblívio a tudo o que não lhe proporcione lucro rápido e fácil. E Ilya consegue ser ainda pior visto que representa o menino do papá mimado e medroso que, para quem possui uma inteligência superior tem atitudes de um asno quanto aos factos da vida. Ele é protagonista das duas cenas que provocam mais risos involuntários. Numa, qual jovem virginal, ele, não a rapariga, é praticamente forçado pela beldade a deitar-se com ela. Repito: uma beldade obriga um jovem a deitar-se com ela. Pelas mais variadas caretas do moço diria que ele tem ali algumas questões por resultar no que respeita à sua sexualidade… Na segunda cena, Ilya corre lacrimoso e, reminiscente de uma donzela, através da floresta, na altura em que mais se necessita dele. É caso para pensar que ter a vida nas mãos dele é o mesmo que ter uma sentença de morte a pairar sobre a cabeça. Outra actuação particularmente má e, isto parte-me o coração, sabendo como foi adorável em “Senjakala”, vem da infeliz Liyana Jasmay, num papel secundaríssimo, o de Awek, namorada de um gangster. A inserção desta personagem terá tido que ver com a notoriedade da actriz já que ela também é uma modelo e apresentadora muito popular na Malásia. Este papel, uma tentativa de inserir comicidade no filme trágico por Shauki que, além de realizador e argumentista também é um comediante e, esperamos que seja melhor neste último ofício do que é no mundo do cinema, coloca Liyana na pele de uma mulher fatal. A julgar pelas poses, tiques e outros trejeitos da actriz o conceito de femme fatale, para aqueles lados é muito diferente do ocidental. Cenas penosas de assistir quando se sabe que por trás daquela caricatura está uma jovem que até sabe qualquer coisa sobre representação. O único esboço de sorriso derivado da sua aparição em ecrã deve-se à insinuação de que ela tem seios de plástico. E, convenhamos que a questão do aumento dos seios já foi ultrapassada. Quem é que ainda faz piadas com mamas falsas? Aparentemente Shauki e a co-argumentista e esposa, Christina Orow. Mas o que mais me fascina, de um modo não positivo, acreditem, são as odes ao filme como esta ou esta. Pode uma pessoa estar tão equivocada assim?
Shauki é daqueles realizadores que levam sempre uma cana de pesca atrás, a ver o que apanham. Infelizmente para a sétima arte, o argumento não tem rumo, anda à deriva. “Old Road Mistery” exige o grau de reflexão de um zombie. Mas se quiserem arriscar, força. Depois não digam que foi por falta de aviso…

Realização: Afdlin Shauki
Argumento: Afdlin Shauki e Christina Orow
Que Haidar como Ilya
Hans Isaac como Indra
Ahmad Tarmimi Serigar como Iskandar
Vanida Imran como Rainha Devata
Namran como Botak
Lyiana Jasmay como Awek Botak

Próximo Filme: "Ong  Bak - The Thai Warrior", (Ong bak, 2003)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"Hunger Games" (2012)


Diz que depois do fim há sempre alguma coisa. No caso, serão uns jogos da fome. Enquadrado num cenário pós-apocalíptico, 24 participantes de doze distritos competem entre si, num jogo mortal televisionado para gáudio da população do Capitólio. A expressão “pós-apocalíptico” sempre foi, para mim, um mistério dado que apocalipse significa o fim dos tempos. Visto que a maioria do pessoal não recebeu o comunicado com essa informação, bota apocalipse para frente tipo: em tudo o que são filmes do género de ficção científica. Assumindo, a correcção da palavra apocalipse ao tema em causa fica pois, definitivamente comprovado que os humanos são piores que as baratas. Não há modo de as erradicar. E se lhes arrancarmos a cabeça, ainda sobrevivem durante nove dias.
Ora então nesse tal futuro não tão utópico como querem fazer crer os simbolismos mal dissimulados de “The Hunger Games”, treze distritos revoltaram-se contra o Capitólio. A revolta foi esmagada e só restaram doze distritos, condenados até ao fim dos tempos, passe a expressão, a entregar dois “tributos” cada ao Capitólio, para um programa de televisão onde jovens entre os 12 e os 18 anos combatem até à morte até restar um único sobrevivente. Num ritual anual chamado a ceifa, são escolhidos um homem e uma mulher que serão os representantes do seu distrito nos jogos da fome. A pergunta que vos tem assolado até aqui: porquê jogos da fome? Porque os distritos são pobres. Há pessoas a morrer de fome fora da capital. Cada distrito subjugado ao poder do vencedor da guerra ocorrida 75 anos antes constitui a sua fonte de riqueza. Por exemplo, do distrito 12, onde reside uma certa Katniss (Jennifer Lawrence), o Capitólio retira minérios. Assim se vê, um retrato do mundo evoluído versus o subdesenvolvido, no qual os ricos extraem com todo o direito ou, como tal pensam, a matéria-prima dos pobres. Enquanto a memória de uma revolta estiver suficientemente presente na memória de um Capitólio, este usá-la-á para entreter as massas. Enquanto os pobres se sentirem fracos, com fome e demasiado trabalho nos corpos esquelécticos, eles serão “justamente” punidos pela sua ofensa anterior. É neste contexto que a jovem Katniss se voluntaria para os jogos da fome após o sorteio ter calhado em sorte à sua irmã de apenas 12 anos, Primrose (Willow Shields). Desde logo vemos uma rapariga vencedora. Ela não se resigna perante as adversidades. Ela é uma lutadora. E sabemos isso, desde o primeiro momento em que a vimos no ecrã. Acompanhamos a sua ida para a capital, onde é coberta de luxos que nunca mais voltará a usufruir e treinada para sobreviver e matar. Por fim, assistimos à sua ida com Peeta (Josh Hutcherson), o rapaz selecionado com ela, para o terreno dos jogos.
Até aqui refreei uma vontade louca de falar de “Battle Royale” (2001), filme do qual “The Hunger Games” foi mais do que levemente inspirado. Isso constitui um problema? Não. “The Hunger Games” é menos polémico e o seu público-alvo diferente. Ambos sobrevivem por si próprios. Considerando os defeitos de “The Hunger Games”, nem por isso deixa de ser um filme acima da média. Mas falava-se em defeitos. Jennifer Lawrence é uma das mais recentes estrelinhas destinadas a brilhar com luz intensa. Ela é um talento, no entanto, a sua presença em “The Hunger Games” ainda carece de alguns apontamentos. Jennifer, cara redondinha como é, não se adequa à imagem de uma rapariga atacada pela fome. Não advogo as imensas flutuações de peso dos actores. Contudo, menos uns dois quilos já tornariam Jennifer mais imersa na personagem. Depois, Jennifer é muito forte sendo que passa por arrogante no ecrã. Embora se compreenda a revolta de Katniss com todo o espectáculo que envolve a morte de crianças e adolescentes e pessoal de roupas e penteados estranhos que aplaudem a selvajaria, a sua aura é de pouca vulnerabilidade, qual animal encadeado pelos faróis de um carro. Afinal de contas, só pode sobreviver um entre 24 escolhidos. Quais são as probabilidades de ser ela a regressar para casa? Quais, quando até há distritos que treinam os seus jovens desde pequenos para sobreviver aos jogos? Mais, sobreviver para quê? Para regressar ao mundo da fome, depois de ter conhecido os luxos do Capitólio. Para uma família que simultaneamente a aguarda e a inveja por tudo quanto conheceu, num sítio que nunca irão visitar? A parte dos jogos é infelizmente demasiado breve. Mal se chegam a conhecer os oponentes. E a simpatizar com eles. A estória de Rue, uma rapariguinha pequena que combate nos jogos ao lado de Katniss é por demais breve. Queria tê-la conhecido como fora apresentada no livro. E os vilões? Por piores que sejam, têm no máximo 18 anos e sofreram lavagem cerebral. São estes apontamentos que sabem a pouco. A transposição para a tela foi óptima dadas as circunstâncias mas uma pessoa não pode deixar de se perguntar, dado exemplos como o de Harry Potter, se não valeria a pena partir o livro em dois e espremer tudo para uma maior satisfação. Três estrelas.

Realização: Gary Ross
Argumento: Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray
Jennifer Lawrence como Katniss Everdeen
Willow Shields como Primrose Everdeen
Josh Hutcherson como Peeta Mellarke
Wes Bentley como Seneca
Stanley Tucci como Caeser Flickerman
Donald Sutherland como Presidente Snow
Woody Harrelson como Haymitch
Liam Hemsworth como Gale Hawthorne
Elisabeth Banks como Effie Trinkett

Próximo Filme: "Death Note” (Desu Nôto 2006)

domingo, 1 de janeiro de 2012

"13 Assassins" (Jûsan-nin no shikaku, 2010)

13 assassinos, um destino. Estamos nos anos 40 do século XIX, perto do final da era Tokugawa. Há muito que passou o auge do samurai. Desde o século XVII que não existe um verdadeiro motivo para lutar. Os samurais que persistem vão-se tornando cortesões, administradores, peças decorativas. O poder do bushidô (código de honra) desvanece-se. Mas ainda subsistem alguns homens que acreditam na luta por um ideal e buscam uma morte digna, no calor do combate. Possuidor de um sadismo sem limites, o Lord Naritsugu (Gorô Inagaki) mata e viola a seu belo prazer. Como filho do anterior Shogun e irmão do Shogun actual é intocável. E em breve ascenderá a um cargo de maior poder. Quando um samurai comete o seppuku (suicídio com a própria espada) em protesto contra as ofensas graves do Lord Naritsugu, um conselheiro governamental decide fazer o impensável e conspira para o mandar matar. O primeiro a ser recrutado é Shinzaemon Shimada (Kôji Yakusho), um samurai venerável e experiente, que protegido apenas pela promessa de silêncio começa a arrolar mais homens para executar a missão. É reunido um total de 13 homens, que incluem o próprio sobrinho de Shinzaemon, Shinroukuro (Takayuki Yamada) e o montanhês Koyata (Yûsuke Iseya) com a força de mil homens. O que se segue é uma batalha épica, na qual os números são claramente desequilibrados: 13 homens contra duas centenas de homens armados!
Diz que “13 Assassinos” é baseado num acontecimento verídico mas não encontrei provas que sustentem essa tese. Não que isso importe na verdade. “13 Assassinos” é uma obra conduzida pelo enfant terrible do cinema japonês, o mestre do choque que é Takashi Miike. Quem conhece a marca deste senhor irá encontrá-lo um pouco contido. O quê? Um banho de sangue, numa luta suicida de 13 contra 200 é estar a ser contido? Ah pois. Miike é demasiado cool, para fazer o que quer que seja que esperamos dele. Aliás, ele é tão cool que é capaz de lançar o filme da vida dele só para calar os críticos que o acusam de mais não fazer do que recorrer ao choque para cativar audiências. Embora, a espaços, Miike nos ofereça um docinho. Quando chegarem à cena da pobre camponesa perceberão a que me refiro… “13 Assassinos” é o remake de uma obra de 1963, “Jusan-nin no Shikaku”, de Eiichi Kudo que encontra raízes em “Seven Samurais” (1954) do grande Kurosawa. Vou aqui arriscar a minha carreira (cof cof) e afirmar que a nova versão é tão boa ou melhor que a original, por que a obra de Miike é assim tão boa. Se não, vejamos: o prólogo é o típico Miike a explorar o sadismo do sociopata Narigutsu. Somos guiados num tour pela psique perversa do senhor feudal que inclui morte, tortura e violação. Não é estabelecido que o Lord é mau, é estabelecido que ele é o ser mais horrível à face da terra e que nela alguma vez habitou. É de estranhar se a vida animal não mirrar à sua passagem, de tão pérfido que é. O mais assustador é que a personagem de Narigutsu pode encontrar eco em qualquer casa real europeia. A dada altura da história, vingou a teoria de que todos se deviam submeter ao poder de um e aos mais altos cargos ascendiam loucos com um poder louco, que provocavam destruição e morte sobre o próprio povo, ao sabor das suas vontades insanas. Esta filosofia aplicada séculos a fio teve consequências nefastas que ainda hoje permanecem. A morte de Narigutsu é mais do que um capricho. É um imperativo. Tem um significado mais vasto que se prende com o bem comum mesmo que este seja, por motivos enraizados na própria fundação da sociedade feudal, inferior ao desígnio do Shogun. O segundo acto é mais calmo, centrando-se no recrutamento dos assassinos e na preparação para o grande assalto à comitiva de Narigutsu. É-nos dado a conhecer o grupo de samurais e os principais personagens são convenientemente explorados: Shinzaemon, o homem que anseia por uma última missão que demonstre os valores de um verdadeiro samurai; Shinroukuro, o jovem sobrinho de Shimada que leva uma vida fútil e aguarda pela oportunidade de provar afinal o seu valor; o jovem samurai que segue cegamente o seu mestre para a batalha sem alguma vez ter derramado uma gota de sangue; o homem que reconhece as suas limitações na arte do combate mas está disposto a tudo para executar a nobre causa a que se propõem… Num filme sério, ainda existem momentos hilariantes para a audiência relaxar, sobretudo no papel de Koyata. Aproveitem, por que depois o ritmo é sempre a abrir. O destino deste personagem (spoiler!) pode confundir alguns dos espectadores que podem até sentir-se defraudados. Contudo, se explorarem a mitologia japonesa, conseguirão entender como os argumentistas deixaram implícita a hipótese de Koyata ser um espírito da montanha. It's a culture thing!
A narrativa é simples mas eficiente, enriquecida com o desenvolvimento dos personagens principais, depois enquadrada num cenário belíssimo, que nos transporta para uma outra era. Seguem-se 45 minutos de acção pura, uma das melhores batalhas ensaiadas em películas, sem efeitos especiais. E parecem 45 minutos, por que quando chegamos ao clímax compreendemos e de que maneira, o cansaço dos personagens. Não há facilitismos e o filme ganha grandemente com isso. É, sem sombra de dúvida, a direcção mais competente e relaxada de Miike. No final, fisicamente cansada, fiz as contas: vale a vida de 13 homens a vida de um só homem? Vale a vida de 200 homens, a vida de um só homem? Depois de tudo dito e feito, Narigutsu, ainda zomba da carcaça daqueles que mais ferozmente o protegeram. Restam dúvidas? Quatro estrelas.

Realização: Takashi Miike
Argumento: Kaneo Ikegami e Daisuke Tengan
Kôji Yakusho como Shinzaemon Shimada
Takayuki Yamada como Shinrouko
Yûsuke Iseya como Koyata
Gorô Inagaki como Lorde Naritsugu
Masashika Ichimura como Hanbei
Mikijiru Ira como Doi
Hiroki Matsukata como Kuranaga
Ikki Sawamura como Mitsuhashi
Arata Furuta como Sahara
Tsuyoshi Ihara como Hirayama
Masakata Kubota como Ogura
Sôsuke Takaoka como Hioke
Seiji Rokaku como Otake
Yûma Ishigaki como Higuchi
Koên Kondô como Horii

Próximo Filme: "The Shock Labyrinth 3D" (Senritsu meikyû 3D, 2009)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Harry Potter and the Deathly Hallows part II" (2011)

Sabem aqueles filmes que dão origem a uma série monumental em que seguimos todos os episódios religiosamente? E que depois, filme após filme, vamos ficando mais ou menos saciados, sempre ansiosos por chegar ao fim épico e compensador como só um último filme pode ser? Pois, "Harry Potter and the Deathly Hallows part II" não pertence a essa equipa.
Antes que me linchem virtualmente, deixem-me só esclarecer que não desgostei do filme. Embora, para dizer a verdade, tenha gostado mais do livro. Sim, eu li os livros e vi os filmes por essa mesma ordem. Não sou uma Potteriana ou lá o que chamam aos seguidores mais fervorosos da série. Ainda assim, sou fã dos livros e dos filmes, também por essa ordem e estou aqui, em jeito de mea culpa a admitir que o oitavo filme não só não esteve ao nível das minhas expectativas como ficou aquém. Lamento, imenso. Todos estes anos, rios de dinheiro, realizadores e escritores, Michael Gambons, Daniel Radcliffs, Maggie Smiths e companhia, não chegam para tornar a última obra uma peça de arte. Também escrevo estas linhas sabendo que este blogue não chega a ser sequer uma gota no oceano de reviews, notícias e afins sobre o franchise HP.

Assim, sabendo do impacto "nulo" que esta crítica terá não me sinto constrangida em escrever e repetir que a saga merecia melhor. Sem spoilers, que eu não sou fã que me estraguem o visionamento em DVD ou no cinema, acho que todo o episódio foi uma grande corrida, forçada mas sem ser cansativa. Isto, por que no final fica a vontade de mais. As personagens desfilam pelo écrã dizendo banalidades, palavras de circunstância e vão assim desaparecendo. Os momentos de comic relief, foram pouco e mal distribuídos e de relief  tiveram muito pouco. Cenas fulcrais no livro (quem os leu saberá bem do que está a falar) são tratadas a correr, sem a importância vital que dá o espiríto ao livro e de que o filme bem precisava. As grandes batalhas, sabem a pouco. O desfecho de certos personagens é muito mal tratado. Quer alguns vilões como membros do exército de Dumbledore, não são tratados com o respeito que a J.K. Rowling lhes devotou. É como se não importassem. Para quem os detestou ou amou fervorosamente importa. Segundos, num filme de 130 minutos não são nada. Custava muito terem alargado a duração do filme?  Também a banda sonora se afasta do brilhantismo de John Williams. Alexandre Desplat, afasta-se essencialmente do core de toda a saga, isso não se faz. A herança é pesada mas não se muda de identidade no final do jogo! Já a utilização do 3D é apenas mais uma tentativa vergonhosa de nos sacar dinheiro. Não há nada no filme que justifique a sua utilização.
Mas também existem coisas boas. A saga Harry Potter sempre foi visualmente agradável, mesmo nos momentos mais dark. O elenco é de estrelas. O tempo que lhes é concedido não lhes permite brilhar mas o pouco que fazem, fazem-no como só elas. Vejam-se a Helena Bonham-Carter (Bellatrix Lestrange) ou o Alan Rickman (Severus Snape). E responde a todas as questões. Aquelas que desde o início atormentavam a audiência: afinal qual é o grande plano de Dumbledore para Harry Potter? Porque é que Snape sempre maltratou o Harry Potter? Será que a Hermione e o Ron alguma vez admitirão que estão apaixonados? Tudo isso é uma gigantesca cereja no topo de bolo. Acaba bem? Sim. Mas se podia acabar bem melhor? Sem sombra de dúvida. Duas estrelas e meia.

Realização: David Yates
Argumento: Steve Kloves e J.K. Rowling (livro)
Elenco:
Daniel Radcliffe como Harry Potter
Emma Watson como Hermione Granger
Rupert Grint como Ronald Weasley
Ralph Fiennes como Lord Voldemort
Michael Gambon como Albus Dumbledore
Alan Rickman como Severus Snape
Helena Bonham-Carter como Bellatrix Lestrange

Próximo Filme: "Three...Extremes - Box" (Saam gaang Yi, 2004)
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