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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte cinco

Aqui ficam o quinto e o último dia de festival pois são apenas três filmes. Aproveito para confirmar as minha expectativas iniciais: a Edição de 2021 revelou-se uma das melhores dos últimos anos. Venha daí 2022!

Nota: Estava bastante curiosa acerca de "The Night House" dado advir da lente de David Bruckner ("Southbound", "The Ritual"). Não me foi possível participar na sessão. Por isso, quedo-me por um "Mad God" que, UAU! Mas comecemos do princípio.

Dia V

Gaia

Salvem a mãe terra!

Como já tinha dito aqui, é estranho assistir a "Gaia" com um dia de diferença de "In the Earth". Os
filmes têm demasiadas similitudes. Os eventos decorrem em exclusivo na floresta. Esta parece ganhar vida à própria à medida que o elenco desbrava caminho pela natureza. Os protagonistas sofrem incidentes semelhantes na sua incursão natural pela natureza. Existe uma mensagem ecológica muito forte em alguns personagens. A ideia da natureza como um organismo com uma mente consciente. Ambos os cineastas revelam um fascínio por visões caleidoscópicos e processos químicos e biológicos. Quem ganha a aposta? Uma dica: não é o realizador mais conhecido.

Gabi e Winston são dois guardas florestais que se separam na floresta quando o seu drone cai na floresta. Ferida por meio de uma armadilha, quando ia recuperar o aparelho, Gabi acaba por ser acolhida por Barend e Stefan, uma dupla de homens que vivem em estado quase natural, desligados da vida moderna e dos seus companheiros de espécie. Winston, encontra a pior parte da floresta.

A experiência de "Gaia" acaba por ser muito mais terrena que "In the Earth", abordando temas como o luto, a desconexão entre pessoas, o consumismo desenfreado, o mito do bom selvagem o egoísmo humano ou o livre arbítrio. A vida em sociedade é complicada? Dá vontade de fugir? É possível. "Gaia" é uma trip no bom sentido. As sequências de beleza fúngica (acreditem que nunca pensei referir beleza e cogumelos na mesma frase) a surgir pelos orifícios mais estranhos e a multiplicar-se são estarrecedoras. Queria mais disto mas sem as inúmeras cenas em que a protagonista acorda de um sonho. Uma vez, duas vezes, ok. À terceira já começamos a revirar os olhos. "Gaia" exibe uma criatura mas é tão paralela ao que de mais há para apreciar que chamar-lhe um filme de monstros será só redutor. O body horror está mais próximo de um "Anihilation" na imagética e na interpretação do seu significado que um "Saw". Semelhante a outros filmes ou não "Gaia" apresenta uma visão suficientemente singular. Se vos oferecerem destes cogumelos aceitem.

The Deep House

O prazer reside no conceito.

Eu nem quero imaginar como foi o pitch deste filme. "Tipo: é uma casa assombrada... debaixo de
água". Só consigo imaginar os produtores de pé a bater palmas e a perguntar quando começam as filmagens. É que nem precisaram de uma sinopse para me convencer a assistir ao filme. As casas assombradas são, regra geral um conceito cansado. Portas que rangem, barulhos que vêm do escuro... É uma fórmula e como todas as fórmulas, passado algum tempo, cansa. Do que este subgénero necessita é de inovação. Que ninguém me venha dizer que uma casa assombrada debaixo de água não é inovador porque mostra ignorância quanto ao género de terror e quanto ao conceito de inovação. Juntar a tensão própria do sobrenatural ao terror claustrofóbico da submersão é um golpe de génio e mais, pode ser o mote para um novo subgénero de sucesso.

Um casal passeia pelo sul de França filmando-se a entrar em casas assombradas para ganhar  dinheiro com as visualizações no seu canal de youtube. Ele é um viciado na adrenalina. Ela, mais medrosa acompanha o namorado nas aventuras por amor. É por demais claro em diversas oportunidades para voltar para trás que ela preferia ter umas férias como gente normal. Quando o casal mergulha na casa dos Montagnac revelam-se segredos para os quais nunca podiam estar preparados.

"The Deep House" tem certamente alguns problemas. Custa-me entender como é que o casal, mesmo aceitando a indicação de um estranho com ar muito suspeito, não sendo perito em mergulho, aceita avançar por águas desconhecidas sem qualquer mapa submarino ou ter um plano B de socorro caso a experiência corra mal. E é certo que corre MUITO MAL. Desde os instantes iniciais a protagonista demonstra uma fragilidade que a irá acompanhar e à audiência como um lembrete de tudo quanto pode correr mal debaixo de água e não são necessariamente fantasmas. Estes são aterradores mais que não seja pelo visão pouco natural através da água turva. Mas o maior susto e que faria a audiência da sala Manoel de Oliveira saltar das cadeiras foi provocado por um peixe. Ainda assim, as minhas palmas para a cena reminiscente do "Jaws" e que resultou. Já o acompanhamento do casal enquanto atravessam as divisões da casa são o arder em lume brando com a excitação acrescida do perigo real de falta de ar. Altamente recomendado para fãs de terror em busca de emoções novas.

"Mad God"

Do repugnante se fez um mundo.

Afirmo sem pudor ou hesitação que "Mad God"  é a obra mais interessante, mais criativa e visualmente impressionante da edição do MOTELx de 2021. Nada me podia preparar para esta obra de Phil Tippett.
Nada. Pensar que "Mad God" é um trabalho de avanços e recuos. Que demorou 30 anos a ser completado e precisou de apoio através de crowdfunding. Tantos anos depois demonstrou ter amplos truques na manga. É surpreendente. Mas também aviso, se os filmes de extrema brutalidade não são a vossa preferência não é "Mad God" que vos vai fazer mudar de ideias. Quando muito só vai repelir e aumentar o vosso asco ao estilo. Eu estive naquela sala cheia (dentro das normas possíveis em tempos de pandemia) e assisti a algumas desistências.

"Mad God" não choca pelo prazer de chocar, como tenta fazer um Tom Six ou "A Serbian Film". É sobre o inferno na terra após a entidade superior considerar a humanidade além salvamento. O Homem causou o inferno na terra que provocou a sua extinção. O que sobra é não natural, primário, feio, nojento, brutal e Phil Tippett não se coíbe de nos mostrar tudo isso em toda a sua fealdade, em stop motion. Ao invés de fugir o foco é tudo o que é horrendo como se estivessemos a ver o quadro "Jardim das delícias terrenas" do Hieronymus Bosch com uma lupa. Da destruição surge a criação, como Tippett não de cansa de mostrar sobre a forma de metáfora. Detesto a expressão "cinema de autor". Todas as obras têm uma autoria. No entanto, se quiserem saber o que é uma visão singular, vejam "Mad God". Sugestão? Vão de estômago vazio.

domingo, 12 de setembro de 2021

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte quatro

O quarto dia de festival, foi aquele em que a mensagem foi o meio e foi o fim. Também se revelou um dia inferior às expectativas.

Dia IV

Amusement Park

A mensagem de Romero

Esqueçam tudo o resto que pensam que sabem sobre George Romero e foquem-se apenas no seguinte: era um realizador altamente consciente da sociedade em que estava inserido. O racismo, o consumismo desenfreado, humanos como meros veículos de pulsões primitivas... nada lhe escapava. Será para sempre conhecido pelos filmes de zombies. Pensar neles como horror gratuito é no mínimo redutor. Por isso, quando este documentário perdido, foi encontrado e restaurado pela Fundação George Romero, instituída depois da sua morte, não assistir não era uma opção. Tudo à volta de "Amusement Park" é intrigante. Foi criado para uma campanha de sensibilização de uma Sociedade de Serviços Luterana do oeste da Pensylvannia com vista a dar visibilidade para o abandono e tratamento negligente dos cidadãos idosos. Chegou a ser lançado, sendo rapidamente esquecido e guardado. Só em 2017 foi encontrada a única cópia existente que passou por um trabalho de restauração. A sinopse? Um velhote simpático tenta aproveitar um momento de lazer num parque de diversões. À medida que o tempo passa, este vai-se tornando cada vez mais infernal e começa a testar o seu espírito.

"The Amusement Park" nada tem de divertido. É uma visão infernal da inevitabilidade do envelhecimento com tudo que de mau tem associado: a invisibilidade, a descrença, o paternalismo, a negligência e até asco. O velhote apenas quer divertir-se dentro das suas limitações e a humanidade egoísta não se pode dar ao trabalho de uma palavra de compaixão. O único momento de alívio advém na forma de criança mas até este é rapidamente posto de lado, devido aos adultos à sua volta. O filme é cansativo na exposição da sua mensagem, bombardeando continuamente os nossos sentidos. Não é uma experiência cinéfila agradável. Se a metáfora é óbvia, não parece existir uma mensagem de esperança. Saímos esgotados, vazios e pessimistas quando ao envelhecimento. Brilhante na mensagem, parco na execução. I was not amused.

In the Earth

Visões cósmicas ecológicas

É estranho falar deste filme um dia após assistir a "Gaia", concorrente direto na exposição dos mesmos temas. E no entanto, com todas as similitudes são muito diferentes.

Este "In the Earth" é Ben Wheatley no seu mais brutal. Percebo agora que ele está à vontade em qualquer cenário. Seja numa garagem com armas de fogo ou na clareira de uma floresta com gadgets tecnológicos, ele vai partir-nos a cabeça com o seu suspense e forçar-nos a sentir cada momento dos seus heróis torturados.

Joel Fry interpreta Martin um cientista que envereda por uma floresta com a sua guia Alma, para encontrar a Dra. Olivia Wendel que está a estudar aquele solo fértil em busca de uma solução para a humanidade na natureza. A viagem começa a correr mal quase de imediato. São atacados e despojados de mantimentos por desconhecidos e depois Martin é ferido e deixado a coxear descalço pela floresta. A aventura piora quando ficam à mercê de Zach, um homem há demasiado tempo na floresta e que venera uma entidade desconhecida. Para ele Martin e Alma são meros veículos. Um meio para atingir um fim misterioso. A Dra. Wendel não parece muito melhor. Desconectada da realidade. Louca? Desde cedo somos avisados que a floresta tem um efeito estranho nas pessoas. Será a loucura do isolamento? Algum processo químico nos fungos? A paranoia pós-pandémica?

O par de protagonistas é sujeito a tortura por via humana e dos equipamentos colocados na floresta que provocam explosões de som, visões caleidoscópicas e flashes de luz encadeante. Estes, em particular são também capazes de desorientar e provocar respostas físicas na audiência. A organização do festival devia ter tido o cuidado de avisar o público para a natureza das imagens, designadamente, de fotossensibilidade. Tenho ainda a impressão de já ter visto visões caleidoscópicas mais interessantes no passado. Se gostam de rótulos, "In the earth" pode encontrar-se alegremente nos subgéneros de eco e folk horror com o ocasional gore. Hoje em dia mesmo filmes mais contidos já apresentam o seu q.b. de gore. Num filme de Wheatley, tal não surpreende. “In the Earth” provaria ser inferior às expectativas mas ainda assim consistente o suficiente para fazer avançar o género eco-horror, o qual, suspeito, num contexto de alterações climáticas ainda se vai multiplicar e democratizar nos próximos anos.


Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte cinco

sábado, 11 de setembro de 2021

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte três

 Um dia marcado pela boa disposição.

Dia III

Alien on Stage

On stage everyone can make you laugh

Se não estivesse familiarizada com o fenómeno "The Room", quase acharia estranho o conceito de um grupo de teatro amador composto por motoristas de autocarro de uma pequena vila inglesa, levar uma adaptação séria de "Alien" ao palco. 

Depois de dar vida a pantominas divertidas em natais anteriores para angariar fundos para caridade, a decisão do grupo de criar uma peça inspirada no icónico filme de Ridley Scott confundiu muita gente.

A encenação revelou-se um fracasso. Passaram de natais de casa cheia para apenas 20 pessoas. Uma adaptação séria de Alien não equivalia às habituais comédias de Natal. Agora, podia dizer que a estória ficou por aqui mas tal não seria verdade. 

No meio do escasso público encontravam-se duas londrinas que encontraram um flyer sobre a peça que as intrigou tanto que as levou a conduzir três horas para assistir à peça. O resultado não podia ser mais feliz: elas fizeram da sua missão levar a peça aos palcos de Londres. O melhor? Conseguiram.

O documentário “Alien on Stage” é o caminho desde os ensaios penosos e de imaginação fértil amadora até aos palcos do West End. É a estória da Cinderella, se esta conduzisse um autocarro. 

A candura daquele grupo de pessoas ordinárias, que se vêm surpreendidas pelo amor à pequena peça que fizeram com alegria e ingenuidade fazem deste documentário o momento feel good do festival MOTELx de 2021.

O valor de "Alien on Stage" não reside na componente técnica mas nas emoções que provoca. Como documentário não existem muitas ideias. É quase amador. De facto Lucy Harvey e Danielle Kummer têm pouca experiência como uma breve passagem pelo IMDB vos poderá demonstrar. Sobra um amor incomensurável pelo material. Amam o filme “Alien” e amam a dedicação daquele grupo de pessoas, tratando-as com o máximo de respeito. Se aplicarem a mesma paixão aos próximos projetos e adquirirem mais experiência talvez nos possam vir surpreender.

“Alien on Stage” não é sobre actores à procura do estrelato. É sobre pessoas normais, com trabalhos normais que fazem o melhor que podem com os parcos meios de que dispõem. Nas horas livres dos trabalhos a tempo inteiro decoram textos, montam cenários e arranjam soluções criativas para encenar uma peça muito difícil e nada óbvia de levar ao palco. Um chestburster de espuma a fazer a sua estreia no palco ao vivo? Brilhante. A despeito de alguns momentos de autoconsciência como um encenador que se recusa a perder a paciência enquanto é filmado ou uma das actrizes a censurar os palavrões que lhe pesam na alma, é nas interações reais entre o grupo amador que o documentário ganha vida. Impossível assistir e não ficar bem disposto.


Sweetie you Won’t Believe it

A comédia física, música cazaque e a descrença entram num bar e…

Já posso riscar da minha bucket list ter assistido a um filme do Cazaquistão e posso confirmar que foi a surpresa positiva do 3º dia.

Confirmo que “Sweetie you Won’t Believe it”, mantém a tendência de comédias de terror inesperadas que vêm de mansinho e roubam o coração da audiência depois de “One Cut of the Dead” ou “Extra ordinary”. Ri-me tanto com aquele aquele último que quase tive contracções. #truestory

“Sweetie you Won’t believe it” segue a alegre tradição da comédia de enganos.

Farto de Zhanna, a sua mulher grávida ultra exigente, Dastan só quer um bocadinho para si, antes de o bebé nascer. Sem sequer saber pescar marca uma fugida para ir pescar com dois amigos, longe das preocupações do quotidiano. Quer o acaso que assistam a um homem a ser assassinado por causa de um negócio que correu mal e põem-se em fuga do bando de malfeitores pelo meio da mata. Pelo caminho cruzam-se com um serial killer temível, um pai e uma filha muito estranhos (a sério, o que é que aquela gente põe na água?) e a realização de que Zhanna entrou em trabalho de parto. Será que conseguem fugir dos bandidos? Será que conseguem chegar antes que a criança nasça? E se chegarem a tempo, será que a mulher não irá matar, ela própria Dastan, por ter dado de frosques?

O filme é acompanhado por uma excelente banda-sonora, um mix de folk com eletrónico cazaque que admito já, não me importava de ouvir de novo. Faz recordar as comédias tailandesas e outros filmes mais mainstream como “Tucker & Dale vs Evil”, sem passar por parente pobre. Em particular a sequência de eventos que desembocam numa autêntica bola de neve são um pequeno toque de génio. Digamos que a culpa de tudo quanto sucede no filme pode ser atribuída à mulher grávida. 

Não é isento de erros, incluindo alguns subenredos que podiam ser melhor explorados: Dastan tem as finanças numa miséria. Nos instantes iniciais é focada uma reportagem sobre o desaparecimento de três mulheres. É mostrado um álbum que demonstra um acontecimento vital na vida do serial killer. O par pai e filha é tão peculiar que mereciam mais minutos só para eles. Estas e muitas outras questões ficam por explorar e isto leva-me a uma sugestão: teria sido muito interessante desdobrar este “Sweetie” numa mini série, acompanhando cada grupo de personagens e as suas estórias já que são estas que dão cor ao guião. Não faço ideia como se irá materializar a distribuição internacional deste filme mas estejam atentos. Vale a pena o esforço.


Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte quatro


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte dois

O segundo dia festival manteve o padrão do dia de abertura, com duas opções que não podiam ser mais diferentes.

Dia II

Post Mortem

O primeiro filme de horror húngaro

O marketing apresentou ostensivamente "Post Mortem" como a primeira longa-metragem de terror desse país.

Não sei se essa afirmação está correta, mas se for verdadeira, é uma estreia que augura um futuro risonho para o género neste país.

"Post Mortem" acompanha Thomas, um ex-soldado que teve uma experiência de quase morte durante a I Grande Guerra e agora ganha a vida integrando uma caravana itinerante onde fotografa os mortos, como forma de dar uma última lembrança às suas famílias. É lá que conhece Anna uma menina que já tinha visto antes: na visão que teve quando quase morreu. Ela também lhe desperta a curiosidade para a sua aldeia, plena de cadáveres não enterrados, dado o solo estar congelado.

"Post Mortem" encontra algumas parecenças no cinema asiático e no horror mainstream como um "Insidious" mas mantém uma identidade própria, distinta.

Aborda tópicos tão dispares tematicamente e tão próximos historicamente como a fotografia de mortos, as feiras de freaks, a I Guerra Mundial ou a Gripe Espanhola. Qualquer um deles seria merecedor do seu próprio filme. No entanto, funcionam coesos neste "Post Mortem".

Thomas queda-se numa aldeia como tantas outras por um mundo devastado pela Guerra. As pessoas estão traumatizadas. Já quase não há homens. Há mulheres, crianças e velhos. E estes foram os que conseguiram sobreviver à gripe espanhola.

A cinematografia esplêndida faz um trabalho delicado de demonstrar pessoas afetadas de modo profundo pelos eventos já mencionados e de enveredar numa jornada sobrenatural, sem fazer pouco dos seus traumas reais. Onde se perde é na relação entre Thomas e Anna, natural nos inícios do século XX, porém perturbadora à luz da época atual. Desculpem lá qualquer coisinha se me faz confusão, ainda por cima num país onde se pretende proibir a homossexualidade por esta supostamente conduzir à pedofilia. A nível técnico, de referir também os efeitos gerados por computador que não são perfeitos mas também não comprometem. Vou estar muito atenta ao cinema húngaro e vocês também devem estar.

After Blue

Pesadelo psicadélico soft core

Por onde começar? O trailer fazia adivinhar uma película diferente com alguma inspiração de um "Mad Max" com a tolice psicadélica de "Flash Gordon" e os filmes de série B e sexploitation dos anos 80. Contudo, NADA me podia preparar para o que iria ver.

Num futuro distópico, os humanos habitam um novo planeta, intitulado "After Blue", após a terra ser destruída. A colonização não correu bem na totalidade. Os homens não se conseguiram adaptar ao novo ambiente e acabaram por morrer, consumidos por pêlos que lhes cresceram nos órgãos (EW). After Blue é então habitado por mulheres, que procuram dar seguimento à espécie através de inseminação artificial e de uma sociedade justa e pacifista.

Roxy, mais conhecida por Toxic, pelas suas amigas encontra numa praia uma mulher enterrada até ao pescoço na areia, deixada para morrer afogada. Apesar, das advertências das amigas, ela desenterra a mulher, maia conhecida por Kate Bush, que foge não sem antes matar as suas amigas. Julgada pelas outras mulheres Roxy e a sua mãe cabeleireira, são obrigadas a perseguir e matar a assassina se quiserem ser reintegradas na sociedade. O que se segue é a sua jornada pelo planeta exótico. A ação é intercalada com exposição através de uma conversa em jeito confessional em que Roxy é questionada acerca do seu comportamento e desejos mais íntimos.

Chamaram-lhe um "acid sci fi erotic western". Infelizmente, os rótulos atribuídos se podem fazer aparentar "After Blue" fascinante também conseguem transmitir como este filme é uma mescla incoerente. É lindo de ver? Por vezes é. A visão de Bertrand Mandico não conhece igual. Dou-lhe isso. Gostava de ver mais no futuro? Sim. Precisava de mais estória? Também. Entre o despertar sexual de Roxy e até da mãe Zora e a procura por um espírito comunitário inexistente, não há motivo para me importar seja com quem for. São tudo personagens egoístas, agarradas às suas pulsões de sensualidade ou violência, que querem viver nos seus termos, por mais caprichosos que possam ser. Bertrand Mandico usa e abusa da sexualidade. Entre as inúmeras sessões de masturbação ou interações mais ou menos sensuais, nenhuma é em demasia para a sua objetiva. A sua visão está mais próxima da obsessão do sexo pelo sexo, desde o explícito ao sugerido -  um terceiro olho acima da vagina, criaturas cuja morfologia faz lembrar uma vagina ou a quantidade de vezes que a protagonista se acaricia -, até vomitarmos a imagética pelos olhos, que em explorar a sensualidade feminina. E são duas horas disto gente. Ok. Já percebemos. São seres livres, à descoberta que desejam pertencer a um grupo. A esse propósito, informo que não vou integrar o grupo de fãs de “After Blue”.

Próximo: Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte três


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte um



Em modo de retorno pleno ao MOTELX em modo de fingimento que não existiu uma pandemia punitiva pelo meio e, com a expectativa de que a edição de 2021, se materialize como uma das melhores de sempre. Sim, leram aqui. É porventura um dos melhores cartazes dos últimos 5 anos. O veredito será dado no fim do Festival. Vamos a jogo!

Dia I

"The Green Knight"

O Rei quer ouvir um conto de bravura.

A sessão de abertura abriu com o onírico “The Green Knight”, uma longa de David Lowery baseada nas lendas arturianas.

Numa primeira impressão “The Green Knight” não deixa margem para dúvidas: é um filme da A24. No entanto, tem uma identidade muito própria. 

Green-Knight-Dev-Patel-Garwain
Dev Patel interpreta o jovem Garwain, sobrinho ocioso e inconstante do Rei. Quer muito impressionar o tio, mas o nível de esforço não acompanha o desejo. Numa noite de Natal surge um cavaleiro verde, uma besta mística que desafia a Távola Redonda para um jogo. Quem aceitar o seu desafio poderá desferir-lhe um golpe mas atenção, daí por um ano, deverá cavalgar ao seu encontro e deixar o Cavaleiro Verde devolver o ferimento. Garwain aceita o desafio sem refletir sobre as consequências e corta-lhe a cabeça. O Cavaleiro Verde sobrevive e larga uma gargalhada triunfal. Daí por um ano a cabeça de Garwain irá voar.

É um equívoco pensar que se irão seguir contos heroicos de capa e espada, duelos sangrentos, a morte de dragões ou o resgate de donzelas escondidas em castelos remotos.

“The Green Knight” é muito mais sobre a natureza que nos rodeia e humana que os caprichos de cavaleiros em demandas fúteis.

Inclui uma Alicia Vikander hipnotizante, numa linha ténue entre anjo e bruxa, entre o real e ilusão, por vezes uma espécie de consciência por outras, como um desafio àquilo que Garwain toma como certo. Dev Patel é o cavaleiro atormentado por uma escolha irrefletida, querendo encontrar o seu lugar no mundo, ainda que a sua expectativa de vida possa ser bastante inferior ao que desejava. Com pouco diálogo, a sua face é um espelho permanente de tudo o que não se encontra no galante cavaleiro dos contos: indecisão, temor ou confusão. Se ainda têm dúvidas de que Patel é um excelente actor, permitam-se ver este filme.

“The Green Knight” é contemplativo, é belo, é simbólico. A natureza é luxuriante. Por vezes é rica, é a vida, como o nascer de uma nação. Por outros é imperdoável, brutal, como o apodrecer de corpos enviados para uma guerra. A verdade encontra-se algures entre a lenda e a versão não linear que nos é contada por Lowery. Mas, oh que linda, é!


"The Samejima Incident"


Tudo o que está errado com o atual cinema japonês.

Recordam-se dos tempos áureos do cinema japonês em que em meio mundo, incluindo Hollywood, se faziam remakes de tudo o que este lançasse? Eu também não.

Nana reúne-se com o seu grupo de amigos numa reunião em formato virtual dado o contexto de pandemia. A dada altura surgem imagens perturbadoras do cadáver de uma das suas amigas e vêem o seu namorado a ser arrastado por uma força estranha. De súbito, todos se tornam prisioneiros nas suas próprias casas e começam a ser acossados por uma força sobrenatural. Entretanto, um deles acaba por confessar que num desafio, dirigiram-se a uma casa onde teria ocorrido um assassinato bárbaro e que terá recaído sobre eles uma maldição… Será que conseguem quebrar a maldição antes que seja tarde de mais?

Como já perceberam “The Samejima Incident” envolve uma maldição (estão chocados eu sei) que está associada a uma lenda urbana (ainda mais chocante). O mais curioso de “The Samejima Incident” é que os argumentista/realizador deve ser fã do David Fincher. Se não, vejamos, “The first rule of fight club is you do not talk about fight club”, ora, segundo a maldição se os personagens mencionarem o incidente, a morte irá recair sobre eles. Oops. Depois, a dada altura e sem contexto, surgem os 7 pecados mortais conectados ao incidente chocante. O que é isto? O cinema japonês a copiar o ocidental?

Se viram o britânico “Host” (2020), filme-sensação da pandemia filmado quase totalmente através do ZOOM, “The Samejima Incident” é mais do mesmo, com uma concretização inferior.

O cinema japonês precisa de uma séria reinvenção. Não existe instrospecção sobre o conteúdo que é apresentado. São sequências inteiras de repetição de cenas antes icónicas, que mancham o legado dos filmes que homenageiam e banalizam e ridicularizam os novos filmes. Em 2020, já não faz sentido espreitar em armários para ver de onde provém o barulho. E muito menos que miúdos nascidos no novo milénio e conheçam os Ringu e “The Grudge” desta vida, continuem a congelar de terror. Seria interessante os novos talentos do cinema japonês, espreitar além-mar, para a Coreia do Sul e aprender com uma indústria muito mais criativa e consolidada. Orçamentos limitados não podem ser desculpa para a falta de ideias.

Costuma-me horrores dizer isto mas, se é para o MOTELX continuar a assegurar que o terror japonês contemporâneo tem presença no seu programa, mais vale não ter nenhum filme deste país.

Próximo: Notas de um Festival de Terror, Edição de 2021 – parte dois

terça-feira, 13 de julho de 2021

"In Fabric" (2018)

Uma besta estranha.

Filmes sobre objectos assombrados são sempre uma provocação. Além da iminente e fulcral suspensão da crença, há ainda toda uma abordagem que é uma incógnita. Será que os argumentistas optaram por prosseguir com o absurdo puro ou, espera-nos um registo mais poético, quiçá onírico? A oferta é variada e podemos encontrá-la em muitos períodos do cinema: “Christine” (1983), “Trucks” (1997), “The Red Shoes” (2005), “Fridge” (2012), filmes de bonecas assombradas, então, encontram-se a rodos no cinema do sudeste asiático, tal como os slashers nos anos 80.

“In Fabric” enquadra-se nesse subgénero, mas as particularidades não se quedam por aí. É um pseudo-giallo produzido em plano século XXI, por Peter Strickland, que é mais conhecido pelo seu “Duke of Burgundy”, de 2014. Este é um bom ponto de partida para compreender os temas de “In Fabric” e, por que é que este, não é apenas um filme sobre um objeto assombrado. Strickland renova o interesse em contar histórias sobre as relações humanas, com ênfase na sensualidade, mesmo estas tomem um caminho mais negro ou, de como o desejo pode fazer os amantes tomar atitudes inesperadas ou mais bizarras. Assim, não é surpreendente desenhar-se uma teia de morte e erotismo em torno de um vestido vermelho. 

Marianne Jean-Baptiste interpreta Sheila, uma senhora de meia-idade respeitável mas solitária, que tenta ultrapassar o divórcio e um filho adulto cada vez mais desafiante. O ex-marido já mostrou ter ultrapassado o casamento, arranjando um nova namorada e o filho, nem sequer tenta ser discreto nas manifestações de afecto, na sua relação ardente com uma mulher mais velha, Gwen (Gwendoline Christie). A solidão arrasta, por fim, Sheila para os saldos e os anúncios românticos dos classificados.  É no retalho, que uma estranha e enigmática Miss Luckmoore, a convence de que o vestido vermelho trará a admiração e afecto por que Sheila tanto anseia. Seguem-se episódios, de encontros falhados e de sucesso, de tensão no outro e acidentes estranhos. Tudo isto, conectado ao estranho vestido vermelho.
Não posso garantir, com total segurança, que não existam outros giallos sobre objetos assombrados mas, na mão de Strickland, a proposta é, sem dúvida única. As analogias a “Suspiria” suscitadas por essa internet fora não são descabidas.
A selecção musical do colectivo Cavern of Anti-Matter, dá-lhe a singularidade que uns Goblin trouxeram ao anteriormente mencionado filme de bruxas. "Suspiria" estará sempre indelévelmente ligado ao tema principal. A bizarra Miss Luckmoore podia ter sido retirada do filme de Argento. Sem qualquer alteração, encaixava que nem uma luva no imaginário desse realizador. O comportamento e aparência desta personagem, em conjunto com o das outras colegas de loja, parecem sugerir a existência de um convénio de bruxas. Existe um momento, o qual não vou desvendar para manter o interesse, entre Luckmoore, o dono da loja e um manequim, que é tão peculiar, que não posso deixar de me perguntar, dado que não acrescenta nada à história, se não foi uma ideia posterior que o realizador/argumentista, certamente insistiu para colocar no filme, somente pela imagética. E, em simultâneo, não consigo imaginá-la num outro filme.
Mas a mensagem porventura mais ainteressante é a crítica ao consumo que nos destrói, mais do que um vestido assassino. Strickland não se coíbe de inserir alguns anúncios televisivos da loja, estridentes e hipnóticos em igual medida, que funcionam como mensagens subliminares para a compra. Uma homenagem a “They Live” (1988), não é descabida.
O realizador demonstra ainda ser amigável ao universo LGBTQI, devotando-lhe, se não, as estórias mais desenvolvidas, pelo menos, uns dos momentos mais interessantes de todo o filme, em particular, os chefes de Sheila, Stash e Clive, demasiado, entusiásticos acerca de narrativas da vida pessoal dos funcionários e de clientes.
“In Fabric” não é isento de críticas. Por vezes, transmite uma sensação de falta de auto-controle de quem está atrás da câmara. O realizador não sabe quando parar. Deixa a câmara rolar, muito depois de já ter demonstrado o seu objetivo. Isso, alonga uma estória que não precisava de duas horas para ser contada e anda em círculos.
O filme assenta, por fim, em três linhas principais: o slasher (que não o é), o erotismo ligado a pulsões de morte e a crítica social, resultando, como comecei por referir, numa estranha besta. Três estrelas e meia.


Realização: Peter Strickland
Argumento: Peter Strickland
Elenco:
Marianne Jean-Baptiste como Sheila
Fatma Mohamed como Miss Luckmoore
Jaygann Ayeh como Vince
Gwendoline Christie como Gwen
Leo Bill como Reg Speaks
Hayley Squires como Babs
Julian Barratt como Stash
Steve Oram como Clive

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Suores Frios - "Ter medo é coisa que não me assiste" - por Vítor Rodrigues


Tenho uma relação muito especial e invejosa com o terror. Se por um lado sei que não estou a apreciar correctamente um género cinematográfico com mérito próprio, por outro não consigo entender de todo o fascínio. Permitam então que me envergonhe...

Se eu não gosto de ser assustado na vida real, porque haveria de o querer numa sala de cinema? Porque hei-de pagar para me sentir contraído e receoso com o que aí vem? Poderão falar-me em rush de adrenalina ou até que o terror não é sinónimo de jump scares, mas ainda assim não me convencem. É então com extrema vergonha que apresento três momentos que me marcaram e cimentaram a minha convicção.

Em 1997, com 13 anos, lembro-me de ficar “cagado” com o início de Men in Black. Sim, a comédia com Will Smith (eu não disse que vinha aqui envergonhar-me?!). A verdade é que aquela cena inicial em que um alien “caça” Tommy Lee Jones deixou-me apreensivo até quase meio do filme, receando o que aí pudesse vir. Aos 15 aventurei-me “à séria” com o género e vi o Projecto Blair Witch. Único filme que vi no velhinho XXX, e dos poucos que tive de me sentar na zona lateral da sala, por esta estar já tão lotada. Lembrem-se que esta é uma altura pré-internet, logo, tudo o que eu estou a ver é “real”! Saí daquela sala perfeitamente convencido que tinha visto um documentário. A imagem final, em que a camêra cai e um dos jovens está virado para o canto da sala ficará gravado na minha memória para todo o sempre.

O meu último exemplo é o mal amado Signs de 2002, com Mel Gibson e Joaquin Phoenix. Poderia escolher várias cenas de tensão em campos de milho ou o final na casa, mas a cena que mais me marcou é a de um noticiário, em que é reproduzido um video amador do Brasil e do nada surge um alien. Apanhou-me tão despercebido que me encheu de medo. Não de susto, mas de medo.



Estes exemplos completamente lights fizeram-me perceber que não tinha nem mãozinhas nem palato para terror valente. Uma grande parte de mim tem ainda um preconceito real com o género que não consigo afastar. Há uma pobreza de ideias revolucionárias e recurso a artimanhas repetitivas em argumentos fracos que usam o terror como muleta, em vez de uma característica secundária. Consciente que falo de certeza do alto pedestal da ignorância, mas ainda assim, é o meu pedestal.

Aos 36 já podia ganhar vergonha na cara e ver umas obras primas. Afinal de contas, quando vi o Exorcista, anos depois de todos os meus amigos, encontrei mais comédia que terror. Men in Black é agora pura comédia e Blair Witch perdeu o “encanto” depois de perceber que era tudo mentira. Talvez um palato mais maduro me fizesse despertar para novas sensações... mas, tenho medo...

O Vítor escreve umas coisas no Vida em Série e no Séries da TV e pode ser encontrado no Twitter a pastar...

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Suores Frios - "Rosemary’s Baby, Ou O Cinema de Terror Como Exploração do Quotidiano" - por David Lourenço


O cinema de terror sempre foi, para mim, um campo fértil em ideias, no qual se consegue abordar qualquer assunto com criatividade. Não raras vezes, é um género subestimado e visto como alienante, pela violência ou pelo esoterismo de algumas histórias, mas, quando é bem feito, o cinema de terror pode ser um reflexo distorcido de aspetos da nossa sociedade, como um espalho convexo que realça certas formas da(s) realidade(s) que conhecemos. Um dos filmes que me tornou mais consciente das possibilidades do género foi Rosemary’s Baby.


Inserido numa trilogia não oficial de Roman Polanski (com apartamentos citadinos como cenário central da ação), a personagem principal passa por uma gravidez particularmente difícil; o filme utiliza o satanismo como metáfora dos poderes ocultos que controlam as mais diversas áreas (nunca me esqueço de como o marido tenta convencer Rosemary a abdicar do bebé recém-nascido para serem recompensados com oportunidades). Os sinais de perigo vêm do comportamento estranho dos vizinhos e da arquitetura hostil dos blocos residenciais, isto é, de uma apresentação subversiva de aspetos do nosso quotidiano, dos quais não desconfiamos ou não queremos desconfiar.

Aos poucos, Polanski questiona tudo na experiência da vida urbana, nomeadamente o lugar da mulher moderna. Rosemary é violada, a sua sanidade é posta em causa e, no fim, aceita que não consegue remar sozinha contra o estado das coisas e acaba a baloiçar o berço de um bebé que, afinal, é o filho do Diabo. Nem a maternidade é sagrada no mundo contemporâneo – aliás, o momento da conceção é a cena mais surreal de todo o filme.

Por tudo isto, continuo a adorar o cinema de terror, e, como este exemplo demonstra, qualquer filme, independentemente do género, pode ser uma referência cultural de relevo.

David Lourenço
O Narrador Subjectivo (2011 – 2017)
https://onarradorsubjectivo.blogspot.com/
Tarkovsky Wannabe (2017 – Presente)
https://www.instagram.com/tarkovskywannabe/

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Suores Frios - "Terrores Adolescentes" - por Inês Moreira Santos


Seis amigas aventureiras reúnem-se para explorar uma gruta remota nos montes Apalaches. Algo corre mal e ficam encurraladas. Para além da luta para encontrar uma saída, terão ainda de conviver com uns seres esfomeados que habitam as profundezas do local.

Comecei a ver filmes de terror com frequência por influência da minha melhor amiga, teríamos nós 12 anos. Os pais delas eram sócios de um videoclube (bons velhos tempos...) e estávamos lá nós batidas, de quando em quando, a alugar um filme - normalmente de terror. Um pouco mais velha, comecei a vê-los também no cinema, a maioria das vezes sem saber bem ao que ia, já que a Internet ainda escasseava. Aí já era o meu primo o responsável pelas escolhas mais assustadoras. Tínhamos o costume de ir num grupo de quatro ou cinco adolescentes que só queriam Cinema como forma de espairecer e distrair, um escape da realidade por uma hora e meia ou duas. Não estávamos muito interessados com a qualidade para além do entretenimento.

Para a presente rubrica, escolhi um filme que vi numa destas incursões ao cinema do Colombo com o primo e três amigos, numa sessão da noite. A Descida (The Descent ) estava em cartaz e tínhamos "ouvido falar bem", para além da sinopse ser convidativa: um grupo de raparigas numa gruta com criaturas assustadoras pelo meio, parecia-nos bem.

Saímos da sala estarrecidos, revoltados, não gostámos. Não gostámos dos saltos que demos das cadeiras, lá escondidos na última fila da sala, não gostámos de ter de esconder a cara com o pacote de pipocas sempre que havia a eminência de um daqueles bichos (uma espécie de orcs albinos, como os baptizei) aparecer de repente e comer uma das raparigas (ou saltar do ecrã e nos comer a nós?!), não gostámos do grito mudo de pânico que demos quando um deles ficou visível pela primeira vez, não gostámos de nenhuma das sensações que nos atormentaram dentro da sala de cinema.

Ainda hoje, e sendo quase consensual que A Descida é um dos melhores filmes de terror dos últimos 20 anos, continuo a ter alguma repulsa por esse título, e o sentimento é comum a quem me acompanhou a essa sessão, há cerca de 15 anos. Causou um belo trauma naqueles jovens que ainda cheiravam a pó talco. E, curiosamente, não me parece que alguma vez me vá reconciliar com o dito filme. O que vale é que o mundo cinematográfico em geral, e o género de terror em particular, está longe de se esgotar naquela gruta (ou naquela sala de cinema). E nós aprendemos a gostar de ter medo deste tipo de ficção, seja na sala de cinema ou na de casa.


Inês Moreira Santos
Divulgadora cultural e Autora do blog  Hoje Vi(vi) um Filme, sobre cinema, televisão e, principalmente, onde partilha o amor pela Sétima Arte. Nascida em 1988, em Lisboa, licenciou-se em Ciências da Comunicação. Apaixonada por Cinema e pela Escrita, viu no Hoje Vi(vi) um Filme a melhor forma de aliar as duas paixão.
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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Suores Frios - "Wolfen"


Já não são muitos os blogues que permanecem activos desde os bons tempos da velha guarda, e é um prazer saber que a Rita está de volta. Ao longo destes quase 10 anos dela no activo, e dos quase 12 anos meus percorremos um caminho parecido, que se cruzou muitas vezes, sempre no underground, quer do cinema asiático, quer do cinema de terror. Mas principalmente do cinema de terror, que sempre me disse muito, e com o qual fui crescendo.
Nasci em 1974, pouco depois da revolução de Abril, e cresci, sobretudo, nos anos 80, a década que normalmente é mais recordada. Foi a década do “ET”, e dos filmes do Spielberg, do melhor período do Carpenter, do “Poltergeist”, dos “Gremlins”, dos “Caça-Fantasmas”, do “Howling”, do “Lobisomem Americano em Londres”, foi a década em que se passou a acção do “Stranger Things”, uma das séries mais adoradas dos últimos anos, provavelmente porque andam por aí muitos tipos como eu. Foi a década do boom dos efeitos especiais, mas não viveu só destes filmes. Também foi uma grande década para o policial, talvez a grande década do policial. Quando observo esta década a quase 30 anos de distância percebo o quanto importante foi para a minha cinefilia, e para a forma como fui evoluindo no mundo do cinema, e o filme policial foi muito importante, tendo chegado mesmo a fazer um ciclo no meu blog sobre o cinema policial dos anos 80. Digo isto porque o filme que escolhi para falar aqui hoje, é um híbrido entre o terror e o filme policial.
Numa altura em que não havia internet, a minha cinefilia vinha, e muito bem, da programação de cinema da RTP e dos videoclubes. Foram as noites de sábado na RTP, com as sessões duplas, que me iniciei no cinema de terror. Já era fã dos filmes de lobisomens, já tinha visto em tenra idade, também na RTP, filmes como “O Uivo da Fera”, “A Companhia dos Lobos”, ou “Um Lobisomem Americano em Londres”, todos eles já do meu top de preferências, quando numa sessão de sábado me deparei com este filme chamado “Wolfen”, que tinha o título em português de “Cidade em Pânico”.
“Wolfen” levou-me até um cinema de terror que até então era novo para mim: o poder da sugestão no terror. O filme era sobre uma série de assassinatos violentos e bizarros, aparentemente feitos por animais. Os animais deveriam ser lobisomens, pela sinopse do filme, pelo cartaz, e pelo pequeno trailer que tinha visto, por isso aguardava o filme com muita expectativa.
Seguimos uma narrativa policial, com um  detective durão muito bem interpretado por Albert Finney a conduzir a história e a investigação. Nunca vemos estes animais assassinos até bem perto do final, até lá vamos seguindo os ataques do ponto de vista dos monstros, sempre na terceira pessoa, isto seis anos antes do famoso “Predador” do John McTiernan ter aperfeiçoado esta técnica. Foram estas sequências de ataques através dos olhos dos assassinos, sem mostrar o mal, mas sabendo que ele podia estar presente, que me marcaram muito e me levaram a escolher este filme para este ciclo da Rita. Afinal, o terror podia ser muito mais do que pregar sustos, mostrar monstros ou corpos a esvaziar em sangue. Também se podia fazer terror sem mostrar nada, ou quase nada, só com movimentos de câmara e a sugestão de que está ali algo atrás dela, que pode ser assustador.
Fiquei de boca aberta no final do filme, apesar de não ter visto nenhum lobisomem. “Wolfen” tornou-se num filme de culto para mim, e só consegui voltar a vê-lo uns bons anos mais tarde, tendo sido dos primeiros filmes que partilhei na internet. Apesar de ser um filme de 1981, nunca saiu no mercado de VHS ou DVD. Mas só vos digo, é cá uma pérola.

Deixo-vos com as imagens que me marcaram:


Francisco Rocha
https://mytwothousandmovies.blogspot.com/

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Suores Frios - "Mil novecentos e setenta e três" - por Edgar Ascensão


Seria certamente uma escolha óbvia eu falar de qualquer filme que tenha visto sendo mais novo, em miúdo, de tenra idade e com as emoções ainda verdinhas. Podia falar do Poltergeist, que com seis anos eu regalaria os olhos de assombro, quando os meus primos mais velhos nos punham a ver maratonas de terror em casa deles. Era Halloween, Dracula do Christopher Lee, ou o The Omen. E a produção de Spielberg sempre foi um must aqui do meu coração palpitante. Mas não. Quero falar de uma obra (prima) que apenas conseguiria meter os olhos aos 19 anos de idade, altura em que já estaria com alguma estaleca cinéfila e conhecedor da maioria dos clichés desse género.

Era o Exorcista.  Sim, o clássico de 1973. Uma sessão de madrugada na RTP1, tinha gravado em VHS para ver no dia seguinte com o meu irmão, mais velho que eu quatro anos, que também nunca tinha visto. E eu estava naquela do “epá, tão velho, dos anos setenta, ainda é pré Star Wars” (era uma altura da minha vida que ingenuinamente dividira a história do Cinema por ASW/DSW: Antes de Star Wars/Depois de Star Wars). Não ia com muita fé. Aliás, eu queria vê-lo para o riscar da minha bucket list dos “100 melhores filmes de sempre” segundo a AFI (artigo que tinha aparecido na antiga revista TV Filmes, em 1997. Nesses anos seguintes, andava alegremente a ver Citizen Kane, Casablanca, Singing in the Rain, num conflito emocional no qual muitos dos filmes que ia riscando, estariam subjugados como “velhos e datados” (ah, a miudagem nunca muda...). O filme de William Friedkin estava lá nos topos dessas listas, soando os sinos do género de terror, tão raro de se estabelecer tão fortemente em listas deste calibre.

E fui ver. Fomos ver, com o meu irmão também a assistir. O desenvolvimento inicial não me comichava. Aliás, percorria o típico andamento de qualquer filme de terror que se preze. É de facto a pouco mais de metade do filme ter decorrido que The Exorcist mostra as suas garras. Acontece depois de uma longa e calma cena de diálogos quando somos apanhados ao virar da esquina. Estou a falar da sequência do crucifixo com que a miúda se masturbava diabolicamente. Deixou-me paralisado. Os gritos, de voz cavernosa vociferando “let Jesus fuck me!” era medonhamente brutal. Não esperava tal audácia para um filme dessa época. Os pêlos dos meus braços eriçaram, juro. Quase nunca me aconteceu isso a ver um filme. Foram precisos  apenas  45 segundos de filme para eu repensar a minha descrença em filmes mais antigos.

A paralisia só parou com o decorrer da cena, toda ela deveras agitada, após a agressão à mãe que foi parar ao chão como um saco de batatas e Linda Blair a rodar a cabeça 180 graus, como mostravam todos os clipes e trailers até então popularizados. Consigo eu também lá rodar a cabeça e olhar para o meu irmão de boca aberta. O meu irmão está também de olhos esbugalhados e olha de volta para mim. Soltamos um “Foda-seee” quase em uníssono. Caramba. Aquilo foi merda da boa.

O resto do filme foi porreiro sim senhor. Mas o efeito surpresa já tinha amansado a fera. Já sabia que tudo era possível. Apesar de mais para o final calcar um pouco mais o teor habitual  dos filmes de terror, os gimmicks demoníacos davam um colorido criativo ao filme. Vómitos, levitações, vozes das profundezas... Estava tudo lá, no arranjo de um clássico perpétuo. Findo o filme, relembro como fui rasteado com tanta pinta. Filme de 73, heim? E os olhos esbranquiçados da miúda de pele cinzenta acompanhava-me nos sonhos dessa mesma noite. Não em forma de pesadelo mas como que uma companheira nocturna, afim de marcar-me a ferro quente nas minhas memórias permanentes aquelas icónicas imagens.

Naquele Verão de 2000 Hollywood precisava reinventar-se novamente em termos de terror. Scream acabara de lhe dar uma cambalhota em 1996 mas as vulgares sanguessugas voltariam a provocar um cansaço no género. Um ano antes, estreavam Stigmata, End of Days, The Haunting (ugh) que chacinavam o tema do sobrenatural e demónios (ainda assim vi tudo isto nos anos que se seguiram). Tive de esperar uns anitos até que o cinema espanhol e asiático me trouxesse novamente  frescura nos calafrios cinematográficos.

Mas entretanto voltaria a rever o Exorcista nesse mesmo ano. E logo em tela grande, aquando do relançamento em Versão estendida nos cinemas em 2000. Vi-o já como um slow burner, já antecipando os momentos-chave. Prestaria mais atenção aos detalhes. O make-up de Max Von Sydow é ainda hoje impressionável. Apesar de pintalgado com novas brincadeiras nas cenas inéditas (A ‘aranha’ descendo as escadas é o que me lembro melhor), a história mantém-se e os 11 minutos extra não trazem nada de relevante a um filme que já roçava a perfeição.

Outra vez regressando a Linda Blair e companhia, desta vez em DVD, divertia-me com a blasfémia e ousadia com que todos os participantes desta obra criavam esta fita dita impossível para a época. Fiquei até com vontade de fazer uma maratona das sequelas. Pensando melhor, até que seria má ideia (até hoje nunca vi nenhum outro filme do franchise). Vamos lá manter isto no pedestal, pessoal. Não quero estragar a bela memória com mais nada que o valha. Quero pensar nele como algo único.

Poderíamos estar a enumerar quantos filmes de terror se classificariam como clássicos intemporais. Halloween, Psycho, Friday the 13th desbravavam terreno como ‘slashers’ sim senhor. Também no vizinho sci-fi tem a sua boa dose de monstros com Alien, The Thing, The Fly... Mas contam-se pelos dedos os filmes do sobrenatural, não com fantasmas e tal mas com o nosso velho amigo Belzebu. Rosemary’s Baby? The Omen, diriam vocês? Pode ser. Ambos dos anos setenta, meus amigos, ahah. Até a ‘afilhada’ Carrie poderia ser confundida com uma inocente possuída por Belzebu, como a sua mãe imaginaria (não, era mesmo uma mente frágil atormentada por poderes paranormais) que ainda assim nos atira com o seu 1976 à cara. Os anos setenta podem ter revolucionado Hollywood de diversos modos, com Star Wars e Jaws (ei, outro filme de sobressaltos, wink wink) e obras ligadas ao pós Vietnam. Mas ninguém pode contrariar que nunca mais se fizeram filmes demoníacos como nessa década. Putos de hoje, geração Z, talvez seja hora de vocês começarem a tirar notas disto e olharem mais para trás. Mais tarde irão agradecer.


Edgar Ascensão,
do blog Brain-Mixer
http://brain-mixer.blogspot.com/
Poster Designer/Illustrator
www.facebook.com/posterscaseiros
www.instagram.com/edgar_asc/
twitter.com/edgar_ascensao

domingo, 20 de janeiro de 2019

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 – parte cinco (Final)

“Anna & the Apocalypse” (2017) - Alguma vez partilhei aqui um ligeiro desgosto recente com musicais? Musicais como “The Sound of Music” (1965), um “Mary Poppins” ou qualquer filme do Fred Astaire, com aqui a je é à vontadinha. Agora falem-me em “Glees” (2009-2015) ou Chicagos (2002) e mandar-vos-ei lavar os olhos com filmes de terror. Anna & the Apocalypse centra-se na jovem Anna (Ella Hunt) que tem o desejo de iniciar um ano sabático e partir para a Austrália à aventura para se descobrir, ao invés de iniciar de imediato a universidade o que não conjuga bem com as expectativas do pai ultra protector e de John (Malcolm Cumming), o melhor amigo que mantém por ela uma paixão secreta que só a própria não vê. Inicia-se uma luta pela sua afirmação enquanto jovem adulta e as expectativas dos que a rodeiam e o apocalipse zombie que ameaça acabar com os seus sonhos e a vida de todos durante a época da “paz no mundo”, o Natal. “Anna & The Apocalypse” é uma lufada de ar fresco. Faz o género avançar numa fusão inesperada e surpreendentemente coesa com terror e não lhe faltam quilómetros de charme. Enverga a ingenuidade fofinha de um elenco sobretudo desconhecido e não cai no erro das grandes encenações coreográficas que podem tornar o género por vezes plástico. A pouca encenação que existe é naturalmente ancorada num elenco jovem excitável e um excelente timing cómico. “Anna & The Apocalypse” faz também uma homenagem competente ao melhor filme de zombies do milénio “Shaun of the Dead” (2004). A comédia musical natalícia de terror zombie que não sabia que queria. Quatro estrelas.

Realização: John McPhail
Argumento: Alan McDonald e Ryan McHenry
Ella Hunt como Anna
Malcolm Cumming como John
Sarah Swire como Steph
Christopher Leveaux como Chris
Ben Wiggins como Nick
Marli Siu como Lisa
Mark Benton como Tony
Paul Kaye como Savage

“Brothers’ nest” (2018) – Tendo passado despercebido em favor de filmes como “One Cut of the Dead” ou “Anna & the Apocalypse”, “Brothers’ nest” entra no complicado mundo das relações familiares. Os irmãos Jeff (Clayton Jacobson) e Terry (Shane Jacobson) têm tudo planeado: disseram às famílias que vão passar uns tempos a Sidney para mas na verdade estão à espera do padrasto na quinta da família para o matar. A mãe deles tem cancro e Jeff está convencido que quando morrer o marido irá ficar com a quinta que para ele lhes pertence. A melhor forma de solucionar este problema parece a mais extrema de todas e arrastar o irmão para “o que tem de ser feito” não lhe pesa na consciência. Terry é manipulado pelo irmão mais velho e o plano traçado testa a sua fé no irmão e nas crenças que teve toda a vida sobre a sua infância. “Brothers’ Nest” tem sido equipado a uma obra dos irmãos Cohen e é de facto uma obra fraterna. Clayton e Shane são de facto irmãos e muitas vezes as suas interações são tão naturais que o discurso quase inventado na hora, sobretudo nos momentos em que apontam defeitos no outro ou as falhas óbvias no plano maquiavélico. Quase aqueceria o coração não fosse o caso de se terem juntado para matar o padrasto e ferir o coração de uma mãe doente. À boa forma de uns Cohen, o plano não corre exactamente como planeado e o desvelar da situação não é bonito. Os acontecimentos revelam uma série de verdades desconfortáveis e desemboca numa questão fundamental. Quem queremos ser? “Brothers’ Nest” é menos um filme de terror que um thriller mas ainda assim uma boa aposta Motelx para quem prefere dinâmicas mais assentes na realidade. Três estrelas.
Realização: Clayton Jacobson
Argumento: Jaime Browne e  Chris Pahlow
Shane Jacobson como Terry
Clayton Jacobson como Jeff
Kim Gyngell como Rodger
Lynette Curran como Mãe
Sarah Snook como Sandy


Errementari (2017) – Vinha de Espanha com boas expectativas e já alguns prémios, incluindo o prémio da audiência no Festival de San Sebastian. Num título mais pessoal tinha ouvido falar grandes coisas do filme e, bem, o visionamento acabou por redundar numa desilusão. Errementari passa-se num tempo de perseguição de bruxas e de superstição. A antevisão de aldeões com tochas e forquilhas é acertada. Há um ferreiro chamado Patxi que é um proscrito numa aldeia. Muitas estórias se contam sobre os seus tempos na guerra e os aldeões preferem não se cruzar com ele. Quando Usue uma órfã com um comportamento rebelde se cruza com o ferreiro o seu segredo bem ao cimo. Ele fez um pacto com o diabo para se manter vivo mas não quer cumprir a sua parte do negócio e mantém um demónio seu servo como prisioneiro. A pequena Usue deixa-se enganar pelo demónio e Patxi terá de se despachar antes que o diabo e uma população acicatada pelo desaparecimento da menina lhe venham reclamar a sua vida. Errementari é um conto de fadas basco que faz recordar Del Toro mas com um sentido de humor inesperado. É também daí que advém um dos seus maiores problemas. O demónio que Patxi mantém prisioneiro Sartael é um mimo de se ver: a caracterização do personagem é espectacular. Infelizmente e apesar de Eneko Sagardoy fazer um papelão, o humor do seu personagem mata a atmosfera pesada que antecede o seu aparecimento, seguindo-se mais tarde uma descida aos infernos em imagem gerada por computador onde se denota mais as limitações do orçamento. Sartael é a personagem certa no filme errado. O marketing do filme parece concordar, dado que o trailer de Errementari também fazia adivinhar um filme com muito mais teor de terror que de comédia e, para um dos últimos filmes a ser exibidos na edição de 2018 do motelx, não posso se não concordar. Duas estrelas e meia.

Realização: Paul Urkijo Alijo
Argumento: Paul Urkijo Alijo e Asier Guerricaechevarría
Kandido Uranga como Patxi
Uma Bracaglia como Usue
Eneko Sagardoy como Sartael
Ramón Aguirre como Alfredo
José Ramón Argoitia como Mateo
Josean Bengoetxea como Santi
Gotzon Sanchez como Faustino
Aitor Urcelai como Benito
Maite Bastos como Blanca


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Notas de um Festival de Terror, Edição de 2018 – parte quatro

The Ranger (2018) – É um retorno ao glorioso slasher dos anos 80, com um pé em finais de anos 70. Um grupo de punks que foge para uma cabana onde Chelsea (Chloe Levigne) passava temporadas em criança após um encontro com as autoridades envolvendo drogas duras que corre muito mal. O namorado dela, Garth (Granit Lahu), um casal amigo e uma rapariga que acaba por se envolver com o grupo de forma acidental não parecem interessados em minimizar o comportamento que os pôs em sarilhos e procedem em espalhar lixo e grafitar tudo quanto podem. Chelsea parece encarnar o espírito “fight the power” dos punks mas o seu exterior duro esconde um trauma e vulnerabilidade intimamente ligado aos verões no Parque Natural. O encontro com um Ranger obcecado com o cumprimento das regras despoleta uma sucessão de eventos trágicos e faz despoletar o instinto de sobrevivência – animal se preferirem –, de Chelsea. Os jovens adolescentes que só pensam em drogas, pinar e serem horríveis entre eles e para todos os que os rodeiam são o arquétipo dos slashers já mencionados e é questionável que alguém sinta algo parecido com um lamento pelos seus destinos à excepção da protagonista, mas Jenn Wexler a realizadora e co-argumentista é inteligente e introduz temas tão em voga e pertinentes quanto uma consciência ambiental ou o “girl power” coroados por um vilão memorável – algo escasso nos últimos anos –, na condução dos trabalhos sangrentos. Quanto às possibilidades de “The Ranger”? Todos são monstros mas uns mais que outros. É escolher. Três estrelas e meia.

Realização: Jenn Wexler
Argumento: Giaco Furino e Jenn Wexler
Chloe Levine como Chelsea
Jeremy Holm como The Ranger
Granit Lahu como Garth
Jeremy Pope como Jerk
Bubba Weiler como Abe
Amanda Grace Benitez como Amber


Gonjiam: Haunted Asylum (Gonjiam, 2018) – Já muito se escreveu sobre o found footage. Por esta altura, acho que toda a gente e a sua mãe tomou uma decisão sobre se o género está morto e enterrado, é um zombie ou as notícias sobre a sua morte foram exageradas. Posto isto, Gonjiam: Haunted Asylum é um found footage que sucede num antigo Hospital Psiquiátrico em ruínas. Sim, é muito possível que tenham tido flashbacks com o “Grave Encounters” mas a justificação para o seu visionamento é similar: por esta altura já sabem se o querem ver ou não, mesmo que não leiam as próximas linhas. Adiante. O dono de um canal de youtube especializado em investigar casas assombradas reúne um grupo de exploradores e a sua equipa de filmagens para fazer um direto da expedição a Gonjiam. O grupo é diversificado: malta gira, impressionável, corajosa, supersticiosa… o habitual. Algum tempo é dedicado à preparação da equipa de filmagens e à história da casa. No entanto, transmite uma aura de modernismo, pós 2015 diria, com o advento e sucesso dos canais de youtube e a sua consequente profissionalização. O dono do canal e promotor do evento não se cansa de repetir a importância dos números e a insistência na exploração de tudo quanto a tecnologia tem para oferecer como por exemplo, as go-pros e a utilização do splitscreen para apresentação de perspetivas diferentes em simultâneo. Quanto ao argumento este não é muito diferente do que se viu no género desde a separação da equipa em momentos-chave a momentos de gritos e correria descontrolada, mas é competente e estaria a mentir se não tivesse sentido a sala gelar ou sobressaltar-se com alguns jumpscares. Duas estrelas e meia.

Director: Beom-sik Jeong
Writers: Beom-sik Jeong e Sang-min Park
Seung-Wook Lee como Seung-wook
Ye-Won Mun como Charlotte
Ah-yeon Oh como Ah-yeon
Ji-Hyun Park como Ji-hyun
Sung-Hoon Park como Sung-hoon
Ha-Joon Wi como Ha-joon

Próximo Filme: Notas de um Filme de Terror - parte cinco
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