Mostrar mensagens com a etiqueta 2001. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2001. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de março de 2018

"The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku 2001)


Comédia musical de terror. Se calhar é difícil vender um produto destes. E no entanto, em simultâneo, parece mesmo aquele tipo de produtos que só podiam sair do estranho Japão. “Happiness of the Katakuris” baseia-se na película sul-coreana “The Quiet Family”, realizada apenas três anos antes por Jee-won Kim cuja obra já foi mencionada por diversas vezes (“A Tale of Two Sisters” e “I Saw the Devil”, são alguns bons exemplos). Em “The Quiet Family” uma família proprietária de uma estalagem vê os hóspedes falecer, um após outro, nas circunstâncias mais infelizes. Desta feita, Takashi Miike apresenta os azarados Katakuris que arriscaram todas as finanças da família numa estalagem perto de uma antiga lixeira, com base no rumor da construção de uma estrada ali perto, de caminho para o Monte Fuji, pitadas de animação em stop motion e números musicais inesperados. O boom turístico não se verifica e os poucos hóspedes que por ali passam, acabam por falecer de modo inesperado para a família que decide em conjunto esconder os cadáveres. Se é um morto já é mau para o negócio imaginem dois ou três! Os eventos são narrados por Yurie (Tamaki Miyazaki) o elemento mais novo da família, a neta do patriarca Masao (Kenji Sawada) que observa os seus parentes com o amor inocente de uma criança, sem descurar a evidente excentricidade dos Katakuris. A família é assim composta por Masao, a sua amada esposa e por vezes voz da razão Terue (Keiko Matsuzuka); o filho com um passado de desonestidade Masayuki (Shinji Takeda); a filha divorciada e obcecada pelo amor romântico, a ponto da cegueira infantil Shizue (Naomi Nishida); a sua pequenota Yurie, o avô com acessos ocasionais de mau génio Jinpei (Tetsuro Tanba) e o cão Pochi.

A palavra que melhor descreve “The Happiness of the Katakuris” é: surreal. Inicia-se com uma sequência na qual uma personagem feminina come uma tigela de ramen, da qual sai um querubim em versão demoníaca que a ataca, numa das cenas mais insanas e, curiosamente, terríficas do filme. A cena inicia-se em formato live-action para logo se transformar numa animação stop motion de plasticina, que faz a transição para a vida não tão sossegada e sem intercorrências quanto isso dos Katakuris, a despeito de eles assim o desejarem. A personagem feminina nunca mais volta a aparecer no ecrã mas cedo se percebe que esse não será o acontecimento mais bizarro do filme.
As personagens desatam em cantoria ou prantos desalmados e desafinados nos momentos mais inesperados que ao invés de cómicos parecem desajustados num filme que é ele próprio desajustado dos tempos e das expectativas de quem viu o original coreano. A única constante é o intenso amor entre os membros daquela família apesar de estes serem dotados de uma patologia colectiva que os impede de tomar decisões acertadas. “The Happiness of the Katakuris” quebra algumas regras e Takashi Miike não é inexperiente no que toca à fuga de padrões. A sua carreira é certamente colorida mas “Katakuris” é, no mínimo divisivo. Enquanto posso apreciar o mérito no mix de géneros e de técnicas e sim, a alusão a "The sound of Music" e "Dawn of the Dead" ficam-se pelo fraco a incipiente, acaba por falhar no mais importante: ter sucesso enquanto comédia, quanto mais comédia musical de terror. Duas estrelas.

Realização: Takashi Miike
Argumento: Kikumi Yamaguchi e Ai Kennedy
Kenji Sawada como Masao Katakuri
Keiko Matsuzaka como Terue Katakuri
Shinji Takeda como Masayuki Katakuri
Naomi Nishida como Shizue Katakuri
Kiyoshirô Imawano como Richâdo Sagawa
Tetsurô Tanba como Jinpei Katakuri
Tamaki Miyazaki como Yurie Katakuri

Próximo Filme: "The Ritual", 2017

domingo, 13 de outubro de 2013

"My wife is a gangster" (Jopong manura, 2001)

Não consegui encontrar o trailer com legendas em inglês mas poderão encontrar o filme com legendas online

Eun-jin (Eun-Kyung Shin) é uma chefe da máfia dura que subiu a pulso. Respeitada e temida por subalternos e inimigos, encontra-se muito perto de se tornar a número um do gangue. Tem quase tudo para ser feliz. Ela inicia a busca para encontrar a irmã Yu-jin (Eung-kyung Lee) de quem tinha sido separada no orfanato. Ela encontra-a mas as notícias não são animadoras: Yu-jin tem cancro em fase terminal. Entre o sentimento de culpa por não a ter procurado mais cedo e a tristeza profunda, Eun-jin promete à irmã satisfazer os seus últimos desejos para tornar a sua partida o mais suave possível. O que Yu-jin pede é uma missão quase impossível. Ela quer que Eun-jin se case antes de morrer com a sua benção. (A utilização de uma doença terminal como arma para justificar a chantagem emocional nunca cessará de me espantar). O que se segue são alguns dos episódios mais caricatos do cinema de comédia dos últimos dez anos. Eun-jin perdeu, a custo de se tornar uma mulher temida e poderosa a sua feminidade e capacidade de se relacionar com os outros. Basta dizer que Yu-jin deve ter sido a primeira pessoa, em muitos anos, a pôr a mafiosa a chorar! As tentativas de transformar esta lagarta numa borboleta são capazes de fazer soltar a gargalhada dos mais cépticos. Desde os conselhos poucos avisados dos seus subalternos à aparência de mulher pouco recomendável completa com uma postura incorrecta e a incapacidade para andar de saltos altos, qualquer oportunidade é boa para puxar pela comédia física. A vítima das tentativas peculiares de sedução de Eun-jin é Sool-i (Sang-myeon) um homem de sucesso no mundo dos negócios e um zero no que respeita a relações. Mas o mundo do crime não descansa e entre a caça ao homem e o conforto de uma irmã no leito da morte, Eun-jin tem de lidar com o gangue dos Tubarões Brancos que tem aumentado a agressão contra os seus homens.

“My Wife is a Gangster” para os mais atentos pode recordar “Married to the Mob” (1988), onde uma Michelle Pfeiffer interpretava o papel de viúva pouco inocente. As semelhanças só se encontram no nome. Pois, enquanto Michelle desejava abandonar essa vida, da qual tinha pleno conhecimento, Sool-i está completamente às escuras quanto ao trabalho de Eun-jin. No entanto, o casal não é tão incongruente como se podia fazer pensar. Eun-jin encontra em Sool-i o contraponto perfeito. Correndo o risco de soar a uma dona de casa americana dos anos 50, no casamento Eun-jin poderá encontrar o “normal” numa vida a dois e deixar de viver apenas para o trabalho. Ele pode trazer a estabilidade e a paz de espírito tão desejada, se ao menos ela deixar. Além disso e, ao contrário do que o título internacional poderia fazer pensar, o enfoque é em Eun-jin e no seu complicado acto de equilibrismo.

“My Wife is a Gangster” não funciona porque há humor de casa-de-banho e comédia sexual a rodos, MWIAG funciona porque o elenco, desde os actores principais aos secundários sabem exactamente do que as suas personagens precisam para funcionar. Won-cheol Sim interpreta o papel de braço direito de Eun-jin cuja lealdade é à prova de fogo. Nunca se coloca em questão se Jang-ka é incorruptível ou não. E a representação é subtil o suficiente para se perceber que Jang-ka está apaixonado por Eun-jin mas nunca iria pôr a relação chefe-subordinado em perigo. Já Eun-ju Choi que surge apenas breves minutos interpreta uma rapariga fácil e pouco pirosa, que ensina Eun-jin a ser mais feminina e versada no sexo com os resultados que se conhece. Em “My Wife is a Gangster”, num movimento típico do cinema coreano, os argumentistas brincam com o género criando uma fusão de comédia com acção dramática. Ora estamos a rir com as tentativas patéticas de Sool-i de levar a mulher a ter relações sexuais com ele, ora um membro querido do gangue de Eun-jin é assassinado por mafiosos. Mas ao invés das investidas reverterem num produto com personalidade múltipla, resulta. As transições são fluidas e só o choque da mudança de ritmo e o tempo já investido no filme, é que poderão conferir um sentimento de embuste. Ou se aceita o mal menor das mudanças de género ou se rejeita o que até ali tinha sido uma boa experiência cinemática. Três estrelas.
Realização: Jin-gyu Cho
Argumento: Hyo-jin Kang e Moon-Sung Kim
Eun-Kyung Shin como Eun-jin ou Mantis
Eung-kyung Lee como Yu-jin
Sang-Myeon Park como Sool-i
Won-cheol Shim como Jang-ka
Eun-ju Choi como Sheri
Jae-mo Ahn como Romeo
In-kwon Kim como Banse
Se-jin Jang como Sang-eo
Jeong-hun Yeon como Hyo-min
Gye-nam Myeong como Chefe

Próximo Filme: Pocong Rumah Angker, 2010

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Pulse" (Kairo, 2001)



Os clássicos são uma daquelas coisas. Como clássicos ficam registados na memória colectiva para a posteridade e alvo de amores e ódios extremos. Até os grandes como o “Ring” e “A Tale of Two Sisters”, são olhados com um esgar de indiferença por muitos. No pior dos casos, serão comparados e considerados inferiores aos remakes ocidentais, embora possa afirmar com relativa segurança que esse é um evento raro.

“Pulse” foi o último dos grandes clássicos do J-horror moderno que vi e digamos que ter assistido a doses massivas de J-horror anteriormente, tem a sua influência. Por outro lado, até o mais leigo dos leigos admitirá que “Pulse” é um dos filmes de terror mais introspectivos e reflexivos da primeira década do século XXI. O que “Ring” fez pela cassete de vídeo, “Pulse” fez pela internet. Nesse aspecto, espero daqui a dez anos, esteja eu neste planeta e consiga olhar para o filme com outros olhos. Claro que “Pulse” pode ser apenas uma grande partida e de crítica social não ter nada. Somos nós os tolos que pensam que sim! Onde “Pulse” não corre tão cedo o risco de ficar desactualizado, infelizmente fará maravilhas pelas insónias. Se ao menos a porcaria do filme fosse mais curto!
E a premissa, para simplificar o complicado, envolve a jovem Michi (Kumiko Aso), que fica preocupada após o colega Taguchi (Kenji Mizuhashi), que estava a trabalhar em casa ao computador nunca mais dar sinais de vida. Quando ele comete suicídio de modo inesperado, reina o choque. Quem podia imaginar? Ele nem era do tipo depressivo… Entretanto Ryosuke (Haruhiko Kato) toma um renovado interesse pelos computadores quando a bela Harue (Koyuke) se sente intrigada pelo facto do seu computador parecer ter vontade própria. Cedo se começa a ouvir falar numa vaga de suicídios, aos quais a visualização de uma imagem perturbadora no computador não é alheia. A resposta óbvia é resistir à tentação de ligar o aparelho, o que no início do milénio nem seria assim tão complicado. Mas a curiosidade, ai a curiosidade...
Onde “Ring” e “Grudge”, se encontram claramente interessados em utilizar a figura da mulher para corporizar todas as coisas demónicas, “Pulse” nunca aponta o dedo a nenhum personagem, preferindo escapar às instigações de uma sociedade patriarcal. Quando os créditos iniciais são apresentados já a maquinaria avança a todo o vapor: os personagens pertencem a uma estória superior a eles. Ao contrário de 99,9% de todos os filmes produzidos, os personagens que vemos no ecrã não são o centro do mundo.  Também não são procuradas respostas no sentido tradicional. Enquanto o retorno ao passado surge como a redenção natural nos filmes anteriores, os personagens de “Pulse” têm o instinto mais apurado para o tempo presente. Infelizmente, a audiência não está alheada da experiência e exige respostas para seu descanso. O ser humano não lida muito bem com ausências e se não tiver as informações que necessita racionaliza. Pois isto é tudo quanto nos resta deste filme do Kiyoshi Kurosawa. Apenas podemos supor quais seriam as suas intenções de aproximação bastante Lynchiana. E Kurosawa é muito mais que um realizador de filmes de terror. Apelidar “Pulse” como um filme somente de terror, não é só redutor como ingénuo. Basta examinar outros esforços do realizador como “Cure”, “Loft” ou “Retribution”. E admitir que a sua visualização não é fácil é um eufemismo. Apesar de se abrir a porta para uma reflexão sobre a solidão e o isolamento da sociedade por influência directa dos equipamentos produzidos pelo ser humano para seu entretenimento, em última análise é a falta de foco que trai “Pulse”. O filme inicia-se com uma vaga de suicídios. Pelo final, nem suicídios nem corpos, apenas uma mancha negra, no sítio onde estariam os desaparecidos. O mais assustador talvez nem seja aquilo que não vemos no ecrã mas as impressões. Onde estão todos? Três estrelas.

Realização: Kiyoshi Kurosawa
Argumento: Kiyoshi Kurosawa
Haruhiko Katô como Ryosuke Kawashima
Kumiko Asô como Michi Kudo
Koyuki como Harue Karasawa
Kenji Mizuhashi como Taguchi
Kurume Arisaka como Junko Sasano

Próximo Filme: "Sex is Zero" (Saekjeuk shigong, 2002)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"Shaolin Soccer" (Siu lam juk kau, 2001)



Neste período de conturbação social e com uma ansia de escapismo crescente, (a alternativa é a depressão) a magia do cinema permite-nos esquecer, pelo menos, por alguns momentos as amarguras da vida. Ora como nem todos têm 6€ para pagar em bilhetes de cinema e, ainda menos têm acesso a convites VIP, vivam as cópias piratas e streaming online. Isto (não) foi um desabafo senhores que regulam estas coisas.
Um desabafo seria talvez admitir a necessidade de assistir a películas inócuas como modo de descansar a retina de governantes, que nem se conseguem a eles próprios convencer da legitimidade dos argumentos que apresentam e, pôr-me a ouvir discos tipo nostalgia, por que já não há paciência para Micki Minajs a assassinar a música.
Valham-nos os “tipos muito engraçados do kung fu” que parecem fazer coisas impossíveis com o corpo – aquela flexibilidade senhores, aquela flexibilidade! E mal não fará se juntarmos ao kung fu uma boa dose daquela pandemia tão bem conhecida do sexo feminino, chamada futebol. Para os mais fervorosos fãs, não, o Benfica não faz nenhuma aparência mas não se preocupem que “Shaolin Soccer” não podia ser mais divertido nem menos polémico. Stephen Chow é Sing, um artista de artes marciais tornado cantoneiro que procura um modo de globalizar o modo de vida shaolin. Ele não é propriamente inteligente senão já se teria apercebido há muito que a sua “perna de aço” e o seu talento inato para jogar futebol podiam tornar real o seu sonho. E como o destino destas coisas, (também lhe podem chamar conveniências de argumento), Sing é aconselhado por Fung (Ng Man Tat), um senhor que nos seus tempos áureos como jogador de futebol era apelidado de perna dourada até a ver quebrada por culpa do companheiro de equipa e óbvio vilão Hung (Patrick Tse Yin). Na linha do amor do ponta-de-lança encontra-se uma mocinha tímida, Mui (Zhao Wei) que faz pão com auxílio do seu magnífico domínio da arte do Tai Chi. Mui representa a estória clássica de rapariga feia vira quase Miss Universo. E que transformação, por entre borbulhas, crostas, cicatriz, cabelo tipo óleo de fritar e, pouco faltou para postulas e bubões. Os senhores da maquilhagem divertiram-se bastante a tornar a bela Zhao Wei feia.


Mas como dizia só temos dois personagens para uma equipa de futebol pelo que temos oportunidade de assistir ao divertido recrutamento e sessão de treinos dos antigos companheiros monges de Sing. Entre os companheiros encontram-se um verdadeiro cabeça dura que é um homenzinho mais cobarde e um “mãozinhas” que passava por clone do Bruce Lee, a que não é alheio o fato-macaco amarelo exactamente igual ao que a lenda do jeet kune do vestiu em “Game of Death” (1972). Todos juntos formam uma dream team, que se torna uma séria candidata ao titulo de melhor equipa do campeonato do mundo. Essa possibilidade deixa Hung a tremer, pelo que recorre sem embaraço às suas técnicas preferidas: batota. Os jogos são qualquer coisa de fabuloso. A equipa shaolin praticamente não chuta a bola, recorrendo a todo o tipo de acrobacias aéreas e à ajuda do computador para colocar a bola dentro da baliza adversária. Francamente? Alguém está à espera que a equipa maravilha perca o jogo?
“Shaolin Soccer” não tem grande estória, do início ao fim é fácil perceber que a fusão shaolin/futebol são apenas uma pretexto para apresentar uma sucessão de gags hilariantes, uns após os outros. Aos momentos de especial comicidade não é alheia a presença especial das estrelas Karen Mok e Cecilia Cheung como capitãs da “equipa do bigode”. Também as brincadeiras com comida por parte do “pequeno” irmão e a transformação física extrema de Mui estão qualquer coisa de fantástico. No meio desta paródia, a moral reside em qualquer coisa como ser perseverante e ter fair-play, que no final os justos serão recompensados. Por fim, fica a sensação que Stephen Chow nos pregou uma grande partida. De facto, pelo número de críticas e, pelas reacções por esse mundo fora ao filme duns tipos do kung fu que jogam futebol, até por quem não aprecia artes marciais é demonstrado que se calhar “Shaolin Soccer” não é assim tão inocente e cumpre para a posteridade o objectivo naif e fantástico de Sing: disseminar o kung fu pelo mundo. Três estrelas e meia.


Realização:  Stephen Chow
Argumento:  Stephen Chow, Chi-keung Fung, Stephen Fung, Wei Lu e Kang-cheung Tsang
Stephen Chow como Sing (Perna de aço)
Zhao Wei como Mui
Man tat Ng como Fung (Perna dourada)
Patrick Tse Yin como Hung (Treinador da Equipa Malvada)

Próximo filme: Sessão Especial Motelx

domingo, 19 de agosto de 2012

"Waterboys" (Wota Boizu, 2001)

Encontram facilmente clipes com legendas em inglês

Quem não adora uma boa estória de pessoas que contra marés e tempestades consegue vingar no mundo do desporto profissional? Não, a sério. Quem não gosta? Existe um amor universal por filmes de cidadãos vulgares que apesar de oprimidos e ridicularizados por competidores mais fortes e poderosos, acabam por encontrar a força dentro de si para vingar sobre todos os obstáculos. É o final feliz que as estórias da vida real não têm. Funciona como uma espécie de compensação para uma ausência experienciada numa vida não ficcional. E vá, aquela estória que deixa uma lágrima no canto do olho e, um pouco mais contentes com a nossa existência na terra durante breves minutos.
Waterboys junta os ingredientes certos para uma hora e meia de diversão que não parece um desperdício de tempo de vida (vide “Disaster movie” (2008), “Date Movie” (2006). Suzuki (Satoshi Tsumabuki) é o último sobrevivente da equipa de natação desfalcada do liceu, que é como um peixe na água e sente que pode fazer algo mais no meio aquático. É ele que vai liderar a revolução na escola de rapazes conservadora e juntar o grupo de rapazes que irá formar o grupo da escola de… natação sincronizada! Sato (Hiroshi Tamaki) é um fala-barato com uma afro (!), que não consegue levar nenhuma actividade até ao fim e, como tal, nenhum dos colegas o leva a sério; Ohta (Miura Akifumi) é o típico miúdo pele e osso que mantém uma obsessão pouco saudável com a prática de exercício físico; Kanazawa (Koen Kondo) é um génio com fobia da água e Saotome (Kaneko Takatoshi) é um rapaz delicado cuja prontidão na resposta aos pedidos de Suzuki faz muitos colegas duvidar da sua orientação sexual.
Suzuki encontrava-se só na equipa de natação da escola, quando a chegada da nova e jeitosa professora Sakuma (Kaori Manabe) fez despontar o interesse de dezenas de colegas. Isso e a possibilidade de impressionar as raparigas de uma escola feminina no festival de Verão. Mas quando a professora Sakuma revela a intenção de criar uma equipa de natação sincronizada masculina, apenas os cinco alunos impopulares parecem apostados em seguir a sugestão.
Com a revelação de que está grávida a professora Sakuma retira-se de cena e deixa os cinco jovens a depender de si próprios. Expostos ao ridículo perante os colegas e com um director que se opõe de modo veemente à iniciativa, parece não existir alternativa senão desistir. Mas Suzuki chegou a uma altura de vida em que desistir já não vai chegar. Indiferente aos que troçam dele e decidido a seguir o sonho até o fim, pede a um treinador de golfinhos (Naoto Takenaka) que os treine.
“Waterboys” tem os seus momentos de gargalhada fácil como o momento em que uma sala inundada de testosterona se esvazia à velocidade da luz, assim que os moços descobrem as verdadeiras intenções da professora, o esquelético Ohta é descoberto a praticar os exercícios de um vídeo de treino vestindo uma tanga minúscula, a professora vai ostentando a barriga de grávida bem à vista de todos alheada da sua condição, e basicamente todas as cenas em que um Sato com uma afro gigante tenta demonstrar seriedade. Os momentos de humor do filme são entrecortados com alguns exageros das personagem do treinador de golfinhos, um Naoto Takenaka, claramente a levar a piada demasiado a sério. Ele que transporta a mesma fórmula de comédia para o filme “Shall we dance?” (1996), a versão japonesa e original! Seria demasiado fácil levar a estória para um campo homoerótico e fazer das personagens, jovens efeminados, enfim, confundir um desporto associado ao universo feminino com a homossexualidade. Foi um caminho que Shinobu Yaguchi felizmente não trilhou. Ora algo me diz que seria demasiado fácil para Hollywood pegar na estória e ir pelo caminho da comédia sexual, como tantas vezes acontece. No máximo, temos actores em tronco nu bastantes vezes, devidamente justificadas pelo argumento para agradar ao público feminino (ou masculino), sem este se sentir culpado por isso (piscadela ao Taylor Lautner). “Waterboys” remete mais para a comédia de uma velha Hollywood de subversão das regras e do género mas com boas intenções. Na verdade, os 90 minutos caminham para o momento especial da grande performance em que os nossos rapazes encontram a verdadeira coragem, todas as promessas são cumpridas e os detractores são obrigados a engolir as suas palavras. Ah e, já referi que nos sentimos bem a seguir? Três estrelas.

Realização: Shinobu Yamaguchi
Argumento: Yasushi Fukuda e Shinobu Yamaguchi
Satoshi Tsumabuki como Suzuki
Hiroshi Tamaki como Sato
Miura Akifumi como Ohta
Koen Kondo como Kanazawa
Kaneko Takatoshi como Saotome
Kaori Manabe como professora Sakuma
Naoto Takenaka como treinador de golfinhos

E por que também ficámos imbuídos do espírito juntamos uma lista de dez filmes para deixar aquele sorriso nos vossos rostos.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

"Ichi the killer" (Koroshiya 1, 2001)


ATENÇÃO: Cenas de violência extrema!

É degradante. É extremo. É ofensivo. É do Takashi Miike. Nada de novo. Não obstante ser uma adaptação de uma mangá “Ichi the Killer” respira Miike por todos os poros. É o tipo de filme com o qual as crianças mais destemidas só deixarão de ter pesadelos quando estiverem bem na adolescência e os velhotes por pouco não terão uma síncope. Sim. É esse tipo de filme. Como tal e, numa manobra de marketing cinematográfico arriscadíssima, desafio-os a continuar a ler esta apreciação ou passarem rapidamente para a seguinte. A partir deste momento estão por vossa conta e risco. Coragem!


No seio da yakuza Kakihara (Tadanobu Asano), um assassino sadomasoquista, vulgo psicopata empedernido descobre que o patrão sumiu. Desapareceu. Desvaneceu-se no ar. Puff. Enquanto os restantes membros da “família” pensam que Anjo fez um desfalque e fugiu, Kakihara está convencido que “alguém o fez desaparecer”. Isso é um bocado mau por que um Kakihara insatisfeito é um homem extremamente perigoso. E ainda mais que o costume já que desapareceu o único homem que o fazia sofrer fisicamente como deve ser. Ele retira prazer da dor e Anjo é o único que lha sabe dar. Jijii (Shyn’ia Tsukamoto) surge na paisagem e acusa Suzuki de ser o autor do crime. Kakihara pode ser fiel como um cão mas não é propriamente inteligente. Então… Pobre Suzuki. O que Kakihara lhe faz, até que é finalmente convencido que Suzuki não tem nada a ver com o acaso. Não interessa. Foi divertido. Aliás, a nova pista é bem mais interessante. Diz que Anjo foi atacado por um tal de Ichi (Nao Ohmori), um temível assassino, sádico como nunca se viu antes. Kakihara vê vermelho… de alegria. É este o fado de quem se deixa agarrar por “Ichi” até ao fim. Assassinatos, tortura, violação, tudo no registo mais violento que possam imaginar. É que “Ichi” é terrivelmente gráfico. Bem, depende. Se são fãs de gore estão perante um excelente filme. Sangue, tripas, desmembramentos, sangue a esguichar por todos os lados, muito sofrimento do ser humano. Se não, como já disse antes, o melhor é verem um filme sobre uma casa assombrada ou assim. Não existe uma única personagem equilibrada neste universo. Uma única que se aproveite. Chanfrados ao extremo ou uns pobres coitados cujas acções mais depressa nos fazem detestá-los do que apiedarmo-nos deles.

No centro da trama encontra-se Kakihara, alguém que rezamos a todos os santinhos para que não exista na vida real. É um sadomasoquista assumido que se não fosse assassino teria de ser um talhante ou caçador. Sei lá. Aquilo só está feliz quando o mal está a ser praticado. E não é de falinhas mansas. Não há cá execuções com tiros para ninguém. Para ele, o acto de matar é como um consumar do acto sexual. Também não se percebe como ele se tornou perverso mas até os próprios subordinados têm medo dele. Dificilmente, alguém voluntaria para deixar Kakihara encostar a cabeça no seu ombro e contar-lhe todos os seus traumas. No espectro oposto encontra-se Ichi, um cobarde e um medroso, que foi atacado por rufias em miúdo e agora, na vida adulta, não se sabe defender. As mazelas de infância e um manipulador nato ajudam a torná-lo um assassino nato. No entanto, ele não sabe controlar os seus desejos, bem retorcidos por sinal, que o fazem ficar com uma erecção de cada vez que vê alguém a ser violentado, em particular, as raparigas por quem se sente excitado mas nunca sonharia satisfazer. E é assim, esta orgia de violência e sexo que faz desencadear uma série de actos inimagináveis e repugnantes. A estória tem algo muito vago que se assemelha a um fio condutor e apenas se aproveitam os personagens, sobretudo os dois antagonistas, saídos quase a papel químico de livros de psicologia, já que devem apresentar um pouco de todos os transtornos de personalidade existentes. Assistir a “Ichi the Killer” é saber que vamos assistir a uma viagem louca, na maioria das vezes desagradável. Então porquê ver? Talvez algum desejo voyeur qualquer de se ver como é a vida do outro lado? Vocês sabem que o têm... Duas estrelas e meia.


Realização: Takashi Miike
Argumento: Hideo Yamamoto e Sakichi Satô
Tadanobu Asano como Kakihara
Nao Ohmori como Ichi
Shyn’ia Tsukamoto como Jjii
Paulyn Sun como Karen
Suzuki Matsuo como Jirô / Saburô

Próximo Filme: Curta #1: "Unholy Women - Rattle Rattle" (Katakata, 2006)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Suicide Club (Jisatku sâkuru, 2001)


A minha estreia no MoteLx iniciou-se com "Suicide Club" (ou se preferirem "Suicide Circle", esta gente não se entende com as traduções). Teria sido muito bom se tivesse visionado outros títulos, mas infelizmente não deu (sou uma pessoa ocupada sim?) E que dizer desta entrada de Shion Sono? Pois... um grupo de 54 colegiais japonesas atira-se para a frente de um comboio na estação de Shinjuku, Tóquio. Na plataforma é encontrada uma mala com um conteúdo grotesco: um enleado de pele humana pertencente às vítimas. O aparente suicídio colectivo levanta as suspeitas da polícia de que um culto talvez esteja por detrás do sucedido. Entretanto, uma hacker contacta a polícia, liderada pelo detective Kuroda (Rio Ishibashi) e indica-lhes um website onde uma série de pontos vermelhos correspondem ao número de mortos. Ponto. Acaba aqui a sanidade. Esta é a parte em que começa a tocar J-pop e quase que posso imaginar um David Cronenberg sob o efeito de calmantes a ver um game-show japonês. E esta, meus caros, é a descrição mais aproximada daquilo que vi. O filme é uma grande trip, uma grande mescla alucinogénia à volta de uma das pragas do século XXI. Com uma das maiores taxas de suicídio do mundo a ter lugar no Japão, um estudo do fenómeno no círculo cinematográfico não seria uma mera coincidência, tão-somente uma questão de tempo. O modo como Sono abordou a questão é que levanta muitas dúvidas.
Com todo o hype que circundou o filme e, ainda hoje existe, as minhas expectativas foram desde sempre altas. Ok, também não ajudou o facto de já ter visto para aí 60% do filme antes vá.  E caíram, ai se caíram, como que de um precipício e vieram a rolar por aí fora, batendo em todas as pedras no caminho. Percebi alguma coisa das intenções de Sono ou acho que percebi, outras nem por isso. Por exemplo, é irónico que numa sociedade onde é virtualmente impossível não estar ligado, não soem gritos de ajuda. Onde os telemóveis, a ligação à Internet e o escondermo-nos por detrás de uma alcunha parecem mais naturais do que dizer simplesmente: "estou deprimido". Talvez seja apenas difícil dizer aos adultos aquilo que se está a sentir ou talvez eles não estejam sintonizados para ouvir, tal é o fosso geracional. Seja como for, "Suicide Club" não deixa de ser uma sátira onde se debate um poderoso jogo de vontades onde eles (os suicidas) ganham e todos os outros em redor perdem. O meu grande problema é que esta reflexão está por baixo de camadas e camadas de J-pop (aparentemente) aleatório já que é preciso chegar ao fim do filme para se compreender o significado da misteriosa banda "Dessert" de miudinhas de 12/13 anos com músicas também, aparentemente, inócuas, um bando de tarados com a mania das grandezas que matam e violam e cuja maior pretensão é a comparação ao Charles Manson e outras tantas distracções.
As actuações não são nada de extraordinário mas também não se pode dizer que exista um grande argumento embora a oportunidade de nos concentrarmos no velho polícia esperto como uma raposa, avesso às novas tecnologias tenha sido claramente perdida. Outra oportunidade desperdiçada foi a de instalar um sentimento de pânico, um sentimento de urgência para a resolução da série de suicídios que começam a varrer o país. Um thriller detectivesco puxaria sempre menos pelos miolos mas seria infinitamente mais satisfatório. Com a cena inicial brutal e brilhante como é, um dos melhores inícios de filmes que já vi (sim, é uma declaração arriscada), sinto que me puxaram o tapete debaixo dos pés. “Suicide Club” promete imenso mas não cumpre. Deixa-nos num intenso êxtase prematuro para chegarmos ao final, com a sensação de que sabemos tanto quanto antes, ou menos, que o raio do filme é confuso. "Suicide Club" ou se ama ou se odeia e eu não amei. Tecnicamente está bem conseguido, há gore, há... Uma grande confusão. Uma estrela.
Realização: Shion Sono
Argumento: Shion Sono
Elenco:
Rio Ishibashi como Detective Kuroda
Masatoshi Nagase como Detective Shibusawa
Rolly como Genesis

Próximo Filme: "Insidious", 2011
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...