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domingo, 19 de agosto de 2018

"The Lies she Loved" (Uso wo aisuru onna, 2017)


Com uma carreira de sucesso invejável numa empresa de desenvolvimento de refrigerantes e um namorado gentil que trabalhava na área da pesquisa médica e acomodava todos os seus caprichos, ela tinha tudo. Depois deixou de ter.
Cinco anos antes Yukari Kawahara (Masami Nagasawa) conheceu Kippei Koide (Issey Takahashi) após uma situação de emergência que obrigou à evacuação do metropolitano em que ambos seguiam. Ela estava a ter uma crise de ansiedade e ele sobressaiu da multidão anónima para a ajudar. A mulher dedicada à carreira abriu o coração e não olhou para trás até ao dia em que a polícia lhe bate à porta, pedindo informações sobre o namorado. Kippei teve uma hemorragia cerebral e encontra-se em coma mas tiveram grande dificuldade em chegar a Yukari pois, como descobriram, a identidade de Kippei é falsa. Yukari Kawahara entra numa rota descendente. À negação, ao sentimento de que tudo não passa de um terrível engano passa à resignação de saber que Kippei – será mesmo esse o nome dele? –, a pessoa com quem partilhou cinco anos de intimidade, lhe mentiu, até chegar por fim, à revolta. O facto de a polícia não ter resposta para as muitas perguntas que tem e, enfim, assumirem apenas que Kippei é uma fraude que utilizou Yukari para ter comida e um tecto dado que era ela que pagava as contas, leva-a a contratar um detective privado Takumi Kaibara (Kotaro Yoshida), para desvendar a verdadeira identidade de Kippei.
Masami Nagasawa é a estrela de “The Lies she loved”. Ela interpreta um papel para qual flui naturalmente simpatia. “A mulher enganada”; “a pobre mulher ingénua que deu tudo de si numa relação para ser traída por um traste”; são as primeiras e óbvias linhas de pensamento mas Masami foge a isso. Ela interpreta uma mulher vitimizada pela revelação no entanto, não intrinsecamente uma vítima. A sua personagem não é perfeita. Naqueles cinco anos Yukari foi tudo menos a namorada exemplar o que não quer dizer que não seja digna de respostas. Ela recusa-se ceder à dor e aposta na fuga para a frente. Quer saber a verdade aconteça o que acontecer e custe a quem custar, mesmo sabendo que Kippei pode nunca vir a acordar ou poderá ter sequelas muito graves.
O argumento de Kazuhito Nakae é inteligente e maduro. As personagens são tridimensionais e os seus motivos são bem trabalhados. Nada é tão simples quanto um: “ele enganou, ela é enganada, ela confronta-o, cada um segue o seu caminho e todos são felizes para sempre”. Em primeiro lugar porque a personagem de Yukari é uma feminista com a opção de vida muito clara de ter uma carreira de sucesso e uma relação romântica. Se calhar tem até algum medo do compromisso, o que vai sendo desvendado através de decisões dúbias que toma ao longo da relação. Estas personagens, pelo menos no cinema japonês são mais tipicamente associadas aos intérpretes masculinos. Onde é que já se viu uma mulher segura de si própria que tem um trabalho de sucesso e uma relação e o cônjuge é que trata da lida da casa? Por outro lado, Kippei Koide sobressai como mais do que uma alma ferida que um aldrabão com um coração de pedra. Ele é votado de uma sensibilidade extrema que advém de um passado misterioso mas não é nenhum capacho. É como se através das analepses, que são bastantes, Nakae quisesse demonstrar que a fotografia é tão simples como é apresentada. Nem Yukari é um anjo e ela até surge como um bocado egoísta – por vezes a personagem parece mais interessada em manter o retrato mental que tem da sua relação do que em melhorá-la de facto. O argumento dá espaço a outras personagens como o detective Kaibara, um pouco distraído e desorganizado como um Colombo japonês que tem direito a um subenredo aquém do esperado e que se desenlaça de forma bonitinha ou a lolita Kokoha (Rena Kawaei) com uma paixão por Kippei mas tão limitada que nunca representa um verdadeiro obstáculo. O objectivo e a meta está na relação romântica de duas pessoas como o cenário intimista não se cansa de mostrar.
Vai soar a cliché mas o mais importante em “The Lies she loved” é o caminho e não o destino. A recompensa reside em acompanhar a viagem de Yukari na vida real, pelo Japão para trazer para a luz do dia os segredos que a polícia não colocou a descoberto e a sua viagem interior que a faz perceber quem é enquanto pessoa, mulher e parceira e o que pretende para a sua vida. Três estrelas.
Realização: Kazuhito Nakae
Argumento: Kazuhito Nakae
Masami Nagasawa como Yukari Kawahara
Issey Takahashi como Kippei Koide
Kôtarô Yoshida como Takumi Kaibara
Daigo como Kimura
Rina Kawaei como Kokoha

Próximo filme: "Blood Curse" (Coisa Ruim, 2006)

domingo, 6 de maio de 2018

"A Silent Voice" (Koe no Katachi, 2016)


“A Silent Voice” que também é conhecido internacionalmente como “Shape of Voice” – vi esta animação poucas semanas depois de o “The Shape of Water”, na MONSTRA e acreditem que a minha cabecinha teve de fazer um rewind para não confundir as coisas – foi um dos maiores êxitos de bilheteira no Japão em 2016, baseado, para não variar, numa manga japonesa. O sucesso do filme não será alheio a factores como um certo despudor para o visionamento do cinema de animação por públicos mais adultos e ainda ao tema tão pertinente no país como o “bullying”. Os casos de bullying são transversais à sociedade japonesa. A cultura do pensamento colectivo, do silêncio do desconforto individual produzem vítimas em idades tão jovens desde o jardim-de-infância à universidade, transpondo-se depois para o mercado de trabalho.

“A Silent Voice” tem um início deprimente. Shoya (Miyu Irino) faz os preparativos para a sua morte anunciada e resolvida no seu âmago. É um rapaz calado e anti-social que passa despercebido e também não pretende ser notar. Mais vale evitar conflitos. Não raras vezes, veremos Shoya a olhar para os pés, querendo evitar qualquer contacto visual e rodeado de pessoas com uma cruz sobre os seus semblantes. São as pessoas a ignorar, não conectar, a todo o custo evitar. O seu comportamento transporta-nos para a escola primária. Dir-se-ia que ele tinha sido alvo de bullying ao longo de toda a sua existência. Na verdade ele começou por ser um. Quando Shoko, uma nova aluna surda chegou à sua aula, o então inquieto, barulhento, sem noção e incapaz de transmitir os seus verdadeiros sentimentos Shoya faz dela o alvo principal das suas partidas. Essa história tem um fim quando Shoko acaba por ser transferida para outra escola por não aguentar mais os abusos. Censurado por professores e colegas, Shoya acaba por se tornar vítima do seu próprio veneno, retirando-se para o seu interior, onde tudo é mais suportável até se tornar um jovem adulto. No entanto, o seu caminho volta a cruzar-se com Shoko e a sua família, os velhos amigos que lhe dificultaram a vida e ainda outros que permitem a Shoya encontrar o verdadeiro valor na sua vida e se sempre haverá a possibilidade de expiação de pecados.

Esta animação tem menos de espectáculo que de introspecção. Não me entendam mal, que a animação é tão competente e belíssima quanto costuma ser regra no cinema japonês, a abordagem é que se foca mais na narrativa que na forma. “A Silent Voice” revela-se uma reflexão interessante sobre o bullying pois foca diversos pontos de vista, incluindo um central que não é tão habitual que é o de quem comete bullying, ainda que Shoya seja um bully arrependido. Entre as diversas questões que a animação levanta, estão, por exemplo: até quando se deve carregar o fardo da culpa por eventos cometidos há muitos e muitos anos. Shoya era um miúdo imaturo e parvo quando fez mal a outra criança e acabou por sofrer a vida toda por isso. Contudo, Shoya não era o único a fazê-lo e acabou por ser o único a ser castigado. Mesmo após diversas trocas de argumentos já em jovem adulto com os colegas, esses continuam a não querer aceitar que tiveram um papel activo no bullying de Shoko recriminando-a até pelo seu sofrimento e do de Shoya. Duas vezes vítima. Serão eles melhores que Shoya quando nunca assumiram as suas acções erradas e acabaram depois por fazer o mesmo a Shoya quando este foi “apanhado”? “A Silent Voice” é conducente a uma reflexão ainda mais pessoal do espectador, pela sua própria experiência enquanto vilão ou vítima em situações similares. Será Shoya uma figura trágica digna de empatia ou é ainda e sempre um monstro? Perdoar? Esquecer? Tudo isto é tão mais amplificado quão doce é a sua vítima Shoko. Apesar de tudo quanto lhe aconteceu nunca foi capaz de “lutar” contra Shoya por quem sente carinho.
Em comum entre todos os personagens está o profundo desejo de conexão, aquele que tão desesperadamente se procura durante toda a juventude e até eventualmente pela vida adulta fora. É ainda um retrato muito realista das desventuras da juventude pois a acção nos locais que se identificam com ela, na escola, em casa, na rua, no parque, na feira popular… É muito difícil não apreciar o mérito de reprodução daqueles momentos tão fulcrais na construção da personalidade, de “A Silent Voice” mesmo quando este se torna tão histriónico quanto a vida interior adolescente e até um poucochinho demais delicodoce. Três estrelas e meia.

Realização: Naoko Yamada
Argumento: Reiko Yoshida, Yoshitoki Oima (manga) e Kiyoshi Shigematsu
Miyu Irino voz de Shôya Ishida
Saori Hayami voz de Shoko Nishimiya
Aoi Yûki voz de Yuzuru Nishimiya
Kenshô Ono voz de Tomohiro Nagatsuka
Yûki Kaneko voz de Naoka Ueno
Yui Ishikawa voz de Miyoko Sahara
Megumi Han voz de Miki Kawai
Toshiyuki Toyonaga voz de Satoshi Mashiba
Mayu Matsuoka voz do jovem Shoya Ishida

Próximo filme: "Tracer" (Truy Sat, 2016) 

domingo, 15 de junho de 2014

Pee Mak Phrakanong, 2013


Passaram-se seis anos, desde que estreou “4bia”, uma pequena antologia de terror, que viria a juntar um dos quartetos com a química mais fantástica que já passou pelo ecrã e provou (caso ainda persistissem duvidas), que comédia e terror constituem um casamento mágico. 

“Pee Mak Phrakanong” foca a estória de Mak (Mario Maurer) um soldado que regressa para os braços da mulher que deixou grávida, Nak (Davika Horne) depois de ter sido forçado a ir combater para a guerra. Consigo traz quatro camaradas com quem firmou uma amizade para o resto da vida Ter (Nuttapong Chartpong), Aey (Kantapat Permpoonpatcharasuk), Shin (Wiwat Kongrasri) e Puak (Pongsathorn Jongwilak) respectivamente. (Desafio-vos a ler o nome dos actores em menos de 10 segundos!) Na aldeia o recém-chegado não é recebido da melhor forma: corre o rumor que Nak faleceu durante o nascimento do filho de ambos e assombra agora o local. Nak ignora os avisos e corre para o conforto do lar providenciado por Mak onde esta o recebe como se nada se tivesse passado. Os seus quatro amigos cedo apresentam as mesmas suspeitas que os aldeões mas, como avisar Mak que o amor da sua vida é um fantasma? Pior, como avisar Mak sem atrair a ira de Nak?

A estória baseia-se na lenda de Mae Nak, uma mulher que morre durante o parto mas se recusa a deixar o mundo dos vivos para atender ao marido Mak. Quem se opõe a tal ligação acaba morto até que Mak, por fim, descobre a verdade e foge. Segundo versões diversas da lenda, a alma de Nak é libertada mediante o ritual do exorcismo ou capturada num recipiente. A lenda é especialmente venerada como a prova mais forte do amor conjugal capaz de ultrapassar até a morte. Esta versão cienamtográfica é mais leve e reinventa a estória sem se afastar das linhas gerais e sem se escusar, no entanto, a momentos sinistros. “Pee Mak Phrakanong” ficou em boas mãos, pois tem associados Banjong Pisanthanakun e Chantavit Dhanasevi que colaboraram no argumento das antologias “4bia” e “5bia”, sendo que este último também protagonizou o não menos original “Coming Soon” e o quarteto cómico maravilha participou nas antologias já mencionadas. Todos habituados ao delicado acto de equilibrismo entre comédia e terror.

Confirma-se a falta a gravidade da lenda que inspirou o filme desde o primeiro sorriso, negro, do elenco, (a sério, uma marca de pasta de dentes podia ganhar rios de dinheiro tendo-os por representantes). É que nem a belíssima Davika Horne com a sua tez branca que faz concorrência às marcas de detergente, escapa a um sorriso destroçado! Some-se à dentição podre, penteados extraordinários que alternam entre a mais vulgar poupa, com uma altura que desafia a gravidade ao risco ao meio a terminar em autênticas asas! E para o caso da audiência temer fazer alguma observação sobre o facto, os actores antecipam-se e desdobram-se em piadas sobre o facto. A auto-consciência de um argumento é sempre divertida: “Isto é ridículo. E depois?” Na relação de Mak e Nak que é adorável e credível – despojem os actores de vestes parvas e comédia física e o que sobra é um jovem casal apaixonado –, é que se encontra o foco da estória mas é no quarteto fantástico que reside o segredo do sucesso deste filme. Os actores demonstram o grau de conforto de quem contracena há muitos anos em parceria. Delírio talvez, mas não seria estranho imaginar que existe de facto uma amizade entre eles. Embora o mais provável seja mesmo o talento natural para a comédia, aliado a uma excelente direcção. Com o argumento inteligente, que procura referências populares incluindo o “Rocky” (1976) ou “The Last Samurai” (2003), há espaço para o improviso e é notável o modo como os actores se alimentam da energia mútua para tornar as linhas de diálogo mais vivas. Mais, se conseguem atravessar cenas como a do jogo de mímica “Está um Fantasma entre nós”, a assombração de uma Casa Assombrada (sim, leram bem) e a fuga de canoa mais lenta de sempre que valem sobretudo pela comédia física é recomendável a visita de um médico pois têm um sério problema de falta de humor. Três estrelas e meia.
O melhor:
- A química do elenco
- Cenas de rir à gargalhada
- Comédia física

O Pior:
- A estória é sacrificada em prol da comédia (Isso é mau?)
- Caracterização dos actores. Havia necessidade de ir tão longe para produzir efeito cómico?

Realização: Banjong Pisanthanakun
Argumento: Banjong Pisanthanakun, Chantavit Dhanasevi e Nontra Kumwong
Mario Maurer como Mak
Davika Horne como Nak
Nuttapong Chartpong como Ter
Kantapat Permpoonpatcharasuk como Aey
Wiwat Kongrasri como Shin
Pongsathorn Jongwilak como Puak
Sean Jindachot como Ping


Próximo filme: "The Forbidden Door" (Pintu Terlarang, 2009)

Senhoras e senhores, o quarteto fantástico!

domingo, 13 de outubro de 2013

"My wife is a gangster" (Jopong manura, 2001)

Não consegui encontrar o trailer com legendas em inglês mas poderão encontrar o filme com legendas online

Eun-jin (Eun-Kyung Shin) é uma chefe da máfia dura que subiu a pulso. Respeitada e temida por subalternos e inimigos, encontra-se muito perto de se tornar a número um do gangue. Tem quase tudo para ser feliz. Ela inicia a busca para encontrar a irmã Yu-jin (Eung-kyung Lee) de quem tinha sido separada no orfanato. Ela encontra-a mas as notícias não são animadoras: Yu-jin tem cancro em fase terminal. Entre o sentimento de culpa por não a ter procurado mais cedo e a tristeza profunda, Eun-jin promete à irmã satisfazer os seus últimos desejos para tornar a sua partida o mais suave possível. O que Yu-jin pede é uma missão quase impossível. Ela quer que Eun-jin se case antes de morrer com a sua benção. (A utilização de uma doença terminal como arma para justificar a chantagem emocional nunca cessará de me espantar). O que se segue são alguns dos episódios mais caricatos do cinema de comédia dos últimos dez anos. Eun-jin perdeu, a custo de se tornar uma mulher temida e poderosa a sua feminidade e capacidade de se relacionar com os outros. Basta dizer que Yu-jin deve ter sido a primeira pessoa, em muitos anos, a pôr a mafiosa a chorar! As tentativas de transformar esta lagarta numa borboleta são capazes de fazer soltar a gargalhada dos mais cépticos. Desde os conselhos poucos avisados dos seus subalternos à aparência de mulher pouco recomendável completa com uma postura incorrecta e a incapacidade para andar de saltos altos, qualquer oportunidade é boa para puxar pela comédia física. A vítima das tentativas peculiares de sedução de Eun-jin é Sool-i (Sang-myeon) um homem de sucesso no mundo dos negócios e um zero no que respeita a relações. Mas o mundo do crime não descansa e entre a caça ao homem e o conforto de uma irmã no leito da morte, Eun-jin tem de lidar com o gangue dos Tubarões Brancos que tem aumentado a agressão contra os seus homens.

“My Wife is a Gangster” para os mais atentos pode recordar “Married to the Mob” (1988), onde uma Michelle Pfeiffer interpretava o papel de viúva pouco inocente. As semelhanças só se encontram no nome. Pois, enquanto Michelle desejava abandonar essa vida, da qual tinha pleno conhecimento, Sool-i está completamente às escuras quanto ao trabalho de Eun-jin. No entanto, o casal não é tão incongruente como se podia fazer pensar. Eun-jin encontra em Sool-i o contraponto perfeito. Correndo o risco de soar a uma dona de casa americana dos anos 50, no casamento Eun-jin poderá encontrar o “normal” numa vida a dois e deixar de viver apenas para o trabalho. Ele pode trazer a estabilidade e a paz de espírito tão desejada, se ao menos ela deixar. Além disso e, ao contrário do que o título internacional poderia fazer pensar, o enfoque é em Eun-jin e no seu complicado acto de equilibrismo.

“My Wife is a Gangster” não funciona porque há humor de casa-de-banho e comédia sexual a rodos, MWIAG funciona porque o elenco, desde os actores principais aos secundários sabem exactamente do que as suas personagens precisam para funcionar. Won-cheol Sim interpreta o papel de braço direito de Eun-jin cuja lealdade é à prova de fogo. Nunca se coloca em questão se Jang-ka é incorruptível ou não. E a representação é subtil o suficiente para se perceber que Jang-ka está apaixonado por Eun-jin mas nunca iria pôr a relação chefe-subordinado em perigo. Já Eun-ju Choi que surge apenas breves minutos interpreta uma rapariga fácil e pouco pirosa, que ensina Eun-jin a ser mais feminina e versada no sexo com os resultados que se conhece. Em “My Wife is a Gangster”, num movimento típico do cinema coreano, os argumentistas brincam com o género criando uma fusão de comédia com acção dramática. Ora estamos a rir com as tentativas patéticas de Sool-i de levar a mulher a ter relações sexuais com ele, ora um membro querido do gangue de Eun-jin é assassinado por mafiosos. Mas ao invés das investidas reverterem num produto com personalidade múltipla, resulta. As transições são fluidas e só o choque da mudança de ritmo e o tempo já investido no filme, é que poderão conferir um sentimento de embuste. Ou se aceita o mal menor das mudanças de género ou se rejeita o que até ali tinha sido uma boa experiência cinemática. Três estrelas.
Realização: Jin-gyu Cho
Argumento: Hyo-jin Kang e Moon-Sung Kim
Eun-Kyung Shin como Eun-jin ou Mantis
Eung-kyung Lee como Yu-jin
Sang-Myeon Park como Sool-i
Won-cheol Shim como Jang-ka
Eun-ju Choi como Sheri
Jae-mo Ahn como Romeo
In-kwon Kim como Banse
Se-jin Jang como Sang-eo
Jeong-hun Yeon como Hyo-min
Gye-nam Myeong como Chefe

Próximo Filme: Pocong Rumah Angker, 2010

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

“Ayakashi – Samurai Horror Tales: Goddess of the Dark Tower”, (Ayakashi – Tenshu Monogatari, 2006)


Basta irem seguindo os links

“Goddess of the Dark Tower” é o segundo capítulo da mini-série de animação “Ayakashi – Samurai Horror Tales” e estende-se por quatro episódios. À semelhança de “Yatsuya Ghost Story”, a primeira estória da série, “Goddess of the Dark Tower” baseia-se numa peça de teatro que foca o amor proibido entre um humano e uma deusa.

Zushonosuke é encarregado pelo tolo Lorde Harima a recuperar Kojiro, um falcão precioso e inadvertidamente cruza-se com a deusa Tomihime por quem se apaixona à primeira vista. Perdidos de amores entregam-se a um amor proibido e perigoso, à medida que a fronteira entre os reinos se esbate e os samurais a mando do Lorde Harima, invadem o castelo dos deuses para recuperar o falcão.
“Goddess of the Dark Tower” apresenta a narrativa mais convencional da série, é apenas a velha estória do amor que encontra bastantes obstáculos mas no final acaba por vencer (será?). Além dos diferentes planos de existência humanidade vs. Espirito não há grandes objecções a que Zushonosuke e que Tomi permaneçam juntos a não ser, talvez de cariz moral. Está bem que ela é uma deusa lindíssima mas ele já tinha uma companheira e é sempre difícil (a população feminina deve concordar comigo) apoiar um traidor. Quais amores, qual quê? Se já estás comprometido não tens nada que invadir seara alheia. Ele também não demonstra grande conflito com o facto de ela e as outras deusas que habitam o castelo, todas belíssimas por sinal, serem comedoras de homens. Não admira que as suas existências não se devam cruzar. Se fosse ele, também não achava grande piada. Eles podiam chatear-se à séria e ela comia-o por vingança. Infelizmente, para os que os rodeiam este é um caso de estar no sítio errado à hora errada. Por causa de um falcão, o castelo é invadido e o confronto entre deusas e o exército samurai é inevitável.
O samurai, personagem histórica japonesa é fascinante não apenas em termos estéticos mas no que diz respeito ao seu código de conduta. É comovente uma dedicação que até à morte é total e ilimitada. Ao mesmo tempo é desconcertante uma dedicação cega ao serviço de homens que personificam o pior da espécie, sobretudo quando a maldade se alia à tolice.  Por isso, apesar de resultar em imagens incríveis, a morte indiscriminada movida por motivos fúteis é de difícil compreensão. No meio de uma chacina descabida há ideias soltas que fornecem brilho pontual a um episódio, de outro modo, desinteressante. A transformação da deusa, do seu invólucro humano para toda a sua glória divina e as diversas habilidades das deusas para destruir o inimigo comum constituem os momentos altos. Não há limites para o que os deuses podem fazer. De resto, o romance proibido nunca é suficientemente convincente. Abdicar da humanidade ou divindade por um amor rápido e perigoso parece demasiado forçado. Redunda no dramazeco romântico e não no conto de terror que o título pretende fazer crer. É uma entrada que não traz valor acrescentado à série, sendo direccionado para um público mais calmo, fã de romance com alguns salpicos de acção e avesso ao terror. Quando muito contribui para a descida da qualidade média da série. E, até aqui, posso afirmar que estava desiludida com “Samurai Horror Tales”. Teria de esperar por “Goblin Cat” para ficar impressionada… Duas estrelas.
  Realização: Hidehiko Kadota
Argumento: Yuuji Sakamoto
Designer de animação: Yasuhiro Nakura
Hikaru Midorikawa (Japonês) e Kirby Morrow (Inglês) voz de Zoshonosuke Himekawa
Houko Kuwashima (Japonês), Willow Johnson (Inglês) voz de Tomihime
Saeko Chiba (Japonês), Tracey Power (Inglês) voz de Oshizu
Yui Kano (Japonês), Anna Cummer (Inglês) voz de Ominaeshi
Kappei Yamaguchi (Japonês), Alec Willows (Inglês) voz de Kaikaimaru
Masaya Onosaka (Japonês), Samuel Vincent (Inglês) voz de Kikimaru




Próximo Filme: “Ayakashi – Samurai Horror Tales”: Goblin Cat, (Ayakashi – Bake Neko, 2006)

domingo, 21 de outubro de 2012

"Sex is zero 2" (Saek-jeuk-shi-gong-ssi-zeun-too, 2007)



Preparados para nova dose da comédia sexual mais sem-vergonha a sair da Coreia-do-sul nos últimos anos? “Sex is zero 2” faz tudo bem: provoca os mais puritanos e faz soltar as gargalhadas e a testosterona dos jovens obcecados por sexo. Esta sequela do filme de 2002 traz as mesmas personagens e sequências ainda mais arriscadas, chegando mesmo a induzir o vómito. Mas “Sex is zero 2” não propõe re-inventar a roda e segue rigorosamente a mesma fórmula do original.

Eun-sik (Ghang-jung Lim) continua o mesmo “adorável” falhado que não tem muita sorte e que cada vez se parece menos com um estudante universitário. Pudera, aos 30 anos! Depois de abandonado por Eun-hyo (Ji-won Ha), ele consegue arranjar uma nova namorada em Kyeong-ah (Ji-hyo Song), que parece gostar genuinamente dele. Mas a sorte dele nem por isso melhora. Enquanto os amigos lá vão conseguindo dar cambalhotas, um deles inclusivamente mudou de sexo nos últimos 3 anos e já está noivo, ele continua sem conseguir a tão almejada intimidade com Kyeong-ah. Ele vai tentando através de insinuações directas e indirectas e às vezes, Kyeong-ah até parece disposta a ceder. Só que na hora H retrai-se. Não está pronta.
Mas Eun-sik já esperou 3 anos e os seus amigos não estão dispostos a vê-lo esperar mais e a desperdiçar a juventude o que conduz às inevitáveis peripécias que o separam de Kyeong-ah, ao invés de os tornar mais próximos. Entretanto, um antigo pretendente da rapariga, Gi-joo (Sang-yoon Lee) mais bonito, rico e bem-sucedido e com as boas graças da sogra retorna decidido a fazer dela sua esposa.
Desta feita as universitárias não praticam fitness mas estão na equipa de natação o que proporciona momentos mais do que suficientes para estarem à beira da piscina em trajos menores. Os homens, esses, continuam obcecados com as artes marciais, tendo por fim, direito a brilhar num torneio elaborado à pressa para o momento climático do filme.
A maioria das personagens são anedotas andantes, com reacções demasiado exageradas e actos demasiado disparatados para que lhes possamos atribuir alguma credibilidade. Uma das personagens tem um comportamento próximo ao da psicopatia sempre que desconfia que o namorado possa estar a trai-la, outra não consegue encarar a realidade de que o ex-namorado é agora uma mulher e que gosta de homens por fim, temos os pervertidos de serviço para quais já não chega espreitar, também têm de brincar com os orifícios dos outros… Só Eun-sik e Kyeong-ah mantêm alguma proximidade com a realidade, parecendo-se com um casal que podia existir. Enquanto meio mundo à sua volta só pensa no acto sexual, 99% do tempo, quer dentro e fora de uma relação amorosa, o par principal mantém um relacionamento parecido com o de adolescentes que estão apaixonados pela primeira vez e ainda possuem alguma inocência quanto aos factos da vida. Eis a vantagem de Kyeong-ah sobre Eun-hyo, a antiga namorada de Eun-sik. Ela tem genuína afeição por Eun-sik, mesmo com um fraco quociente intelectual e as suas tentativas desajeitadas de a levar para a alcova. É a sua doçura que a atrai. Kyeong-ah nunca ficaria com o tolo Eun-sik por piedade. Onde a antiga relação nos faria estremecer a actual aproxima a audiência dos personagens e fá-la ficar do lado destes, torcendo para que as desventuras do par romântico culminem num final feliz. À semelhança do filme anterior, "Sex is Zero 2" está fadado para um último terço dramático. Felizmente, nesta nova aventura a viragem dramática já não é tão desconexa nem radical. Para os fãs do género “Sex is zero 2” é um repescar das piadas que fizeram do primeiro filme um sucesso, com um período ainda menor de reflexão sobre os malefícios do sexo desprotegido ou sem sentimentos envolvidos. Para dizer a verdade, o que a malta quer é passar da palavra à acção e disso, “Sex is zero 2” tem bastante. Três estrelas.

Realização: Tae-yun Yoon
Argumento: Je-gyun Yun
Ghang-jung Lim como Eun-sik
Ji-hyo Song como Kyeong-ah
Shin-ee como Kyeong-joo
Chae-yeong Yoo como Yoo-mi
Hwa-seon como Yeong-chae
Sang-yoon Lee como Gi-joo

Próximo Filme: "Aokigahara: Suicide Forest", 2010

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Echoes of the Rainbow" (Sui yuet san tau, 2010)

“Echoes of the Rainbow” não se enquadra na temática habitual do Not a Film critic. É que nem de acção é. Não tenham ilusões. Certamente, não se enquadra na minha filosofia sobre filmes do género (Oportunidade para inserir link aleatório para outro texto aproveitada). Mas prometi-me assistir a pelo menos um dos filmes da 3ª Mostra de Cinema de Hong Kong. Como um dos meus gurus online aconselhou “Echoes” e sou altamente influenciável atirei-me de cabeça ao dramalhão. O resultado é um retrato ficcional da infância de Alex Law. Um retrato melodramático entenda-se. Eis que desembainho os meus argumentos para verem o filme. Eu chorei. Vêm como apelei ao sentimento ali atrás? Ok. É um descaramento assumir que dão alguma importância aos meus apelos mas não vos aconselhei já tantos bons filmes? (Ou, pelo menos, imaginemos que sim). Se não gostam de drama podem considerar “Echoes” um filme de terror. Se apreciam o género dramático e desfazem-se por estórias simples, vindas do coração, a estória do senhor Law irá provocar reacções químicas satisfatórias nos vossos corpos.
A família Law sobrevive na Hong Kong de final dos anos 60. O senhor Law (Simon Yam) é um sapateiro que representa o único sustento da família que luta para pôr comida na sua mesa, fazer subornos a polícias corruptos e ainda pagar as propinas da escola do filho mais velho enquanto repete o mantra de que “nada é mais importante do que ter um tecto sobre a cabeça”. A senhora Law (Sandra Ng) é a mestre do regateio que mete vergonha a um qualquer comerciante de uma medina em Marrocos. Expedita, segura e com inteligência emocional elevada ela é também a âncora da família. Desmond (Aarif Rahman) é o filho mais velho do casal. Perfeito em todos os aspectos, ele é o que todos os outros crescem a odiar: aluno brilhante, atleta fora de série e o queridinho das moçoilas. Como se nada disto bastasse, ele é um rapaz sério e não tem olhos para mais nenhuma outra que a sua Flora (Evelyn Choi). Orelhas Grandes (Buzz Chung) completa o quadro familiar. É um pequeno traquina, protegido por todos. Ele nasceu fora de tempo e talvez por isso, seja um pequeno tirano, que sabe bem tirar partido da conjuntura familiar e arranjar perdão para as suas malandrices. Ele desleixa-se na escola, nos deveres e… tem mão leve. Podia ser uma vida idílica. Ora, como bem sabemos e os Law tanto fazem questão de frisar, “depois da tempestade vem a bonança”. E eles escaparam à maré brava por tempo demais. Quando a tragédia se abate, eles refugiam-se no pouco que têm, os laços que os unem. É através dos olhos inocentes de Orelhas Grandes que assistimos, quais voyeurs à felicidade e à queda dos Law. Somos convidados a sentar-nos à mesa com eles, a experimentar os seus sapatos, a testemunhar o amor que os une e a presenciar as suas perdas. Atente-se sobretudo aos desempenhos espantosos de Simon Yam e Sandra Ng. Sendo que Yam chegou mesmo a receber o prémio de melhor Actor dos Hong Kong Film Awards 2010. Outra estrelinha é Buzz Chung como Orelhas Grandes, um pequeno sonhador que vê o mundo através de um aquário. É que ele na Hong Kong dos anos 60 quer ser um astronauta. Tão giro não é? Já o irmão Desmond é tão bom rapaz que custa a crer que exista semelhante ser. Ao mesmo tempo é um desempenho aborrecido por ser tão mais fácil que o de Chung. Os irmãos são como o azeite e o vinagre em personalidade e na representação. No conjunto, o elenco é um portento. Se não soubéssemos diríamos que estávamos a assistir à dinâmica de uma família real tal a sua entrega. Rimos e choramos com eles mesmo que a alturas o ritmo estagne e pareça chafurdar indefinidamente na tragédia humana. “A audiência está triste?” “Não chega. Vamos pô-los miseráveis!” Facto é que os dramas humanos são duros e intermináveis (ou assim parecem).
“Echoes of the Rainbow” é um bom candidato a censura sobre a ausência de crítica social e política. A espaços parece que o argumento vai tomar essa rota e depois retrai-se. As alusões estão lá. Resta saber se são propositadas ou não passam de meros motivos espácio-temporais. Custa-me ser crítica neste ponto. Se o objectivo do filme é demonstrar a dinâmica de uma família na Hong Kong dos anos 60 não vejo por que há-de alguém vir dizer o contrário. Felizmente todos são críticos, poucos são argumentistas. Com tantas línguas faladas quanto o mandarim, cantonês, inglês e ainda outros dialectos regionais, por vezes aborrece a retina ver que o som não acompanha as falas dos actores, qual filme de Kung Fu do Bruce Lee. Mas é um mal menor. Alex Law conseguiu tornar a obra que escreveu e realizou tão pessoal e real quanto a sua própria existência. Conquanto a narrativa não seja original é pontuada por uma honestidade rara em cinema. Mais se tratando de uma auto-biografia onde a família é tudo menos um “Brady Bunch”, ainda que com pinceladas dos “The Monkees” pelo meio. Os filmes mais belos são os que vêm do coração e apelam ao coração. Ideal para uma noite fria com aqueles que mais amamos neste mundo. Quatro estrelas.

Realização: Alex Law
Argumento: Alex Law
Buzz Chung como Orelhas Grandes
Simon Yam como Senhor Law
Sandra Ng como Senhora Law
Aarif Rahman como Desmond Law
Evelyn Choi como Flora


Próximo filme: "Alone" (Fad, 2007) 

domingo, 28 de agosto de 2011

"The Matrimony" (Xin zhong you qui, 2007)

Are you “in a mood for love”? Pois que eu estou e não, este filme não é do Wong Kar Wai, foi apenas menção aleatória que me ocorreu para vos despertar a atenção. Bem, a referência não é assim tão disparatada pois que vos trago uma história de amor. Uma história bela, trágica e quase assustadora de Hua-Tao Teng. Passada na China nos anos 30, a história gira em torno da desventura amorosa do cinematógrafo Shen Junchu (Leon Lai) que vê morrer à sua frente a sua amada Xu Manli (Fan Bing Bing). Destroçado, Shen fecha-se sobre si próprio e aceita fazer um casamento arranjado pela sua mãe com Sansan (Rene Liu) apenas para a descansar. Sansan é a típica rapariguinha apaixonada que tudo faz para agradar ao marido, mas que falha a todos os níveis. Rejeitada, ela não desiste de tentar obter as suas boas graças. Porquê? Não se percebe visto que na primeira meia hora de filme, Shen é taciturno e desagradável, roçando o odioso. Um dia Sansan encontra a chave para uma sala onde Shen a proibiu de entrar e não resiste à curiosidade. Lá, dá de caras com o fantasma de Manli que lhe sugere fazerem um pacto aparentemente satisfatório para ambas as partes. Se Sansan deixar Manli possuir o seu corpo esta poderá tocar novamente em Shen e Sansan poderá ser finalmente aceite. Claro que se estão à espera um filme de miúdas a formarem uma amizade além das fronteiras metafísicas, estão muito enganados. Manli é um espírito e se prestarem atenção aos filmes de fantasmas, os espíritos vestidos de vermelho, normalmente, não são os entes mais agradáveis deste mundo e do outro (“Rattle, Rattle” 2006, pessoal?). Além disso, elas partilham o mesmo objecto e amoroso e sejamos honestos, são mulheres. Onde é que alguma vez as mulheres se deram bem? “The Matrimony” recorda-me a novela “Rebecca” da Daphne Du Maurier também passada nos anos 30, na qual mesmo depois da morte, o fantasma de uma mulher persiste em não desaparecer da memória e em marcar a vida daqueles que lhe sobrevivem.
Quem me conhece saberá que não gosto de dramalhões nem de romances dignos de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Sou da opinião que quem quer verdadeiro entretenimento vai ao cinema e quem quer chorar tem a vida real. Ora, como não sou fã de ir pagar 5 euros para chorar no cinema, evito as demonstrações melodramáticas ao máximo. Atenção, que concedo (quando o vejo), o mérito nos desempenhos dramáticos, ou não fossem a esses que 99,9999999999999% das vezes, aquela grande instituição que é a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas atribui os Óscares. Acontece que “The Matrimony” é um casamento feliz entre drama e o horror, sem se inclinar em demasia para um dos lados da balança. Segue o manual dos filmes de terror com “jovens de longo cabelo negro vingativas e/ou injustiçadas em vida” à risca. Mas tem qualquer coisa de original. Para começar, o suspense não é o prato forte da película. Hua-Tao Teng poupa-nos a um crescendo de tensão até à grande revelação do fantasma e ao invés, tira essa sugestão do caminho o mais cedo possível. Também, admitamos que a Fan Bing Bing tem uma carinha laroca, não faz lá muito sentido estar a escondê-la.
Adiante, a primeira cena em que se nota a magia do computador, durante a morte de Manli, é das coisinhas mais amadoras que andam por aí, o que 1) reforça a necessidade de se afastarem da utilização dos efeitos especiais apenas porque sim e 2) estabelece um triste contraste com a qualidade geral da película. De resto, o filme é tão envolvente e com uma atmosfera muito bem conseguida. Nomeadamente, a cinematografia, (uma grande vénia a Mark Lee), a recriação dos anos 30 e a palete de cores está bem apelativa. Visualmente está catita.
Quanto à narrativa, tem momentos de originalidade entre os habituais lugares-comuns do filme de fantasmas. Dá um pouco mais que fazer aos actores e permite um desenvolvimento das personagens. Não há uma procura do susto fácil, este apenas surge como desenvolvimento natural da narrativa. Quanto às actuações, Liu está excelente tendo direito a um background decente conquanto, de início, não seja mais do que uma peça de imobiliário que se intromete na história de amor de Shen e Manli. Quanto a esta última, encarna um espírito com motivações que vão além da superfície, afastando-se do habitual espírito unidimensional. Talvez a grande diferença entre este e outros filmes de fantasmas é que aqui o espectro não é uma mera coisa inserida para provocar o próximo susto, antes tem sentimentos e emoções com as quais sentimos empatia. Já Shen, é uma florzinha de estufa muito magoada, muito sofrida e deprimida, cujos encantos, tirando breves flashbacks, dificilmente se encontram para explicar o amor das duas mulheres. O que poderá ser considerada a maior fraqueza do filme é mesmo o final. Pode ser encarado de dois modos: se gostam de finais que fujam a clichés e que exijam reflexão deverão gostar se, pelo contrário, procuram uma solução satisfatória, o habitual final feliz que não dê que pensar é melhor apostarem noutro registo. “The Matrimony” não assusta muito, mas assusta bonito. Três estrelas e meia.
Realização: Hua-Tao Teng
Argumento: Qianling Yang e Jialu Zhang
Elenco:
Leon Lai como Shen Junchu
Fan Bing Bing como Xu Man li
Rene Liu como Sansan
Songzi Xu como Rong Ma

Próximo Filme: "5bia" aka "Phobia 2" (ห้าแพร่ง ou Ha Phrang, 2009)
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