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terça-feira, 13 de julho de 2021

"In Fabric" (2018)

Uma besta estranha.

Filmes sobre objectos assombrados são sempre uma provocação. Além da iminente e fulcral suspensão da crença, há ainda toda uma abordagem que é uma incógnita. Será que os argumentistas optaram por prosseguir com o absurdo puro ou, espera-nos um registo mais poético, quiçá onírico? A oferta é variada e podemos encontrá-la em muitos períodos do cinema: “Christine” (1983), “Trucks” (1997), “The Red Shoes” (2005), “Fridge” (2012), filmes de bonecas assombradas, então, encontram-se a rodos no cinema do sudeste asiático, tal como os slashers nos anos 80.

“In Fabric” enquadra-se nesse subgénero, mas as particularidades não se quedam por aí. É um pseudo-giallo produzido em plano século XXI, por Peter Strickland, que é mais conhecido pelo seu “Duke of Burgundy”, de 2014. Este é um bom ponto de partida para compreender os temas de “In Fabric” e, por que é que este, não é apenas um filme sobre um objeto assombrado. Strickland renova o interesse em contar histórias sobre as relações humanas, com ênfase na sensualidade, mesmo estas tomem um caminho mais negro ou, de como o desejo pode fazer os amantes tomar atitudes inesperadas ou mais bizarras. Assim, não é surpreendente desenhar-se uma teia de morte e erotismo em torno de um vestido vermelho. 

Marianne Jean-Baptiste interpreta Sheila, uma senhora de meia-idade respeitável mas solitária, que tenta ultrapassar o divórcio e um filho adulto cada vez mais desafiante. O ex-marido já mostrou ter ultrapassado o casamento, arranjando um nova namorada e o filho, nem sequer tenta ser discreto nas manifestações de afecto, na sua relação ardente com uma mulher mais velha, Gwen (Gwendoline Christie). A solidão arrasta, por fim, Sheila para os saldos e os anúncios românticos dos classificados.  É no retalho, que uma estranha e enigmática Miss Luckmoore, a convence de que o vestido vermelho trará a admiração e afecto por que Sheila tanto anseia. Seguem-se episódios, de encontros falhados e de sucesso, de tensão no outro e acidentes estranhos. Tudo isto, conectado ao estranho vestido vermelho.
Não posso garantir, com total segurança, que não existam outros giallos sobre objetos assombrados mas, na mão de Strickland, a proposta é, sem dúvida única. As analogias a “Suspiria” suscitadas por essa internet fora não são descabidas.
A selecção musical do colectivo Cavern of Anti-Matter, dá-lhe a singularidade que uns Goblin trouxeram ao anteriormente mencionado filme de bruxas. "Suspiria" estará sempre indelévelmente ligado ao tema principal. A bizarra Miss Luckmoore podia ter sido retirada do filme de Argento. Sem qualquer alteração, encaixava que nem uma luva no imaginário desse realizador. O comportamento e aparência desta personagem, em conjunto com o das outras colegas de loja, parecem sugerir a existência de um convénio de bruxas. Existe um momento, o qual não vou desvendar para manter o interesse, entre Luckmoore, o dono da loja e um manequim, que é tão peculiar, que não posso deixar de me perguntar, dado que não acrescenta nada à história, se não foi uma ideia posterior que o realizador/argumentista, certamente insistiu para colocar no filme, somente pela imagética. E, em simultâneo, não consigo imaginá-la num outro filme.
Mas a mensagem porventura mais ainteressante é a crítica ao consumo que nos destrói, mais do que um vestido assassino. Strickland não se coíbe de inserir alguns anúncios televisivos da loja, estridentes e hipnóticos em igual medida, que funcionam como mensagens subliminares para a compra. Uma homenagem a “They Live” (1988), não é descabida.
O realizador demonstra ainda ser amigável ao universo LGBTQI, devotando-lhe, se não, as estórias mais desenvolvidas, pelo menos, uns dos momentos mais interessantes de todo o filme, em particular, os chefes de Sheila, Stash e Clive, demasiado, entusiásticos acerca de narrativas da vida pessoal dos funcionários e de clientes.
“In Fabric” não é isento de críticas. Por vezes, transmite uma sensação de falta de auto-controle de quem está atrás da câmara. O realizador não sabe quando parar. Deixa a câmara rolar, muito depois de já ter demonstrado o seu objetivo. Isso, alonga uma estória que não precisava de duas horas para ser contada e anda em círculos.
O filme assenta, por fim, em três linhas principais: o slasher (que não o é), o erotismo ligado a pulsões de morte e a crítica social, resultando, como comecei por referir, numa estranha besta. Três estrelas e meia.


Realização: Peter Strickland
Argumento: Peter Strickland
Elenco:
Marianne Jean-Baptiste como Sheila
Fatma Mohamed como Miss Luckmoore
Jaygann Ayeh como Vince
Gwendoline Christie como Gwen
Leo Bill como Reg Speaks
Hayley Squires como Babs
Julian Barratt como Stash
Steve Oram como Clive

domingo, 15 de abril de 2018

The Ritual (2017)

Cinco amigos reúnem-se para uma noite de copos em nome dos velhos tempos. Já não têm vinte e poucos anos, apenas trabalhos, mulheres e obrigações. A idade também pesa mas não deixam de planear as férias como antigamente. Ir a Ibiza? Noites de loucura? Talvez um destino mais calmo como a Suécia. Fazer porventura um percurso pedestre? Os papéis estão bem definidos: Hutch (Robert James-Collier) é o líder do grupo, resiliente e o problem solver de serviço; Dom (Sam Troughton) é aquele que se odeia ao fim de um dia de viagem mas é agradável durante todo o resto do tempo; Phil (Arsher Ali) é o pacificador, que dá menos nas vistas mas acaba por ser a cola que une o grupo e impede que quaisquer problemas alastrem; Luke (Rafe Spall) que, como em todos os grupos de amigos, é o que mais tenta adiar as responsabilidades de adulto e se vê ainda como o mesmo tipo dos tempos de juventude e, um último, Robert (Paul Reid) que acaba ainda por alinhar com este último colocando alguma moderação nos seus desvarios. Numa nota curiosa, do elenco fazem parte dois actores que participaram na saga “Alien”, Spall em “Prometheus” (2012) e Troughton em “Alien vs. Predator” (2004). A tragédia sucede e de cinco, os amigos de sempre passam a quatro. Um ano depois eles encontram-se na Suécia, em homenagem ao amigo caído. Fazem uma caminhada de culpa e expiação. A dinâmica destas amizades está fragilizada: o passeio irá voltar a uni-los de uma vez por todas ou, demonstrar, que talvez seja impossível recuperar o que se perdeu. Luke, em particular, nunca mais recuperou daquela noite. Carrega, além da mochila, o fardo da culpa. Ele devia ter morrido ou pelo menos morrer a tentar impedir a tragédia. Na floresta desconhecida já cansados de um percurso extenuante e da fraca preparação física tomam a pior das decisões: enveredar por um atalho, acabando por embrenhar-se na floresta onde se esconde um mal antigo.

“The Ritual” tem uma primeira hora de filme de excelência. Acerta em todas as notas. O elenco é apresentado de forma destrinçável, sem se alongar demasiado na sua exposição. Ao contrário do que tem sido padrão nos filmes do género dos últimos anos, os personagens não são todos idiotas detestáveis que merecem morrer das formas mais hediondas. São apenas humanos e o motivo que guia a sua acção – concorde-se ou não – é perceptível.
A fotografia – belíssima, diga-se de passagem –, é um elemento fulcral na construção do ambiente de horror permanente a que não é alheio o cenário da floresta imensa mas inerentemente claustrofóbica que evoca um “Descent” (2005), mas com personagens masculinos, com o tom pagão de “The Blair Witch Project” (1999). A par da cinematografia está o trabalho de sonoplastia. Os sons da floresta, com os seus ruídos naturais, seja de pássaros e de outros animais que não vemos, de ramos a partir-se, ou mesmo a total ausência de som, pode ser tão ou mais eficaz que uma composição musical mais robusta. É uma surpresa agradável tanto mais que se tornou um hábito irritante o surgimento de ruídos desarmónicos provindos de violinos ou pianos, quando se pretende provocar saltos na cadeira de uma audiência que está meio predisposta a assustar-se. Existem depois momentos em que a câmara incide somente sobre a paisagem e descobrimos que esta é tudo menos estática. Algo move-se na imagem e, nem temos de ter percebido o que sucedeu num dos cantos do ecrã, para saber, sentir, que existe ali algo que não é natural e não vem por bem ao encontro dos caminhantes.
Sem querer deslindar o vilão de “The Ritual” que é dos seus grandes motivos de interesse, a par de uma cabana onde, bem, quem viu “The Evil Dead” (1981) está mortinho de saber que não se entram em cabanas abandonadas em florestas no meio de nenhures; admitamos que ele é dos mais originais que têm surgido na sétima arte, se calhar não a despeito do orçamento mas por causa deste, que obrigou a equipa técnica a inovar, apenas comparável à fera de “Annihilation” (2018), que provocou reacções de pasmo e pavor em meio mundo.
“The Ritual” é realizado por David Bruckner, o argumentista e realizador dos segmentos que constituíram os pontos altos de “V/H/S” e “Southbound”. Não lhe conhecendo a obra seria difícil adivinhar a sua experiência limitada dado que acertou em tantas notas onde tanto outros realizadores com currículo mais preenchido falham. “The Ritual” perde algum sentido e direcção aquando da exposição do mal que paira sobre a floresta nórdica mas, para quem prefere um ritmo mais veloz, este acelera bastante no quarto de hora final, entrecortado com flashbacks de um subconsciente culpado. Conclusão? Se calhar deviam ter mesmo ido para os copos. Três estrelas e meia.


Realização: David Bruckner
Argumento: Joe Barton e Adam Nevill (livro)
Rafe Spall como Luke
Arsher Ali como Phil
Robert James-Collier como Hutch
Sam Troughton como Dom
Paul Reid como Robert

Próximo Filme "The Eyes of my Mother", 2016

quinta-feira, 1 de março de 2018

"Tale of Tales" (Il racconto dei racconti, 2015)


“Tale of Tales” é uma película apresentada em estilo mosaico composta por contos tão antigos que precedem os ilustres irmãos Grimm. Essas estórias integram “Il Pentamerone”, obra póstuma do poeta e autor Giambattista Basile do séc. XII, que se situam algures numa Itália imbuída do espírito do estilo Barroco.

“The Queen” – No reino de Longtrellis vive uma rainha (Salma Hayek) infeliz por ser incapaz de gerar um filho. Ao rei (John C. Reilly) basta-lhe o amor de casal mas ela não consegue aquietar aquela dor. Para cumprir o desejo violento de ser mãe, a Rainha convoca uma bruxa que afirma ser capaz de lhe dar o que pretende. No entanto, o preço por perverter as leis da natureza será elevado. Para uma vida nova terá de existir uma morte também.

“The Flea” – Um rei despreocupado (Toby Jones) deixa-se toldar pela obsessão com um animal de estimação invulgar: uma pulga. Esta cresce alimentada com todo o seu afecto e até sangue, ao mesmo tempo que negligencia Violet (Bebe Cave), a sua única filha. Após a morte do bicho o rei decide oferecer a mão de Violet em casamento a quem acertar num enigma. Rei e corte ficam chocados quando um ogre é o único a apresentar a solução correta e a pobre rapariga é forçada a casar com ele.

“The Two Old Women” – Em Strongcliff reside um rei (Vincent Cassel) que não consegue aplacar a sua luxúria constante. Um dia ouve uma voz angelical e fica obcecado por descobrir a quem pertence. A voz é de Dora (Hayley Carmichael) uma velha marcada pelas agruras de uma vida de trabalho duro e que tem por única companhia a tola irmã Imma (Shirley Henderson). Quando o rei bate à sua porta, Dora vê a oportunidade de ter por fim a possibilidade de conhecer o outro lado da sociedade, junto à elite, de paixão, riqueza e sem o esforço do quotidiano.

Se algo não faltou em “Tale of Tales” foi ambição. Cada um dos segmentos tem uma estória original, nunca antes adaptada ao cinema; em cada uma existem pelo menos um ou dois actores de peso e os cenários são tão fantásticos – com as ocasionais bestas míticas pelo meio –, que parecem saídos da fábrica de milhões, mais conhecida por Hollywood. A cinematografia e o design de produção, são o que melhor vende o filme. Os cenários são reconhecíveis, desde castelos italianos a bosques encantados e, ao mesmo tempo, estranhos o suficiente para enquadrar “Tale of Tales” no reino da fantasia. O seu calcanhar de Aquiles reside numa montagem trapalhona. É difícil destrinçar aquando da transição entre segmentos e a escolha por cortar certos segmentos em determinados locais também é duvidosa. Em alguns, a narrativa arrasta-se de tal modo que não fosse a beleza do que se vê no ecrã, seria caso para dormitar. Por outro, quando alguns dos segmentos aceleram o ritmo ou partem momentos de revelação cruciais passamos para a estória seguinte. No terceiro acto, quando todas as estórias são por fim interligadas, esse momento é o oposto de climático e é até desnecessário. Os segmentos ainda que não tivessem uma ligação narrativa tinham em comum o tema das obsessões tão fortes que consomem e dilaceram tudo no seu caminho pelo que a opção de reunir fisicamente os diversos reinos é redundante. Todas as personagens principais à excepção de Elias, em “The Queen” são profundamente imperfeitas ou têm graves falhas de carácter. A Rainha é profundamente egoísta e ciumenta. O rei que oferece a filha a um ogre é vaidoso e irresponsável. A própria princesa, com um destino tão triste, de início não é mais do que uma tolinha superficial. O rei de Strongcliff é incapaz de ver além da satisfação dos seus desejos primitivos. Dora não é mais do que o reflexo do rei, mas sob a perspectiva feminina, velha e pobre. E todos têm muito a perder só que não se apercebem até ser demasiado tarde. A vida tem lições de crueldade e contas a prestar com todos eles.
Em poucas obras é tão explícito o lado sombrio dos contos de fadas, como em “Tale of Tales” que nunca tenta ser subtil a esse respeito. Os temas são escuros e a imagética é opulenta e brutal, mesmo quando sob a forma de metáfora, brilhantemente enquadrados pela composição minimalista e desconcertante de Alexandre Desplat. A narrativa baseia-se em contos menos conhecidos de um compêndio na qual constavam os primórdios de uma “Cinderella” ou de uma “Bela Adormecida” que são agora recordados com a nostalgia de quem viu em pequenino os filmes da Disney. Mas ao investir em “The Queen”, “The Flea” ou “The Two Old Women” nunca surge esse perigo de contágio, podendo ser consideradas demasiado pessimistas ou até uma fraude, por quem viveu uma infância repleta de finais felizes. Três estrelas e meia.


Realização: Matteo Garrone
Argumento: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso e Giambattista Basile (contos)

Em "The Queen"
Salma Hayek como Rainha de Longtrellis
John C. Reilly como King of Longtrellis
Christian Lees como Elias, Príncipe de Longtrellis
Jonah Lees como Jonah

Em "The Flea"
Toby Jones como Rei de Highhills
Bebe Cave como Violet, Princesa de Highhills
Massimo Ceccherini como Artista de Circo
Alba Rohrwacher como Artista de Circo
Guillaume Delaunay como Ogre

Em "The two Old Women"
Vincent Cassel como Rei de Strongcliff
Shirley Henderson como Imma
Hayley Carmichael como Dora
Stacy Martin como jovem Dora

Estes e outros contos foram repescados e editados já em 2016 sob o nome "Tale of Tales",se quiserem conhecer um pouco mais sobre a mitologia de Giambattista Basile.

Próximo Filme: "The Happiness of the Katakuris" (Katakuri-ke no kôfuku, 2001)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"The Autopsy of Jane Doe" (2016)


Dois Homens, um cadáver. Podia ter saído de um daqueles vídeos esquisitos que circulam por aí mas revela-se afinal uma das películas de terror mais competentes de 2016. Uma morgue, cadáveres engavetados, uma família a recuperar ainda de uma tragédia pessoal e o corpo de uma jovem cuja mera existência é um anacronismo é tudo quanto basta para uma das experiências mais marcantes do género do ano.

Tommy (Brian Cox) e Austin Tilden (Emile Hirsch) são a dupla de pai e filho médicos-legistas, mais competentes do ramo. Tommy vive para o trabalho. Pouco existe que ele não tenha visto e têm ainda bastantes truques para ensinar ao talentoso filho. Já Austin é um apaixonado pelo “negócio” de família mas não se quer deixar consumir por ele. Pensa numa vida além da morgue e esta encontra-se em Emma (Ophelia Lovibond). Mas enquanto não encontra coragem para deixar o desgostoso pai aprender a lidar com as agruras da vida, dedica-se aos mistérios do corpo. Eles encontram o maior de todos em “Jane Doe” (Olwen Catherine Kelly), o cadáver de jovem desconhecida, encontrado pelo familiar Xerife Sheldon (Michael McElhatton) na cena de um massacre que envolve várias caras conhecidas da região.

O prazo é apertado. Numa noite terão de descobrir a causa da morte da desconhecida e a sua ligação às outras mortes mas em como tudo o resto em Jane, ela é um elemento estranho. Tudo na sua presença indica não se encaixar na sequência de eventos. O corpo não aparenta sinais de violência ou… de qualquer outra coisa na verdade. De que é que morreu a desconhecida?
“The Autopsy of Jane Doe” pertence à ainda curta carreira de André Ovredal, realizador norueguês que se notabilizou com uma das raras boas incursões no género de found footage (“Blair Witch” é uma treta cof, cof) com “Trollhunter” que ademais foi beber à própria mitologia do seu país. No entanto, ninguém o pode acusar de amadorismo. “The Autopsy of Jane Doe” parece um dos melhores episódios de "CSI" com uns resquícios de “Six Feet Under” em formato longa-metragem. É impossível não ficar absorvido pela dupla Cox/Hirsch enquanto esta retalha o corpo de Jane, ao mesmo tempo que levanta as hipóteses mais fantásticas e pavorosas. A abordagem fria e clínica da dupla não afugenta, antes torna as actuações mais realistas. Por seu turno, sem dizer nada, a linda e misteriosa Jane Doe marca o tom cada vez mais sinistro do filme. Sem nada dizer ou mover-se – o cadáver! –, comanda o filme. Um excelente exercício de body horror, mas sem o sensacionalismo de outros. A empurrar a narrativa está a sua investigação. A cada novo indício do que poderá ter sucedido, surge uma nova pista desconcertante para o ultra experiente Tommy e o mais novo mas não menos perspicaz Austin. Entretanto, começam a suceder episódios insólitos na cave onde se encontram e que parecem querer indicar que os factos são bem mais complexos e perversos do que se podia à partida supor. Na verdade o contínuo enfoque em Jane Doe traz mais perguntas que respostas. Este enfase não é voyeurista. Pelo menos não numa perspectiva sexual, a despeito de Jane ser belíssima. A obsessão é clínica, como a de um médico que procura de modo furioso descobrir a causa da maleita de um seu doente. A dada altura “Jane Doe” muda para uma direção não totalmente inesperada mas porventura desnecessária, ainda assim competente. No entanto, se o espectador decide prosseguir com o visionamento confiante ou ficar indignado esta é uma decisão subjectiva. Brian Cox e Emile Hirsch continuam tão convincentes, enquanto mentes inquisitivas e na relação de pai e filho, enquanto o mundo à sua volta ameaça ruir.  A despeito de na última metade de “The Autopsy of Jane Doe” existir uma mudança precipitada de direção, a primeira parte é tão impactante que não é possível não permanecer fascinado por este novo estranho monstro recriado por Ovredal. Quatro estrelas.
Realização: André Øvredal
Argumento: Ian B. Goldberg e Richard Naing
Emile Hirsch como Austin Tilden
Brian Cox como Tommy Tilden
Ophelia Lovibond como Emma
Michael McElhatton como Xerife Sheldon
Olwen Catherine Kelly como Jane Doe
Jane Perry como Tenente Wade

Próximo Filme: "The Handmaiden (Agassi, 2016)

domingo, 24 de maio de 2015

"Ex Machina" (2015)

A célebre frase de Einstein sobre o Homem e o Universo: “Apenas duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana, e eu não tenho a certeza acerca do primeiro”, podia ser proferida acerca do pecado da vaidade. Quão vaidoso pode o Homem ser para pensar que a materialização da ideia de inteligência artificial é controlável? O Homem nunca foi ser para se deixar confinar à biologia e ao espaço em que se encontra. Porquê esperar que as regras não se apliquem a todos os outros?

Ex machina é sobre a concretização do sonho e os seus efeitos sobre os primeiros a lidar com esta realidade. A premissa é simples, o significado, esse, ultrapassa a mera aparência. Caleb (Domhnall Gleeson) foi escolhido de entre sabe-se lá quantos milhões, para passar uma semana com Nathan (Oscar Isaac), o esquivo criador do motor de busca mais utilizado no mundo, o Blue Book. Nathan apresenta a Caleb a oportunidade única de conhecer Ava (Alicia Vikander) um robot humanoide e a concretização do conceito de inteligência artificial, isto é, se ela passar numa prova. Escondido num paraíso natural, o centro de pesquisa de Nathan é idílico e misterioso em doses iguais. Sem hipótese de contacto com o mundo exterior (uma das regras do jogo) Caleb, apenas tem a companhia de Nathan, que quando não desaparece para trabalhar ou exercitar o corpo está a beber até cair e da bela Kyoko (Sonoya Mizuno) que não fala inglês. Paredes nuas e quartos sem janelas encontram-se longe da noção de conforto e ele acaba pois por dedicar a maior parte do seu tempo em sessões com Ava ou a observá-la através das câmaras que se encontram em todas as divisões. Os dias passam e as máscaras começam a cair, a decepção instala-se e a fronteira entre o real e o imaginário começa a esbater-se. Cabin Fever?

Diz que não se conhecem bem as pessoas até se viver com elas. No caso de Caleb, os seus comportamentos podem ser estudados mas há um limite para aquilo que os algoritmos nos conseguem contar. Quanto a Nathan o caso será mais clínico. Vaidoso, narcísico e egocêntrico, ele apresenta-se como um daqueles génios que têm a certeza absoluta que são melhores que os outros. Anti-social, por ser incapaz de aceitar opiniões contrárias utiliza o elogio como arma que apenas lhe serve até descobrirem que ele não é tão escrupuloso como se poderia julgar. Entrega-se ao trabalho e aos vícios com a mesma intensidade sendo incapaz de considerar sequer o fracasso. Este não existe, porque falhar não é uma hipótese. E na sua mente, Caleb é o homem ideal para testar a existência de humanidade na sua criação e provar a sua genialidade. Em última análise, é a sua vaidade que dita o desfecho, que é previsível, admitamos. Caleb é o ratinho de laboratório sobre o qual são testadas hipóteses só que ainda não sabe disso. Ele é susceptível a quaisquer estímulos e não consegue encontrar mecanismos, à semelhança de Nathan, para sobreviver a um ambiente adverso. Inteligente e crédulo, deixa-se manipular por quem souber esgrimir melhores argumentos e envolve-se a nível pessoal com o sujeito. Ava torna-se interessante para Caleb, num misto de fascínio científico com empatia pessoal, por oposição a Nathan que é do género de se cansar rapidamente. Para o seu criador, existirá sempre um projecto “depois de Ava”, mas será que ela tem noção disto?

Para os fãs de espectáculo, deste há muito pouco, até ao último terço deste filme de ficção de científica. O argumento de Alex Garland foca-se mais nas implicações morais da existência de seres como Ava no ambiente que os rodeia, do que quaisquer gadgets divertidos que possam surgir no ecrã. Porque o que está na base do seu desenvolvimento é o modo como o exterior irá reagir a esta. Teria de se ser surdo, mudo ou seriamente incapacitado em termos emocionais como Nathan, para ignorar esta questão. Faz recordar estórias como a dos “X-Men” que demonstra a humanidade no seu pior mas ao mesmo tempo tão ela própria, temendo e odiando aquilo que não consegue compreender. Será isto que espera Ava?
É natural a comparação com filmes anteriores como “Artificial Inteligence: AI” (2001) ou “I, Robot” (2004) pela temática e estética e, de onde decerto, Vikander terá ido buscar apontamentos para a sua Ava. No entanto, estes filmes são mais primos afastados de "Ex Machina" do que qualquer jogo de manipulação Hitchcokiano. Do cenário, à cor, ao som, tudo é cuidadosamente ordenado para provocar a mescla de sentimentos confusos que atravessam Caleb: surpresa, fascínio, confusão, piedade, temor… E depois existe uma “simples” máquina que surge sob a aparência de vulnerabilidade de Ava, sugerindo que não é preciso nada tão complexo como a inteligência para fazer o Homem prevaricar. Afinal, Ele é apenas humano. Quatro estrelas e meia.


O melhor:
- O resultado que se conseguiu alcançar com tão pouco
- O elenco fenomenal.
- Desafiante.

O pior:
- Previsibilidade

Realização: Alex Garland
Argumento: Alex Garland
Domhnall Gleeson como Caleb
Oscar Isaac como Nathan
Alicia Vikander como Ava
Sonoya Mizuno como Kyoko

Próximo Filme: "Sweet Rain" (Suwîto rein: Shinigami no seido, 2008)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

"Attack the Block", 2011



Posso dizer que no universo das más traduções de títulos à portuguesa “ETs in da bairro”, está lá bem no topo. Tipo: uau. De modo literal seria algo como “Ataque ao bloco de apartamentos”. Esta foi a maneira de serem engraçadinhos ou espirituosos, se atendermos ao grupo de protagonistas.
Estamos mais que habituados a filmes nos quais os aliens invadem a terra e a humanidade só não é exterminada por um triz. Eles são sempre retratados como seres de suprema inteligência e os seres humanos, são uns pobres desgraçados que têm de utilizar todo o tipo de recursos para sobreviver. Invariavelmente, quem é “invadido” são os norte-americanos, a maior potência mundial nos anos 90 vá, que agora o século XXI é da China e se os invasores forem minimamente inteligentes começam por atacar a nação que pode constituir maior ameaça. Mas vá lá, pela primeira vez, lá se lembraram de criar uns alienígenas que não são a espécie mais brilhante do universo e criar antagonistas à altura: um gangue de adolescentes que até os próprios vizinhos aterrorizam. É caso para dizer “meteram-se com os tipos errados”.

Nascidos e criados num bairro a sul de Londres na Inglaterra e, sem perspectivas de algum dia sair de lá, Moses (John Boyega) e o seu bando atravessam as ruas da cidade nas suas bicicletas, procurando passar um bom bocado e gamar aqueles que cometerem a imprudência de se cruzar com eles.
Não será muito difícil imaginar que eles venham de lares desfeitos e famílias monoparentais que os deixam ao abandono durante dias inteiros, para prejuízo da sua educação e valores fundamentais. Notavelmente, estes jovens conseguem transformar o preconceito da sociedade em compaixão e apoio declarado perante um inimigo temível. Só um inimigo comum poderia unir pessoas tão diferentes com um bando, uma enfermeira, um hipster à procura da próxima broca e o dealer do bloco de apartamentos.
“Attack the block” é a prova de que não é necessário criar grandes cenários para um filme de acção. Dentro do bloco de apartamentos, nas rampas de acesso sinuosas e acessos labirínticos circulam uma série de miúdos com a destreza de um duplo que salta de edifícios ou carros em andamento. Às vezes menos é mais.
Um meteorito cai na terra e o gangue cruza-se com um bicho que não é desta Terra, cedo descobrem que este não é o único e que eles são tudo menos amigáveis. O que começa como diversão de miúdos acaba por se tornar um confronto pela terra. Onde “Attack the Block” sucede é no equilíbrio entre os géneros da comédia e do drama. Mas não é parecido com nada que se tenha visto antes. Nem o grupo de resistentes pertence aos militares como vimos em tantos filmes como “O dia da Independência” nem são um grupo de crianças inocentes como vimos em “Super 8”, acabando por funcionar como uma mescla bem-sucedida e mais realista. A justificação para a “invasão” parece muito mais natural, seguindo as ciências da vida e da natureza e não uma explicação demasiado rebuscada e por isso mais artificial. Os próprios alienígenas têm um design simplista que funciona. Definitivamente não pensem no Alien do H. R. Giger ou num predador. Quanto aos actores há um toque de hiper-realismo nas suas actuações, desde a enfermeira com demasiado trabalho entre mãos que chega a casa a horas ridículas ao gangue de jovens com o dialecto muito próprio de bairro. Destaque-se o jovem John Boyega que demonstra um espectro de emoções acima da média para um estreante no cinema. A personagem mais caricatural é sem dúvida a de Ron, o dealer drogado que é interpretado por Nick Frost. Depois das suas presenças em “Shaun of the Dead” e “Hot Fuzz”, não lhe atribuir um papel cómico seria uma ofensa às suas capacidades como cómico natural. Depois temos Luke Treadaway como Brewis, um dos personagens mais cool e que acabou por sair do filme como um sex symbol em potência, com o seu hipster simpático. De resto, a sucessão louca de acontecimentos apoiado numa fórmula comédia vs. drama e a banda-sonora de Steven Price que compõe o urbe londrina finaliza um dos filmes mais divertidos de 2011. Três estrelas.

Realização: Joe Cornish
Argumento: Joe Cornish
John Boyega como Moses
Jodie Whittaker como Sam
Luke Treadaway como Brewis
Alex Esmail como Pest
Franz Drameh como Dennis
Leeon Jones como Jerome
Simon Howard como Biggz
Nick Frost como Ron

Próximo Filme: "Prometheus", 2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

"The Woman in Black", 2012

Há um elemento em “The Woman in Black” que funciona, em simultâneo, a seu favor e desfavor. Ele é Daniel Radcliffe. A grande questão que tem surgido em torno desta película, não é se é boa, ou mesmo sobre a estória, mas se o Radcliffe conseguiu sair da personagem Harry Potter. Muitos trocadilhos foram feitos a este propósito: “será que o Radcliffe conseguiu fazer o Harry Potter descansar em paz?”, “Daniel troca o género fantástico pelo género fantástico?!” ou “Apostado em sair da pele de um jovem feiticeiro torna-se pai”. Por isso, tiremos já esta questão do caminho. Ele fez a transição de personagem com sucesso. Se o seu desempenho foi suficientemente bom, isso é outra questão.“The Woman in Black” foi produzida pela emblemática Hammer Films em parceria com outros estúdios e baseia-se na obra de ficção homónima de 1983, escrita por Susan Hill. A Hammer Films, nascida nos 30, teve a sua época áurea entre os anos 50 e 60, oferecendo a actores como Peter Cushing e Christopher Lee, papéis hoje icónicos. Os seus filmes eram então designados “Hammer Horror”, sinónimo de qualidade. Com a chegada do século XXI, a Hammer Films foi comprada e deu-se a ressurreição embora tenha efectuado algumas escolhas infelizes como “The Resident” (2011). “Let me in” (2010) e “The Woman in Black” (2012), marcam o regresso definitivo da marca britânica Hammer.
Daniel Radcliffe interpreta o jovem advogado Arthur Keeps, cuja carreira entrou em espiral descendente após a morte da mulher durante o parto do seu único filho, Joseph (Misha Handley). O patrão dá-lhe uma última oportunidade de regressar à boa forma e envia-o para Crythin Gifford, uma pequena localidade isolada, na costa este do Reino Unido para pôr em ordem a papelada da falecida Senhora Dradlow. Lá, é recebido com hostilidade pela população que demonstra de modo veemente como a sua presença é indesejada. Com um filho pequeno, Arthur recusa-se a abandonar a terra sem aproveitar aquela poderá ser a última oportunidade de manter o trabalho. E este leva-o a uma mansão rodeada por um imenso pântano e neblina que com a subida da maré fica isolada da população. Cedo começa a ter visões e a ouvir barulhos que indicam que poderá não estar só naquela casa…
“The Woman in Black” está cheia de elementos que já vimos antes noutros filmes: uma mansão isolada, um cemitério, população local hostil, corvos… Os lugares-comuns da câmara também estão presentes, como sombras que surgem no fundo da tela por detrás do herói insuspeito e o seu reflexo ou marca em diferentes superfícies. Não devemos é equivocar-nos acerca do seu significado. A literatura gótica tem quatro ou cinco características que se podem encontrar com pequenas variações, em todas as obras: existe uma vítima indefesa contra um atacante ligado ao sobrenatural ou com poderes demoníacos, a acção passa-se dentro de “muralhas impenetráveis” que podem físicas ou psicológicas, veja-se por exemplo, “Wuthering Heights” da Emily Brontё ou “Rebecca” da Daphne du Maurier, ambos férteis na construção da sensação de isolamento e irremediabilidade de um destino negro. O edifício, uma catedral ou mansão gótica, normalmente abandonada ou com aparência degradada contribui para atmosfera excruciante, como um túmulo. Representa a morte espiritual e se o herói não sair da teia do seu agressor, a eventual morte física. É uma situação desigual pois o atacante conhece ou está ligado espiritualmente ao edifício que utiliza como instrumento de tortura consciente até quebrar o herói. Por fim e o que pode ditar a perda da sua vida, é a atracção-repulsão do herói pelo mistério.
Radcliffe podia ter sido mais do que competente se não tivesse outros argumentos contra si. Contracenar com os veteraníssimos Ciáran Hinds e Janet Mcteer deve ser muito complicado. Na verdade, Radcliffe eclipsa-se cada vez que os estes actores dão um ar da sua graça, em particular, uma Mcteer que interpreta uma personagem trágica. Depois, Radcliffe sofre do mesmo mal que Elijah Wood, a idade não passa por ele. Há-de estar na casa dos 30 e ainda ter a aparência de um adolescente. O filme teria beneficiado de um actor mais velho ou com essa aparência e não é pelos argumentos que tenho visto esgrimir de Radcliffe ser um pai e viúvo muito novo. Estamos na era Eduardina, as pessoas casavam e deixavam descendentes muito novas. O que me conduz à questão da morte das crianças. E sim, em “The Woman em Black” morrem bastantes crianças. Se são sensíveis a esse respeito, não aconselho o filme de todo. A cena inicial, em particular, é a mais marcante. Deixou-me um nó na garganta logo à partida. Mas mais uma vez, estamos no início do século XX, pelo que a medicina era muito pouco avançada e nem sequer teria ainda chegado a uma localidade remota. Não era raro casais terem uma dezena de filhos e menos de metade chegar à idade adulta. Por isso, não, Arthur não é um idiota por não se questionar por que morrem tantas crianças. No máximo é um idiota, por não actuar quando suspeita da verdade que poderá inclusive afectar a sua vida.  Mesmo assim, é um idiota tolhido pela dor. Muita da sua “dormência” deve-se a um luto ainda não finalizado pela morte da mulher. O grande mal reside pois no enredo. Passados 45 minutos é difícil não ter adivinhado a fonte do mistério e a sua resolução. No entanto, estamos até ao final, à espera da grande reviravolta que nunca chega a acontecer. A estória é pois básica, demasiado simples para o que vimos uma centena de vezes antes. Tem elementos do j-horror, mas relances apenas. “The Woman in Black” é na sua essência um drama gótico, com uma visão pessimista do mundo que poderá não corresponder ao ideal de filme das novas gerações mas, fiel à era que se propõe retratar. Três estrelas.

Realização: James Watkins
Argumento: Susan Hill (livro) e Jane Goldman (argumento)
Daniel Radcliffe como Arthur Kipps
Ciáran Hinds como Daily
Janet Mcteer como Senhora Daily
Mary Stockley como Senhora Fisher
Shaun Dooley como Fisher
Misha Handley como Joseph  Kipps

Próximo Filme: "Hong Kong Ghost Stories" (Mag gwai oi ching si, 2011)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Harry Potter and the Deathly Hallows part II" (2011)

Sabem aqueles filmes que dão origem a uma série monumental em que seguimos todos os episódios religiosamente? E que depois, filme após filme, vamos ficando mais ou menos saciados, sempre ansiosos por chegar ao fim épico e compensador como só um último filme pode ser? Pois, "Harry Potter and the Deathly Hallows part II" não pertence a essa equipa.
Antes que me linchem virtualmente, deixem-me só esclarecer que não desgostei do filme. Embora, para dizer a verdade, tenha gostado mais do livro. Sim, eu li os livros e vi os filmes por essa mesma ordem. Não sou uma Potteriana ou lá o que chamam aos seguidores mais fervorosos da série. Ainda assim, sou fã dos livros e dos filmes, também por essa ordem e estou aqui, em jeito de mea culpa a admitir que o oitavo filme não só não esteve ao nível das minhas expectativas como ficou aquém. Lamento, imenso. Todos estes anos, rios de dinheiro, realizadores e escritores, Michael Gambons, Daniel Radcliffs, Maggie Smiths e companhia, não chegam para tornar a última obra uma peça de arte. Também escrevo estas linhas sabendo que este blogue não chega a ser sequer uma gota no oceano de reviews, notícias e afins sobre o franchise HP.

Assim, sabendo do impacto "nulo" que esta crítica terá não me sinto constrangida em escrever e repetir que a saga merecia melhor. Sem spoilers, que eu não sou fã que me estraguem o visionamento em DVD ou no cinema, acho que todo o episódio foi uma grande corrida, forçada mas sem ser cansativa. Isto, por que no final fica a vontade de mais. As personagens desfilam pelo écrã dizendo banalidades, palavras de circunstância e vão assim desaparecendo. Os momentos de comic relief, foram pouco e mal distribuídos e de relief  tiveram muito pouco. Cenas fulcrais no livro (quem os leu saberá bem do que está a falar) são tratadas a correr, sem a importância vital que dá o espiríto ao livro e de que o filme bem precisava. As grandes batalhas, sabem a pouco. O desfecho de certos personagens é muito mal tratado. Quer alguns vilões como membros do exército de Dumbledore, não são tratados com o respeito que a J.K. Rowling lhes devotou. É como se não importassem. Para quem os detestou ou amou fervorosamente importa. Segundos, num filme de 130 minutos não são nada. Custava muito terem alargado a duração do filme?  Também a banda sonora se afasta do brilhantismo de John Williams. Alexandre Desplat, afasta-se essencialmente do core de toda a saga, isso não se faz. A herança é pesada mas não se muda de identidade no final do jogo! Já a utilização do 3D é apenas mais uma tentativa vergonhosa de nos sacar dinheiro. Não há nada no filme que justifique a sua utilização.
Mas também existem coisas boas. A saga Harry Potter sempre foi visualmente agradável, mesmo nos momentos mais dark. O elenco é de estrelas. O tempo que lhes é concedido não lhes permite brilhar mas o pouco que fazem, fazem-no como só elas. Vejam-se a Helena Bonham-Carter (Bellatrix Lestrange) ou o Alan Rickman (Severus Snape). E responde a todas as questões. Aquelas que desde o início atormentavam a audiência: afinal qual é o grande plano de Dumbledore para Harry Potter? Porque é que Snape sempre maltratou o Harry Potter? Será que a Hermione e o Ron alguma vez admitirão que estão apaixonados? Tudo isso é uma gigantesca cereja no topo de bolo. Acaba bem? Sim. Mas se podia acabar bem melhor? Sem sombra de dúvida. Duas estrelas e meia.

Realização: David Yates
Argumento: Steve Kloves e J.K. Rowling (livro)
Elenco:
Daniel Radcliffe como Harry Potter
Emma Watson como Hermione Granger
Rupert Grint como Ronald Weasley
Ralph Fiennes como Lord Voldemort
Michael Gambon como Albus Dumbledore
Alan Rickman como Severus Snape
Helena Bonham-Carter como Bellatrix Lestrange

Próximo Filme: "Three...Extremes - Box" (Saam gaang Yi, 2004)
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