Mostrar mensagens com a etiqueta Crime. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crime. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de novembro de 2017

"Deep Trap" (Ham-jeong, 2015)


So-yeon (Kim Min-Kyung) e Joon-sik (Jo Han-seon) são um casal que sofre ainda bastante devido com um aborto espontâneo sofrido anos antes. Joon-sik fechou-se sobre si próprio e passa os dias num martírio diário entre o trabalho e o álcool, deixando So-yeon sozinha. Além do sentimento de abandono, So-yeon ressente-se com a falta de intimidade. Desde o acontecimento traumático que Joon-sik desenvolveu impotência e não dá mostras de a conseguir curar sem apoio. Determinada a salvar a relação ferida e gerar o tão desejado rebento So-yeon decide marcar um dia de férias numa ilha remota de descanso e romance. Lá, encontram um restaurante que é gerido por Seong-cheol, um Ma Dong-seok num papel sinistro e a sua bonita irmã muda Min-hee (Ah jin). Após uma noite de bebidas estranhas e comida gostosa, Seong-cheol faz a proposta indecente a Joon-sik: dormir com Min-hee e recuperar a pujança para ter um filho com So-yeon. Entre os quatro é gerada uma dinâmica desconfortável que é aparente a todos quanto a ela assistem mas, sobretudo para So-yeon e, pela sua parte, quase omissa para um Joon-sik semi-alcoólico.

“Deep Trap” é bastante explícito quanto ao que pretende. O cenário isolado, o par de personagens estranhas que não inspiram total confiança, a série de coincidências que leva a que o casal fique preso no local e propostas inconcebíveis são a mera antecipação do que tantas vezes se viu antes no cinema do género. O filme apresenta algumas cenas de sexo que deixam pouco à imaginação e uma cena de violação brutal a que poderá ser difícil assistir. De igual modo, à boa maneira coreana, há duas ou três sequências de extrema violência e que parecem contrastar com o dramazinho romântico sobre um casal que tenta ultrapassar e reacender a chama da paixão que os minutos iniciais aparentavam prometer. O quarteto de protagonistas, liderado pelo experiente Ma Dong-seok que mais uma vez rouba o protagonismo (vide “Train to Busan”, 2016) e é um dos parcos motivo para que “Deep Trap” não caia na penúria total. Ma Dong-seok encontra nuance suficiente no personagem amoral para ainda assim, encarnar o bronco ignorante que pode ser desculpado pela educação que teve e pouca exposição às boas regras de civilidade. Quase podia ser uma boa pessoa se ao menos tivesse tido acesso às oportunidades que outros têm… isto se conseguirem ignorar os maus-tratos a Min-hee.
O que não será de digestão fácil serão algumas das acções dos personagens. Para sociedades mais liberais comportamentos onde o bem-estar e segurança própria são relegados para segundo lugar em favor de agradar ao “Homem” ou a flor delicada que sofre estoica em silêncio, não são fáceis de entender. No entanto, são elementos indeléveis de culturas patriarcais, como a sul-coreana. Onde os países tendencialmente ocidentais verão fraqueza, os orientais poderão encontrar heroísmo. Mas temo informar que se mantém o padrão tantas vezes visto e iguais vezes criticados em filmes coreanos e japoneses. A síndrome de petrificação e de colagem ao chão continua viva. Onde em situações limite a reacção rápida é essencial, os personagens continuam imóveis, chocados com os acontecimentos. Um exemplo paradigmático sucede quando dois homens combatem corpo a corpo e a mulher de um deles permanece imóvel, sabendo bem que o companheiro poderá perder a luta. É um pressuposto que em filmes de assassinos psicopatas e, como a boa tradição de filmes como um “Friday the 13th” (1980) e suas iterações demonstraram, os personagens devem ter uma boa dose de tontice para que sejam apanhados pelo papão. Gostava contudo, de ver a parte do contrato em que diz que os personagens não devem correr e tropeçar bastante ou mais simplesmente ficar colados ao chão enquanto uma figura malévola se dirige a eles para lhes fazer coisas muito más. Por estes motivos “Deep Trap” torna-se um exercício de concentração para não carregar no botão de stop e para o filme quando os personagens agem de forma tão, mas tão, frustrante, que ficamos a pensar que se o assassino os apanhar não se perde nada ou pior, torcer que o assassino os apanhe para limpar o mundo (do cinema) de tamanha estupidez. “Deep Trap” tem zero de factor surpresa. Um casal de betinhos da cidade fica preso no covil do inimigo e sofre horrores a tentar escapar. Been there done that… and better. Próximo. Duas estrelas.

Realização: Hyeong-jin Kwon   
Ji An como Min-hee 
Sun-Jo Han como Joon-sik
Dong-seok Ma como Seong-cheol
Min-Kyeong Kim como So-yeon

Próximo Filme: "Better Watch Out", 2016

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Museum: The Serial Killer is Laughing in the Rain" (Myujiamu, 2016)

Atenção aos inúmeros spoilers, vejam o trailer por vossa conta e risco.

“Museum” é a adaptação de uma manga inserida no género de horror de Ryosuke Tomoe que foi publicada durante os anos de 2013 e 2014. A acção centra-se nos homicídios bizarros cometidos por um misterioso Homem-rã e a perseguição que lhe é movida pelo detective Sawamura que tem um interesse pessoal no caso.

A realização esteve a cargo de Keichi Otomo que também dirigiu o live-action do sucesso estrondoso em manga e animação “Rurouni Kenshin”, sob a forma de uma trilogia (2012-2014), cobrindo de grosso modo a respetiva mitologia e seus personagens. Admita-se porém que “Museum” representa um compêndio de três volumes, enquanto a saga “Rurouni Kenshin” teve direito a três filmes, cada um com mais de duas horas e parece não ter existido a pretensão de deixar esta estória aberta à possibilidade de uma continuação. Otome não é um estreante nas andanças da adaptação de publicações de sucesso ao grande ecrã. E quando o material original é bom, é difícil falhar na concretização não é? Pois…

Os créditos iniciais anunciam pompa e circunstância. No meio de chuva torrencial a polícia tenta corresponder à chamada que deseja nunca ouvir: aconteceu um homicídio. Entram em cena os detectives duros e lacónicos de gabardina. O experiente Sawamura (Shun Oguri) e o novato Nishino (Shuhei Nomura) que tenta manter os conteúdos do estômago no seu devido lugar. O corpo de uma jovem mulher assassinada com os requintes de uma besta é encontrado como numa encenação. Essa imagem remete de imediato para outros espaços e temporalidade: “Seven” (1995), “The Bone Collector” (1999) ou até “The Wailing” (2016) vêm à mente. Não será a primeira e também a última vez que tal irá suceder durante o filme. No entanto, o ritmo mais lento é abandonado em favor da exposição da montra de horrores demasiado cedo, fazendo cair a investigação para enveredar pelos tortuosos caminhos de um “Saw” (2004-2010). O aparecimento de novas vítimas sucede a um ritmo rápido e furioso. Uma nota deixada no local, falando numa punição apropriada aos erros cometidos pelas vítimas, anunciam tratar-se de um assassino em série. Esta sequência de eventos conduz a investigação policial ao caso de um assassinato cometido tempos antes e que teria sido solucionado. A forma como as vítimas são apresentadas é impressionante ainda que, de modo casual, uma ou outra encenação possa parecer menos realista. Alguns dos adereços sobretudo os que dizem respeito à anatomia humana têm aparência amadora por comparação com outros surgidos em cenas similares. Porém, o enfoque nas vítimas e no método investigativo é mais célere e aleatório que o início do filme faria antever. “Museum” despacha as vítimas com rapidez para avançar para uma investigação rebuscada, com direito a polícias a demonstrar à boa maneira asiática como conseguem ser incompetentes e pistas cujas interpretação desafia a lógica para se tornar num “Saw” nas suas piores iteracções. De facto, um filme de investigação policial by the numbers como um “Seven” seria sempre mais interessante que o “Sawven” em que seria tornar. Shun Oguri é um excelente actor, capaz de ligar o fogo-de-artifício quando tal lhe é exigido e o seu personagem alterna entre o detective compenetrado e o homem frustrado com muita volatilidade mas aguentar estas cenas é pouco mais que sofrível. O build-up para as cenas dramáticas é quase inexistente, parecendo somente histriónicas. Isto, em conjunção com flashbacks que surgem nas piores alturas se é que eram de todo necessários, transforma a última meia hora num exercício de endurance penoso. No meio de tudo, o Homem-rã, cuja máscara e motivos tinham tido todo o potencial para se tornar num clássico, é quase esquecido. Mais uma vez o passado de um personagem surge à pressa sob a forma de um flashback ainda que este nada esclareça das suas motivações. No tempo presente não se consegue extrair um racional deste assassino para a sua obra e métodos, cujo discurso louco não se coaduna com o de quem passou bastante tempo a planear assassinatos elaborados. Além disso, antecipar e reforçar repetidamente a ideia de que "Museum" irá ser extremo ao ponto de romper com tabus e depois acobardar-se é apenas patético. Para isso, até o "Saw" fez melhor. Salva-se a primeira meia hora. O remanescente é puro engano. Duas estrelas e meia.

Shun Oguri como Detective Hisashi Sawamura
Satoshi Tsumabuki como Homem-rã
Machiko Ono como Haruka Sawamura
Shūhei Nomura como Junichi Nishino
Tomomi Maruyama  como Tsuyoshi Sugawara
Tomoko Tabata como Kayo Akiyama
Mikako Ichikawa como Mikie Tachibana

Próximo Filme: ?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

"Black Coal, Thin Ice" (Bai ri yan huo, 2014)


Celebrado pela boa qualidade enquanto espécimen do neo-noir, assemelha-se a um dos mais próximos retratos da China industrial que se viu nos últimos anos em filme.

Esta é a China do segundo sector, do crescimento rápido e sem qualquer atenção pela qualidade de vida. Estamos em 1999, e é encontrado numa fábrica transformadora de carvão é encontrado um membro humano. Ali perto, é encontrada o documento de identificação que corresponde a Liang (Wang Xuebing), um trabalhador que não aparecia há algum tempo. O detective Zhang (Liao Fan) é destacado para o caso. Seguindo uma pista, ele em conjunto com outros colegas vai interrogar um suspeito mas a entrevista corre da pior forma possível. Misto de incúria e arrogância da polícia desenrola-se um tiroteio, ao qual apenas sobrevivem Zhang e o colega Wang (Yu Ailei). Com a carreira e casamento arruinados, Zhang entrega-se ao álcool e ao trabalho com segurança. À viúva de Liang, Wu (Lun Mei Gwei) são entregues as cinzas. O caso é enterrado. Eis que cinco anos depois, começam a surgir de modo idêntico, membros de corpos no meio de carregamentos de carvão por toda a região. Zhang alia-se ao colega para resolver em definitivo o caso e reavivar a chance de um regresso à carreira policial. Tendo ligação a Wu a misteriosa viúva de Liang, Zhang fica convencido que nela se encontra a resolução do caso e começa a segui-la.

“Black Coal Thin Ice” é um filme difícil já que ali nada há de sonho ou de encantador. Entre a aridez poluída da mina de carvão e o ar gélido com queda de neve constante, que se sente até às entranhas, não existe um único elemento de conforto. Nem ninguém é feliz. E se aparentar tal coisa, ainda mais rápido lhe cai a máscara. Subsiste uma aura de resignação e condenação. A ideia de que estas foram as cartas que o destino traçou e é com estas que os personagens terão de se governar está permanente durante todo o filme. Não existe nada mais do que a realidade que conhecem.
Para a viúva Wu, jovem, bonita e inteligente, não há a possibilidade de aspirar a mais do que a pequena lavandaria de bairro ou de pensar num segundo matrimónio. Não faz parte do seu plano de vida. Não dá para ver tão longe. Não dá para ver mais longe além da neve que cai. De igual modo Zhang era a profissão e a relação que tinha e lhe foram retirados. Sem eles sobrevive. Sem eles não há mais nada. A resolução dos casos encontra-se num segundo plano, abaixo das intenções egoístas dos seus protagonistas. Em particular, no caso de Zhang, um meio para um fim. “Black Coal Think Ice” não vai muito além do rótulo de neo-noir. Os papéis estão bem definidos. Wu é a femme Fatale, Zhang é o detective anti-herói. Esta última personagem é também a mais divisiva, já que ele comete demasiados erros, que vão desde o desleixo até uma incapacidade quase primitiva de juntar alguns factos. Ser polícia pode estar-lhe no sangue, as capacidades inquisitivas nem tanto. Digamos que não é nenhum Humphrey Bogart. Quanto ao mistério, esse, não é excessivamente complicado se retirarmos parte do jogo do gato e do rato entre os dois protagonistas e uma narrativa que tende a complexificar-se, para esconder o facto de que a verdade é afinal simples. Com 106 minutos de duração “Black Coal Thin Ice” consegue parecer tão longo quanto um filme que complete as duas horas. Aí reside porventura o seu maior problema, tentar parecer mais complexo do que o é ao invés de se focar naquilo que o tornou interessante desde o início, um descendente directo do género noir tendo por cenário a China industrializada do séc. XXI e as suas idiossincrasias. Três estrelas.

Realização: Diao Yinan
Argumento: Diao Yinan
Liao Fan como Zhang Zili
Gwei Lun-Mei como Wu Zhizhen
Wang Xuebing como Liang Zhijun
Yu Ailei como Wang

Próximo Filme: "Haunted Universities" (Mahalai Sayongkwan, 2009)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Election" (Hak se wui, 2005)


De dois em dois anos a tríade Wo Shing passa por um período de eleições para escolher o seu líder máximo. Acerca-se um novo de período de eleições e os membros seniores da Wo Shing acomodados que estão nas suas regras e rituais não pensam candidatar-se. Também é verdade que não estão mais perto de encontrar um novo líder. É altura de entrar sangue novo e as opiniões dividem-se entre Lok (Simon Yam) e Big D (Tony Leung Ka Fai). Lok é calmo e reservado, dir-se-ia mesmo sonso, não fosse ele um assassino frio e calculista que gostava de analisar todas as jogadas antes de decidir o curso de acção. Big D é o oposto. Espalhafatoso e possuidor de confiança excessiva, ele acredita que estão todos abaixo dele o que gosta de demonstrar por via do sadismo. Se por um lado está disposto a tudo para a Wo Shing triunfar por entre todas as sociedades criminosas e, sobretudo ele, reinar, por outro é a característica que o torna vulnerável a cometer o tipo de erros de impulsividade que costumam granjear muitos inimigos. São tidas reuniões, são feitos subornos e são tidas ainda mais reuniões. Uma decisão é tomada. Mas convém não esquecer um importante pormenor. Os anciões da tríade são organizados mas acima de tudo dão valor à tradição. O vencedor, para se legitimar terá de possuir um bastão centenário que pertenceu aos diversos chefes. Quem o obtiver será reconhecido por todos como o Grande Líder. Desencadeia-se então uma luta entre as facções e os seus seguidores para conseguir o símbolo máximo de poder.

É comum fazer-se uma associação imediata à extrema violência à mera menção da palavra máfia mas “Election” é tão enganador como os seus predecessores. Conduzido com a mão sábia de Johnnie To que tem um vasto currículo no retrato dos estilos de vida à margem da lei, “Election” concentra-se mais nas maquinações das tríades chinesas que na sua brutalidade mesmo que esta quando surja seja marcante. A título de exemplo, um leal lacaio mastiga pedaços de porcelana a mando do chefe…
A maioria do elenco, quase na totalidade do sexo masculino, são homens de meia-idade, práticos e capitalistas. Não fosse a natureza dos assuntos com que lidam e quase se poderia olhar para estes como legítimos homens de negócios. No fundo, tudo é passível de ser transformado num negócio desde que se seja amoral. Com alguns dos meninos bonitos do cinema chinês como Louis Koo (Jimmy) e Nick Cheung (Jet) é de estranhar quão pouco estes são utilizados. Eles ostentam nas poucas cenas em que surgem carisma suficiente para se querer saber mais sobre os seus personagens que se revelam, aliás, os poucos idealistas ou bandidos por vocação num filme onde predomina o cinismo. Entra ainda em acção a força policial, como que para nos fazer recordar quem é que é o bom da fita. Ela está no entanto, condenada a um plano secundário num enredo onde já existem demasiados actores secundários. Talvez fosse mesmo essa a ideia dos argumentistas, demonstrar como estas sociedades são enormes, como existem demasiados intervenientes a considerar e, assim, se torna difícil distingui-los. A película perde talvez o potencial de encanto após abandonar o engenho em detrimento da caça ao homem, ou melhor, ao bastão mítico, altura em que se torna mais convencional. Curiosamente, uma crítica que não se lhe pode apontar e não costuma ser habitual em filmes sobre a máfia (chinesa, italiana ou japonesa) é que é demasiado curto.
Após um período de acalmia, o fim vem rápido e furioso, com os dois melhores actores em cena a comprovar aquilo que já se dizia sobre os seus personagens. Aquele é um negócio sujo e mesmo sobre um clima de calma aparente, os bandidos não conseguem negar a sua natureza. Três estrelas.

Realização: Johnnie To
Argumento: Nai-Hoi Yau e Tin-Shing Yip
Simon Yam como Lok
Tony Ka Fai Leung como Big D
Louis Koo como Jimmy
Nick Cheung como Jet
Ka Tung Lam como Kun
Siu-Fai como Sr. So
Suet Lam como Big Head
Tian-Lin Wang como Uncle Teng
Bing-Man Tam Uncle Cocky
Maggie Siu como Senhora Big D
David Chiang Chefe Superintendente Hui

Próximo filme: "Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)

domingo, 3 de janeiro de 2016

"Blind Detective", (Man tam, 2013)


Johnston Chong See-tun (Andy Lau) é forçado a abandonar a polícia após ficar cego. Considerado o melhor entre os seus pares pela extraordinária capacidade de dedução, a sua perda é um duro golpe para o departamento. Mas ele é incapaz de parar na sua senda de justiça e dedica-se agora aos casos para os quais a polícia não tem tempo: os casos antigos e aparentemente insolúveis, recolhendo as recompensas. Numa das suas mais recentes investigações cruza-se com a inspectora Goldie Ho Ka-tung (Sammi Cheng), incansável mas ainda um pouco “verde” que se revela o contraponto ideal para o seu estilo mais sóbrio. A nova dupla dedica-se a resolver casos em conjunto, incluindo um que afecta Goldie desde miúda, o desaparecimento da sua melhor amiga Minnie (Cheng Ho-lam) e que a fez tornar-se polícia. Pois que o mundo está cheio de gente mal-ajustada e Goldie tornou-se polícia por causa do trauma de infância. Alguma vez se viu alguém tornar-se agente polícia por genuína devoção à justiça?

Johnnie To está para os thrillers policiais/mafia como, bem… é o que ele faz de melhor (“Election”, 2005; “Mad Detective”, 2007, etc.). No entanto, não se pode dizer o mesmo de “Blind Detective”. A ideia de um agente da polícia/detective cego não é a mais original, temo dizê-lo mas, ainda que aceitemos a premissa absurda, o filme sobrevive mais da química entre Lau e Cheng do que das inúmeras investigações enfiadas à força num filme que já tem muita tralha. Parece que a tragédia da perda de visão de Johnston se arrastou ao longo de vários anos até ficar invisual. Johnston sente ainda os efeitos da solidão, o que pretende sugerir por um lado, o motivo pelo qual ele é incapaz de deixar de dedicar por completo ao trabalho policial e, por outro, a conveniência do aparecimento de uma certa detective. Pelo meio, é ainda apresentado um potencial interesse amoroso para Johnston para insinuar um triângulo romântico que não chega a ter pernas para andar (entenda-se que ainda assim “Blind Detective” tem 130 minutos de duração) e Johnston tem tempo para resolver diversos casos com o do maníaco que atira ácido sobre inocentes até finalmente, se debruçar sobre o caso que desola Goldie há mais de uma década. Adicionalmente, enquanto Johnston foi perdendo um dos sentidos, ele foi apurando outros, conferindo-lhe entre outros, um olfacto extraordinário e que o auxilia a resolver casos que seriam, para outros complicados. Não deixa de me espantar, a facilidade com que o cinema asiático e, o coreano em particular, chama às suas forças policiais uma anedota. Por entre polícias com os instintos de um calhau, chefias mais preocupadas com a manutenção do status quo e políticos que apenas querem ficar bem na fotografia, tem de aparecer um individuo especial para salvar o dia.
“Blind Detective” também não parece ter a certeza daquilo que quer ser. Os personagens alternam entre interpretações mais subtis e o exagero cómico. Lau, a despeito de ter ganho um prémio (surpreendente) pela sua interpretação nesta película, sai algumas vezes, demais da personagem. Ele “esquece-se” de que é suposto ser um invisual, o que é uma franca distracção. Os “casos” nem sempre interessantes que surgem para querer demonstrar vezes sem conta as capacidades fantásticas de Johnston assim como um pretexto para divertir, não duram o tempo suficiente para entreter e acabam por roubar tempo à resolução da investigação principal. Mas até a solução desta peca pela falta de investimento numa direcção clara e uma montagem cuidada. As sequências de acção estão impecáveis, ou não fosse a sua coreografia um dos pontos mais fortes de um filme do Johnnie To. Se ao menos houvesse a mesma atenção para o remanescente… Duas estrelas e meia.

Realização: Johnnie To
Argumento: Ryker Chan, Ka-Fai Wai, Nai-Hoi Yau e Xi Yu
Andy Lau como Johnston Chong See-tun
Sammi Cheng como Goldie Ho Ka-tung
Guo Tao como Szeto Fat-bo
Gao Yuanyuan como Tingting
Zi Yi como Joe
Lang Yueting como Minnie Lee
Cheng Ho-lam como Minnie (adolescente)
Lam Suet como Lee Tak-shing
Philip Keung como Chan Kwong
Lo Hoi-pang como Pang

Próximo Filme: "Parasyte: Part 1" (Kiseijuu, 2014)

domingo, 4 de janeiro de 2015

"Marshland" (La isla Mínima, 2014)


Os créditos vêm como uma bomba: um take contínuo percorre a paisagem natural, paradisíaca do sul de Espanha enquanto ecoa o choro de uma guitarra. A paisagem é verde e azul, laranja e castanho, em alternância, o terreno incerto, os sulcos a fazer recordar o próprio cérebro humano, ora digam-me se a película a que vou assistir não é inquietante.

Juan (Javier Gutiérrez) e Pedro (Raúl Arévalo) aguardam à beira da estrada sob o calor abrasador que os venham socorrer. Acabados de chegar sul de Espanha, advindos de Madrid para investigar o desaparecimento de duas irmãs, já dão a imagem de uns inúteis a necessitar de ajuda. Na pensão onde irão pernoitar houve um equívoco: terão de passar a primeira noite no mesmo quarto. Deverá ser pouco tempo, acreditam os locais. As irmãs desaparecidas têm uma má reputação e nem os habitantes, nem o pai destas demonstram grande interesse em fornecer pistas para a resolução do caso. Apenas a mãe Rocío (Nerea Barrios), atormentada pela dor colabora com o pouco que tem para lhes dar, o negativo de fotografias lascivas que o fogo da lareira não conseguiu queimar na totalidade. Esta é sem dúvida uma localidade mínima. Na Espanha abaixo do Guadalquivir pós-Franco, a ditadura apenas findou em termos políticos. A cruz do ditador permanece firme nas paredes das casas. Estado, Família e Igreja governam a mente colectiva. Não existe ainda espaço para a emancipação ou uma sexualidade liberta de preconceitos: aquilo que aquelas adolescentes perigosamente representam. Eis que surgem corpos no meio do terreno pantanoso e aquilo que parecia uma fuga ao tédio, matrimónio em terra idade e aos constrangimentos de uma localidade onde os rumores são difundidos ao sabor do vento, se transformam numa caça a um assassino em série.
“Marshland” é um regresso aos thrillers policiais, um género em decadência, talvez pela sobreexposição, nos últimos anos. Uma das óbvias excepções tem sido o cinema coreano que apresenta de modo sistemático, anualmente, pelo menos um thriller de qualidade para saciar um público que ainda não acusa o cansaço do género. Mas as coincidências de “Marshland” com o cinema coreano não se ficam por aqui. “Marshland” é fantasticamente similar a “Memories of Murder” (2003), de Joon-ho Bong. Ambos ocorrem durante os anos 80, o primeiro pós-ditadura militar, o segundo decorre ainda durante uma no último fôlego, com o surgimento de cadáveres femininos mutilados em campos de arroz. Ambos os casos requerem a visita de um ou mais polícias da cidade, dominantes de novas técnicas, que contrastam com os saberes e desconfiança locais. “Marshland” também mantém a combinação típica do polícia moderno mais subtil e do polícia mais vivido, com métodos mais questionáveis, pelo menos para os padrões actuais. Mas não tenta dizer-nos qual o melhor, deixa as ilações para quem o vê ou, se preferirem, a interpretação estará sujeita à época em que nos inserimos. Gutiérrez e Arévalo estão fantásticos nos papéis convencionais que lhes foram atribuídos. No entanto, as fronteiras entre o polícia bom e o polícia são, no mínimo, nebulosas. Cada um tenta demonstrar o seu caminho ao outro sem criticar abertamente as opções deste. Algures, conseguem manter a cabeça fria ou dão azo à bestialidade quando não o fariam antes. Deles, é Juan o que possui a moralidade mais dúbia e o que parece mais atormentado pelos anos mais de experiência do que Pedro e um passado misterioso. Por isso, encontra maior facilidade em mover-se nos terrenos pantanosos, de segredos obscuros, terríveis e de mostrar as garras sem hesitação ou receio dos locais. Ele conhece as regras implícitas daquelas terras. Juntos, cruzam-se com uma série de personagens, cada uma com uma informação importante a fornecer, mesmo que não o saibam. A cinematografia fabulosa de Alex Catalán completa o cenário de desintegração daquela sociedade. Se não podem sequer confiar nas pessoas que pertencem àquela “ilha”, então em quem? É um sinal dos tempos, terão de reajustar-se se quiserem sobreviver além das próximas colheitas e das mudanças políticas de Madrid. Quatro Estrelas.


Realização: Alberto Rodríguez
Argumento: Rafael Cobos e Alberto Rodríguez
Javier Gutiérrez como Juan
Raúl Arévalo como Pedro
Nerea Barros como Rocío
Jesús Castro como Quini
Antonio de la Torre como Rodrigo
Salva Reina como Jesús
Manolo Solo como Periodista
Cecilia Villanueva como María
Juan Carlos Villanueva como Juez Andrade

O melhor:
- A cinematografia é soberba. Alex Catalán tem motivos para estar satisfeito
- A banda-sonora completa na perfeição as imagens
- Não podiam ter escolhido melhor dupla de actores, em particular, Javier Gutiérrez no papel de um polícia atormentado com esqueletos no armário

O pior:
- Alguma ambiguidade no desenlace

Próximo Filme: "Body of Water" (Syvälle salattu, 2011)

domingo, 28 de dezembro de 2014

"The Thieves" (Dodookdeul, 2012)


“The Thieves” faz-nos recuar ao formato antiquado do grupo de ladrões que se reúne para realizar um furto único esgueirar-se debaixo dos olhares de todos. É uma estória tantas vezes recontada que desperta ódios e paixões em igual medida. A cada novo ano aparece uma nova variação da fórmula que justifica a realização de sequelas (“Ocean’s Eleven”, 2001) e o surgimento de novos franchises (“Now you see me”, 2013). Para os amantes do género “The Thieves” será uma obra incontornável, apetite ainda mais aguçado por ter sido o maior sucesso de bilheteira na Coreia do sul do ano de 2012. “The Thieves” junta um elenco internacional (Coreia do sul, China e Malásia) de reconhecido talento e estrelato capaz de atrair as massas ao cinema e um realizador que já por duas vezes dirigiu projetos sob a mesma matéria sem perder o toque de midas. Os argumentos para o seu visionamento poderão significar muito pouco para desconhecedores do cinema sul-coreano mas quando enquadrados no devido contexto demonstram ser uma estratégia de marketing genial.

Popeye (Jung-jae Lee) é o líder de um grupo de ladrões especializados na realização de furtos de alta complexidade. O seu gangue reúne a sexy mas perigosa Yenicall, a veterana Chewingum (Hae-suk Kim) e o aprendiz da arte Zampano (Soo-yun Kim) Eles juntam-se, planeiam, realizam e desaparecem durante algum tempo. Quando após a última operação a polícia se aproxima demais, eles retiram-se para Hong Kong para deixar as pistas esfriar. Lá, Popeye é seduzido a juntar-se ao antigo chefe e associado Macao Park (Yun-seok Kim) para aquele que será o golpe mais lucrativo e intrincado da carreira de todos, o roubo do diamante "Lágrima do Sol". O trabalho exige um maior número de participantes, que inclui o gangue chinês liderado por Chen (Simon Yam). Como não bastasse o número de jogadores ser elevado, o que por si já significa a diminuição do quinhão de cada um e a desconfiança gerada pelo facto das equipas nunca terem trabalhado em conjunto, Popeye faz questão de adicionar ao grupo Pepsee (Hye-soo Kim) recém-libertada da prisão, depois do último trabalho que realizaram em conjunto com Macao ter corrido mal.
A cinematografia e as personagens ecoam as opções estilísticas e os estereótipos de filmes anteriores mas “The Thieves” encontra-se mais longe do esquema estudado e ensaiado ao pormenor de “Ocean’s Eleven” e antecessores, das reviravoltas dramáticas de “Mission Impossible” (1996). Dong-hoon Choi joga com a ambiguidade da moral dos seus personagens a todo o instante. Como grupo funcionam para atingir o seu objectivo questionável – eles não são nenhuns Robin dos Bosques –, procuram o lucro através de métodos ilegais para ganho próprio. Enquanto indivíduos examinados a um pormenor microscópico, compreende-se como o equilíbrio que os une é instável. Pepsee, Macao Park e Popeye estão unidos numa teia amorosa e de traições da qual nenhum quer sair a perder. Especialmente Pepsee pagou por isso com a prisão e tem agora em mente não só uma recompensa pelo tempo que perdeu encarcerada, como o motor da vingança. Yenicall que alia capacidades acrobáticas e raciocínio rápido ao sex-appeal não está feliz por ter perdido o foco de atenção para Pepsee que é de certo modo uma versão mais madura dela própria e de ter de repartir a sua parte com mais intervenientes. Chewingum já acusa o cansaço de tantos anos na corda bamba e deseja, aliás anseia uma reforma, se não tão rica, pelo menos feliz. Chen é outro veterano que alinha com os coreanos para a condução do golpe mas apenas até certo ponto e nos seus termos. Zampano não consegue resistir aos encantos da perigosa Yenicall, pondo até a sua sobrevivência no jogo em perigo. Em última análise, quando as coisas correm mal e, acreditem que vão correr muito mal, as máscaras caem e cada um actua de modo a salvaguardar aquilo que é mais importante para si. Com um grupo de actores tão talentoso a expectativa é a de que a luta pelo tempo de écrã levasse a melhor sobre a estória que se iria desintegrar à frente dos nossos olhos. O que sucede é o oposto. Cada subenredo permite aos personagens envolvidos brilhar. Por cada poucos minutos a mais concedidos, maior é o impacto do destino daqueles personagens. Como os seus personagens, a dupla de argumentistas é brutal. Todos têm um alvo nas costas e ninguém está livre de ser morto a qualquer instante. Subitamente é menos importante saber quem é que fica com o diamante do que quem sobrevive para gozar a recém-encontrada abastança. Três estrelas e meia.

Realização: Dong-hoon Choi
Argumento: Dong-hoon Choi e Gi-cheol lee
Yun-seok Kim como Macao Park
Jung-Jae Lee como Popeye
Hye-soo Kim como Pepsee
Ji-hun Jun como Yenicall
Simon Yam como Chen
Hae-suk Kim como Chewingum 
Dal-su Oh como Andrew 
Soo-hyun Kim como Zampano
Derek Tsang como Jonny 
Soo-jeong Ye como Tiffany 
Angelica Lee como Julie

O melhor:
- As cenas de acção
- O elenco sólido

O pior:
- Sensação de que é pouco tempo para tamanha exposição. Exploração das ideias em formato de série não seria um desperdício
- A velha estória... Se não gostam do género não é este que vos vai fazer mudar de ideias




Próximo Filme: "Marshland" (La Isla Mínima, 2014)

domingo, 29 de junho de 2014

"The Neighbors" (Ee-oot Salam, 2012)


O vizinho na verdadeira acepção da palavra é uma espécie em via de extinção. Longe estão os dias em que se conheciam todos os vizinhos no mesmo prédio ou das vivendas mais próximas. A cultura do indivíduo toma cada vez mais a primazia sobre as relações humanas, impedindo que se formem os laços de entreajuda que valiam aos nossos antepassados. Assim, muitos factos escandalosos escapam até ao olhar atento do vizinho mais atento...

Em “Neighbors” os residentes de um pequeno complexo de apartamentos  vêem a sua existência pacata em perigo quando uma série de homicídios sucedem dentro da sua área de conforto. A mais recente vítima, Yeo-seon (Sae-ron Kim) vivia no seu prédio. A despeito do acontecimento trágico, eles até podiam esquecer o sucedido e prosseguir com a vida normal não fosse o comportamento muito suspeito do novo vizinho Seung-hyuk (Sung-kyun Kim). Quase todos têm alguma interacção estranha com Seung-hyuk e cedo se estabelece que ele deve ser o assassino da criança. Levanta-se pois uma nova questão, com o comportamento cada vez mais descuidado do assassino e com novas vítimas a surgir, quem será capaz de denunciar o vizinho?

“Neighbors” faz recordar um fenómeno que alguns terão estudado em psicologia ou com o qual se terão cruzado se gostam de canais como o “Biography” denominado de Efeito Genovese. Este é assim denominado, após o estudo por psicólogos de um caso que chocou a América nos anos 60, quando Catherine Genovese foi atacada e esfaqueada até à morte, durante meia hora, os seus gritos e ataque inicial testemunhados por cerca de duas dezenas de pessoas. Ninguém foi capaz de a acudir e o telefonema para a polícia também foi realizado tardiamente. Genovese viria a morrer no hospital. “Neighbors” apresenta também uma panóplia de personagens que, por diversas razões se desresponsabilização da decisão que poderá levar à captura do criminoso, transferindo o ónus para qualquer outro que não eles próprios. Decisão ainda mais premente quando a polícia não possui ainda qualquer pista substancial que o leve a uma prisão.
Kyung-hee (Yun-jin Kim) encontra-se à beira da loucura, tal é a culpa que sente por não ter ido buscar a enteada à escola. Nesse dia a criança desaparecia para o seu corpo ser depois encontrado mutilado, numa mala de viagem. Agora, Kyung-hee vê o fantasma da enteada chegar todos os dias a casa. Entretanto, Sang-yoon (Ji-han Do) verifica um padrão peculiar num dos residentes do condomínio. Ele faz uma entrega de pizza na mesma casa sempre que desaparece uma pessoa. Yong-nam Jang (Tae-Seon Ha) é uma mãe com pouco que fazer e passa o tempo todo a fazer planos para o condomínio, mesmo que isso implique envolver o novo vizinho esquisito e reticente. Aliás, ela encontra-se tão ocupada que descura a própria filha, ela que é uma fotocópia da menina que foi encontrada morta (interpretada pela mesma actriz Sae-ron Kim). Quanto a vós não sei mas se fosse minha filha estaria muito preocupada.
Sang-young (Ha-ryong Lim) é o dono de uma loja de malas de viagem da qual um homem misterioso se tornou cliente assíduo. Jong-rok (Ho-jin Cheon) é um dos seguranças do condomínio que pretende passar despercebido. No entanto, ele sente afinidade pela filha da vizinha da associação de condóminos e não vê com bons olhos o interesse que um dos novos vizinhos parece tomar por ela. Hyuk-Mo (Dong-sok Ma) é um gangster e um bruto impiedoso com quem se atravessa nos seus planos, mesmo que isso signifique apenas não saber estacionar um carro. Todos absorvidos pela sua realidade de tal modo que não vêem ou fingem não ver o que é óbvio. Naquele microcosmos, mesmo que se conheçam não se relacionam além do superficial. Nem o desejam. Que quanto menos souberem melhor. O instinto de auto-preservação é superior à solidariedade. A seu tempo, vão formando uma ideia da realidade e entram num estado de dissonância cognitiva. Será que vão agir? Mais, será que vão agir a tempo? Apesar de ser um elenco vasto, os personagens são facilmente identificáveis e o argumento é excelente a veicular as suas motivações. Não querem perder o trabalho, não querem que sejam descobertos os seus segredos, acham que não é o seu papel… A força do elenco perde-se no tempo que demora a interligar as estórias individuais. Também o casting de Sae-ron Kim nas duas personagens menores é duvidoso. A jovem é talentosa e compreende-se o objectivo da parecença da vítima e de um alvo potencial, por um lado o humor instável da mãe e, por outro, despoletar os instintos homicidas do criminoso, mas bastava apenas que fosse uma actriz fisicamente semelhante. Além disso, o fantasma surge em demasia. Se a ideia era enfatizar o assombro de Yoo-jin com a sua própria culpa a ideia foi apresentada e repetida por demais pois que chega um momento em que nos questionamos se é um fantasma das mentes dos culpados ou o espectro é real. Aspectos sobrenaturais à parte, “Neighbors” é um thriller à boa maneira coreana: leva o seu tempo mas é eficaz. Três estrelas.

O melhor:
- Elenco
- Narrativa fragmentada permite ter insight sobre o que se passa na cabeça de cada um dos personagens sem alienar
- Suspense

O Pior:
- Elemento sobrenatural. Quando é que os argumentistas coreanos vão aprender que não precisam de acrescer elementos de outros géneros se estória inicial tem qualidade por si só?
- Demasiado tempo para interligar as estórias individuais


Realização: Hwi Kim
Argumento: Hwi Kim e Pool Kang (banda-desenhada)
Yun-jin Kim como Kyung-hee
Sung-kyun Kim como Seung-hyuk
Ji-han Do como Sang-yoon
Tae-Seon Ha como Yong-nam Jang
Sae-ron Kim como Yeo-Seon/Sooyeon
Ha-ryong Lim como Sang-young
 Ho-jin Cheon como Jong-rok
Dong-sok Ma como Hyuk-Mo

Próximo Filme: Jeritan Kuntilanak, 2009

domingo, 20 de abril de 2014

"Howling", 2012


Se pudesse passava dias inteiros a ver thrillers de suspense. Thrillers nunca são demais e visionar filmes que não ofendam a inteligência, isso então, é um achado. Junte-se-lhe um mistério detectivesco e um pouco de Kang-ho Song e terão um filme melhor que 85% dos filmes autointitulados “thrillers”, sem sequer se esforçar.

“Howling” é uma adaptação do livro “O Caçador” (2006) da escritora japonesa Asa Nonami que foca dois detectives que investigam o estranho caso de uma série de mortes interligadas pelo ataque de um animal selvagem. Eun-young (Na-young Lee) é uma detective recém-promovida que se tenta adaptar ao novo grupo de colegas mais experientes e misóginos que fazem questão de lhe mostrar, desde o início, que ali, não há lugar ela e que mais vale voltar para a polícia de patrulha. Sang-gil (Kang-ho Song) é um detective que se encontra no limiar da competência, mais preocupado com o filho delinquente e espera que os deuses da polícia ouçam a sua prece por casos fáceis e simples. Depois ainda se questiona como é que ainda não progrediu na carreira. Esta dupla é emparelhada à força pelas chefias quando surge um caso banal de suicídio. As perspectivas não podiam ser mais diferentes: Eun-young deseja provar que é mais do que uma cara bonita que subiu demasiado rápido e Sang-gil só quer fechar mais um caso sem atrair atenção negativa sobre si. Em ambos, os casos falham. A pressa de mostrar que é competente levam a detective a cometer alguns erros que apenas confirmam a ideia dos colegas de que ela nunca devia ter sido promovida. Quanto a Sang-gil espera-o um caso que o fará suar muito mais do que alguma o fez. O corpo de um homem, queimado até à impossibilidade de recognição, apresenta mordidelas de uma besta. Um cão? Um lobo? Porquê? O que começam por ser ataques aleatórios transformam-se num padrão com base num plano maléfico orquestrado até ao último pormenor…
Parelha improvável

A investigação instiga a curiosidade tanto do fã de mistérios detectivescos como do cinéfilo mais céptico pelo modo competente como é conduzida. Seguindo a fórmula tradicional, a película é um mix de géneros, que alterna entre o racional e o misticismo mas sem alienar o espectador. Mais notavelmente, “Howling” apresenta o ainda não cansado arquétipo do polícia negligente e mais, em confronto aberto contra a quebra das convenções: uma mulher no papel principal, profissional e inteligente que enfrenta a oposição de colegas comodistas e sexistas.
Admito, com um pouco de orgulho no realizador Yoo Ha, que ele deve ter resistido a uma pressão tremenda em transformar a protagonista feminina numa mulher com problemas por resolver com o paizinho e que, tudo quanto deseja, é ser protegida por um homem. Nada disso. A protagonista é colocada num pedestal, encontra-se num plano superior ao dos seus congéneres e até experiencia, (até me doeu a mim), uma tareia brutal. Na caracterização dos personagens reside pois a força de “Howling” que, despojado dos elementos místicos redundaria (quase) numa investigação tantas vezes visionada em cinema. Três estrelas.



O melhor:
- Kang-ho Song. Mas a sério, até a dormir ele fazia este papel
- Pouco melodrama
- Cinematografia

O pior:
- Se retirássemos o elemento lobo, seria uma investigação pouco mais do que óbvia;
- Tendência dos vilões em complicar.

Realização: Yoo Ha
Argumento: Yoo Ha e Asa Nonami (livro)
Na-young Lee como Eun-young
Kang-ho Song como Sang-gil
Sung-min Lee como Detective Young-cheol
Jung-geun Shin como Detective-chefe
Hyeon-seong Im como Detective
Jeong-jin como Detective

Próximo filme: "The Ghosts must be crazy", 2011

domingo, 8 de dezembro de 2013

"King Game" (Osama Game, 2011)


“O rei manda…” É assim que começa, uma sugestão inocente, um grupo de pessoas dispostas a cumprir os desejos. E rapidamente, a convicção, de que não podem deixar de levar o jogo até ao fim. 


Uma turma inteira recebe no telemóvel uma mensagem com uma ordem do rei. As regras são simples. Todos deverão participar. Os visados numa ordem específica têm 24 horas para a cumprir. As pessoas que não a cumprirem serão castigadas. Desistir não é uma opção. A maioria dos alunos acha que é uma brincadeira inofensiva e aguarda ansiosamente pelo dia seguinte para saber se a “ordem” é cumprida. É que, de acordo com o rei, dois estudantes terão de se beijar. Chiemi (Yurina Kumai) fica incomodada desde o início, sobretudo porque o rei incentiva a intimidade entre colegas de turma. Eles cumprem as ordens e o rei revela a sua satisfação mas o jogo ainda agora começou. As ordens tornam-se cada vez mais intrusivas e violentas e o primeiro aluno desiste. A pena? Desaparecer para sempre. E o pior é que nada podem fazer quanto a isso pois o resto da sociedade não dá pela ausência dos alunos. A solução é encontrar o rei. Será que esta turma consegue unir-se para encontrar o vilão por trás das mortes? Ou a desunião vai ditar o encontro da morte?

A estória baseia-se num romance de Nobuaki Kanazawa, que foca o jogo do “Rei Manda” levado às consequências mais extremas. Tida como uma brincadeira inocente, faz as delícias dos adolescentes em busca de emoções fortes. O problema que se coloca é quando este surge como agenda escondida de alguém com más intenções. A conformidade e o desejo de agradar aos pares fazem o resto. Os desistentes são vítimas de zombaria e/ou expostos ao ridículo. Ninguém quer parecer um fraco em frente aos amigos ou aqueles a quem pretende impressionar. Em “King’s Game” existe a mentalidade de rebanho e depois, duas ou três ovelhas negras como Chiemi e Nobuaki (Dori Sakurada) que tentam retirar sentido do jogo e tentam identificar o Rei antes que o mal se abata sobre eles. Nem todos reagem como eles, entre o desistir de lutar pela vida e baralhar os dados de modo a que outros tomem o seu lugar, aos poucos vão revelando a sua verdadeira face, confrontados com uma situação de perigo iminente. “King’s Game” perde a parada mal começa o jogo, a narrativa investe nos ídolos que interpretam os papéis principais, diga-se de passagem com sucesso, mas escusa-se a penetrar na psique do rei. Quando os alunos começam a realizar as perguntas importantes já grande parte está condenada. Porque é que alguém faria aquilo? Porquê eles? Porquê naquele momento? Há insinuações de quem poderá ser o rei apenas não creio que as sugestões fossem necessárias. Elas são tão óbvias que é demasiado fácil chegar à conclusão que “aquela” pessoa não pode ser. A maioria das personagens possui atributos que permite a sua distinção. É talvez um pouco enervante que alguns dos alunos apostem em prejudicar o próximo para sua própria protecção sem qualquer transição. De melhores amigos a inimigos em minutos. A gravidade dos acontecimentos implica uma reflexão que o argumento não demonstra ainda que se trate de adolescentes dramáticos eque dão prioridade em primeiro lugar às relações com os pares.

A este filme com uns meros 82 minutos, faltou coragem. O desfecho nada tem de desafiante. “King’s Game” pouco tem de crítica social e muito de atracção. A turma deve ser a mais atraente que já alguma vez vi. Praticamente não há alunos feios. E a liderar este grupo estão duas jovens oriundas de grupos de jpop que certamente não precisavam de puxar dos galões dramáticos pois a sua presença na cena musical japonesa já lhes confere uma legião de fãs à partida. Os argumentistas não souberam trabalhar além de um elenco jovem, bonito e um jogo conhecido um pouco por todo o mundo… Um desperdício. Duas estrelas e meia.

Realização: Norio Tsuruta
Argumento: Nobuaki Kanazawa e Jun’ya Kato
Yurina Kumai como Chiemi
Dori Sakurada como Nobuaki
Airi Suzuki como Maria Iwamura

Próximo Filme: V/H/S, 2012

domingo, 27 de outubro de 2013

"8 Immortals Restaurant: The Untold Story" (Bat sin fan dim ji yan yuk, 1993)


Wong Chi Hang está bem dentro do negócio do restaurante. É ele que prepara os bolinhos de carne que fazem as delícias dos clientes. A preparação do porco não é complicada desde de que se disponha de força e de facas bem fiadas. A prática, essa, ele já tem. Ele esventra o animal e retira-lhe os miúdos. Com o focinho decepado e o corpo despojado de órgãos pode então fazer um corte longitudinal profundo desde a traqueia até ao ânus. A seguir vem o trabalho mais difícil. Tem de cortar através de osso para o cortar em dois. Conseguido isto, torna-se mais fácil desmembrar e separar as peças de carne para os diversos pratos a confeccionar. A frieza com que realiza estes actos apenas reforça a ideia de que provocá-lo pode constituir o maior e último erro que cometemos em vida.


 A sua personalidade sociopata pode ser identificada na sequência inicial, onde Wong reconhecido como aldrabão por um parceiro de jogo, solta a fúria da pior maneira, assassinando-o de forma brutal. Depois de provocar um incêndio para apagar os indícios do crime, evade-se de Hong Kong por Macau, assumindo uma nova entidade. A estória avança até 1986, com a ilha em polvorosa após a descoberta de membros humanos numa praia. Após a realização de diversas diligências a polícia chega à conclusão que os restos humanos pertencerão à mãe do antigo dono do restaurante “Oito Imortais” que é dado como desaparecido juntamente com a mulher e os cinco filhos. Com sucessivas pistas a apontarem a ligação do restaurante ao crime e o comportamento cada vez mais bizarro de Wong, nada podia preparar a força policial para uma estória com contornos tão perversos. “8 Immortals Restaurant” interessa-se mais pelos crimes que a investigação policial, sendo sobre esta que recaem os momentos de alívio cómico. Excentricidade dos cineastas, um momento de revelação de restos humanos, acaba por ser uma das oportunidades para injectar um pouco de humor num instante de tensão.

O argumento baseia-se em crimes reais que chocaram Macau durante os anos 80, pelos requintes de malvadez com que Wong Chi Hang assassinou duas famílias desconsagrou os seus cadáveres. E na maior parte, estes factos são apresentados tal como sucederam. A película introduz elementos muito interessantes que têm vindo a ser propagandeados atualmente sob a forma de “inédito”, nomeadamente, uma narrativa conduzida em grande parte pelo ponto de vista do assassino com todos os detalhes grotescos que isso implica. Pertence à “Categoria III”, um sistema de rating vigente em Hong Kong que postula que apenas pessoas com 18 anos de idade ou superior podem visionar, alugar ou assistir em sala de cinema aos filmes com essa classificação. Conhecido pela violência extrema e cenas de sexo explícitas, é um género muito procurado e ao qual, os cineastas locais não procuram fugir pois, sobretudo em casos onde o orçamento é reduzido e a qualidade bastante baixa, pode servir de chamariz. “8 Immortals Restaurant” é conhecido como um dos exemplos superiores desta classificação mas não poupa o espectador.  Anthony Wong apresenta um desempenho assombroso. O seu Wong Chi Hang é vil, é asqueroso, é aterrador. Tido pelo público como um homem simpático e acessível, que também encarna ocasionalmente em cinema, ele transfigura-se totalmente nesta personagem. Sem próteses ou qualquer outro acrescento para modificar as suas feições, a sua entrega é de tal modo impressionante que a sua fisionomia se altera para a de um homem desagradável e perigoso. As cenas em que Wong esquarteja as suas vítimas, seja um porco ou um ser humano, são arrepiantes. Atentem sobretudo à cena em que Wong elimina uma família inteira. Há algo de tão perigosamente amoral naquele personagem que corremos o risco de confundir a ficção com o real. E sem restrições de classificação, pouco ou nada é deixado para imaginação. Mesmo filmes que se afirmam de “extremos” e “irreverentes” não são capazes de gerar imagens tão provocantes ou obscenamente repulsivas como este. Para o aficcionado de terror “8 Immortals Restaurant – The Untold Story” é a prova de fogo. Ideal para apaixonados por estórias verídicas e viciados em desafiar os seus limites de tolerância. Três estrelas e meia.

Realização: Danny Lee e Herman Yau
Argumento: Wing-kin Lau e Kam-Fai Law
Anthony Wong como como Wong Chi Hang
Danny Lee como Chefe Lee
Emily Kwan como Bo
Julie Lee como Pearl
Fui-On Shing como Cheng Poon
Parkman Wong como Bull

Próximo Filme: 407 Dark Flight 3D, 2012

quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Blind" (Beul-la-in-deu, 2011)


Soo-ah (Ha-neul Kim) é uma antiga recruta da polícia que cegou há três anos, na sequência de um acidente de viação. Ela ainda tem dias maus, dias em que os nervos lhe toldam a concentração e parece tão desamparada como no dia em que experienciou pela primeira vez a cegueira total e permanente. Soo-ah recusa-se a aceitar a ajuda do orfanato que a acolheu e, não se sabe se o motivo por trás desta atitude é o orgulho ou o facto de achar que não a merece, por não ser alheia à responsabilidade no acidente que a cegou a vitimou o “irmão”. Um dia apanha boleia do táxi errado. O condutor é um assassino em série e Soo-ah está prestes a tornar-se a próxima vítima quando atropelam algo. Soo-ah cedo suspeita que atropelaram uma pessoa e aproveita a confusão do acidente para se escapulir das garras do homem estranho, transformando-se na testemunha improvável do desaparecimento de uma jovem mulher.
Entretanto, surge Gi-seob (Seung-ho Yoo), um jovem desenraizado e extemporâneo que põe em causa as declarações de Soo-ah. Ele semeia a dúvida sobre a credibilidade de uma testemunha já frágil, ao mesmo tempo que faz a própria Soo-ah questionar as suas capacidades. Para o caso é destacado o desajeitado mas bem-intencionado detective Cho (Hie-bong Jo) cujo instinto parece estar a milhas de Soo-ah e do assassino. Estará numa invisual a chave para a captura de um assassino que tem conseguido iludir a polícia? “Blind” é comedido nas personagens mas não se poupa a esforços para as caracterizar. O assassino é calculista, dissimulado, aterrorizante e brutal. A construção da personagem está ligada ao que de pior se pode conceber na existência humana, é conscientemente unidimensional, como se não merecesse mais respeito. Acto consciente é, também, a exploração de Soo-ah como uma mulher que a despeito da incapacidade recém-descoberta explora o melhor dos seus outros sentidos e da sua intuição de polícia. Já Gi-seob utiliza o confronto como modo de escape a situações incómodas e impedir que os que estão à volta o magoem. Ela perdeu o “irmão” com quem foi criada no orfanato e Gi-seob constitui em simultâneo uma recordação penosa e uma nova oportunidade, dando espaço a um laço que poderá ser a fronteira intransponível para um assassino que não conhece o afecto. O detective Cho parece retirado a papel químico da polícia de outros filmes mas revela competência ligeiramente superior. Ele contribui para o mito de que as forças da autoridade sul-coreanas têm um QI bastante inferior ao da população média. Quase como se fosse um requisito para se tornarem polícias. Com uma taxa de crime das mais baixas dos países desenvolvidos é normal que a polícia seja no mínimo, relaxada. Junte-se um sistema penal onde as penas são consideradas leves pela população e o sistema judicial é considerado desclassificado em efeito cascata. O ecrã não é mais do que o reflexo do senso comum da população.

“Blind” é a segunda incursão do realizador Sang-hoon Ahn nas longas-metragens, cuja primeira obra, “Haunted Village” foi um thriller sobrenatural, também tendo por foco uma personagem feminina forte mas com uma narrativa menos coesa e mais improvável. Erm, thriller sobrenatural?! A cena da autópsia improvisada ao cadáver de um cão permanecerá para sempre comigo… Enfim, a julgar pelas duas obras Ahn não deve ter grande impressão do melhor amigo do homem. A personagem de Soo-ah tem ainda algumas idiossincrasias: tão depressa apresenta capacidades sobre-humanas como as alterna com atitudes incoerentes com o treino policial e fraca habituação à condição de invisual. Há deduções demasiado brilhantes para ser reais! O grande problema de "Blind" reside na distribuição desigual de cenas de tensão. Após a primeira metade do filme existe uma cena de perseguição no metropolitano que é uma das mais enervantes (no bom sentido), que vi nos últimos tempos. O final, por contraste é quase anticlimático.
Mas desengane-se quem pensa que “Blind” é mais um thriller genérico. Ou melhor, a indústria cinematográfica sul-coreana alberga um verdadeiro dom que respeita a resgatar uma estória das malhas da vulgaridade e, se a não reinventa, tem pelo menos habilidade para a moldar e polir, sólida como um rochedo. Os sul-coreanos são os melhores contadores de estórias negras, perigosas e envolventes da 7ª arte. Eles não sabem como não fazer um bom thriller de assassinos em série. Devia existir alguma lei científica quanto a isso. É tão certo quanto a existência da gravidade, provas aqui, ali e acolá. Por isso, se tencionam passar ao lado de “Blind” por entender que retrata mais uma mulher desamparada contra um vilão superior, cometem um grande erro. Só não vê quem não quer. Três estrelas.

Realização: Sang-hoon Ahn
Argumento: Min-seok Choi e Andy Yoon
Ha-neul Kim como Soo-ah
Seung-ho Yoo como Gi-seob
Hie-bong Jo como Detective Cho
Yoeng-jo Yang como Myeong-jin

Próximo Filme: “Colic” (Colic: Dek hen pee, 2010

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"The Road", 2011



O cinema filipino percorreu um longo caminho desde o conforto de estórias baseadas no folclore regional ao slasher clássico de terror. O aswang – figura mítica que alberga qualquer coisa entre o vampiro e o zombie, tem sido a escolha segura por muitos anos e, não posso dizer que censure os cineastas. O último filme que por aqui passou do género: “Corazon Ang Unang Aswang” (2012) bateu à data de estreia, “John Carter” e “The Hunger Games”. Por que se haveria de mexer em fórmula que resulta? E depois há pessoas como Yam Laranas, do tipo nervoso, que não se contentam com o fácil e querem, por via do difícil, demonstrar que o cinema de terror filipino não tem de se quedar pelas velhas estórias que agradam a audiências tradicionais. Ele próprio já entrou nesse território com “Patient X” (2008), com resultados mistos. A transição de subgénero parece natural, como se tivesse passado anos a estudar a audiência para ver até onde podia ir e dar o salto final.
“The Road” tem início em 2008, quando três adolescentes se escapam de casa durante a noite para treinar para o teste de condução de um deles. O medo de serem apanhados pelos adultos levam-nos a enveredar por uma estrada escondida. Má opção. A estrada não tem fim e rapidamente começam a ser assombrados por uma série de figuras fantasmagóricas. O pânico instala-se e, eis que está cada um por si (não há nada como testar os laços de amizade como colocá-los perante um perigo mortal). Recuamos dez anos e as duas irmãs Lara (Rhian Ramos) e Joy (Louise de los Reyes) ficam paradas nessa mesma estrada quando o carro fica sem gasolina. Sem outra solução, acabam por pedir ajuda a um transeunte. Repitam comigo: má opção. Passamos a 1988 e um casal com um filho parece lutar pelo prémio de pior família do ano. Chamar-lhes disfuncionais é estar a ser simpático.
“The Road” não oferece nada de novo em termos de conteúdo mas é na forma que antevê o talento do artista. As hostilidades são abertas com o aparente habitual trio de adolescentes irritantes: a miúda certinha que acha que sair a meio da noite é uma imprudência mas vai na mesma, a garota que procura um pouco de aventura na sua vida e o jovem com as hormonas aos saltos que só quer passar uns momentos a sós com a namorada, mas tem que levar com a amiga chata. Trio irritante só de aparência pois que passados uns minutos damos por nós a temer o pior pelos jovens. Realmente cometeram um erro, não pensaram antes de agir mas são bons miúdos e não queremos que lhes aconteça nada. E a sensação de pânico também não é difícil de engolir. São novos, escapuliram-se a meio da noite sem os pais saberem e dão por eles numa estrada desconhecida a ser atacados por uma força obscura. Se bem se recordam, com aquela idade não era preciso muito para as vossas mentes entrarem em estado de sítio… A segunda estória é a mais fraca e existe um erro flagrante quando uma das personagens decida investigar o desaparecimento de duas irmãs ocorrido 12 anos antes. Ora, se a memória não me falha estamos em 2008 e o segmento das jovens sucede em 1998. Escapou-me alguma coisa? O segundo capítulo é também o mais fraco do filme. Se as actrizes até podem ser mais capazes que os miúdos que introduzem a estória, não sabemos por que os papéis delas estão reduzidos a gritos e choro histérico, qual carne para canhão. Onde o prólogo é mistério sobrenatural, este é slasher puro. A última parte é a redenção de “The Road”. O terror dá lugar a um drama familiar tão poderoso que explica de modo convincente os primórdios de um degenerado homicida. A estória tem lacunas quanto baste, nomeadamente em termos temporais. O mesmo personagem rapaz que em 88 tem 12 anos, em 1998 teria 22 certo? Errado, pois foram contratar um jovem com uma aparência tão jovial que parece ter uns 16 no máximo. Agora, imaginem um rapaz de 16 anos a pôr fora de combate uma rapariga da mesma idade e outra mais velha ao mesmo tempo e a arrastá-las para dentro de casa. Não é muito verosímil pois não? O melhor é mesmo a fotografia e Laranas faz questão de juntar mais essa função à de realizador e escritor. E se ele pinta cenários? Ele aproveita todas as oportunidades para mostrar a estrada de diversas perspectivas. Ao nascer do sol, durante o crepúsculo, nas trevas da noite que vai longa... Por entre a folhagem virginal, através do campo de visão dos ocupantes da estrada. Quase tudo é estrada, momentos que alterna com a evolução de uma casa à medida que vai tendo diferentes ocupantes durante duas décadas. Como dissera antes, “The Road” salva-se pela forma e, não só apresenta momentos de grande beleza como apela a diferentes correntes de terror. Tem tudo para agradar a todos, se a narrativa não for um requisito essencial. Duas estrelas e meia.

Realização: Yam Laranas
Argumento: Yam Laranas e Aloy Adlawan
TJ Trinidad como polícia
Carmina Villaroel como Carmela
Rhian Ramos como Lara
Barbie Forteza como Ella
Alden Richards como jovem Luís
Louise de los Reyes como Joy
Lexi Fernandez como Janine
Derick Monasterio como Brian

Próximo Filme: “The Wig” (Gabal, 2005)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...