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domingo, 20 de maio de 2018

"Tracer" (Truy Sat, 2016)


“The Tracer” é um filme de acção e artes marciais vietnamita de 2016, que resulta em parte dos fundos bolsos da gigante produtora e distribuidora coreana CJ Entertainment que está cada vez mais interessada no cinema florescente daquele país. 
Esta película tem por foco uma agente policial, a Major An (Truong Ngoc Anh), implacável na sua perseguição aos bandidos e consegue manter uma aparência espectacular enquanto o faz. Ela é também irrequieta e irreverente o suficiente para ignorar as ordens do seu superior Minh (Vinh Tuy) e iniciar as hostilidades antes de chegarem reforços. Numa dessas ocasiões, a Major acaba por provocar a morte acidental de um elemento importante do gangue criminoso dos Lobos. O chefe dos criminosos Loc Sui (Lamou Vissay) e a sua irmã e noiva do falecido Phuong Lua (Maria Tran) iniciam então uma persecução a An, que só poderá cessar com a morte ou captura de uma das partes.
Assisti a este filme quando me encontrava a várias milhas de altitude. Encontrei alguns filmes que raramente se encontram por estas paragens e decidi dar-lhe uma hipótese. Quando acabei o visionamento tinha a forte sensação de déjà vu. Regressada a Portugal, fui pesquisar informação adicional sobre o filme e encontrei algumas alusões à qualidade e até inovação de “The Tracer”. Isso surpreendeu-me pois nada podia estar mais longe da verdade. Parecia até conversa de marketing.
Na verdade, tinha visto e escrito há uns anos sobre “Clash” (Bay Rong, 2009), com uma Veronica Ngo que estaria ainda longe de imaginar que iria entrar no Star Wars: Episode VIII - The Last Jedi (2017) e muito pouco mudou desde então. O argumento continua tão incipiente como na iteracção anterior e talvez até pior. A comparação entre os elencos também não deixa margem para dúvidas. Em 2009, existia, apesar de tudo, uma tentativa de elevar o material. “The Tracer” é toda uma série de erros atrás uns dos outros, a começar na personagem principal. Truong Ngoc Anh tenta interpretar uma espécie de agente do bem, fria e inamovível na sua busca por justiça mas provocar mais sensação pela incapacidade de representação enquanto as próprias acções da personagem também a tornam pouco simpática. A Major tem um irmão mais novo portador de deficiência a quem quer a todo o custo proteger mas a isso não a faz ter cuidado com a sua própria vida quando, se ela falecer, o jovem ficará sozinho no mundo. Existem ainda alguns outros agentes do seu lado, por curiosidade, todos homens, sendo que uma boa percentagem destes surge com alguma frequência de tronco nu. Não seria difícil adivinhar que dispõem de uma boa forma física, sendo um filme de artes marciais mas, isso só torna “The Tracer” gratuito. A tudo isto não é alheio o facto de o cinema do país estar sob o escrutínio de censores do regime mas enquanto “The Tracer” pouco terá de ofensivo para o regime tem tudo para as audiências. Para um filme do século XXI, financiado por um conglomerado gigante, a estória parece tirada a papel químico dos filmes de acção série B, dos anos 90. Isto parece deliberado: dá a impressão que o cineasta Cuong Ngo se limitou a seguir as referências que tinha enquanto subestima a audiência que entende por pouco sofisticada e capaz consumir com voracidade tudo o que tiver para lhe apresentar.
"Olhem só para a minha cara de acção!"
Os vilões continuam a ter a capacidade fantástica de disparar uma quantidade infindável de tiros sem acertar em ninguém – excepto na pontual perna ou braço dos heróis – para demonstrar que eles são de carne e osso e cenas. Há perseguições com motorizadas, lutas corpo a corpo com chapéus-de-chuva (bem giras até), combate entre mulheres com roupas sexy e alguma destruição de mobiliário. E mesmo assim, é uma grande seca. Desculpem o lapso de julgamento. Para a próxima tentarei selecionar melhor o cinema de alta altitude. Uma estrela e meia.
Realização: Cuong Ngo
Argumento: Nguyen Thi Nhu Khanh
Truong Ngoc Anh como Major An An
Thien Nguyen como Kien Lang Tu
Lamou Vissay como Loc Soi
Vinh Thuy como Truong Phong Minh
Cuong Seven como Ong Trum
Maria Tran como Phuong Lua
Hieu Nguyen como Dau Bac
Marcus Guilhem como Hai San Quyen

Próximo Filme "Annihilation", 2018

domingo, 6 de maio de 2018

"A Silent Voice" (Koe no Katachi, 2016)


“A Silent Voice” que também é conhecido internacionalmente como “Shape of Voice” – vi esta animação poucas semanas depois de o “The Shape of Water”, na MONSTRA e acreditem que a minha cabecinha teve de fazer um rewind para não confundir as coisas – foi um dos maiores êxitos de bilheteira no Japão em 2016, baseado, para não variar, numa manga japonesa. O sucesso do filme não será alheio a factores como um certo despudor para o visionamento do cinema de animação por públicos mais adultos e ainda ao tema tão pertinente no país como o “bullying”. Os casos de bullying são transversais à sociedade japonesa. A cultura do pensamento colectivo, do silêncio do desconforto individual produzem vítimas em idades tão jovens desde o jardim-de-infância à universidade, transpondo-se depois para o mercado de trabalho.

“A Silent Voice” tem um início deprimente. Shoya (Miyu Irino) faz os preparativos para a sua morte anunciada e resolvida no seu âmago. É um rapaz calado e anti-social que passa despercebido e também não pretende ser notar. Mais vale evitar conflitos. Não raras vezes, veremos Shoya a olhar para os pés, querendo evitar qualquer contacto visual e rodeado de pessoas com uma cruz sobre os seus semblantes. São as pessoas a ignorar, não conectar, a todo o custo evitar. O seu comportamento transporta-nos para a escola primária. Dir-se-ia que ele tinha sido alvo de bullying ao longo de toda a sua existência. Na verdade ele começou por ser um. Quando Shoko, uma nova aluna surda chegou à sua aula, o então inquieto, barulhento, sem noção e incapaz de transmitir os seus verdadeiros sentimentos Shoya faz dela o alvo principal das suas partidas. Essa história tem um fim quando Shoko acaba por ser transferida para outra escola por não aguentar mais os abusos. Censurado por professores e colegas, Shoya acaba por se tornar vítima do seu próprio veneno, retirando-se para o seu interior, onde tudo é mais suportável até se tornar um jovem adulto. No entanto, o seu caminho volta a cruzar-se com Shoko e a sua família, os velhos amigos que lhe dificultaram a vida e ainda outros que permitem a Shoya encontrar o verdadeiro valor na sua vida e se sempre haverá a possibilidade de expiação de pecados.

Esta animação tem menos de espectáculo que de introspecção. Não me entendam mal, que a animação é tão competente e belíssima quanto costuma ser regra no cinema japonês, a abordagem é que se foca mais na narrativa que na forma. “A Silent Voice” revela-se uma reflexão interessante sobre o bullying pois foca diversos pontos de vista, incluindo um central que não é tão habitual que é o de quem comete bullying, ainda que Shoya seja um bully arrependido. Entre as diversas questões que a animação levanta, estão, por exemplo: até quando se deve carregar o fardo da culpa por eventos cometidos há muitos e muitos anos. Shoya era um miúdo imaturo e parvo quando fez mal a outra criança e acabou por sofrer a vida toda por isso. Contudo, Shoya não era o único a fazê-lo e acabou por ser o único a ser castigado. Mesmo após diversas trocas de argumentos já em jovem adulto com os colegas, esses continuam a não querer aceitar que tiveram um papel activo no bullying de Shoko recriminando-a até pelo seu sofrimento e do de Shoya. Duas vezes vítima. Serão eles melhores que Shoya quando nunca assumiram as suas acções erradas e acabaram depois por fazer o mesmo a Shoya quando este foi “apanhado”? “A Silent Voice” é conducente a uma reflexão ainda mais pessoal do espectador, pela sua própria experiência enquanto vilão ou vítima em situações similares. Será Shoya uma figura trágica digna de empatia ou é ainda e sempre um monstro? Perdoar? Esquecer? Tudo isto é tão mais amplificado quão doce é a sua vítima Shoko. Apesar de tudo quanto lhe aconteceu nunca foi capaz de “lutar” contra Shoya por quem sente carinho.
Em comum entre todos os personagens está o profundo desejo de conexão, aquele que tão desesperadamente se procura durante toda a juventude e até eventualmente pela vida adulta fora. É ainda um retrato muito realista das desventuras da juventude pois a acção nos locais que se identificam com ela, na escola, em casa, na rua, no parque, na feira popular… É muito difícil não apreciar o mérito de reprodução daqueles momentos tão fulcrais na construção da personalidade, de “A Silent Voice” mesmo quando este se torna tão histriónico quanto a vida interior adolescente e até um poucochinho demais delicodoce. Três estrelas e meia.

Realização: Naoko Yamada
Argumento: Reiko Yoshida, Yoshitoki Oima (manga) e Kiyoshi Shigematsu
Miyu Irino voz de Shôya Ishida
Saori Hayami voz de Shoko Nishimiya
Aoi Yûki voz de Yuzuru Nishimiya
Kenshô Ono voz de Tomohiro Nagatsuka
Yûki Kaneko voz de Naoka Ueno
Yui Ishikawa voz de Miyoko Sahara
Megumi Han voz de Miki Kawai
Toshiyuki Toyonaga voz de Satoshi Mashiba
Mayu Matsuoka voz do jovem Shoya Ishida

Próximo filme: "Tracer" (Truy Sat, 2016) 

domingo, 22 de abril de 2018

The Eyes of my Mother, 2016


Francisca (Olivia Bond) vive no campo com o pai (Paul Nazak) e a mãe (Diana Agostini). Bastante mais velhos, eles parecem ter tido a menina fora de tempo, quase como se não esperassem já ter filhos. A mãe tinha sido cirurgiã em Portugal. A dada altura decidiu mudar-se para o mundo rural na sua vertente mais solitária na América profunda. Ataca os problemas dos animais com a mesma abordagem clínica com que tratava os seus doentes e não se escuda de o fazer diante da filha. Francisco tem o conhecimento de coisas como o interior do olho humano ou como decapitar uma vaca, detalhes seriam mórbidos e desadequados para qualquer criança. Um dia Charlie (Will Brill), um forasteiro bate à porta da sua casa isolada e assassina de forma brutal a mãe de Francisca. O pai depara-se com o cenário macabro ainda a desenrolar-se e espanca e acorrenta Charlie no celeiro. Francisca traumatizada, curiosa e sem o calor de um pai cada vez mais desconectado e incapaz de lhe mostrar o mundo, refugia-se no que aprendeu com a mãe pelos seus olhos de criança e inicia a experimentação no prisioneiro.

“The Eyes of my mother” é uma longa-metragem de parcos 79 minutos, a preto e branco, dividida em três capítulos: “Mãe”, “Pai” e “Família”. O primeiro capítulo é o mais importante para a formação de Francisca. Entre o amor da mãe que é a sua única fonte de carinho e os ensinamentos desta que incluem a prática clínica e a religiosidade e o ataque sociopata de que esta é alvo, o interior de Francisca é fraturado. Não é como se ela não pudesse já sofrer de tendências para a sociopatia mas não é como se assistir a um crime fizesse por mitigar um desequilíbrio já presente. Ela aborda a morte com uma abordagem clínica, movida por uma psique infantil. Por outro lado, o “Pai”, como evidenciado nesse capítulo, é uma figura presente apenas na forma física. O trauma afectou-o – prender o criminoso à sua sorte, ao invés de chamar a polícia não é o comportamento mais ajustado e deixar que a filha interaja e da forma como o faz com Charlie, revela no mínimo uma atitude displicente – mas a sua mente prefere esquecer o que sucedeu por completo, deixando a menina, para todos os efeitos, órfã de mãe e de pai. Francisca, na sua versão adulta, interpretada pela portuguesa Kika Magalhães sente uma profunda solidão que a faz querer conectar-se com outros seres a todo o custo, constituir uma “Família”, que a faz agarrar-se ao que tem mais perto de si: o assassino prisioneiro e as memórias de uma mãe amada que estão intimamente ligadas à morte e que nunca conseguiu processar de forma saudável.

Kika Magalhães, na sequência de uma Olivia Bond já de si perturbadora, está excelente. Ela imprime uma vulnerabilidade tal na sua Francisca, que as atitudes mais horrendas e que se vão intensificando até ao final anticlimático, desde a frieza do assassinato à impossibilidade de renunciar às suas vítimas já depois de falecidas ou um comportamento sexual desviante são, em certa medida “perdoadas”. Francisca nunca amadureceu em termos psicológicos. A consciência do que é o bem e o mal e do que é socialmente aceitável está danificada de forma irremediável, mas ela nunca demonstra ser motivada por maldade, apenas solidão. É triste e patética antes de temível ou sádica e no entanto, é todas essas coisas. A esplêndida palete de cores – a película está filmada a preto e branco – acentua a solidão e a confusão que se instala no estado mental de Francisca à medida que esta cresce. Teria sido interessante ter visto a psique de Kika desafiada e o seu comportamento desconstruído e nem sempre é credível a forma como Francisca consegue deixar provocar várias vítimas tendo uma aparência tão frágil. Ainda assim, desconcertante, “The Eyes of My Mother” assemelha-se em aparência talvez à obra de um Hitchcock mas a sensibilidade que a inspira pode ser mais rapidamente encontrada no brutal cinema de terror francês. Isto, sem mostrar uma gota de sangue vermelho. Três estrelas.
Realização: Nicolas Pesce
Argumento: Nicolas Pesce
Kika Magalhães como Francisca
Diana Agostini como Mãe
Paul Nazak como PaiOlivia Bond como jovem Francisca
Will Brill como Charlie
Joey Curtis-Green como António
Flora Diaz como Lucy
Clara Wong como Kimiko

Próximo Filme: "A silent voice" (Koe no Katachi, 2016)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Museum: The Serial Killer is Laughing in the Rain" (Myujiamu, 2016)

Atenção aos inúmeros spoilers, vejam o trailer por vossa conta e risco.

“Museum” é a adaptação de uma manga inserida no género de horror de Ryosuke Tomoe que foi publicada durante os anos de 2013 e 2014. A acção centra-se nos homicídios bizarros cometidos por um misterioso Homem-rã e a perseguição que lhe é movida pelo detective Sawamura que tem um interesse pessoal no caso.

A realização esteve a cargo de Keichi Otomo que também dirigiu o live-action do sucesso estrondoso em manga e animação “Rurouni Kenshin”, sob a forma de uma trilogia (2012-2014), cobrindo de grosso modo a respetiva mitologia e seus personagens. Admita-se porém que “Museum” representa um compêndio de três volumes, enquanto a saga “Rurouni Kenshin” teve direito a três filmes, cada um com mais de duas horas e parece não ter existido a pretensão de deixar esta estória aberta à possibilidade de uma continuação. Otome não é um estreante nas andanças da adaptação de publicações de sucesso ao grande ecrã. E quando o material original é bom, é difícil falhar na concretização não é? Pois…

Os créditos iniciais anunciam pompa e circunstância. No meio de chuva torrencial a polícia tenta corresponder à chamada que deseja nunca ouvir: aconteceu um homicídio. Entram em cena os detectives duros e lacónicos de gabardina. O experiente Sawamura (Shun Oguri) e o novato Nishino (Shuhei Nomura) que tenta manter os conteúdos do estômago no seu devido lugar. O corpo de uma jovem mulher assassinada com os requintes de uma besta é encontrado como numa encenação. Essa imagem remete de imediato para outros espaços e temporalidade: “Seven” (1995), “The Bone Collector” (1999) ou até “The Wailing” (2016) vêm à mente. Não será a primeira e também a última vez que tal irá suceder durante o filme. No entanto, o ritmo mais lento é abandonado em favor da exposição da montra de horrores demasiado cedo, fazendo cair a investigação para enveredar pelos tortuosos caminhos de um “Saw” (2004-2010). O aparecimento de novas vítimas sucede a um ritmo rápido e furioso. Uma nota deixada no local, falando numa punição apropriada aos erros cometidos pelas vítimas, anunciam tratar-se de um assassino em série. Esta sequência de eventos conduz a investigação policial ao caso de um assassinato cometido tempos antes e que teria sido solucionado. A forma como as vítimas são apresentadas é impressionante ainda que, de modo casual, uma ou outra encenação possa parecer menos realista. Alguns dos adereços sobretudo os que dizem respeito à anatomia humana têm aparência amadora por comparação com outros surgidos em cenas similares. Porém, o enfoque nas vítimas e no método investigativo é mais célere e aleatório que o início do filme faria antever. “Museum” despacha as vítimas com rapidez para avançar para uma investigação rebuscada, com direito a polícias a demonstrar à boa maneira asiática como conseguem ser incompetentes e pistas cujas interpretação desafia a lógica para se tornar num “Saw” nas suas piores iteracções. De facto, um filme de investigação policial by the numbers como um “Seven” seria sempre mais interessante que o “Sawven” em que seria tornar. Shun Oguri é um excelente actor, capaz de ligar o fogo-de-artifício quando tal lhe é exigido e o seu personagem alterna entre o detective compenetrado e o homem frustrado com muita volatilidade mas aguentar estas cenas é pouco mais que sofrível. O build-up para as cenas dramáticas é quase inexistente, parecendo somente histriónicas. Isto, em conjunção com flashbacks que surgem nas piores alturas se é que eram de todo necessários, transforma a última meia hora num exercício de endurance penoso. No meio de tudo, o Homem-rã, cuja máscara e motivos tinham tido todo o potencial para se tornar num clássico, é quase esquecido. Mais uma vez o passado de um personagem surge à pressa sob a forma de um flashback ainda que este nada esclareça das suas motivações. No tempo presente não se consegue extrair um racional deste assassino para a sua obra e métodos, cujo discurso louco não se coaduna com o de quem passou bastante tempo a planear assassinatos elaborados. Além disso, antecipar e reforçar repetidamente a ideia de que "Museum" irá ser extremo ao ponto de romper com tabus e depois acobardar-se é apenas patético. Para isso, até o "Saw" fez melhor. Salva-se a primeira meia hora. O remanescente é puro engano. Duas estrelas e meia.

Shun Oguri como Detective Hisashi Sawamura
Satoshi Tsumabuki como Homem-rã
Machiko Ono como Haruka Sawamura
Shūhei Nomura como Junichi Nishino
Tomomi Maruyama  como Tsuyoshi Sugawara
Tomoko Tabata como Kayo Akiyama
Mikako Ichikawa como Mikie Tachibana

Próximo Filme: ?

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Annabelle: Creation" (2017)



Assisti há tempos à Conferência de Apresentação de um Festival, uma coisa pequena chamada MOTELX (gritinhos histéricos!), onde foi dado a conhecer um pequeno gostinho do que será a 11.ª Edição, cuja programação foi entretanto relevada. Como habitual, nestas coisas de festivais teve lugar um visionamento-surpresa. Para ser honesta, a exibição de longas numa primeira apresentação à imprensa não é original mas, de facto, só descobri ao que ia quando lá cheguei. Fiquei por isso, um pouco desiludida quando me apercebi que seria exibida a sequela de “Annabelle” (2014). A sério, MOTELX? Estava habituada a filmes indie, por certo longas-metragens de baixo orçamento, mas nunca a continuação de uma película que a despeito de estar inserida na saga de “The Conjuring” é de longe a mais fraca. Ainda mais, se pensarmos que os casos de sequelas superiores aos filmes originais se contam pelos dedos de uma mão.
Estava errada. Em mais sentidos do que um. Apesar de ser conhecida de forma universal por “Annabelle 2”, “Annabelle: Creation” é afinal uma prequela que explica as origens da boneca que tanto terror terá provocado ao casal Warren e o filme representa ainda a segunda incursão no mundo das longas-metragens de uma das novas grandes promessas do cinema de terror, David F. Sandberg. Se não estão familiarizados com a sua película anterior, “Lights Out” (2016), recomendo uma visita rápida ao “cineclube” mais próximo. A curta que inspirou essa longa, está disponível no canal do realizador. Confesso que quando aprecio uma obra originária do cinema independente tenho sempre receio quando os seus criadores dão o salto. Ir parar ao cinema comercial é uma progressão natural na carreira mas, tenho receio que os maus hábitos dos executivos de grandes estúdios que consideram natural impôr as suas opiniões (de)informadas, que se sobrepõem por vezes ao talento contratado. “Annabelle: Creation” felizmente não se enquadra nessa categoria. A acção decorre nos anos 40 e 50, quando os Mullins, casal composto pelo criador de bonecas de porcelana Samuel (Anthony LaPaglia) e Esther (Miranda Otto) perde a filha Bee (Samara Lee) num acidente trágico. Destroçado, o casal isola-se na sua casa e entrega-se ao sofrimento. Doze anos mais tarde, decidem abrir de novo o coração e acolher no seu lar uma freira e seis meninas de um orfanato que ficou sem sede. Ficar ali, pelo menos de forma temporária é a única forma de manter as jovens juntas. O grupo é composto por adolescentes mais velhas que dificilmente serão adoptadas e meninas mais novas, onde se incluem Janice (Talitha Bateman) com mobilidade reduzida após cair vítima de um surto de poliomielite e a sua amiga inseparável Linda (Lulu Wilson). Janice é especialmente susceptível ao encanto de uma boneca de porcelana que encontra nas deambulações pela casa a que se encontra confinada. Apenas Linda se apercebe das mudanças que se operam na amiga.
David F. Sandberg manteve a abordagem que funcionou tão bem em “Lights Out”. Ele está no seu melhor nas cenas que envolvem muita escuridão ao mesmo tempo que manteve as convenções de “The Conjuring” que funcionaram com mais eficácia. Gary Dauberman escreveu o argumento dos dois "Annabelle", notando-se uma subida de qualidade na segunda parte que em muito se deve à nova escolha de realizador. Mas se existe um sinal de que ainda estão por vir muitos trabalhos interessantes de Dauberman, atente-se a “The Nun” e “It”, ambos com estreia em 2018.
O filme é um desfile de caras familiares ao universo de “The Conjuring” e do género de terror em geral. Sandberg foi buscar caras como Lulu Wulson que impressionou em “Ouija: Origin of Evil” (2016), Alicia Vela-Bailey a grande vilã de “Lights Out” ou Joseph Bishara, compositor de vários filmes da saga The Conjuring” e com uma apetência para interpretar o papel de demónios. Do elenco sobressaem Thalita e Lulu como actrizes de fazer envergonhar muito bom actor adulto com muito mais experiências que estas adolescentes, já que Lapaglia e Otto têm pouco que fazer.
Ao contrário de outras sagas que divergem de tom entre filmes, desde a banda-sonora até aos actores, este universo mantém-se fiel a si mesmo. Existe uma ideia de grande coesão desde os demónios aos jumpscares (yep, continua, a funcionar), o que significa que para quem não tenha apreciado os outros filmes da saga, “Annabelle: Creation” não constituirá a excepção. Uma pena porque o universo “The Conjuring” com todas as acusações de repetição dos clichés do género continua a ser uma das sagas mais interessantes e relevantes do panorama do cinema de terror americano dos últimos anos. Três estrelas e meia.
Realização: David F. Sandberg
Argumento: Gary Dauberman
Anthony LaPaglia como Samuel Mullins
Samara Lee como Bee
Miranda Otto como Esther Mullins
Lulu Wilson como Linda
Talitha Eliana Bateman como Janice
Stephanie Sigman como Irmã Charlotte
Mark Bramhall como Padre Massey
Grace Fulton como Carol
Philippa Coulthard como Nancy
Tayler Buck como Kate
Lou Lou Safran como Tierney

Próximo Filme: "Museum" (Myujiamu, 2016)

domingo, 11 de junho de 2017

Headshot, 2016


O cinema indonésio tem estado sobre a mira do público internacional, tendo conseguido exportar – com algum sucesso admita-se –, actores como Iko Uwais, Yayan Ruhian, Julie Estelle ou Joe Taslim. Também a dupla Stamboel/Tjahjanto, mais conhecida como os “Irmãos Mo”, não são novatos nestas lides desde que chamaram a atenção pelo fantástico “Macabre” (2009), uma espécie de “The Texas Chain saw Massacre” (1973) dos tempos modernos, tendo-se destacado por terem criado algumas das intervenções mais criativas e interessantes em antologias de cinema a oeste, da 2ª década do novo milénio (“ABC’s of Death”, 2012 e “V/H/S/2”, 2013). A pressão para gerar novos sucessos de bilheteira deve ser tão grande quanto a sentida por Ishmael (Iko Uwais), o personagem principal de “Headshot” que encontra mauzões em cada esquina, os quais chacina com brutalidade, minuto após minuto de acção frenética e um pouco louca. A movê-lo está um dos clichés mais utilizados, irritantes e cansativos em cinema ou telenovela. O pobrezinho sofre de amnésia. Encontrado numa praia como morto, ele é assistido pela Dra. Ailin (Chelsea Islan), a personagem mais desesperada por afeição que tenho visto nos últimos tempos. Que importa que ele tenha uma bala na cabeça? Qual é o mal de alguém ter tentado assassiná-lo? Pelos vistos o desconhecido misterioso é atraente e, se for bonzinho, como aparenta, uma vez que depende da boa vontade de estranhos já que não se recorda do próprio nome, deverá ser fácil amestrá-lo até se tornar o namorado perfeito. Ela até lhe dá o nome do personagem principal do livro que está a ler naquele instante: Ishmael um marinheiro resgatado com vida após o encontro funesto do seu barco com a baleia Moby Dick. Tão romântico. Até que ele é visto pelos mauzões que lhe espetaram com uma bala na cabeça. Eles pertencem a uma seita secreta de assassinos e gostariam que desta vez ele ficasse morto. Ailin acaba por ser raptada e Ishmael toma a decisão de a resgatar, mesmo que isso implique descobrir factos menos abonatórios sobre o seu caracter pré-amnésia.

Para este filme os irmãos Mo vão reciclam estórias clássicas do cinema de acção e vão repescar estórias do próprio corpo de trabalho, de que “Killers” (2014) ou “V/H/S/2” constituem um bom exemplo. Existe um entendimento perfeito de que o argumento é secundário. “Heashot” poderá afugentar alguns cinéfilos devido à sua matriz base que é repetitiva. As suas qualidades encontram-se antes nos momentos de combate corpo a corpo, coreografados pelo próprio Uwais e intercalados com acção bélica que faz recordar “The Raid 2” (2014). A título de exemplo, um dos instantes que ficarão para a estória envolvem um autocarro cheio de inocentes e armas. Muitas Armas. O filme tem ainda alguns repetentes tais como Julie Estelle e Very Tri Yulisman que retomam os papéis de “The Raid 2” “Rapariga do Martelo” e “Rapaz do Taco de Baseball”, perdão, como “Femme fatale do facalhão” e o “Assassino Hipster”. Quem pode julgar os “manos Mo” por estas brincadeiras? Eles sabem o que o público quer ver? Os actores é que poderão se cansar de interpretar o mesmo saco de pancada vezes sem conta. As cenas de luta são longas e extenuantes, exageradas e irrealistas mas que ninguém diga que não têm estilo ou não ficam na memória. Morte por facalhão, catana, metralhadora são o pouco nosso de cada dia. Apenas o estilo shaky cam acaba por confundir mais em alguns momentos do que a compreender a acção dura que se vê no ecrã.

O cinema de acção indonésio apresenta-se como a solução para colmatar o vazio entre a acção ultra-violenta mas estilizada do cinema coreano e o wire fu de uma Hong Kong que parece ter-se esquecido dos seus “Hard Boiled” ou “A Better Tomorrow”. Falta apenas encontrar um meio-termo entre a sofreguidão das cenas de acção e a exigência de um argumento que apresente uma estória nova que valha a pena contar através deste estilo tão peculiar. Duas estrelas.

Realização: Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto
Argumento: Timo Tjahjanto
Iko Uwais como Ishmael
Chelsea Islan como Ailin
Sunny Pang como Lee
Very Tri Yulisman como Besi
Julie Estelle como Rika
Yayu A.W. Unru como Romli

Próximo filme: Get Out, 2017

domingo, 5 de março de 2017

"The Handmaiden" (Agassi, 2016)


Chan-wook Park, realizador de filmes tão brilhantes e brutais como a trilogia da Vingança (2002-2005), um dos melhores segmentos da antologia de terror “Three… Extremes” (2004) ou ainda o injustamente ignorado “Snowpiercer” (2013) ainda não encontrou um desafio que não pudesse superar. Desta feita adaptou um romance gótico-vitoriano “Fingersmith” de Sarah Waters escrito em 2002 e transportou-o para a Coreia dos anos 40, ocupada pelo invasor Japão. Tanto quanto me foi dado a perceber (obrigada Google!), a essência e a motivação das personagens permanece a mesma contudo, elas seguem o rumo que Chan-wook Park lhes quis dar. Este thriller erótico-dramático foi escrito por uma romancista mas as personagens são tão familiares, tão intrinsecamente ligadas à obra de Chan-wook que quem não saiba dirá com facilidade que “The Handmaiden” é 100% fruto do seu imaginário.


Hideko (Min-hee Kim) é uma órfã japonesa prisioneira numa relação inquietante com Kouzuki (Jin-woong Jo) um coreano que se casou com uma tia dela para ascender socialmente e usufruir do dinheiro da herdeira para dar azo à sua derradeira paixão: a literatura. A fortuna da jovem japonesa capta as atenções de um vigarista que se apresenta como um Conde Fujiwara (Jung-woo Ha) tomado de ardores de amor e paixão, herói que a irá resgatar da clausura. Para tal, ele capta a ajuda da pequena ladra Sok-hee (Tae-ri Kim), uma servente que deverá influenciar e colocar Hideko no caminho do sedutor.
Um plano que parecia simples complexifica-se quando Hideko e Sook-hee forjam uma forte ligação. Elas são mais iguais do que seria expectável. Presas às circunstâncias do nascimento, elas parecem fadadas à impossibilidade de escapar aos destinos que lhes foram prescritos há muito, muito tempo. Por dinheiro, ambas são joguetes nas mãos dos homens. Até que surge num plano maquiavélico uma hipótese derradeira de liberdade. As relações entre as personagens são intrincadas e a duplicidade é uma constante. Esta percepção do estado de coisas e das relações entre personagens instala-se pela apresentação de uma narrativa menos comum, divida em capítulos, como se tratasse do livro que lhe deu origem. Cada capítulo é apresentado do ponto de vista das diversas personagens e gera-se mesmo o efeito “Rashômon” até que os motivos são desvelados e confrontados para uma verdade dos “factos” sobressair.

“The Handmaiden” é vastamente superior a muitos equivalentes do género e sim, o recente “Crimson Peak” (2015) vem à mente. As representações do quarteto principal são todas dignas de prémios e a acção move-se devagar, à excepção da última meia hora mas em momento algum se torna insípida como a abordagem de Del Toro. Aqui há beleza à superfície e em profundidade. A cinematografia é esplêndida, o que é aliás comum nos filmes de Park Chan-wook. Existe um forte sentido de transmissão das ideias de clausura física e das barreiras psicológicas que separam as personagens. Sobretudo a relação entre Sook-hee e Hideko é explorada de modo hábil pela câmara curiosa, intrusa, em todos os pequenos momentos, mesmo aqueles em que duas mulheres cúmplices se encontram a brincar aos vestidos. Momentos de comédia transitam para outros de elevada tensão com uma fluidez natural. Por outro lado, existem ainda pequenos momentos de homenagem e referência a trabalhos anteriores, designadamente, uma cena de tortura reminiscente do segmento “Cut” em “Three Extremes” e “Oldboy”. “The Handmaiden” é ainda um thriller erótico com cenas capazes de fazer corar o cinéfilo mais liberal. A despeito do cuidado na direção destas sequências estas prolongam-se sem necessidade, fazendo com que a película perca o ritmo, ou quebre mesmo alguma tensão que lhe antecedeu. Talvez seja este o mal menor num filme onde as personagens são tão violentadas que algo que se assemelhe a um breve momento de prazer saiba a uma pequena recompensa. Quatro estrelas.

Realização: Chan-wook Park
Argumento: Seo-kyeong Jeong e Chan-wook Park
Min-hee Kim como Hideko
Tae-ri Kim como Sook-Hee
Jung-woo Ha como Conde Fujiwara
Jin-woong Jo como Tio Kouzuki
Hae-suk Kim como Miss Sasaki
So-ri Moon como Tia de Hideko

Próximo Filme: "House" (Hausu, 1977)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

"The Autopsy of Jane Doe" (2016)


Dois Homens, um cadáver. Podia ter saído de um daqueles vídeos esquisitos que circulam por aí mas revela-se afinal uma das películas de terror mais competentes de 2016. Uma morgue, cadáveres engavetados, uma família a recuperar ainda de uma tragédia pessoal e o corpo de uma jovem cuja mera existência é um anacronismo é tudo quanto basta para uma das experiências mais marcantes do género do ano.

Tommy (Brian Cox) e Austin Tilden (Emile Hirsch) são a dupla de pai e filho médicos-legistas, mais competentes do ramo. Tommy vive para o trabalho. Pouco existe que ele não tenha visto e têm ainda bastantes truques para ensinar ao talentoso filho. Já Austin é um apaixonado pelo “negócio” de família mas não se quer deixar consumir por ele. Pensa numa vida além da morgue e esta encontra-se em Emma (Ophelia Lovibond). Mas enquanto não encontra coragem para deixar o desgostoso pai aprender a lidar com as agruras da vida, dedica-se aos mistérios do corpo. Eles encontram o maior de todos em “Jane Doe” (Olwen Catherine Kelly), o cadáver de jovem desconhecida, encontrado pelo familiar Xerife Sheldon (Michael McElhatton) na cena de um massacre que envolve várias caras conhecidas da região.

O prazo é apertado. Numa noite terão de descobrir a causa da morte da desconhecida e a sua ligação às outras mortes mas em como tudo o resto em Jane, ela é um elemento estranho. Tudo na sua presença indica não se encaixar na sequência de eventos. O corpo não aparenta sinais de violência ou… de qualquer outra coisa na verdade. De que é que morreu a desconhecida?
“The Autopsy of Jane Doe” pertence à ainda curta carreira de André Ovredal, realizador norueguês que se notabilizou com uma das raras boas incursões no género de found footage (“Blair Witch” é uma treta cof, cof) com “Trollhunter” que ademais foi beber à própria mitologia do seu país. No entanto, ninguém o pode acusar de amadorismo. “The Autopsy of Jane Doe” parece um dos melhores episódios de "CSI" com uns resquícios de “Six Feet Under” em formato longa-metragem. É impossível não ficar absorvido pela dupla Cox/Hirsch enquanto esta retalha o corpo de Jane, ao mesmo tempo que levanta as hipóteses mais fantásticas e pavorosas. A abordagem fria e clínica da dupla não afugenta, antes torna as actuações mais realistas. Por seu turno, sem dizer nada, a linda e misteriosa Jane Doe marca o tom cada vez mais sinistro do filme. Sem nada dizer ou mover-se – o cadáver! –, comanda o filme. Um excelente exercício de body horror, mas sem o sensacionalismo de outros. A empurrar a narrativa está a sua investigação. A cada novo indício do que poderá ter sucedido, surge uma nova pista desconcertante para o ultra experiente Tommy e o mais novo mas não menos perspicaz Austin. Entretanto, começam a suceder episódios insólitos na cave onde se encontram e que parecem querer indicar que os factos são bem mais complexos e perversos do que se podia à partida supor. Na verdade o contínuo enfoque em Jane Doe traz mais perguntas que respostas. Este enfase não é voyeurista. Pelo menos não numa perspectiva sexual, a despeito de Jane ser belíssima. A obsessão é clínica, como a de um médico que procura de modo furioso descobrir a causa da maleita de um seu doente. A dada altura “Jane Doe” muda para uma direção não totalmente inesperada mas porventura desnecessária, ainda assim competente. No entanto, se o espectador decide prosseguir com o visionamento confiante ou ficar indignado esta é uma decisão subjectiva. Brian Cox e Emile Hirsch continuam tão convincentes, enquanto mentes inquisitivas e na relação de pai e filho, enquanto o mundo à sua volta ameaça ruir.  A despeito de na última metade de “The Autopsy of Jane Doe” existir uma mudança precipitada de direção, a primeira parte é tão impactante que não é possível não permanecer fascinado por este novo estranho monstro recriado por Ovredal. Quatro estrelas.
Realização: André Øvredal
Argumento: Ian B. Goldberg e Richard Naing
Emile Hirsch como Austin Tilden
Brian Cox como Tommy Tilden
Ophelia Lovibond como Emma
Michael McElhatton como Xerife Sheldon
Olwen Catherine Kelly como Jane Doe
Jane Perry como Tenente Wade

Próximo Filme: "The Handmaiden (Agassi, 2016)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"Blair Witch" (2016)


Na lista de sequelas que ninguém queria que acontecessem "Blair Witch" há-de estar lá no topo. A sério. Se têm dito que a fariam em 2000/2001 talvez a expectativa fosse grande. Em 2016 é apenas estar a espancar um cadáver. Se já não existe um sopro de vida naquele corpo para quê insistir? A única parte compreensível do processo é a associação ao projeto de nomes como Adam Wingard e Simon Garrett. Dois nomes jovens e promissores que muito devem ao género de found footage ou não estivessem envolvidos na antologia “V/H/S” e a respectiva sequela. Se na altura, “V/H/S” pareceu adiar a morte ou pelo menos dormência do género, “Blair Witch” é a velhinha resignada que sabe que já não há espaço para novos truques. Onde “Blair Witch Project” foi uma espectacular inovação, termos de fundação das raízes do subgénero, a utilização de um micro-orçamento e de uma manobra de marketing genial e, isto entenda-se que a qualidade do filme não foi e não continua a ser consensual, “Blair Witch” é tudo o que já feito antes e nada traz de novo.

Passados dezassete anos após o desaparecimento de três estudantes algures numa floresta americana é encontrado um vídeo com que se acredita ser uma das últimas imagens de Heather (Heather Donohue) em vida. Obcecado com o acontecimento que marcou para sempre a sua vida, James (James Allen McCune) decide embarcar numa expedição em busca da irmã que então perdeu. Apesar do cepticismo quanto à possibilidade de a encontrar viva, Lisa (Callie Hernandez), Peter (Brandon Scott) e Ashley (Corbin Reid) decidem acompanhá-lo para fechar em definitivo esse capítulo da sua vida. Ao grupo de amigos juntam-se ainda Lane (Wes Robinson) e Talia (Valorie Curry) que encontraram o vídeo que espicaça James a embrenhar-se na floresta.
A partir desse momento torna-se bastante óbvio que Simon Barrett e Adam Wingard estudaram com especial cuidado “The Blair Witch Project” (1999), desde o abuso da câmara aos tremeliques e abanões violentos à sequência de ocorrências estranhas que não é muito diferente do que sucede no filme original, ainda que o grupo seja (apenas) um pouco mais diversificado. James é um homem assombrado pelo momento em que perdeu a inocência. Ele e o velho amigo de infância Peter assistiram e ajudaram às buscas iniciais. Lisa pretende aproveitar a tragédia pessoal de James para realizar um documentário. Lane e Talia cresceram com as lendas da bruxa Blair mas mais do que empatia para com os desaparecidos, desejam conhecer a verdade por trás das estórias de terror. Peter está ali para dar apoio ao amigo ainda que considere que estão ali à procura de fantasmas. Para a namorada Ashley é uma viagem de campismo com amigos. Todos têm motivos muito próprios e a maioria não é particularmente simpática. Depois de êxitos entre o público e a crítica como “You’re Next” e “The Guest”, voltaram aos personagens detestáveis de “Tape 56” e, onde, com a maior sinceridade, mal se podia esperar que tivessem mortes lentas e dolorosas. Depois, claro, as personagens fazem tudo quanto podem de mais idiota que se possa esperar incluindo não tomar as precauções de calçado necessárias para impedir ferimentos debilitantes e que possam infectar longe da civilização. Afastar-se do grupo sobretudo se é noite escura e, por fim, o cliché de todos os clichés, separarem-se. A acepção de que a força se encontra nos números poderá passar por mentira num filme de terror pois não são muitas as vezes que tal se viu acontecer. As novidades encontram-se no aparecimento da Bruxa (mas com atenção), se não, podem perdê-la de vista e lapsos temporais. Bem, eles podem mesmo existir ou será apenas mais uma ilusão da bruxa? O final é porventura o que menos relevante “Bair Witch” tem. Desde os créditos iniciais que existe uma noção de que o “final é um novo começo”. Uma perspectiva circular subjacente à própria razão da existência do found footage. As filmagens existem para ser encontradas e um novo grupo de pessoas vá em busca do que quer que causou aquele incidente, colocando-se numa nova situação de perigo. Duas estrelas.


Realização: Adam Wingard
Argumento: Simon Barrett  
James Allen McCune como James
Callie Hernandez como Lisa
Corbin Reid como Ashley
Brandon Scott como Peter
Wes Robinson como Lane
Valorie Curry como Talia

Próximo Filme: "The Autopsy of Jane Doe" (2016)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"Tickled" (2016)



David Farrier é um jornalista neozelandês daqueles que se vê à distância que nasceram para o ofício. Ele apresenta-se como um jornalista de sucesso, perspicaz e com uma sede de conhecer e de saber. Quanto mais bizarro melhor que ele adora desafios. Um dia, cruza-se com um vídeo insólito que retrata um suposto “Campeonato de Endurance de Cócegas”. Nele, jovens de aspecto másculo encontram-se deitados e amarrados a uma cama e são sujeitos a uma sessão de tortura, perdão, cócegas por outros jovens de físico igualmente atlético. Intrigado pelo seu conteúdo divertido Farrier contacta a empresa que o produziu. De uma interpelação inofensiva surge uma resposta rápida e agressiva. A empresa faz saber a Farrier que ele não é o tipo de pessoa com que a empresa se quer associar e que ele é homossexual… algo aparentemente muito ofensivo para uma empresa que faz vídeos com um conteúdo homoerótico?! “Alguém que me explique que eu não percebo”, ou assim ficou Farrier, cujas sirenes de curiosidade mórbida jornalística se acenderam dentro da sua cabeça de tal forma ruidosas que se tornou imperativo compreender o que encontrava por trás de reacção tão extemporânea. O que se segue é um dos momentos mais surreais em forma de documentário de 2016, à medida que uma manifestação de curiosidade natural se transforma uma investigação jornalística real, que vai ultrapassando e demolindo rótulos.
 “Tickled” está menos para a forma que para o conteúdo. A bem dizer, há um pequeno conjunto de cenas inseridas na pós-produção que demonstram uma verdadeira reflexão crítica sobre o conteúdo, como um momento da vida animal, em que um predador desfere o ataque de vitória contra a sua presa indefesa. Esta cena que poderá parecer no imediato uma inserção aleatória mas é tudo menos fortuita. Reflecte de modo simples e eficaz aquilo de que “Tickled” aborda. O interminável mundo da internet tem tanto de admirável como de perverso e facilmente se pode cair no lado errado da rede. Onde “Catfish” explorava as máscaras que se usam nas redes sociais, onde qualquer um pode interpretar uma personagem qualquer e dela fazer uso para manipular as emoções amorosas de outrem, “Tickled” esconde um outro tipo de corrupção.  Aquela em que o dinheiro, uma boa educação e uma ausência de consequências duras sob a protecção do manto dos perfis online, permitem que se tire partido de terceiros, enxovalhá-los e perpetuar mentiras numa internet onde os mitos viram verdade à velocidade de um clique e nada, mas mesmo nada é esquecido. Farrier é um dos raros ratos de laboratório que se recusa em conjunto com o produtor Dylan Reeve a deixar-se vergar por ataques pessoais e ameaças legais constantes para expôr factos muito mais assustadores que um mero fetiche. Este documentário que se inicia como uma comédia light, transita para a comédia negra com a leveza de uma pena e conclui como uma das experiências mais aterrorizadoras em documentário do ano, talvez porque assente na realidade. Aquando do término do visionamento de “Tickled” o “Campeonato de Endurance de Cócegas” vai constituir um pensamento distante. Por oposição, vai perdurar uma sensação de desconforto porque mesmo quando as respostas são encontradas e colocadas a descoberto, o facto é que os danos provocados são já grandes demais para remediar e a internet é demasiado vasta para nos garantir que não estão a suceder situações de injustiça similares neste preciso momento…



Realização: David Farrier e Dylan Reeve

NOTA: Texto publicado originalmente aqui.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Colaborações #7


A melhor coisa, (vide quase inactividade deste blogue), nos últimos tempos foi dar o mote de abertura para o fantástico ciclo "Fantasmas do antigo Japão", na Janela Encantada, sobre alguns dos essenciais da época dourada do cinema japonês, nomeadamente nos anos 50 e 60. E o melhor de tudo? Estes continuam, não só a manter-se magicamente actuais como assombrosos. Podem aprender alguma coisa. Eu sei que aprendi.


domingo, 2 de outubro de 2016

"The Wailing" (2016)



“The Wailing” (Goksung) é o mais recente colosso de Hong-jin Na, o ainda jovem realizador de “The Chaser” (2008) e “The Yellow Sea” (2010), que integram – e digo isto sem qualquer pingo de hesitação –, o leque de melhores filmes dos anos em que estrearam. Tal como os filmes que lhe precederam, “The Wailing” é longo e moroso mas nunca cansativo. Uma película mais do que respeitável para o segundo dia de arranque do Motelx.


“The Wailing” segue o padrão dos trabalhos prévios de Hong-jin Na na sugestão de mistério/thriller policial, mas dá uma viragem brusca para o campo do metafísico, sem perder a tensão crescente que lhes foi tão característica. Enquanto “The Chaser” se focava em duras e longas cenas de perseguição por vielas labirínticas, “The Wailing” mantém-nos agarrados à cadeira através de cenas tais como a de um ritual xamânico, qual luta eterna do bem contra mal, em que bom e vilão empregam toda a sua fisicalidade para tomar posse do corpo de uma garotinha ou a conseguir das garras do mal. O efeito é alcançado mediante a intermediação das cenas de ambos os ritos, aumento exponencial do volume, bem como do aumento dos níveis de intensidade no desempenho dos actores. O elenco é vasto e sólido, sem elos fracos. Cada personagem tem uma palavra a dizer, uma expressão a acrescentar, mesmo que subtil, para o resultado final. Do lado dos “inocentes” temos um Do-won Kwak que encarna na perfeição o polícia tolo e ineficaz tantas vezes retratado no cinema coreano. A inacção e completa incompetência são exasperantes, no entanto, é impossível não simpatizar com o seu desespero enquanto pai que teme perder a sua cria em circunstâncias que nem sequer compreende quanto mais controlar. Também está a seu cargo a maioria das cenas cómicas, que se vem a verificar não serem mais do que uma artimanha para criar uma falsa sensação de conforto inicial. Já a pequena Hwan-hee tem um desempenho de gente grande, no papel de Hyo-jin, a filha de Jong-goo parecendo ela própria, por vezes, mais adulta que os que a rodeiam. É ela a Linda Blair deste “The Wailing” mas sem o apoio do departamento de caracterização.

O misticismo em todo o seu fulgor é canalizado por Jung-min Hwang, Jun Kunimura e Chun-woo Hee, os únicos que parecem saber o que se encontra na base dos incidentes terríveis em Goksung e também aparentam, em simultâneo, estar determinados em esconder o que sabem. Hwang é irrepreensível no sempre difícil papel de “sacerdote” que seria fácil ridiculizar através de uma cena de “exorcismo” mal conseguida. Já Jun Kunimura tem o ingrato papel do “Japonês”, como é tratado pela população pequenina e mesquinha, sabendo de antemão que a escravidão e abusos sobre o povo coreano, na sequência de sucessivas invasões japonesas, constituem crimes de guerra não esquecidos e certamente não perdoados que persistem até aos dias de hoje, sobretudo nos episódios de disputas de ilhas entre os países. O argumento alimenta-se desta rivalidade e preconceito, tema que já tinha sido explorada numa perspectiva diferente, entre os povos chinês, sul e norte-coreano, em “The Yellow Sea”. Esta abordagem torna mais fácil compreender o porquê da facilidade em apontar a culpabilidade do japonês, aliado à desconfiança de povoações pequenas perante os “que não são de cá”. Woo-hee Chun é quem tem talvez menos que fazer mas ainda assim tem uma presença marcante. As vestes, ritos e respostas enigmáticas destes personagens, estão repletas de pistas para as quais a atenção é essencial, ainda que, ao final da segunda hora de filme se torne óbvio que as respostas não serão fáceis. A dificuldade na sua obtenção e a possibilidade de diferentes interpretações pode ser motivo de cólera para alguns mas numa época onde a celebração da mediocridade é cada vez mais banal, um “The Wailing” que se sente confortável pululando entre géneros é porventura um dos momentos cinematográficos mais refrescantes de 2016. Quatro estrelas.
Realização: Hong-jin Na
Argumento: Hong-jin Na
Do-Won Kwak como Joong-goo
Jung-Min Hwang como Il-Gwang
Jun Kunimura como "O Japonês"
Woo-Hee Chun como Moong-myeong
Hwan-Hee Kim como Hyo-Jin

NOTA: Texto publicado originalmente aqui.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

“MONSTRA – A colheita de 2016” – FIM


“When Marnie was There” ou como o estúdio Ghibli ter anunciado que esta seria a sua última longa de animação anulou o facto de esta ser uma obra inferior ao que os fãs do estúdio estão habituados. Sim, eu acabei de admitir que “Marnie” é uma obra menor do estúdio Ghibli. Deixem a informação assentar. Confesso-me culpada de suspeitar que o próprio estúdio sabia que esta longa deixava algo a desejar e que o anúncio do fim do Ghibli como o conhecemos terá sido avançado para precipitar bons resultados de bilheteira, bem como fazer desvanecer quaisquer dúvidas levantadas pelas primeiras críticas. Esta notícia não será inteiramente surpreendentemente se pensarmos que o realizador Hiromasa Yonebayashi é o realizador de uma das obras menos fortes do estúdio: “The Secret World of Arriety” (2014).


É certo que “When Marnie was There” foi vencedor do Grande Prémio MONSTRA e que foi nomeado para o Óscar de melhor filme animado na 88ª Edição do certame mas, se por esta altura ainda sentem vontade de discutir porque é que um filme nomeado para os Óscares é muito bom, não tenho tempo nem energia para dissertar as vossas fantasias. Mesmo na MONSTRA foi aparente que o filme não foi consensual, não tendo reunido os Prémios do Público (April and the Extraordinary World), Melhor Filme para a Infância e Juventude (“Phantom Boy”) ou o Prémio Especial do Júri (“Little from the Fish Shop”).

“When Marnie was There” é mais uma estória sobre as dores do crescimento mas sem a magia a que Ghibli já nos tinha habituado. Anna Sasaki (Sara Takatsuki) é uma pré-adolescente demasiado consciente de que é diferente dos seus pares. Ela tem olhos azuis, raros entre a população japonesa, que não consegue explicar pois nunca conheceu os pais biológicos e o casal adoptivo que a cria não se mostra receptivo a contar-lhe a sua história. Sentido perante a sua situação um desconforto latente cada vez mais intolerável Anna começa a sentir uma cisão entre ela e a mãe adoptiva Yoriko que apenas aumenta quando descobre que o casal recebe dinheiro para a criar. Jovem demais para compreender os contornos da situação sente que não é amada. Ela fora apenas um bebé estranho, vendido para que outros criassem. A saúde débil e a súbita revelação levam-na a ter um ataque de asma e a mãe, preocupada, decide enviá-la para o campo para recuperar. Lá depara-se com gentes acolhedoras e um cenário bucólico marcado por uma mansão gigante delapidada que exerce uma atracção estranha sobre ela. A curiosidade de Anna empurra-a para mansão onde conhece Marnie (Kasumi Arimura) uma jovem de aspecto estrangeiro e com a mesma idade que rapidamente se torna a sua melhor amiga e confidente.


Com pouco mais de 100 minutos “When Marnie was There” mais parecem duas horas de eventos mal distribuídos e pouco ou nada explicados. Se películas anteriores eram com mais clareza juvenis, desde a “The Tale of the Princess Kaguya” (2013) e “The Wind Rises” (2013) que o estúdio se tem orientado para faixas etárias mais maduras. “Marnie” não é excepção. A pequenada exposta a esta animação arrisca-se a apanhar um aborrecimento de morte, enquanto os adultos vão ser deixados a apanhar pedacinhos de pistas para compreender uma estória que ora não desenvolve ora avança a uma velocidade vertiginosa. Os avanços e recuos seriam desnecessários se não fosse perdida mais de uma hora em acontecimentos quase triviais. Também parece existir uma brincadeira com as memórias e percepções de Anna que não são concretizadas da melhor forma. Marnie apenas interage com Anna mas esta não se importa ou questiona os súbitos aparecimentos e desaparecimentos desta, tal é o frágil estado emocional. Anna só quer pertencer a algum lado e nenhum outro se sente tão segura como quando está com Marnie. No entanto, esta pode não se encontrar no mesmo plano que ela, tornando-se até perigoso para Anna quando esta descura a sua própria segurança para estar com a nova amiga. Mas até esta, vem Anna a descobrir tem uma vida trágica que a leva a reflectir não só sobre o que não possui como o que de facto tem. “When Marnie was there” afigura-se uma aposta arriscada mas acaba por gorar as expectativas iniciais trilhando caminhos familiares e inofensivos até. “Marnie” não é a película mais espectacular do estúdio em termos de desenho, ainda que seja bastante competente. O problema é que esta animação parece querer afirmar de forma convicta a tradição por oposição a demonstrar Ghibli podia e iria adaptar-se aos tempos de mudança. É portanto, sintoma e efeito. Três estrelas e meia.

Próximo Filme: "Kikujiro" (Kikujirô no natsu, 2013)

domingo, 8 de maio de 2016

“MONSTRA – A colheita de 2016” – Parte 2

"Kahlil Gibran's The Prophet" (2014)

Baseado na obra literária que lhe dá o título, "Kahlil Gibran's The Prophet" assemelha-se bastante à leitura de um livro. Com uma narrativa principal, intermediada em capítulos, cada um entregue a um estilo de animação próprio, à medida que o Poeta Mustafá (Liam Neeson) reflecte sobre temas como a liberdade, o amor, ou a morte - ele que foi preso, precisamente por pensar em voz alta e na sua condição de Homem livre. Os seus cárceres temem que as suas palavras contaminem o povo e o levem a questionar. E como bem está inscrito a sangue na História da Humanidade, o conhecimento leva o questionamento e este pode ser incómodo para os governantes. Estes temem pois uma sublevação e conduzem-no, através da cidade para o que será a morte do Homem e das ideias. Cabe pois, à pequena e travessa Almitra (Quvenzhané Wallis) que não profere palavras e apenas parece comunicar com uma gaivota, para desespero da mãe Kamila (Salma Hayek), lutar para salvar Mustafá de tal destino trágico.
Ondas de enlevo, tédio e indiferença sucedem-se à medida que surge uma nova interpretação para a animação e enredam-nos numa mescla em permanente metamorfose que não permite as palavras respirar e ser interiorizadas como talvez o próprio escritor pretendesse. Isto, a despeito de alguns momentos bastantes fortes em termos do talento patente na animação. A animação prolonga-se por vezes em demasia e até à divagação, como alunos numa palestra interminável. Ao tentar produzir animação à altura das palavras do poeta, acaba por se dar a primazia à imagem em detrimento do argumento, sendo que este podia e devia ter sido alvo de maior cuidado de edição. Disto resulta um filme longo e incongruente, como se as peças tivessem sido criadas, cada qual no seu tempo e espaço, sem uma linha orientadora comum. Faz recordar o pecado original de muitas antologias que se dizem possuir um tema em comum e depois surgem desconexas. As peças elevam-se sobre o todo. Potencial desperdiçado. Três estrelas.

PS: Confesso que não me foi alheio o facto de “The Prophet” ter sido exibido dobrado em língua portuguesa. Não desfazendo, da minha língua materna, não há como não apreciar as dobragens originais sobretudo quando estas incluem o Liam Neeson.

“Avril et le monde truqué” (2015)


Um universo distópico de inspiração steampunk faz uma aparição em “Avril et le monde truqué”. Separada dos pais em criança, Avril (Marion Cotillard), torna-se uma cientista à semelhança destes. Acompanhada por Darwin Phillipe Katerine), o seu fiel gato falante, tenta desenvolver uma fórmula que torne os seres humanos imunes a quaisquer doenças, num período em que os cientistas têm vindo a desaparecer de forma misteriosa. Nesta Paris alternativa, existe não uma, mas duas torres Eiffel e grande parte da cidade movimenta-se através do teleférico, embalada pelo fumo da poluição problema tão premente nos dias de hoje na realidade como neste universo ficcional. Avril é uma heroína essencialmente inocente, mas optimista e determinada. As suas acções não são motivadas ou redefinidas por um qualquer motivo romântico. Apesar de uma óbvia e forte ligação à família ela tem menos de calma e recatada do que de determinada e destemida. Uma heroína do século XXI inserida num contexto industrial alternativo, algures pelos anos 40 e cujas aventuras fariam um Júlio Verne orgulhoso. “Avril et le monde truqué” terá muitas referências que vão desde a animação mais tradicional à banda-sonora mas tem uma identidade muito própria. A tal não é alheio o trabalho de Jacques Tardi, autor mais conhecido pelo trabalho em banda-desenhada, nomeadamente, “Les Aventures extraordinaires d'Adèle Blanc-Sec” e que passou não há muito tempo pelas salas de cinema, em versão live action. A estória é tão interessante na sua incursão pelos caminhos da ficção científica não excessivamente complicada como pelos personagens, com a devida nota de apreço ao gato Darwin. Três estrelas e meia.


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