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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Suores Frios "Por entre Dois Dedos num assento de Veludo - por Tomás Agostinho

 


É curioso pensar que o carácter natural de um filme tem muito pouco a ver com a nossa relação de tensão com o mesmo. Lembro-me ainda antes de pensar em redigir este texto que as imagens que mais me assolam, que induzem medo não são necessariamente aquelas cuja natureza intrínseca o parece exigir, vulgo filme de terror. Associar um género a uma sensação, de certo modo tónica, não é atípico no cinema. As emoções básicas do ser humano encontram-se perfeitamente delineadas como respostas emocionais padrão enquadradas num determinado género – seria até estranho que assim não o fosse quando nos sentamos num determinado filme. Comédia é para rir; drama é para chorar; terror é para amedrontar. Porém é igualmente sabido que o binómio género/emoção enquanto carácter meramente dual e exclusivo é pouco expressivo. Mais interessante é um filme, à parte da sua sensação essencial, conter uma confluência de outras. É nesta fusão que se abre um espaço para as leituras não tónicas. Estas interpretações emocionais são afectadas pelo contexto do tempo e do espaço de cada pessoa que vê o filme. As obras não são apenas produtos do seu tempo; são igualmente frutos da nossa relação com as mesmas. 

Exemplo claro disto são os filmes de terror de outra época que semeavam o medo junto dos seus espectadores incautos e que hoje se oferecem mais como memórias e registos, cápsulas do tempo de técnicas narrativas e estilísticas que despoletavam essas reações. Uma outra instância destas leituras são os filmes que vincaram a nossa infância. Não falamos apenas de um elemento nostálgico que adorna as películas em visualizações futuras, mas sim de uma verdadeira memória fantasma de uma reação que não se desvincula do objecto. Tomo como exemplo pessoal e enquadrado na temática deste espaço editorial, Harry Potter and the Chamber of Secrets (2002). 

Naquela sessão da tarde, ainda no antigo cinema das Amoreiras, via o filme com a minha mãe, onde tive que lhe pedir – entre lágrimas e um eminente ataque de ansiedade – que me levasse dali para fora, voltando – decidido de o terminar e vencer o medo – ao filme após o intervalo (será que houve intervalo? – os detalhes escapam-me). Em causa, tantos anos depois, e de interesse para este texto não está apenas o carácter das cenas que me levaram a tal reação. Não é difícil entender que para uma criança de nove anos o filme contém o necessário para gerar tal resposta neuronal. Na análise deste fenómeno o mais curioso talvez seja a memória que ficou do mesmo. Tendo voltado à sala depois do intervalo, numa (semi) vã tentativa de controlar a ansiedade – digo vã, na medida em que se revelou uma tentativa infrutífera, porque apesar de aguentar até ao final, fui frequentemente assombrado pelas imagens do mesmo durante os dias seguintes –, esse esforço (a luta pelo controlo) acabou por produzir um resultado inesperado: não me lembro da segunda metade do filme, dessa primeira visualização – dir-se-ia que fui o alvo perfeito de um dos encantamentos de amnésia do professor Lockhart. A minha memória do filme tomou para si a natureza da estrutura de todas as memórias: absolutamente lacunar. Seria a caricatura das minhas rememorações cinematográficas. Espantosamente, nos anos que se seguiram e antecederam uma segunda visualização – desta vez mais controlada e “completa” – fui criando imagens fantasmas de cenas, que sei agora não existirem, de modo a preencher as lacunas narrativas da minha memória. Porém, encontrava-me firmemente convicto que existiam. Lembro-me, inclusive, de comentar que teria visto uma versão diferente do filme. E vi, na minha cabeça, com o medo como projector das imagens. Mantém-se até hoje como uma das minhas experiências mais radicais no grande ecrã, evidenciando apenas o poder do medo na manipulação da percepção do passado e na falência do controlo do presente. 


Lisboa, Setembro (sob o medo da quarentena mundial) de 2020,
Tomás Agostinho

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Suores Frios - "Ter medo é coisa que não me assiste" - por Vítor Rodrigues


Tenho uma relação muito especial e invejosa com o terror. Se por um lado sei que não estou a apreciar correctamente um género cinematográfico com mérito próprio, por outro não consigo entender de todo o fascínio. Permitam então que me envergonhe...

Se eu não gosto de ser assustado na vida real, porque haveria de o querer numa sala de cinema? Porque hei-de pagar para me sentir contraído e receoso com o que aí vem? Poderão falar-me em rush de adrenalina ou até que o terror não é sinónimo de jump scares, mas ainda assim não me convencem. É então com extrema vergonha que apresento três momentos que me marcaram e cimentaram a minha convicção.

Em 1997, com 13 anos, lembro-me de ficar “cagado” com o início de Men in Black. Sim, a comédia com Will Smith (eu não disse que vinha aqui envergonhar-me?!). A verdade é que aquela cena inicial em que um alien “caça” Tommy Lee Jones deixou-me apreensivo até quase meio do filme, receando o que aí pudesse vir. Aos 15 aventurei-me “à séria” com o género e vi o Projecto Blair Witch. Único filme que vi no velhinho XXX, e dos poucos que tive de me sentar na zona lateral da sala, por esta estar já tão lotada. Lembrem-se que esta é uma altura pré-internet, logo, tudo o que eu estou a ver é “real”! Saí daquela sala perfeitamente convencido que tinha visto um documentário. A imagem final, em que a camêra cai e um dos jovens está virado para o canto da sala ficará gravado na minha memória para todo o sempre.

O meu último exemplo é o mal amado Signs de 2002, com Mel Gibson e Joaquin Phoenix. Poderia escolher várias cenas de tensão em campos de milho ou o final na casa, mas a cena que mais me marcou é a de um noticiário, em que é reproduzido um video amador do Brasil e do nada surge um alien. Apanhou-me tão despercebido que me encheu de medo. Não de susto, mas de medo.



Estes exemplos completamente lights fizeram-me perceber que não tinha nem mãozinhas nem palato para terror valente. Uma grande parte de mim tem ainda um preconceito real com o género que não consigo afastar. Há uma pobreza de ideias revolucionárias e recurso a artimanhas repetitivas em argumentos fracos que usam o terror como muleta, em vez de uma característica secundária. Consciente que falo de certeza do alto pedestal da ignorância, mas ainda assim, é o meu pedestal.

Aos 36 já podia ganhar vergonha na cara e ver umas obras primas. Afinal de contas, quando vi o Exorcista, anos depois de todos os meus amigos, encontrei mais comédia que terror. Men in Black é agora pura comédia e Blair Witch perdeu o “encanto” depois de perceber que era tudo mentira. Talvez um palato mais maduro me fizesse despertar para novas sensações... mas, tenho medo...

O Vítor escreve umas coisas no Vida em Série e no Séries da TV e pode ser encontrado no Twitter a pastar...

domingo, 2 de março de 2014

"Double Vision" (Shuang Tong, 2002)


Huang Huo-tu (Tony Leung Ka Fai) cometeu um pecado capital. Ninguém denuncia corrupção dentro do próprio serviço. É embaraçoso para a entidade, é desconfortável para todos e o mais provável é levar com uma despromoção. A Huo-to os princípios não lhe serviram de muito. Deixou de ser um detective e foi transferido para a unidade que lida com os estrangeiros e fronteiras. Uma das actividades mais pequenas e humilhantes para quem tem a formação de Huo-to e, onde, esperam, que não levante mais a voz. Fica quietinho que estás bem assim. Ah e, junte-se a isto uma esposa insatisfeita que quer o divórcio e uma filha traumatizada para completar o caos que é a vida pós “boa acção vira-se contra o próprio”. O que Huo-to não precisa é de mais complicações. É precisamente isso que sucede quando um serial killer começa a atuar no território e é chamado Kevin Richter (David Morse), um agente do FBI americano no papel de consultor para a resolução do caso. Huo-to é designado como interlocutor entre as duas agências, um papel que na realidade ninguém queria desempenhar. Os colegas não parecem mais interessados em desvendar o caso do que em abafá-lo e Kevin não é visto como mais do que um americano arrogante que foi convocado para fazer figura para os media.

Desconfio fortemente que “Double Vision” tinha como público-alvo o mercado estrangeiro como atestam, quer o trailer com enfoque no actor americano quer por uma narrativa com laivos de filme noir americano. Digo laivos porque a dada altura a narrativa muda numa direcção completamente diferente, com elementos religiosos do Taoísmo e da superstição a tomarem o leme. Um policial para os agarrar, um mistério sobrenatural para os prender. Normalmente, seria tentada a dizer que a mudança radical constituiria o problema do filme mas, neste caso, é o que o torna tão diferente dos demais e até, interessante. “Double Vision” não se demarca de Taiwan, da religião praticada e das suas pessoas, abraçando, antes, a sua cultura. A parelha de polícias não segue a fórmula, já que qualquer dos personagens é inteligente e simpática o suficiente para nos preocuparmos com o que lhes acontece ainda que, estranhamente, Morse sobressaia sobre o actor local Leung Ka Fai. É recomendável que considerem a parelha Chan/Tucker de “Rush Hour” (1998) o oposto do que irão visionar. Aliás, “Double Vision” encontra-se mais próximo de um “Seven”(1995), com o seu ritmo lento e mortes cuidadosamente orquestradas.
As discussões entre o supersticioso Huo-To e o polícia prático que apenas acredita em provas empíricas demonstram que “Double Vision” é tudo menos acéfalo. Em duas linhas de diálogo percebemos quem são os personagens: Huo-to tem demasiada bagagem para não acreditar que tudo acontece por um motivo e Kevin já viu tanto que se recusa a acreditar que o pior na Terra não é o ser humano. Richter é orientado para o resultado e não percebe as nuances culturais que condicionam uma rápida resolução, enquanto Huo-to o tenta fazer compreender este facto sem entrar por território que já não é o seu. Ele é apenas um interlocutor, um interveniente secundário numa sucessão de crimes atrozes e com uma ligação obscura a uni-los. Infelizmente a personagem de Morse não tem história a acompanhar o cinismo manifesto. Apenas podemos supor. E por falar em suposições, de modo algum conseguimos adivinhar o caminho que “Double Vision” irá trilhar desde que surge no ecrã um recém-nascido com duas pupilas no mesmo globo ocular. “Double Vision” alterna entre o visceral e a subtileza a todo o momento que apenas peca pelo ritmo lento e um desfecho inferior ao crescendo que o antecede. Três estrelas.

O melhor:
- David Morse
- Imprevisibilidade da estória
- Cinematografia
- Criatividade das mortes

O pior:
- Complexidade da estória. Demasiados sub-enredos.
- Elemento sobrenatural
- Desfecho


Realização: Kuo-fu Chen
Argumento: Kuo-fu Chen e Chao-bin Su
Tony Leung Ka Fai como Huang Huo-tu
David Morse como Kevin Richter
Rene Liu como Ching-fang
Leon Dai como Li Feng-bo
Wei-hanHuang como Mei-Mei


Próximo filme: "Sawako Decides" (Kawa no soko kara konnichi wa, 2009)

domingo, 17 de novembro de 2013

"Phone" (Pon, 2002)


Ji-won (Ji-won Ha), uma jornalista destemida tem vindo a receber telefonemas ameaçadores desde que escreveu uma série de artigos baseados na investigação de um caso de pedofilia. O casal Ho-jeong (Yu-mi Kim) e Chang-hoon (Woo-jae Choi) de quem é amiga íntima decidem fazer o papel de bons samaritanos e oferecem-lhe estadia numa das suas casas, onde será difícil aos bandidos encontrá-la. Entretanto, Yeong-ju (Seo-woo Eun), a jovem filha do casal atende o telefone de Ji-won por ocasião de uma das chamadas misteriosas e inicia a demonstrar sinais de possessão. Ji-won é forçada a recorrer à sua mente inquiridora, à medida que os telefonemas se intensificam e a música “Moonlight Sonata” começa a ecoar insistentemente na sua cabeça.

Costuma-se dizer, ou pelo menos foi a informação que me venderam, que o mais difícil em cinema é trabalhar com crianças e animais. Quando uma ideia assim tão louca resulta o produto final pode ser surpreendente. A Aniston e o Owen Wilson que me perdoem mas por algum motivo a película é “Marley e eu” e não os “Grogan e o cão”. Em “Phone”, uma miniatura feminina ainda nem chegada à puberdade rouba o filme das mãos de Ji-won Ha, aquela que é uma das actrizes mais populares da Coreia do sul dos dias de hoje. Deve doer.
E os cineastas não tiveram grandes contemplações para com o “selo” da Disney. A pequena Seo-woo comporta-se como uma adulta sem espaço para subtilezas. Ela irradia ódio, histerismo, sedução, maquiavelismo em doses iguais, brutais. O desempenho faz crer que as emoções que exalta nas cenas com Yu-mi Kim e Woo-jae Choi são mais do que mero fingimento. Ela conhece as emoções com que está a trabalhar, emula mais do que a insinuação e ultrapassa-os em profundidade. É boa demais para uma actriz com menos de dez anos de idade e que praticamente não possui experiência. Quando ela não se encontra a trabalhar o ecrã, “Phone” é apenas mais um numa longa sucessão de hair movies, se bem que, com a vantagem da antiguidade que ainda o torna, ligeiramente superior a muitos que se lhe seguiram. Ji-won interpreta uma jornalista, como convém porque à protagonista cabe sempre a ingrata tarefa de investigar uma série de acontecimentos grotescos. Mais alguém se recordou de imediato do “Ring” (1998)? Há lugar a telefones assombrados um elemento também não inteiramente estranho já que “Phone” foi o instigador original da série de filmes “One Missed Call”. Uma música associada a sarilhos? Conhecida ou pelo menos vagamente reconhecível que é para garantir que ninguém do público esquece. Céus, não sei se alguma vez o vi no cinema… À excepção de “Cello” (2005) talvez. E os elevadores, não sei o que se passa com os elevadores asiáticos mas são todos arrepiantes. As luzes apagam-se ou piscam e invariavelmente o número de ocupantes aumenta (lamento dizê-lo), de modo não tradicional. Novo flashback, desta feita apenas uns meses antes, para o filme dos irmãos Pang “The Eye”. Que aconteceu à música de elevador horrível e aos vizinhos desagradáveis com quem nunca ocorre um desbloquear de conversa excepto pelo final da viagem, assim que já não são necessários dos países ocidentais?
“Phone” é tão aborrecido como os restantes hair movies ou tão divertido como os seus congéneres. É uma questão de perspectiva na verdade. O cliente de um restaurante tendo perante si toda uma variedade de pratos só realiza o pedido do costume se ainda não está cansado de pedir sempre o mesmo. Pois “Phone” não engana ninguém, os créditos iniciais são prova disto mesmo. Apresenta exactamente aquilo que este tipo de cliente espera, com uma ou outra variação: maior ou menor quantidade, se calhar uma disposição dos ingredientes diferente mas a essência é a mesma. No máximo “Phone” é um caso de estilo mais interessante do que a substância e nesse caso como fã assumida do género nada tenho a apontar. Três estrelas.
Realização: Byeong-ki Ahn
Argumento: Byeong-ki Ahn
Ji-won Ha como Ji-won
Yu-mi Kim como Ho-jeong
Woo-jae Choi como Chang-hoon
Seo-woo Eun como Yeong-ju
Ji-yeon Choi como Jin-hie


Próximo Filme: “Ong-bak 2” (2008)

domingo, 8 de setembro de 2013

"The Twilight Samurai" (Tasogare Seibei, 2002)


Hoje é dia de filme nomeado aos óscares. Isso traz sempre algum temor. É a aclamação justificada? Ou terão sido os críticos, no calor do momento, arrastados pelas opiniões positivas do outro lado do vasto oceano influenciados a louvar uma obra no máximo, mediana?
“The Twilight Samurai” inicia-se numa nota triste. Seibei Iguchi (Hiroyuki Sanada) perdeu a alegria de viver após perder a esposa amada. Enterrado na pobreza extrema, ele divide o tempo entre um trabalho burocrático, imagem longínqua da glória do samurai e o cuidar de uma mãe doente e filhas menores. Todos os dias, dia após dia, até ao final da vida. Até os colegas de ofício o já convidam para uma bebida após o trabalho por descarga de consciência. Seibei não é feliz nem parece querer sê-lo, contenta-se com o pouco que possui e os laços familiares, fortes. Ele sente a obrigação de tomar conta dos seus sem qualquer auxílio.
Está no crepúsculo da vida de guerreiro. Um pouco como os samurais por todo o país. A época dourada há muito que se foi. Não há espaço para o samurai. Resta-lhe definhar e morrer. Um pouco como a paisagem desolada que anuncia tempos de seca, doença e fome. As mesmas que vitimaram a sua esposa e às quais, apenas as famílias poderosas conseguirão resistir sem perdas. Eis que surge Tomoe (Rie Miyazawa), uma amiga de infância por quem nutriu um amor nunca concretizado, recém-divorciada. Empenhado em vingar a honra da antiga paixão, ele volta a pegar na espada de samurai. Se ele conseguir sobreviver, poderá ter a chance de um segundo momento de felicidade. Num tema tantas vezes tocado, como é a vida do samurai, a abordagem de Yoji Yamada é estranhamente original. O seu samurai encontra-se muito longe do anti-herói tradicional. Ele não almeja a fama ou glória mas uma existência pacata com os seus. Descura até a sua própria higiene. A mãe e as filhas encontram-se em primeiro lugar. Seibei é mais feliz quando a sua família tem comida na boca do que quando parte numa missão ordenada pelo lorde do seu clã. Ele foge à responsabilidade da hierarquia enquanto pode e, poderia ser apelidado cobarde mas é um homem que reconhece as suas limitações e apenas quer desfrutar de uma existência confortável. Por isso, ele é dotado de humanidade extrema, tornando-o, digno de afeição aos olhos da audiência. Desejamos que ele se torne o homem que deve ser e que tenha uma segunda oportunidade na vida com a mulher que ama. E a sua honestidade e humildade quase se tornam o seu pior inimigo, considerando-se inferior às perspectivas que se lhe apresentam. O seu segundo inimigo acaba por ser a próprio clã em que está inserido, o que lhe proporciona pão mas poderá, em qualquer altura enviá-lo para a morte, pela recusa em admitir a mudança dos tempos.

Existe um sentimento de desolação inerente à película apenas ultrapassado pelo calor das interacções dos personagens. Seibei apenas se permite mostrar emoções quando está com as filhas, com Tomoe, os sentimentos estão implícitos. À sua volta é apenas morte, desespero, resignação, desilusão. Como não agarrar-se ao que há de mais precioso?
“Twilight Samurai” se sofre de algum mal é o da subtileza. Há o perigo de se deixarem enlevar pela ideia do espadachim. Este não é um desses filmes. Aliás, é um dos poucos que não enveredam por esse caminho e antes se focam numa altura menos áurea: o fim do Japão feudal e o início Japão moderno. Em última análise, “The Twilight Samurai” é um daqueles filmes modestos que nos apanham de surpresa para se tornar um dos grandes filmes que tivemos a feliz oportunidade de assistir. Justíssimo nomeado para os maiores prémios da 7ª Arte. Quatro estrelas.

Realização: Yoji Yamada
Argumento: Yoji Yamada, Shuhei Fujisawa e Yoshikata Asama
Hiroyuki Sanada como Seibei Iguchi
Rie Miyazawa como Tomoe
Nenji Kobayashi como Choubei
Ren Ohsugi como Toyotaou Kouda
Mitsuru Fukikoshi como Michinojo
Miki Ito como Kayano Iguchi
Erina Hashiguchi como Ito Iguchi
Reiko Kusamura como mãe de Seibei

Próximo Filme: "The Twilight Samurai" (Rab Nong Sayong Kwan, 2005)

domingo, 24 de março de 2013

"Dark Water", (Honogurai mizu no soko kara, 2002)



Yoshimi (Hitomi Kuroki) é o retrato de uma mulher aterrorizada. Foi forçada a adquirir o apartamento mais barato que encontrou, numa zona degradada da cidade, com a filha Ikuko (Rio Kanno) e o ex-marido rancoroso não mostra qualquer sinal de abandonar a luta pela menina, apenas pelo prazer de a fazer sofrer. E agora que descobre que o apartamento que conseguiu arranjar herdou bastantes problemas, nem o solicito agente imobiliário que a convenceu a dar esse passo, nem o encarregado do prédio estão interessados em fazer o seu trabalho. É a maldita infiltração no tecto que parece segui-la, são as torneiras que não abrem e quando o fazem parecem espirrar… cabelos? É ainda a estória de uma menina, com a idade da sua Ikuko que desapareceu um ano antes. Nunca mais se sabe dela mas também não há ninguém terrivelmente preocupado apesar de ela ter morado ali…
Em “Dark Water” o realizador Hideo Nakata regressa ao género que o tornou o famoso, o terror. Embora seja bastante discutível se este é um filme de terror. “Dark Water” foi um dos últimos filmes com os onryo (fantasmas vingativos) a conseguir impressionar as audiências europeias. Quanto tempo dura uma moda? Quatro, cinco anos, no máximo? O auge dos slashers americanos, por exemplo, deu-se entre o final dos anos tempo e o início dos anos 80. Em 86 já ninguém queria ver o Jason, o Michael Myers ou o Freddy Krueger. Seria preciso uma década até ao slasher regressar, reformado com sarcasmo por um velho lobo (Wes Craven), entendedor do cinismo das gerações nascidas nos anos 80, os mesmos que ajudou a moldar! Não admira pois que dez anos passados da estreia os “Ringu” e “Ju-on” sejam recebidos pelos novos cinéfilos com escárnio ou a gargalhada. “Dark Water” é um exercício mais moderado de mais do mesmo. Ao invés de apostar na maldição/assombração a todo o gás, só parando no final, apresenta os desafios de “uma mãe solteira” amedrontada pela possibilidade de perder a filha que encontra eco em qualquer nação. E durante a maior parte dos 100 minutos de película é a isso que assistimos. Uma mulher que não sabe muito bem se está a ficar louca, à medida que os problemas do apartamento se amontoam e sem suporte emocional além da filha e uma força se torna demasiado próxima das duas para seu conforto.
Estaria a mentir se não achasse o cenário demasiado conveniente para o clima de assombro crescente. Os fantasmas “farejam” as criaturas mais vulneráveis, sobretudo mulheres e crianças e, ora bolas, se isso não nos deixa arrepios na espinha. Pior do que saber que os seres mais fracos da estória estão sob ataque é ter a certeza de que estão sós no mundo. Yoshimi, interpretada por Hitomi Kuroki é uma personagem multidimensional. Não é difícil imaginar Yoshimi como uma mulher abusada, pelo menos, em termos psicológicos. É uma daquelas pessoas que tenta agradar a todos e a evitar o conflito. Por fim, acaba por ser a principal prejudicada, a vítima das circunstâncias que ela própria ajudou a criar. “Dark Water” também funciona em crescendo como “Ringu” mas com um argumento mais sólido, ainda que isso não signifique grande coisa. O J-horror nunca foi celebrado pelas estórias magníficas mas sim por um conjunto de tecnicismos vários que criaram as cenas de tensão que têm sido celebradas e parodiadas nos últimos anos. Infelizmente, ultimamente, somente o facto de um filme ser rotulado como J-horror pode levar a que este seja recebido com descrédito pelas audiências ocidentais. Enquanto no extremo oriente a população acorre em massa para ver a mais recente reencarnação do onryo, a oeste as populações suspiram só à menção da rapariga de cabelos negros que aparece e desaparece a seu belo prazer. As actuações são boas, em particular a da então criança Rio Kanno que viria depois a protagonizar “Noroi”. De um modo ou de outro, os personagens são todos emprestados de outros filmes de terror ou viriam a ser repescados posteriormente para o efeito. “Dark Water” é um dos últimos exercícios superiores no que diz respeito aos sempre constantes fantasmas ameaçadores antes de a banalização atacar as estórias em proveito do terror pipoca. “Sadako 3D”? Alguém? Três estrelas e meia.

Realização: Hideo Nakata
Argumento: Koji Suzuki, Ken’ichi Suzuki, Yoshihiro Nakamura e Hideo Nakata
Hitomi Kuroki como Yoshimi Matsubara
Rio Kanno como Ikuko Matsubara
Mirei Oguchi como Mitsuko Kawai
Fumiyo Kohinata como Kunio Hamada
Yu Tokui como Ohta
Isao Yatsu como Kamiya
Shigemitsu Ogi como Kishida

PS: Mais ninguém achou a música no inicio do trailer, completamente desconexa da imagem?

Próximo filme: "Death Bell 2" (Gosa 2)

domingo, 9 de dezembro de 2012

"City Horror - Song of the Dead"


O terceiro capítulo da série sul-coreana realizada para televisão tenta demarcar-se das estórias anteriores através de um regresso ao passado. Enfase, no tentar por que, para todos os efeitos, um filme sobre espíritos continua a ser um filme sobre uma assombração, seja ontem ou hoje. Algures no ano 500, a General Bai Lan conduziu o seu exército contra uma pesada derrota face a Sun Law. A sua fama de impiedosa e o medo de que pudesse regressar além campa faz com que uma bruxa lance um feitiço sobre ela. Nos tempos actuais, Wai Lai e o produtor Wing encontram num antigo estúdio a melhor opção para as suas carreiras deslocar. Entre os velhos papéis do local, Wing encontra uma canção inacabada e decide completá-la. Entretanto, Wai começa a ter visões de uma mulher de vermelho e procura o apoio de Wing mas ele está demasiado envolvido com o seu mundo interior, como se estivesse possuído. Qual a ligação entre a aparição e a canção misteriosa? Se a conexão entre estórias não fosse por demais óbvia… Mas esse ainda é o menor entre os problemas (demasiados), que “Song of the Dead” apresenta.
A canção dos mortos surge do nada e para lá regressa. Qual é o significado da canção? Por que é tão especial que se torna a ponte entre o passado e o presente? Além disso, alguém me consegue explicar, se Bai Lan é que foi amaldiçoada e viu o seu espírito prisioneiro, o que faz um dos seus soldados nos dias de hoje? Isto, só em termos de argumento, já que no que se refere à sonoplastia e cenografia, “Song of the Dead” fica uns bons furos abaixo de um trabalho aceitável efetuado por alunos do 3º ano do curso de cinema. Parece que o orçamento explodiu nas cenas de batalha e respectivos figurinos, o que fez com que as cenas, na atualidade e no próprio estúdio sofressem bastante. É de aplaudir a utilização em determinados momentos da luz e da sombra para esconder a escassez de meios. Nem o elenco completa o cenário, passeiam-se pelo ecrã como sombras, como se fossem artigo secundário de um evento principal que nos escapa a todos.  Recordam-se daquele ditado do senhor Wilde no qual ele dizia: “falem bem, falem mal, mas falem de mim”? Quer-me parecer, volvida uma década que não há memória desta canção dos mortos. Uma estrela.


Realização: Gyu Hwan Lee
Argumento: Alex Garland, Carlos Ezquerra e John Wagner
Ri-su Ha, Hyun-jin Kim, Tae-hwa Seo e Ga-yeon Kim


Próximo Filme: “The Good, the Bad, The Weird” (Joheunnom nabbeunnom isanghannom, 2008)


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"City Horror - The Evil Spirit" (2002)


Sabem aqueles acontecimentos que são tão traumáticos, tão dolorosos que só queremos fugir e nunca mais olhar para trás? Mas, qual pesadelo, regressa para nos assombrar? Cha é uma rapariga do campo que fugiu para a grande cidade, onde consegue vingar na sétima arte. A pretexto de mais um trabalho Cha é reconduzida para a terra natal. Muitos dos que conheceu já faleceram, outros tantos parecem levar vidas estagnadas. Um pé à frente do outro para sobreviver, que a vida ali não tem grandes alegrias. As perspectivas são nulas e nem todos podem ir para a cidade como a pequena misse citadina…
E enquanto ela e a sua equipa vai perturbando as aparentes águas calmas do local, ela recorda uma menina que teve uma morte prematura. Onde as outras crianças da aldeia viam uma garota estranha ela via uma potencial amiga, de quem tinha pena por ter perdido a mãe. Até que um dia tudo se desmoronou, um erro desfez sonhos e eles afastaram-se, perderam-se numa vida que podia ter sido de sucessos. Agora que Cha regressou, Yah desperta de um sono atormentado. Finalmente, todos pagarão pelo mal que lhe fizeram.
Espirito maléfico? É curioso como tudo o que não é “natural”, é logo automaticamente rotulado de maléfico. É quase facto universal que raparigas com cabelo negro e descabeladas não são sintoma de boas coisas por vir. Mas vamos lá analisar por um momento as meninas. Quase todas tiveram mortas horríveis e a grande maioria nem sequer foi especialmente bem tratada em vida. Por que não haveriam de retornar para se vingar dos vivos? É suposto que vão para o céu e perdoem os que as magoaram e até lhes causaram, por vezes, a morte? A piedade é para os vivos. E não conhecendo fronteiras na morte, tenham medo. Tenham muito, muito medo. O resto é a estória habitual com um final igualmente previsível. Se bem que, terei ali visto laivos de “Shutter” (2004)? Juro que se mais algum episódio da série tiver “inspirado” outras obras, ganharei um novo respeito sobre a série.
“The Evil Spirit” não se afasta um milímetro dos temas recorrentes do cinema sul-coreano. O cenário é o  microcosmos habitual, aldeia/vila/localidade mais ou menos isolada, na qual a população local vive embrenhada na sua própria realidade e não possui capacidade psicológica acolher outras realidades, chegando até a repudiar qualquer tipo de influência exterior. Possuem pois, regras implícitas auto-impostas que às vezes se substituem à própria lei, deixando margem para que cometam os actos mais obscenos sem medo de punição. Subjacente, está ainda o binómio homem/mulher que só parece funcionar quando o género masculino tem o ascendente sobre o feminino. Se ela não for subjugada pelo homem é considerada louca. Se ela for independente e liberal, parece sempre existir algum tipo de crítica ao seu estilo de vida. E claro, numa micro-sociedade tão opressora como pode a mulher não se rebelar, mesmo que só além do corpo, no meio metafisico, o único local onde parece ser consensual que ela é mais forte? Do género: “vêm como nós até consideramos o sexo feminino poderoso?” Sim, mas tiveram de o transformar num ser maléfico. Ao menos os que forçam a mulher a fazer coisas que não quer, assumem aquilo que são. Hipócritas!
Para mal da audiência “The Evil Spirit” nunca é mais do que os temas que lhe estão subjacentes, nunca é mais do que a historieta de terror que não funciona assim tão bem por que, pronto, a pequena vilã é adorável e, não estão mesmo á espera que tenhamos medo quando se vê uma actriz obviamente pendurada por cabos? Duas estrelas.

Actores: Kei Yung Lee e Kai Wing Cho

Próximo Filme: "A Designar (Porque a sério, isto está mesmo difícil de adquirir filmes"

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

“City Horror – Scream” (2002)


Não, o filme anteriormente anunciado (“The Good, The Bad, The Weird”) não se transformou por via mágica numa mini-série de terror. Existiram… Problemas técnicos e fiquemos por aí. Ei, ao menos é made in Coreia. Pronto, pronto, não há modo de mascarar o facto de “Scream”, um episódio feito para televisão ser infinitamente inferior ao western cómico de Jee-woon Kim. A isto, meus amigos, chama-se cativar os leitores para cá voltarem à procura desse filme, fiquem atentos!
“Scream” (nada a ver com o clássico do Wes Craven, atenção) é uma surpresa daquelas de “onde é que já vi isto antes?” mas, ao contrário. Então não é que “The Cut” (2007), do qual já tivemos oportunidade de abordar antes. É que, se fizeram as contas “Scream” tem menos 5 anos que a película feita para tela. Daí resulta que “The Cut” consegue ser menos original do que pensava e que é apenas uma versão polida do que pode ser um potencial episódio de culto. Mais, significa que, em 2002, com “Ju-on – The Grudge” a bombar e “Ringu” com capacidade para queimar os últimos cartuchos “Scream” e a descabelada de serviço ainda conseguiam fazer gelar espinhas.
Meia dúzia de estudantes de medicina é convocada a meio da noite para preparar os cadáveres para a próxima aula de anatomia. Vão dissecar corpos. O que é sempre interessante. Ou melhor, aquela altura em que depois de enterrar a cabeça nos livros e descobrir que têm crânio para decorar tudo e mais alguma coisa no corpo humano, não têm estômago. Fixe. Algures naquela interacção acordam algo que devia ter permanecido adormecido e um dos corpos retorna, (do mundo dos mortos, passe a redundância, sim), para acabar com os estudantes: um a um, como nos filmes. Uma das conclusões imediatas que posso retirar vendo uma “simples” série de televisão coreana é que eles não têm gente feia. Por outro lado, o conceito de estudantes lá é um bocado estranho. Grande parte dos actores não passa por ter idade para frequentar a faculdade de medicina. Por outro, para potenciais médicos ou investigadores na área da medicina, não são especialmente perceptivos ou inquisitivos. São meras criativas passivas. As mortes também não particularmente brilhantes. Ocorrem fora de cena. Ora, onde um bom realizador criaria suspense para que o que sucede fora do alcance do olhar esteja repleto de suspense, “Scream” é básico, morno, desinteressante. E na verdade, nem os nomes das personagens se sabe por altura dos créditos, tal foi a experiência. E os gritos?! Creio que para um episódio com o nome “Scream” das primeiras coisas que se fazem no casting é pôr os actores a gritar. Digamos que essa parte lhes deve ter passado ao lado.
Sabem aquelas noites frias em que só apetece ficar debaixo de um cobertor e consumir doses massivas de televisão? É isso e ser um fã do género terror pouco exigente. Serve e pouco mais. Duas estrelas.


Argumento: Gyun-huan Lee
Jae-huan Na, Ho-kyung Go, Chae-yeon Kim, Gee-hyun Kim, Hyun-gyun Lee, Tai-woong Lyu, Yong-woo Park, Soo-yung Song


Próximo Filme: “The Good, the Bad, The Weird” (Joheunnom nabbeunnom isanghannom, 2008) Será que é desta?

domingo, 7 de outubro de 2012

"Sex is Zero" (Saekjeuk shigong, 2002)



Comédia coreana que deverá agradar a quem gostou de “American Pie” e “Van Wilder”. 

Situado algures entre as piadas nojentas de “Van Wilder” (2002) e com um pouco mais de alma do que o primeiro “American Pie” (1999) que agradaram a multidões de pré-pubesceres convencidos que aprenderam tudo quanto ao sexo dizia respeito, “Sex is zero” é surpreendentemente espirituoso. Apesar de possuir um corpo de actores mais velho que os filmes já mencionados, nem por isso o juízo destes é melhor. Estudar? A preocupação com os estudos está perto de ser a última coisa que os estudantes do campus da Universidade Nacional têm em mente. Numa palavra: sexo. Sexo pela primeira vez, sexo com outro parceiro que não o habitual, sexo com a pessoa que se ama, definição do próprio sexo, inveja do seu próprio sexo, falta de sexo. E para tais preocupações há cenas em suficiente quantidade para agradar a todos os adolescentes obcecados pelo sexo, nomeadamente a cena em que, após uma saída, todos os "jovens" já completamente alcoolizados iniciam as maquinações para acabarem a noite com o seu par de eleição. Mas que seria de uma comédia arriscada sem um par romântico pelo qual torcer? O Jim e Michelle da saga “American Pie” são Eun-sik (Jung Lim Chang) e Eun-hyo (Ji-won Ha). Desta feita, enquanto ele se apaixona à primeira vista por debaixo da saia por Eun-hyo, ela só tem olhos para o garanhão de serviço, Sung-ok (Min-jung) que namora com a mulher com os atributos físicos mais invejados da universidade Ji-won (Jae-yeong Kim). Todos sabem onde é que isto vai dar menos eles. O par amoroso deverá passar pelos gags mais hilariantes e as maiores provações para descobrirem que foram, afinal, feitos um para o outro, como já tivemos oportunidade de observar noutros filmes, uma cem vezes, no mínimo. Para (não) ajudar a que o parzinho se reúna no final da película está o habitual grupo de amigos pouco inteligente que nos proporcionará muitas cenas de sexo, nudez e inúmeros disparates.
Infelizmente, enquanto o Jim de “American Pie” era um tolo adorável, Eun-sik não desperta a mesma simpatia. É mais fácil pensar, por todas as atitudes desastradas, fracassadas e acéfalas que ele é portador de um qualquer tipo de deficiência. Mais velho que os restantes personagens, visto que o seu personagem começa a frequentar a universidade apenas após o cumprimento de serviço militar, ele tem a mentalidade de adolescente de 16 anos mas sem o expediente típico da idade. Ele é apanhado por diversas vezes em posições comprometedoras e chega a uma altura em que não conseguimos acreditar na sua inocência tal o azar em se colocar constantemente nessa posição. A protagonista não é muito melhor. Ji-won Ha que interpretou recentemente o papel de durona em “Sector 7”, não terá culpa do papel que lhe caiu em sorte, mas custa a compreender em que lógica é que um “vamos ficar juntos por que sei que tu nunca me vais abandonar” pode soar agradável a alguém. Excepto a um Eun-sik que coitado, deve bastante à inteligência, embora lhe conceda, toda a compaixão deste mundo e arredores.
“Sex is zero” atinge pelo menos um feito digno de nota que é: copiar alguns gags de filmes anteriores como uma cena muito famosa de “Van Wilder” que envolve esperma – não finjam que não sabem do que estou a falar – e, conseguir com que a piada pareça menos forçada do que no filme que a originou. Depois de uma primeira hora brutal em gargalhadas, eis que “Sex is zero” toma a única decisão que o podia diferenciar dos demais competidores e adquire um tom ultra-dramático à boa maneira sul-coreana. A tragédia desta viragem é que o filme não necessitava dela. O registo engraçado e bem-intencionado sem levantar grandes controvérsias, chegava perfeitamente para 90 minutos de entretenimento bem passados, a ver com os melhores amigos ou o parzinho romântico e muita pipoca. Mas não, o argumentista tinha de demonstrar que o sexo pelo sexo não traz valor algum, quando muito a desgraça e que aqueles que não tiverem relações sexuais com responsabilidade pela saúde e pelos sentimentos poderão pagar cara a negligência. Esta advertência soa tão mais desnecessária dada a idade dos actores. Mas alguém acredita que aqueles actores têm vinte e poucos anos e que estão dependentes dos adultos? Mesmo numa sociedade onde manter a face é o mais importante, qualquer ultraje cometido é sempre mais inócuo devido à sua maturidade. Precisávamos mesmo da lição de moral? Se conseguirem ultrapassar a esquizofrenia da estória, pelo final estaremos de volta às situações hilariantes que nos fizeram rir à gargalhada desde os créditos iniciais com a promessa de sexo, mas muito sexo e ainda assim poder ser visionado por pessoas que não necessariamente de se inserir na categoria de pervertidos. Três estrelas.
Realização: Je-gyun Yun
Argumento: Je-gyun Yun
Jung Lim Chang como Eun-sik
Ji-won Ha como Eun-hyo
Min-jung como Sung-ok
Jae-yeong Kim  como Ji-won
Chae-yeong Yu como Yoo-mi

Próximo Filme: "Dredd 3D", 2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"The Eye" (Gin Gwai, 2002)


Os olhos devem ser um dos órgãos mais importantes, subestimados e maltratados em todo o corpo humano. É que nem temos noção. Passamos horas a forçá-los à frente de monitores, insistimos em mantê-los abertos muito depois do cérebro gritar de cansaço e, nem sequer, os utilizamos como deve ser. Não fossem os vossos olhos e, não podiam ler estas linhas sobre um dos grandes filmes de terror do século XXI. E, se os olhos são tão pouco considerados pelos poucos dotados com uma visão perfeita, imaginem como será uma lembrança preciosa por quem um dia a possuiu. O caso aplica-se como uma luva a Mun (Angelica Lee), uma rapariga de 24 anos que após duas décadas de escuridão, recupera a visão num novo procedimento cirurgico. O processo de recuperação é assustador. Não só devido à ansiedade de conhecer um mundo além dos outros quatros sentidos mas também pelo facto de ser como uma criança novamente. Tem de aprender a redescobrir o mundo e a relacionar-se com ele e distinguir o real do ilusório. Entre os vários desafios estão a distrinça das superfícies e o reconhecimento da própria imagem. E quão solitária deve ser esta jornada quando Mun tem uma família que não se pode identificar com a sua situação e a orquestra de invisuais na qual tocava, já não a considera como uma deles.
Mun, por entre a profusão de imagens que inundam incessantemente o seu espectro de visão, não se apercebe de imediato que vê algo mais, algo que os restantes seres vivos não vêem. E, não sabe, por isso, reconhecê-lo. Enquanto a maioria dos que a rodeiam atribui a nova atitude de introversão de Mun ao processo de transição que está a atravessar, apenas o seu psicólogo, Dr. Wah (Lawrence Chou) a parece compreender. Perante imagens de natureza tão perturbadora ela isola-se, retira-se do mundo social. Existe uma resposta racional para o que lhe está a suceder ou o fenómeno pertence mesmo ao campo do sobrenatural? Ao contrário de outros grandes clássicos do cinema asiático como “Ringu”, “Ju-on” ou “A Tale of Two Sisters”, “The Eye”, baseia-se num problema fisico, algo que tocará mais perto do coração e da racionalidade do Homem. Qualquer um se pode identificar com o receio de perder a visão, ou de ver algo que não quer, o tal “monstro debaixo da cama”.Por outro lado, há sempre o medo mais primitivo da provocação de danos sobre o globo ocular. “Un chien Andalou”, o nome, se calhar, não vos dirá nada mas se referir a cena da senhora cujo globo é perfurado por uma faca, a referência talvez não seja tão estranha...
De resto a narrativa não será totalmente original, sendo desaproveitadas algumas oportunidades como a possibilidade da loucura de Mun. Nunca surge a mais remota hipótese de que está tudo na sua cabeça, a causa é exterior. Também Angelica Lee, que após este filme se viria a tornar mulher de um dos realizadores, o Oxide Pang Chun, é a maior força do filme. É o seu desempenho que carrega todo o filme sendo que com um retrato menos realista de Lee, “The Eye”, não teria metade do impacto. A maior fraqueza encontra-se no Dr. Wah, um Lawrence Chou demasiado imberbe para interpretar um psicólogo experiente e conceitado. Tanto ele como Angelica viriam a fazer carreira com os irmãos Pang, acertando algumas vezes (“Re-cycle”) e falhando redondamente noutras ocasiões (“Sleepwalker 3D”). Outra questão que poderá afugentar os espectadores de “The Eye” nada tem que ver com o filme mas com o remake americano com Jessica Alba. É certo que ela não é o pior do filme mas ajuda muito. Essa versão, além de já não possuir o factor novidade, não é tão aterradora. Para não alienar o publico e chegar a um publico mais jovem, suavizaram de tal modo certas cenas icónicas que ver Alba a estremecer de medo não assusta, incomoda. Mais do que isso, “The Eye” é um caso de estudo de imitação e replicação de cenas que, hoje em dia se tornaram banais mas, não neste filme, que dez anos volvidos envelheceu bem. Atentem bem a “The Eye”, e observem bem o material de que são feitos os grandes clássicos de terror. Quatro estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun e Danny Pang
Argumento: Yuet-Jan Hui, Oxide Pang Chun e Danny Pang
Angelica Lee como Wong Kar Mun
Lawrence Chou como Dr. Wah
Yut Lai So como Yingying
Edmund Chen como Dr. Lo
Candy Lo como Yee

Próximo Filme: "Misteri Jalan Lama", 2011

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"Ju-on: The Grudge" (Ju-on, 2003)

Já adiei esta apreciação por tempo demais. "Ju-on" é por demais uma referência em qualquer filme de "rapariga assustadora de longos cabelos compridos" para que não explique afinal, a que é que me estou sempre, qual macaca de repetição, a referir. Antes de mais, deverão compreender que “Ju-on” não é um único filme mas um conjunto de películas feitas para a televisão e cinema japoneses, todas realizados por Takashi Shimizu. O título normalmente mais mencionado é “Ju-on: The Curse”(2003), direccionado para o grande ecrã. Foi neste último, que o remake americano “The Grudge” (2004), se baseou. Este é o filme que muitos terão visto antes sequer de terem ouvido falar da versão original e o motivo pelo qual, "Ju-on" é por vezes injustiçado.

Definição de Ju-on:
Ju significa maldição, praga ou coisa maldita
On significa rancor, maus sentimentos, aversão

“Ju-on: The Curse”
Os créditos iniciais anunciam um rancor tão forte que ultrapassa a morte. Esta emoção é dirigida a todos os que entrarem no perímetro de uma casa maldita. Passamos logo à história de Rika, uma voluntária da acção social que é persuadida a ir cuidar de uma velhota em estado catatónico. Quando lá chega parece que passou por ali um tornado: a casa está desarrumada e não deve ser limpa há bastante tempo. Rika entra em acção e começa a limpeza quando começa a ouvir sons estranhos vindos de um dos quartos. Lá encontra um armário fechado com fita-poliéster que começa a retirar…
“Ju-on: The Curse” não é uma história mas antes um conjunto de histórias de seis personagens que por um motivo ou por outro, entram na casa e acabam por conhecer um fim trágico. As personagens não têm necessariamente ligação entre si e o único denominador comum é a casa. O resultado é uma narrativa fragmentada onde a história é o que menos importa e a atmosfera de temor tem o papel principal. Shimizu apresenta um conjunto de técnicas que nunca parecem repetitivas para construir a atmosfera de tensão: breves sequências dos fantasmas, ângulos que permitem ver o fantasma mesmo ao canto do olho, isto é, se estivermos atentos e uma boa utilização espacial que nos permite ver aparições em espelhos, vidros, debaixo dos cobertores, por entre portas, etc. É certo que hoje em dia estes truques estão vulgarizados mas na época foi uma abordagem interessante. Com cada capítulo fechado, vamos passando à personagem seguinte e assim sucessivamente até que todas conhecem o seu destino. Não existe uma preocupação com o desenvolvimento dos personagens. Quando as começamos a compreender e simpatizar com elas a sua história termina. É também complicado estabelecer a cronologia visto que de episódio para episódio há saltos no tempo que dificultam o estabelecimento da acção no passado ou no futuro. Por outro lado, é interessante verificar que no prólogo é projectado um flashback a preto e branco onde vemos resquícios da fúria assassina que dá origem da maldição. Só mais tarde é que se faz uma breve menção a um homicídio na casa, no qual Taeko Saeki matou a mulher Kayako e o filho de ambos, Toshio desaparece. Se Taeko pouco aparece, são Kayako e Toshio que representam a visão assustadora. Toshio aparece branco, pálido como se coberto em pó de talco (talvez) e tem um olhar vazio. Ele prega-nos partidas (lá está a ilusão óptica e os sistemáticos ora surge ora sai de cena), como brinca uma criança mas com uma agenda bem mais aterrorizante. Quanto a Kayako, ela tem uma cena reminiscente de “The Exorcist” (1973) na qual Reagan (Linda Blair) desce as escadas, toda contorcida que é tão simplesmente a cena mais assustadora de todo o filme. Kayako rasteja e contorce-se enquanto desce as escadas para pregar um susto de morte às vítimas que aguardam insuspeitas no fundo das escadas. Este efeito está em parte conseguido devido à capacidade de contorcionismo de Fuji que lhe permitiu efectuar uma série de movimentos menos naturais. Junte-se às imagens assustadoras o silvo de gatos, sons guturais, e som de algo a arranhar, com uma banda-sonora subtil e temos construído um cenário macabro. No fim, há apenas uma certeza: nem debaixo dos cobertores, estamos salvos da maldição. Três estrelas.

Realização: Takashi Shimizu
Argumento: Takashi Shimizu
Megumi Okina como Rika Nishina
Misaki Itô como Hitomi Tokunaga
Yuya Ozeki como Toshio
Takako Fuji como Kayako
Misa Uehara como Izumi Tôyama
Próximo Filme: "Tucker & Dale vs. Evil", 2010

PS: Se quiserem conhecer a cronologia da série “Ju-on”, leiam abaixo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Three - Curta #3: Going Home" (Saam Gaang, 2002)

Depois da recepção gelada que as primeiras curtas-metragens da antologia de terror "Three" obtiveram, a vontade de visionar "Going Home" encontrava-se poucos graus abaixo de zero. Não fosse a companhia e teria ficado "satisfeita" por ter visto duas em três o que constituiria um grande erro. Como se costuma dizer: "o melhor fica para o fim". "Going Home" é uma peça tocante sobre Wai (Eric Tseng) que se muda com o filho Cheung (Ting-Fung Li), para um antigo complexo de apartamentos que irá ser demolido dentro de pouco tempo. Não é pois de estranhar que o seu filho impressionável pense que o edifício está assombrado. Um dia, este segue uma rapariguita de vermelho que costuma brincar no complexo e desaparece. Inquieto com o desaparecimento do filho, Wai bate à porta do seu único vizinho Yu (Leon Lai) e tropeça numa história rocambolesca. Yu tem dedicado a sua vida a cuidar da sua mulher Hai’er (Eugenia Yuan) que matou há três anos! E agora, acreditem nisto, Yu continua a banhar, cortar o cabelo e as unhas da mulher, a passeá-la e a falar-lhe ternamente como se estivesse viva. Só num filme certo? Mas Yu nada tem de psicopata, ele é digno de compaixão, envolvido na ilusão que ele próprio criou de que a esposa irá acordar dentro de dias. A grande força de “Going Home” reside na subtileza do desempenho de Lai e na sua força comedida que fazem questionar se ele estará mesmo louco, ou se realmente encontrou uma solução mágica para a vida depois da morte. Por contraposição, temos um Eric Tseng quebrado perante a sua própria impotência face à ausência inexplicável do filho. Dois modos interessantes de lidar com a perda que podiam ser ainda melhor explorados não fosse esta uma curta. Apesar de eficaz, “Going Home” não está isenta de falhas. O desaparecimento de Cheung despoleta a acção mas, durante mais de metade do filme, não voltamos a ele. É como se o seu desaparecimento fosse apenas uma desculpa para nos introduzir à vida de um vizinho louco. E por muito interessante que seja explorar a "relação unidireccional" de Yu com a mulher, temos sempre presente que uma criança está desaparecida e queremos uma resposta para o mistério. O início também é enganador, com as pistas de que vamos assistir a um thriller sobrenatural a revelarem-se infundadas. Tanto melhor, o mistério sobrenatural como o conhecemos já há muito devia ter caído em desuso. “Going Home” é a obra mais compensadora de “Three” e aquela que podia (devia!) ter sido perscrutada mais profundamente numa longa-metragem. O lirismo da narração e da cinematografia de Christopher Doyle que foi responsável por algumas das obras mais belas na sétima arte como “Hero” (2002) e vários filmes de Wong Kar Wai, a par dos bons desempenhos dos actores, merecem que vejam com a maior urgência esta curta-metragem! É daquelas pequenas pérolas que fazem uma pessoa apaixonar-se de novo pelo cinema. Imperdível. Quatro estrelas.


Realização: Peter Chan
Argumento: Peter Chan, Matt Chow, Jo Jo Yuet-chun Hui e Chao-Bin Su
Leon Lai como Yu
Eric Tseng como Wai
Eugenia Yuan como Hai'er
Ting-Fung Li como Cheung

Próximo Filme: Donnie Yen em Dose Dupla! "Ip Man" (Yip Man, 2008)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Three - Curta #2: The Wheel" (Saam Gaang, 2002)

Pior do que um enredo óbvio só uma narrativa sem direcção. Daquelas que disparam em todas as direcções, a ver se uma cai nas boas graças da audiência. Estão apresentados a “The Wheel”. É a segunda curta-metragem da antologia "Three"e está a cargo de um Nonzee Nimibutr, que teve sucesso com o filme de terror “Nang Nak” (1999). “The Wheel” é um anacronismo, é a peça que não pertence. As outras curtas focam as relações entre os personagens e exploram o sentimento de perda enquanto "The Wheel" é sobre a maldição de uma marioneta... Tem um feel muito diferente das outras curtas-metragens e deita por terra qualquer tipo de transição suave entre as obras de “Three”. Comparativamente, é um trabalho de amadores. “The Wheel” passa-se numa pequena aldeia onde falece um velho mestre criador de marionetas. Diz-nos a narração inicial que as marionetas estão imbuídas com o espírito do seu criador. Este é o único que se pode apropriar delas. Quem quebrar esta regra incorre numa grande maldição. Como é óbvio, há sempre um parvo com a mania que é esperto e ignora o bom senso, sofrendo, por isso, as consequências. 
Contra todos os avisos e conselhos de trabalhadores e família, o mestre Tong (Pongsanart Vinsiri) recusa-se a acreditar na existência de uma maldição e em separar-se dos valiosos bonecos. Guiado pela ganância, Tong vê as marionetas como um modo de melhorar o espectáculo da sua trupe de dança tradicional Khon e trazer-lhe riqueza. À sua volta, começam a haver acidentes e mortes mas nem assim ele se desvia dos seus objectivos. Temos direito a tudo: incêndios, afogamentos, possessões, paixões proibidas, homicídios… Então, os que o rodeiam reúnem-se para travar a maldição e destruir a marioneta. Pois… Era bom. Antes fosse assim. Nimibutr obriga-nos a assistir incrédulos a uma sucessão de acontecimentos evitáveis e ridículos que testam a paciência a um santo. E quando julgamos que a acção não podia piorar eis um balde de água fria, uma reviravolta que ninguém previa mas piora a experiência já de si penosa. Moral? É capaz de algo acerca de nos deixarmos cegar pela ganância e os outros à nossa volta sofrerem com isso, num ciclo vicioso de destruição - the wheel = roda. Lição: é o exemplo perfeito de quando um realizador decide fazer tudo sozinho e dá mau resultado. Pois Nonzee qual mestre de marionetas toma as rédeas da escrita, produção e direcção a seu cargo e o que resulta é uma obra banal, confusa e desinspirada. O tema dos bonecos assassinos não é novidade pelo que ao menos se esperava uma aprendizagem sobre as experiências anteriores. Decerto a experiência cinematográfica seria melhor se Nimibutr se estivesse rodeado por uma equipa competente e não se tivesse deixado guiar pelo narcisismo. A obra cinematográfica é um paralelo da vida real. Não é poético? "The Wheel" não é filme que faça falta numa antologia destas, muito menos em 40 minutos. Uma estrela.
Realização: Nonzee Nimibutr
Argumento: Ek Lemchuen, Nonzee Nimibutr e Nitas Singhamat
Suwinit Panjamawat como Gaan
Komgrich Yuttiyong como mestre Tao
Pongsanart Vinsiri como mestre Tong

Próximo Filme: "Bestseller" (Beseuteu Serreo, 2010) 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

"Three - Curta #1: Memories" (Saam Gaang, 2002)

“Three” é a colaboração internacional de terror que deu origem à bem mais conhecida sequela “Three…Extremes” (2004). A ideia para a antologia adveio de Peter Chan do cinema de Hong Kong que convidou Nonzee Nimibutr da Tailândia e o sul-coreano Jee-woon Kim a emprestarem os seus dotes de realização ao esforço colectivo. A atenção internacional por “Three” veio quando “Three…Extremes” estourou nos cinemas por todo o mundo e renovou o interesse no primeiro filme que seria depois, estupidamente, denominado na América de “Three… Extremes II”  por estrear após a sequela. Resolvi ignorar este absurdo e manter a denominação original.
Se há curtas que podiam ser sumarizadas num tweet é “Memories”, a primeira curta-metragem realizada por Jee-woon Kim. Como não sou fã de spoilers, fico-me por um sumário da história: um homem (Bo-seok Jeong) consulta um psiquiatra (Jeong-Won Choi) relativamente ao desaparecimento da mulher uns dias antes. Ele não tem nenhuma recordação dos momentos que antecederam o evento. Entretanto, ela (Hye-su Kim), acorda amnésica noutro lado da cidade e tenta lembrar-se como poderá regressar a casa onde quer ela seja. Aos poucos, ambos começam a recordar os acontecimentos que os levaram àquele ponto… Jee-woon Kim, não é um ilustre desconhecido. É "apenas" o realizador de um marco no cinema de terror coreano: "A Tale of Two Sisters", rodado um ano depois desta curta. E a julgar por este esforço não posso dizer que alguém conseguisse antever o sucesso deste realizador. "Memories" sofre de males como a previsibilidade do enredo e duração excessiva. Se passados dois minutos ainda não tiverem tecido uma hipótese (a mais provável), sobre o que sucedeu aconselho-vos a lerem mais vezes as notícias. A duração está totalmente errada, visto que em cinco minutos a história seria facilmente contada. Não estou a brincar, o enredo é assim tão básico. Suponho que a conversa com Peter Chan se deve ter desenrolado nesta linha: "Consegues desenrascar-me uns 40 minutos de filme?" E pronto. Temos a perspectiva dos dois personagens, o homem e a mulher, ambos a tentar recordar os dias anteriores, uma série de flashbacks, algumas interacções que não contribuem para grande coisa excepto para preencher o tempo e uma tentativa falhada de levar a história para o campo do sobrenatural. Divertem-me as longas sequências de acção zero, qual Manuel de Oliveira. Dois, três minutos a focar a ausência de acção não é artístico, é aborrecido. "Memories" podia ter sido denominada "Insónia", por que os seus longos 40 minutos soam a duas horas de um programa zen. Uma cena de perseguição (alguém me explica o sentido daquilo por favor?) e a cena em que a mulher enfia o dedo na cabeça são as únicas emoções fortes a que a audiência tem direito. A nível visual, "Memories" é a experiência mais interessante da antologia. Mas num mundo ideal, as obras são sustentadas por pouco mais do que apenas os aspectos visuais. Muita parra, pouco sumo. Uma estrela e meia.
Realização: Jee-woon Kim
Argumento: Jee-woon Kim
Elenco:
Bo-seok Jeong como Homem
Hye-su Kim como Mulher
Jeong-Won Choi como Psiquiatra

PS: Quero aproveitar para fazer um pequeno lembrete. Na barra lateral direita, por debaixo da caixa de pesquisa há uma caixa com o título "Inscrever-se". Experimentem. É simples, rápido e a subscrição permite receber um aviso com as novas actualizações do blogue. Se não houver novidades este não aparece e escusam de perder tempo de navegação.

Próximo Filme: "Karak" 2011
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