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domingo, 16 de abril de 2017

"Knock Knock! Who's There?" (2015)


Hong Kong não parece querer abrandar a produção massiva de filmes de terror. Como se costuma dizer quantidade não é sinónimo e qualidade. E “Knock Knock! Who’s There?” não apresenta qualquer pretensão em ascender à parte superior da tabela.

Carrie Ng é uma actriz veterana de Hong Kong que conseguiu emergir de uma sucessão de maus filmes de categoria III e efetuar com sucesso a transição para o cinema destinado ao grande público. Mas se o tempo foi seu amigo e lhe trouxe respeito e reconhecimento internacional não lhe trouxe jeitinho nenhum para a realização… Entre outros pecados cai no erro da antologia. Ao invés de se focar em retratar uma boa estória foca-se em três, cada uma mais desfocada que a anterior. 
Em “Missing” Isabella (Annie Liu) morre num acidente rodoviário aparatoso ao tentar escapar dos paparazzi que a perseguem e ao seu noivo Harry (Carlos Chan). Inquieto, o seu espírito permanece na casa mortuária onde trabalha Roy (Babyjohn Choi), uma velha paixão. Diz que se reacende a acendalha do amor, que é impossível de concretizar dado… bem, dado o facto de ela estar morta e assim mas pronto, diz que o amor é cego e pelos vistos também imortal.

Segue-se-lhe “Karma” e Carrie Ng interpreta Ngo uma agente funerária viciada no jogo que ouve falar de uma susperstição, segundo a qual, se ela enterrar um gato vivo, será bafejada com grandes riquezas. Na sua ganância, ela comete o erro de matar o gato da sua sobrinha Shou (Kate Tsui). Tímida e quieta, ela recusa ignorar o acto atroz cometido pela tia e vai rebelar-se.
Em “Smell” Yan (Jennifer Tse) é uma artista especialista em tornar os mortos apresentáveis para as exéquias fúnebres que não larga o telemóvel. Um dia recebe uma mensagem de Mei-Mei (Nicola Tsang), alguém que não conhece mas com quem simpatiza de imediato. Mei-mei pede-lhe para ir buscar algo por ela e Yan decide ajudá-la, enfiando-se num bairro pouco recomendável da cidade…
“Knock Knock! Who’s There?” é uma miscelânea de estórias com um tom desigual e emprestado a tantos outros que lhe sucederam. Em casos pontuais, que podem ser encontrados em Eric Kwok e Jennifer Tse e, dada a sua experiência afigura-se uma rara tentativa de elevar o material mas o esforço é insuficiente para apagar o meu gosto deixado pelo mau argumento e direcção.

À excepção da sequência inicial, na qual Isabella sofre uma morte violenta que envolve paparazzi sem escrúpulos e um camião do lixo, “Missing” podia ser ignorado quase na totalidade. Para uma antologia que é vendida como sendo de terror, este primeiro segmento é romântico e enfadonho. Está também repleto de cenas inconsequentes. Isabella torna-se um fantasma dado ter assuntos por resolver, assuntos do coração entenda-se, um pouco como “Ghost” (1990). Entre outras descobertas percebemos que o noivo que deixa vivo não lhe desperta interesse além de um velho amor, terminado de forma precoce e absurda devido à interferência da família dela. O que resulta desta revelação? Nada. E a ameaça de espíritos maus nesta terra a Isabella também desaparece tão rapidamente quanto surge.“Karma” é uma velha estória de crime e castigo e embora Carrie Ng sobressaia no papel de vilã, isto não é necessariamente positivo. “Karma” assemelha-se mais a um produto feito para televisão –meia hora de distracção –, do que uma película para televisão. Apesar de algumas ideias interessantes e com potencial inovador, tais como a possessão por um gato e algum mau CGI, o segmento nunca se consegue elevar como algo mais do que medíocre. “Smell” é um título alusivo ao cheiro de cadáveres em decomposição e o que acompanhamos é a viagem de uma mulher (Jennifer Tse) que trabalha no ramo da morte até ao seu encontro. “Smell” é o segmento mais brutal da antologia, no entanto, pouco mais tem do que isso e surge em quantidades muito pequenas, demasiado tarde. Considerando o constrangimento do orçamento os maus efeitos visuais podiam ser perdoados se mais alguma coisa, o que quer que fosse, tivesse um nível superior. Mas isso nunca sucede e, acreditem, para quem acreditou até ao fim por algum tipo de retorno a espera é penosa. “Knock Knock” é o tipo de filme que faz questionar se vale a pena insistir com o visionamento de filmes de terror made in Hong Kong. É que este filme já nem é só formulaico, é horrível e uma perda de tempo. Mais valia não ter aberto a porta a esta sugestão. Uma estrela e meia.


Realização: Carrie Ng Ka-Lai                      
Argumento: Carrie Ng Ka-Lai, Frankie Tam e Yip Ming-Ho           
Segmento: “Missing”
Annie Liu como Isabella
Carlos Chan como Harry
Babyjohn Choi como Roy

Segmento: “Karma”
Kate Tsui como Shou Yun
Carrie Ng como Ngo
Simon Lui como Tong

Segmento: “Smell”
Jennifer Tse como Yan
Nicola Tsang como Mei-Mei

Eric Kwok como “Assassino”


Próximo Filme: Headshot, 2016

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Election" (Hak se wui, 2005)


De dois em dois anos a tríade Wo Shing passa por um período de eleições para escolher o seu líder máximo. Acerca-se um novo de período de eleições e os membros seniores da Wo Shing acomodados que estão nas suas regras e rituais não pensam candidatar-se. Também é verdade que não estão mais perto de encontrar um novo líder. É altura de entrar sangue novo e as opiniões dividem-se entre Lok (Simon Yam) e Big D (Tony Leung Ka Fai). Lok é calmo e reservado, dir-se-ia mesmo sonso, não fosse ele um assassino frio e calculista que gostava de analisar todas as jogadas antes de decidir o curso de acção. Big D é o oposto. Espalhafatoso e possuidor de confiança excessiva, ele acredita que estão todos abaixo dele o que gosta de demonstrar por via do sadismo. Se por um lado está disposto a tudo para a Wo Shing triunfar por entre todas as sociedades criminosas e, sobretudo ele, reinar, por outro é a característica que o torna vulnerável a cometer o tipo de erros de impulsividade que costumam granjear muitos inimigos. São tidas reuniões, são feitos subornos e são tidas ainda mais reuniões. Uma decisão é tomada. Mas convém não esquecer um importante pormenor. Os anciões da tríade são organizados mas acima de tudo dão valor à tradição. O vencedor, para se legitimar terá de possuir um bastão centenário que pertenceu aos diversos chefes. Quem o obtiver será reconhecido por todos como o Grande Líder. Desencadeia-se então uma luta entre as facções e os seus seguidores para conseguir o símbolo máximo de poder.

É comum fazer-se uma associação imediata à extrema violência à mera menção da palavra máfia mas “Election” é tão enganador como os seus predecessores. Conduzido com a mão sábia de Johnnie To que tem um vasto currículo no retrato dos estilos de vida à margem da lei, “Election” concentra-se mais nas maquinações das tríades chinesas que na sua brutalidade mesmo que esta quando surja seja marcante. A título de exemplo, um leal lacaio mastiga pedaços de porcelana a mando do chefe…
A maioria do elenco, quase na totalidade do sexo masculino, são homens de meia-idade, práticos e capitalistas. Não fosse a natureza dos assuntos com que lidam e quase se poderia olhar para estes como legítimos homens de negócios. No fundo, tudo é passível de ser transformado num negócio desde que se seja amoral. Com alguns dos meninos bonitos do cinema chinês como Louis Koo (Jimmy) e Nick Cheung (Jet) é de estranhar quão pouco estes são utilizados. Eles ostentam nas poucas cenas em que surgem carisma suficiente para se querer saber mais sobre os seus personagens que se revelam, aliás, os poucos idealistas ou bandidos por vocação num filme onde predomina o cinismo. Entra ainda em acção a força policial, como que para nos fazer recordar quem é que é o bom da fita. Ela está no entanto, condenada a um plano secundário num enredo onde já existem demasiados actores secundários. Talvez fosse mesmo essa a ideia dos argumentistas, demonstrar como estas sociedades são enormes, como existem demasiados intervenientes a considerar e, assim, se torna difícil distingui-los. A película perde talvez o potencial de encanto após abandonar o engenho em detrimento da caça ao homem, ou melhor, ao bastão mítico, altura em que se torna mais convencional. Curiosamente, uma crítica que não se lhe pode apontar e não costuma ser habitual em filmes sobre a máfia (chinesa, italiana ou japonesa) é que é demasiado curto.
Após um período de acalmia, o fim vem rápido e furioso, com os dois melhores actores em cena a comprovar aquilo que já se dizia sobre os seus personagens. Aquele é um negócio sujo e mesmo sobre um clima de calma aparente, os bandidos não conseguem negar a sua natureza. Três estrelas.

Realização: Johnnie To
Argumento: Nai-Hoi Yau e Tin-Shing Yip
Simon Yam como Lok
Tony Ka Fai Leung como Big D
Louis Koo como Jimmy
Nick Cheung como Jet
Ka Tung Lam como Kun
Siu-Fai como Sr. So
Suet Lam como Big Head
Tian-Lin Wang como Uncle Teng
Bing-Man Tam Uncle Cocky
Maggie Siu como Senhora Big D
David Chiang Chefe Superintendente Hui

Próximo filme: "Nightmare Detective" (Akumu Tantei, 2006)

domingo, 3 de janeiro de 2016

"Blind Detective", (Man tam, 2013)


Johnston Chong See-tun (Andy Lau) é forçado a abandonar a polícia após ficar cego. Considerado o melhor entre os seus pares pela extraordinária capacidade de dedução, a sua perda é um duro golpe para o departamento. Mas ele é incapaz de parar na sua senda de justiça e dedica-se agora aos casos para os quais a polícia não tem tempo: os casos antigos e aparentemente insolúveis, recolhendo as recompensas. Numa das suas mais recentes investigações cruza-se com a inspectora Goldie Ho Ka-tung (Sammi Cheng), incansável mas ainda um pouco “verde” que se revela o contraponto ideal para o seu estilo mais sóbrio. A nova dupla dedica-se a resolver casos em conjunto, incluindo um que afecta Goldie desde miúda, o desaparecimento da sua melhor amiga Minnie (Cheng Ho-lam) e que a fez tornar-se polícia. Pois que o mundo está cheio de gente mal-ajustada e Goldie tornou-se polícia por causa do trauma de infância. Alguma vez se viu alguém tornar-se agente polícia por genuína devoção à justiça?

Johnnie To está para os thrillers policiais/mafia como, bem… é o que ele faz de melhor (“Election”, 2005; “Mad Detective”, 2007, etc.). No entanto, não se pode dizer o mesmo de “Blind Detective”. A ideia de um agente da polícia/detective cego não é a mais original, temo dizê-lo mas, ainda que aceitemos a premissa absurda, o filme sobrevive mais da química entre Lau e Cheng do que das inúmeras investigações enfiadas à força num filme que já tem muita tralha. Parece que a tragédia da perda de visão de Johnston se arrastou ao longo de vários anos até ficar invisual. Johnston sente ainda os efeitos da solidão, o que pretende sugerir por um lado, o motivo pelo qual ele é incapaz de deixar de dedicar por completo ao trabalho policial e, por outro, a conveniência do aparecimento de uma certa detective. Pelo meio, é ainda apresentado um potencial interesse amoroso para Johnston para insinuar um triângulo romântico que não chega a ter pernas para andar (entenda-se que ainda assim “Blind Detective” tem 130 minutos de duração) e Johnston tem tempo para resolver diversos casos com o do maníaco que atira ácido sobre inocentes até finalmente, se debruçar sobre o caso que desola Goldie há mais de uma década. Adicionalmente, enquanto Johnston foi perdendo um dos sentidos, ele foi apurando outros, conferindo-lhe entre outros, um olfacto extraordinário e que o auxilia a resolver casos que seriam, para outros complicados. Não deixa de me espantar, a facilidade com que o cinema asiático e, o coreano em particular, chama às suas forças policiais uma anedota. Por entre polícias com os instintos de um calhau, chefias mais preocupadas com a manutenção do status quo e políticos que apenas querem ficar bem na fotografia, tem de aparecer um individuo especial para salvar o dia.
“Blind Detective” também não parece ter a certeza daquilo que quer ser. Os personagens alternam entre interpretações mais subtis e o exagero cómico. Lau, a despeito de ter ganho um prémio (surpreendente) pela sua interpretação nesta película, sai algumas vezes, demais da personagem. Ele “esquece-se” de que é suposto ser um invisual, o que é uma franca distracção. Os “casos” nem sempre interessantes que surgem para querer demonstrar vezes sem conta as capacidades fantásticas de Johnston assim como um pretexto para divertir, não duram o tempo suficiente para entreter e acabam por roubar tempo à resolução da investigação principal. Mas até a solução desta peca pela falta de investimento numa direcção clara e uma montagem cuidada. As sequências de acção estão impecáveis, ou não fosse a sua coreografia um dos pontos mais fortes de um filme do Johnnie To. Se ao menos houvesse a mesma atenção para o remanescente… Duas estrelas e meia.

Realização: Johnnie To
Argumento: Ryker Chan, Ka-Fai Wai, Nai-Hoi Yau e Xi Yu
Andy Lau como Johnston Chong See-tun
Sammi Cheng como Goldie Ho Ka-tung
Guo Tao como Szeto Fat-bo
Gao Yuanyuan como Tingting
Zi Yi como Joe
Lang Yueting como Minnie Lee
Cheng Ho-lam como Minnie (adolescente)
Lam Suet como Lee Tak-shing
Philip Keung como Chan Kwong
Lo Hoi-pang como Pang

Próximo Filme: "Parasyte: Part 1" (Kiseijuu, 2014)

domingo, 22 de novembro de 2015

"Diary" (Mon seung, 2006)


Winnie (Charlene Choi) encontra-se deprimida depois de mais uma relação falhada. Após Seth (Shawn Yue) a abandonar, Winnie passa os dias a fazer bonecos, a tratar da lida da casa e escrever no seu diário. A sua vida dá uma volta inesperada quando encontra Ray que é exactamente igual ao ex-namorado. Ela dá uma nova oportunidade ao amor e acaba por conquistar Ray que rapidamente se muda para a casa da nova namorada. Winnie dá por si a cometer erros do passado com o novo amor ou será que o ciclo vicioso nunca chegou a terminar?

“Diary” é uma viagem desorientadora e aborrecida pela mente de uma personagem que poderá ou não estar no pleno das suas faculdades mentais. A viagem desorienta devido às muitas repetições e mudanças de perspectiva mas também aborrece porque, afinal, quantas vezes é que tem de mostrar a mesma cena até ao público acusar cansaço?! Todos os sinais apontam para que Winnie não seja a pessoa mais estável em termos psicológicos. Entre os vários afazeres mundanos, apercebemo-nos que Seth fez as malas e deixou-a só. Outro indício bastante óbvio é o facto de Winnie procurar criar um relacionamento com um sósia do homem que lhe partiu o coração. A sério que não havia ali ninguém para lhe dizer: “Querida, esta é capaz de não ser uma das melhores ideias de já tiveste?” Por que se o homem é igual, a personalidade pode ser em tudo diferente. Aliás, a maior parte do tempo, Ray aparenta possuir uma personalidade submissa se não, como aguentaria suportar que Winnie o tratasse por inúmeras, demasiadas vezes, pelo nome do anterior namorado. Também Winnie se contenta com pouco. As suas relações chegam sempre a um ponto em que os companheiros não se dão à tão árdua tarefa de lhe responder ou sequer reconhecer a presença dela, na sua própria casa. Mas a câmara de Oxide Pang parece querer contar uma estória distinta. Eles podem não estar ali, podem nunca ter estado ali. Se calhar é tudo uma grande partida da mente de uma Winnie que tem visões e por vezes apresenta dificuldade em discernir o que é real e o que é sonho. Charlene Choi, uma estrela da cena cantopop prova que não é apenas uma carinha laroca e mostra que possui capacidades para a representação mais do que suficientes para a interpretação de uma mulher que poderá ou não ser desequilibrada. A Shawn Yue pouco mais é dado que fazer do que se assemelhar a um vegetal, enquanto Isabella Leong, num papel fulcral para o desenlace da trama não surge em quantidade suficiente para não ser eclipsada por Choi. O enredo é um puzzle complexo cuja revelação poderá escapar a alguns ou ainda conduzir a interpretações dissemelhantes. Uma dica: a profusão de cor ou a aposta na simples cinza pode ajudar a despistar o sonho do quotidiano. Mas a despeito de uma execução técnica exemplar o fracasso reside num argumento pobre. Choi parece arrastar-se pelo ecrã a todo momento, levando com ela a pouca atenção que ainda lhe é concedida após a realização de que “Diary” não é tanto um filme de terror como um thriller dramático. Pang cai na armadilha habitual no seu currículo cinematográfico, das reviravoltas e desenlaces que… não eram necessários e mais, dão a sensação de que só existem para aumentar o tempo de duração de um filme que ainda assim só tem uns meros 85 minutos.

“Diary” é um excelente recordatório das capacidades de Oxide Pang em criar películas espantosas em termos visuais e igualmente fracas em termos narrativos. Esta constante, desde inícios do milénio até ao final da primeira década do século XXI, comprova a incapacidade de qualquer dos manos Pang e, em particular, do mais talentoso Oxide, em aprimorar a sua arte. Isto é capaz de ter algo a ver com a quantidade de filmes que já criaram até ao momento e, como é por demais sabido, a quantidade costuma ser inimiga da qualidade. Duas estrelas.

Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Charlene Choi como Leung Wing-na (Winnie)
Isabella Leong como Yee
Shawn Yue como Seth/Ray
Hin-Wai Au como Detective

Próximo Filme: "The House at the End of Time" (La casa del fin de los tiempos, 2013)

domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Sleepwalker 3D" (Meng you 3D, 2011)


Os sonhos são uns sacanas. Uma pessoa trabalha como uma escrava, tendo por vezes apenas por miragem o sonho de um banho quente e de uma refeição consistente, o mínimo que pode desejar é um sonho reconfortante certo? Nada disso. Os sonhos são a porcaria da recompensa mais inconsistente e desconfortante de todas. Diz que é o espelho do subconsciente, aquele bocadinho de matéria que jaz dormente que surge para nos dizer: “há questões dolorosas, mal resolvidas, que convém explorar neste preciso período em que estás especialmente cansado e angustiado”.
A vida de Yi (Angelica Lee) revolve à volta deste ciclo pernicioso. Ela tenta apanhar os cacos da sua existência após a morte da filha e falha todos os dias. À noite é assaltada por sonhos nos quais uma criança é enterrada num bosque. De manhã, acorda como se tivesse estado acordada durante toda a noite e com as mãos cheias de terra. Com o desaparecimento do ex-marido, Yi começa a temer que tenha tido algo a ver com o caso. Entretanto, Peggy (Charlie Young) está a enfrentar um pesadelo que Yi conhece demasiado bem, o filho desapareceu e com o tempo a passar a esperança torna-se ténue. Com o apoio da detective Au (Huo Sien), Yi compromete-se a dar apoio à investigação. Se os seus sonhos tiverem uma pista para o paradeiro da criança ela irá auxiliá-la ainda que isso possa significar que é culpada do rapto e possivelmente homicídio.

A ideia do sonambolismo é tão tentadora quanto atemorizante mas nas mãos dos irmãos Pang é igualmente excitante. A metade dos irmãos Pang conhecida por Oxide recruta caras conhecidas para mais uma aventura a solo: a sua eterna musa Angelica Lee e Decha Srimantra, cinematógrafo que o acompanhou em quase todos os filmes que realizou até ao momento. É uma garantia reconfortante saber que pelo menos uma das actuações será sólida e que nos aguarda um espectáculo visual, o que é mais que a maioria das películas nos oferece. Oxide diverte-se com as possibilidades de “Sleepwalker 3D” mas não existe um verdadeiro foco. O 3D, à semelhança de tantas outras experiências anteriores e já posteriores mais se assemelha a um acessório que nem era necessário, nem acrescenta um contributo válido para a estória e é escasso. Os motivos de interesse são outros, incluindo a técnica simples mas que sempre funciona da imagem a preto e branco com um toque de cor, matizes azuladas e breves animações nas sequências de sonho. Angelica é a melhor das três protagonistas e parece genuinamente afectada pela perda pessoal, a possibilidade de possuir uma faceta negra e… uma peruca terrível. Estou em crer que algumas das suas lágrimas se devem aquela coisa vermelha que lhe colocaram na cabeça no lugar de peruca e ninguém me convence do contrário.
Ela é uma alfaiate com um estilo pessoal alternativo pelo que não é como se o cabelo vermelho fosse uma opção estética fora de série. No entanto, a caracterização distrai em algumas cenas importantes. A sério que não tinham orçamento para dar à belíssima Angelica um penteado decente? A par com o cabelo estão uma série de desempenhos muito abaixo do nível de aceitabilidade para um grupo de teatro amador. As mulheres fazem o que podem com aquilo que têm. Os homens nem sequer tentam. Este é o calcanhar de Aquiles de qualquer dos irmãos Pang. Eles dedicam mais atenção às suas actrizes e, sobretudo, às que interpretam as protagonistas que ao resto da equipa de actores. Os primeiros filmes da sua carreira e o thrillers “The Detective” (2007) e “The Detective 2” (2011) constituem notáveis excepções. A aparente ausência de preocupação com o casting tem sido uma das críticas consistentes para não possuam uma reputação superior à que por ora possuem e as suas obras fiquem sempre aquém do potencial inicial. O segundo grande mal de “Sleepwalker 3D” é os subenredos que acompanham a narrativa principal que todos os juntos, não parecem fazer grande sentido: ex-maridos desaparecidos, irmãs com uma relação complicada, mulheres em coma… Uma grande série de nada, que não leva a nenhum lado em particular. A prova de que não têm relevância para a estória e apenas contribuem para gerar ruído é o habitual, dispensável, irritante e arrogante flashback para explicar os acontecimentos. Uma estrela e meia.

O melhor:
Os passeios nocturnos de Yi
Os sonhos
Cinematografia
Angelica Lee

O pior:
A peruca da Angelica Lee
A identidade do vilão é óbvia.
É mesmo para dormir… sem direito a sonambulismo.
3D, para que serves tu?


Realização: Oxide Pang Chun
Argumento: Oxide Pang Chun e Thomas Pang
Angelica Lee como Yi
Charlie Young como Peggy
Huo Sien como Detective Au
Li Zong Han como Eric

Próximo Filme: Babangluksa, 2011

domingo, 30 de novembro de 2014

"Rigor Mortis" (Geung Si, 2013)

Aviso: O trailer tem spoilers

Chin Siu-ho é um actor acabado que decidiu alugar um apartamento para pôr termo à vida de modo tranquilo. O seu plano é prejudicado quando se apercebe que o apartamento já tem a sua própria assombração e esta tem um plano muito próprio sobre o que fazer com ele. Yau (Anthony Chan) é o dono do restaurante do rés-do-chão cuja fachada descontraída (ele anda a passear pelos corredores de robe), esconde um caçador de vampiros retirado mas ainda atento a manifestações sobrenaturais. A tia Mui (Nina Paw) é uma costureira e boa samaritana, que passados tantos anos de matrimónio continua ainda profundamente apaixonada por Tung (Richard Ng). A sua morte vai obrigá-la a tomar uma decisão que vai contra todos os princípios por que sempre se regeu. Gau (Chung Fat) é um perito no oculto que a despeito dos anos de experiência decidiu enveredar pelo caminho das artes negras de modo subreptício.  Yeung Fang (Kara Hui) é uma vizinha que poderia passar por um fantasma pois vagueia pelo prédio destroçada por uma dor invisível. O seu filho albino Pak (Morris Ho) entra e sai dos vários apartamentos com a aquiescência dos vizinhos que o reconhecem já como parte integral da vida do prédio.

“Rigor Mortis” é uma homenagem aos filmes de fantasia e comédia sobre vampiros saltitantes produzidos em Hong Kong nos anos 80. Juno Mak, se calhar mais conhecido no ocidente pela interpretação arrepiante em “Revenge: A Love Story” estreia-se como realizador e ó, se impressiona. Ele terá aproveitado todos os bons contactos e as excelentes críticas advindas de “Revenge: A Love Story” do qual também foi argumentista e captou grandes artistas dos filmes que homenageia (Chin Shiu-ho e Richard Ng) e ainda lendas como Nina Paw e Kara Hui, esta última se calhar injustamente mais conhecida pela habilidade no Kung Fu do que pelas fortes qualidades dramáticas. Os aspectos técnicos de “Rigor Mortis” são qualquer coisa de fantástico. A fotografia é belíssima, os efeitos digitais idem, a banda-sonora pejada de notas dissonantes (ainda que exageradas uns quantos decibéis) demonstram a inquietação que perpassam aqueles corredores e a câmara e actores parecem unidos no objectivo de comum de fazer daquele prédio um local perturbador. A luz é inexistente. Apenas existem as paredes e as estórias que lá se passam. Qualquer alusão ao mundo lá fora não é mais do que uma memória dolorosa: divórcios, morte, abuso... Ficar ali é a escolha de um falso conforto. Daí os filtros azuis e cinzentos. Mas a “vida” ali assenta num equilíbrio instável. A quebra da falsa ilusão de segurança pode advir da fonte mais improvável. Quando a violência ocorre, quase sempre é sem censura. Ainda assim é mais comedido que outros filmes que têm saído de Hong Kong nos últimos anos como o “Tales from the Dark –Part 1” (2013). As imagens digitais mais parecem composições de artistas que forem eles próprios influenciados pela vaga de filmes tailandeses à semelhança de “Body #19”. Filmes esses que não se transcendendo na qualidade do storytelling ficam na retina pelas imagens fabulosas que geram. Estas similitudes também não são alheias ao facto de Takashi Shimizu (“Ju-on”, 2000) ser produtor do filme. Atente-se às duas irmãs capazes de rivalizar com as gémeas assustadoras de “The Shining” (1980).
O Este encontra o Oeste
Mais adiante, somos brindados com artes marciais, herança dos filmes que Juno tentou homenagear, pondo Kara Hui e Chin siu-ho a mostrar que o tempo não fez esquecer a mestria no kung fu, em breves mas brutais sequências de luta. A dada altura Chin sui-ho e o seu oponente mais parecem soldados de terracota, cobertos que estão por lama e pó. Soldados rígidos, resistentes ao tempo. No entanto, a sensibilidade artística não transborda na estória. “Rigor Mortis” como o corpo cadavérico leva o seu tempo até adoptar uma forma rígida. As estórias não se entrecruzam por completo até transposto metade do filme. Então, fica a sensação de que se tentou fazer demais. Seriam precisos todos aqueles personagens? Algumas das suas estórias não acrescentam nada ao cerne da questão, arrastando-se mais do que o necessário. Em última análise, “Rigor Mortis” reduz-se à admiração pelo espectáculo visual pontuados aqui e ali pelas interpretações fantásticas de uma parte do elenco. Duas estrelas e meia.

O melhor:
- Recuperação dosubgénero esquecido do “Vampiro Saltitante”.
- Fotografia, efeitos gerados por computador
- Interpretação fabulosa de Nina Paw
- O realizador é inexperiente? Não dei por nada.

O pior:
- Ritmo lento
- Desfecho
- Estória demora a arrancar
- Cenas de artes marciais poderão parecer desenquadradas do filme que vinham a acompanhar

Realização: Juno Mak
Argumento: Lai-yin Leung e Philip Yung
Chin Siu-ho como Chin Siu-ho
Anthony Chan como Yau
Kara Hui como Yeung Feng
Nina Paw como Tia Mei
Ricard Ng como Tio Tung
Morris Ho como Pak
Chung Fat como Gau

Próximo Filme: NAFF 2014 (vários)

domingo, 25 de maio de 2014

"Just another pandora's box" (Yuet gwong bo hup, 2010)


São fãs de “Red Cliff” (2008-2009), “A Chinese Odissey” (1995), “Titanic” (1997) ou mesmo salpicos de “The Matrix” (1999)? Não se preocupem que “Just Another Pandora’s Box” apresenta todas estas estórias, ao mesmo tempo. Batidas, não mexidas.

“Just Another Pandora’s Box” é um produto que podia ter sido manufacturado e cospido pela máquina de Hollywood. A única diferença é que o humor, regional, dificilmente poderá apelar a quem desconhece algum dos filmes reinterpretados nesta produção cantonesa.

Qing Yise (Ronald Cheng) é um bandido com um péssimo timing. Ele consegue enganar uma deusa para lhe roubar uma espada mística que decerto lhe irá valer um bom preço no mercado negro, mas comete o erro de a desembainhar mediante o embuste de outro Deus. Rose (Betty Sun) acorda para um Qing a empunhar a espada e jura persegui-lo para todo o sempre quer este queira ou não. É que ela jurou unir-se àquele que fosse capaz de a desembainhar. E aqui teríamos um bom título alternativo para o filme ("Perseguição sem Tréguas"?) já que Qing foge de Rose como o diabo da cruz, agindo até como se ela fosse hedionda (ela é das actrizes chinesas mais bonitas da actualidade). E aí reside parte da piada. A piada remanescente encontra-se nos inúmeros gags que atravessam eras e eventos históricos como a célebre batalha de Red Cliff, sempre com Qing a tentar escapar-se da Deusa carente, por entre aparições de personagens locais míticos como o feroz guerreiro Guan Yu. Após salvar o filho de Liu Bei (Yuen Biao) e inadvertidamente entregar a caixa mágica que lhe permite viajar no tempo ao vilão Cao Cao (Guo De-Gang) Qing vê-se forçado a colaborar com a longa lista de personalidades históricas para conseguir regressar ao seu próprio tempo. Dizem até os créditos iniciais que Jackie Chan, Stephen Chow, Jet Li, Chow Yun-Fat, Maggie Cheung, Zhang Ziyi e a Angelina Jolie, recusaram todos participar no filme. Se depois disto ainda estiverem à espera de um filme com algum grau de seriedade preparem-se para uma grande desilusão.

O elenco não chega para as inúmeras oportunidades de comédia que quase se atropelam umas após as outras. Quase que para evitar que a audiência perca o sorriso, são apresentados gags sucessivos, a ver se algum cola. Por outro lado, ninguém pode levar a sério grandes actores se estes surgirem em pouco mais que uma cena. Quando estivermos refeitos do choque já terá sido apresentado novo actor famoso / starlet / ídolo do cantopop actual. Melhor conselho que o de (re)ver os clássicos em que se baseia não existirá. Se bem que o facto de “Kung Fu Panda’s”, “Matrix” e “Titanic” (a personagem feminina até se chama Rose, duh!) e outros que tais surgirem em catadupa ajudam a uma melhor compreensão de que coisa estranha se encontra a passar no ecrã, mas estaria a mentir se considerasse que estes chegam para o efeito. Se tanto, no conjunto da película, estas cenas constituem os momentos mais fracos de “Just Another Pandora’s Box” pois fogem do nicho popular e mitologia locais em que a película se encontrava para tentar agradar a uma audiência mais vasta que por essa altura já desistiu do filme.
“Just Another Pandora’s Box” é aquele tipo de comédia auto-referencial que conhece as audiências que está a tentar atingir e nem sequer se preocupa em ser um pouco original. Para quê mexer em fórmula vencedora? Vale pelos cenários e pelas caras conhecidas que de estória tem muito pouco. Duas estrelas.

Realização: Jeffrey Lau
Argumento: Jeffrey Lau
Ronald Cheng como Zhao Yun
Betty Sun como Rose
Gigi Leung como Emaixadora do Turquestão
Athena Chu como Nuvem Roxa
Eric Tsang como Zhuge
Bo Huang como Zhou Yu
Yuen Biao como Liu Bei
Guo De-Gang como Cao Cao
Yi Huang como Xiao Qiao
Lik-Sun Fong como Guan Yu

Próximo Filme: "Dark Skies" (2013)

domingo, 4 de maio de 2014

"Tales from the Dark - Part I", 2013


Lillian Lee diz-vos algo? Se não, tenham vergonha! Ela é apenas a escritora por trás de filmes como “Farewell My Concubine” (1993) e “Dumplings” (2004) um dos segmentos de antologias de terror (“Three… Extremes”) mais perturbadores de sempre. Desta feita, a obra de Lee teve honras de total destaque em 6 segmentos divididos em duas antologias, com alguns personagens já repetentes na adaptação dos seus trabalhos. Visionado na 5ª Mostra de Cinema de Hong Kong, cuja sala estava, infelizmente, pouco composta, “Tales from the Dark – Part 1” representa Lee na sua vertente mais sombria.

 As curtas:
“Stolen Goods” – Kwan é um biscateiro que acaba de perder o mais recente trabalho. Todo ele, insolência e pavio curto, não é de admirar que seja despedido numa base regular. Os seus valores incidem no enriquecimento rápido ao menor custo pessoal possível. Como se encontra perto de ser expulso do pequeno quarto alugado por ausência de pagamento, não é demasiado penoso a Kwan recorrer ao roubo de urnas para depois chantagear os familiares dos falecidos.


“A Word in The Palm” – O mestre espírita Ho decide abandonar a vida ligada ao oculto para reparar a relação com a mulher céptica e o filho menor. Ele tenta reencaminhar os últimos clientes para a entusiasta colega Lam. No entanto, quando por engano lhes entrega um CD do filho num recital, terá de envolver-se mais do que gostaria. Será muito difícil recuar perante o caso mais complicado da sua carreira e a insistência da colega.

“Jing Zhe” – A velhinha Chu dedica-se à tradição milenar de “bater nos vilões”. Armada de cânticos e a sola dos sapatos bate com força em fotografias e papéis que representam os inimigos daqueles que a ela recolhem. Depois de anos a amaldiçoar pessoas inocentes, pode ter chegado a vez de Chu sofrer na pele a força do seu próprio remédio.

As trevas não tardam a surgir poucos adentro de “Stolen Goods”. Um início intrigante, onde é evidente e até ansiada com fervor alguma forma de retribuição a Kwan, o personagem obnóxio interpretado por Simon Yam dá lugar à perplexidade de uma narrativa ininteligível. Yam provou há muito que é actor para isto e muito mais mas na estreia como realizador revela a fraqueza da inexperiência e pior, ambição superior aos recursos. Pejada de momentos “tcha-ran” acompanhados por música alta e desconcertante. Não, Yam, nunca tínhamos ouvido isso antes… A cinematografia é fantástica só que não cola com a estória. E não se consegue perceber se são as ineficácias do argumento que levaram ao segmento mais insatisfatório de todos se foi a incapacidade de Yam em traduzir o material que lhe foi dado. O percurso de “Stolen Goods” é labiríntico onde podia ser simples: um bandido tem a paga pelos seus crimes. Há demasiados caminhos tanto quanto é dado a perceber, as pontas soltas não vão dar a nenhum lado satisfatório.
“A Word in the Palm” é uma surpresa. Depois de uma introdução sofrível mas sombria no tom, segue-se uma narrativa de aparência mais light, pelo menos pela aposta na comédia. Ho (Tony Leung Ka-fai) é um homem talhado para ler outro plano da realidade que rejeita o seu destino e se alia, relutante, a uma mulher (Kelly Chen) que tudo faria para ter um pouco do talento deste e o persegue feroz. Juntos fazem uma dupla improvável e atractiva. Leia-se, o único duo de personagens que iremos recordar com simpatia depois de “Tales from the Dark – part I” terminar. O desenlace é óbvio, tantas vezes que a mesma estória, com variações foi interpretada no cinema. Há poucos momentos de terror em “A Word in the Palm”, mas quando surgem são bem-vindos. Resulta pois um segmento desigual, original na abordagem, vulgar no conteúdo, ainda assim, superior ao antecessor.
Costuma-se dizer que o melhor fica para o fim e, se não formos excessivamente zelosos com as imagens criadas digitalmente “Jing Zhe” recupera os elementos mais desconcertantes da escrita de Lilian Lee. Realizado por Fruit Chan, o mesmo de “Dumplings”, ele encontra uma ligação com o material como nenhum outro. A sua Chu (Susan Chu) é a personagem mais ambígua e mais interessante destes 112 minutos. É ainda uma estória inerentemente chinesa. Não se podia encontrar estória mais enraizada na cultura que “Jing Zhe”. Se o conceito dos batedores de vilões é intrigante, a sua concretização também parece funcionar. Ou não nos sentíssemos cansados depois de ver o espancamento a que Chu sujeita os bens das vítimas. Não constituirá ainda um momento cinematográfico superior a “Dumplings” mas é um bom prelúdio para o segundo capítulo. Três estrelas.

Curta #1: “Stolen Goods
Realização: Simon Yam
Argumento: Lillian Lee
Simon Yam como Kwan
Maggie Shiu como wok Wing-nei
Feliz Lok como Chu Wing-kit

Curta #2: “A Word in the Palm”
Realização: Chi-Ngai Lee
Argumento: Chi-Ngai Lee
Tony Leung Ka-fai como Mestre Ho
Kelly Chen como Lan
Eileen Tung como Mulher de Ho
Cherry Ngan como Chan Siu-ting
Eddie Li como Cheung Ka-chun
Jeannie chan como Senhor Cheung

Curta #3: “Jing Zhe”
Realização: Fruit Chan
Argumento: Fruit Chan
Susan Shaw como Chu
Josephine Koo como Koo
Dada Chan como cliente


Próximo Filme: "Bad Milo", 2013

domingo, 23 de março de 2014

"Kung Fu Hustle", 2004

Aquele momento em que se torna muito difícil negar o estereótipo de “todos os chineses praticam Kung Fu”. 

Agora que já consegui a vossa atenção com esta provocação, deixem-me contar-vos como “Kung Fu Hustle” foi realizado por Stephen Chow, o mesmo realizador do inesquecível “Shaolin Soccer” (2001). Mesmo aqueles que não apreciam futebol encontraram um motivo de encanto em “Shaolin Soccer”, onde monges empregam o seu talento extraordinário para o Kung Fu num jogo de futebol contra uma equipa de super-atletas dopados. Passada na cidade de Xangai dos anos 30,“Kung Fu Hustle”, apresenta uma dupla de pequenos criminosos liderados por Sing (Stephen Chow) que aproveita a recém-criada fama do gangue do Machado para tentar extorquir os moradores de um bairro ainda intocado pela chegada dos vilões. Oportunidade perfeita para dar um golpe certo? Errado, os moradores não só sabem defender-se como se revelam superiores aos capangas de Sum (Danny Chan), o líder do gangue e os dois pequenos criminosos vêm-se no meio de uma guerra com um resultado imprevisível.

Para quem viu “Shaolin Soccer”, “Kung Fu Hustle” é mais do mesmo no que toca ao humor a tempos, demasiado regional para audiências estrangeiras e nas artes marciais exageradas ao cubo. Os actores são capazes das manobras mais arriscadas, não tanto devido à formação na arte da luta como por todos os artifícios cinematográficos que podem ocorrer a quem deseja fazer dos confrontos uma hipérbole. Apenas não esperem cenários bucólicos ou sentimentais como as de “Hero” (2002) e “Crouching Tiger, Hidden Dragon (2000) que fizeram as delícias de audiências por todo mundo.

Mas “Kung Fu Hustle” não é uma completa paródia. Estreia-se com cenas de violência gratuita e morte, onde os ricos e poderosos tudo podem contra aqueles que nada têm. São meros veículos para a obtenção de mais riqueza e cujo sofrimento é indiferente. E contra poucas ou nenhumas perspetivas de melhoria de vida, juntar-se ao gangue, soa, apesar de tudo a uma hipótese viável e mais segura para obtenção de algum tipo de estatuto. Não é como se os bandidos fossem muito diferentes do empresário de inícios do século XXI, a questão é que a sua acção, violenta e condenável como é, sempre se realiza às claras, por contraste com uma grande mão invisível que tudo destrói, através de manobras de bastidores alheias ao capital alheio.
O que eles talvez não esperassem foi que encontrassem oposição num pequeno bairro suburbano. Estas questões sucedem nas entrelinhas, pois o cenário é dominado por sequências tão díspares quanto uma senhoria de rolos na cabeça (Yuen Qiu) e cigarro soldado ao canto da boca que espanca o marido (Yuen Wah) por causa das suas escapadelas românticas. E quando falo em espancar não digo estas palavras com leveza. Mas a maioria das cenas têm uma tal leveza de espirito que é impossível levar a sério os confrontos entre os moradores. Aliás, “Kung Fu Hustle” funciona melhor dentro do perímetro do bairro, no qual, os habitantes se encontram mais preocupados com a sua vidinha do que no se passa lá fora. Revelar mais seria tirar a piada a “Kung Fu Hustle”, por isso, sentem-se, encostem-se e desfrutem de fantásticas cenas coreagrafadas por Yuen Woo-ping, o mestre milagreiro por trás do cinema de kung fu de Hong Kong desde finais dos anos 70 e “Matrix” (1999) assim como a referências tão fantásticas como a esses filmes que poderão ou não conhecer, velhos golpes de artes marciais reimaginados no séc. XII e… os “Looney Tunes”. Três estrelas.
O melhor:
- O casal de senhorios
- Recriação dos anos 40,
- A coreografia das cenas de artes marciais

O pior:
- Demasiado artificialismo em algumas das lutas
- Cartoon autêntico. Ainda indecisa sobre se isso será bom ou mau.

Realização: Stephen Chow
Argumento: Stephen Chow, Huo Xin, Man-keung Chan e Kan-cheung Tsang
Stephen Chow como Sing
Danny Chan como Sum
Yuen Wah como Senhorio
Yuen Qiu como Senhoria
Bruce Leung como “A Besta”
Xing Yu como Coolie
Chiu Chi-ling como Fairy
Dong Zhihua como Donut
Lam Chi-chung como Bone
Eva Huang como Fong

Próximo Filme: "Tower" (Ta-weo, 2012)

domingo, 27 de outubro de 2013

"8 Immortals Restaurant: The Untold Story" (Bat sin fan dim ji yan yuk, 1993)


Wong Chi Hang está bem dentro do negócio do restaurante. É ele que prepara os bolinhos de carne que fazem as delícias dos clientes. A preparação do porco não é complicada desde de que se disponha de força e de facas bem fiadas. A prática, essa, ele já tem. Ele esventra o animal e retira-lhe os miúdos. Com o focinho decepado e o corpo despojado de órgãos pode então fazer um corte longitudinal profundo desde a traqueia até ao ânus. A seguir vem o trabalho mais difícil. Tem de cortar através de osso para o cortar em dois. Conseguido isto, torna-se mais fácil desmembrar e separar as peças de carne para os diversos pratos a confeccionar. A frieza com que realiza estes actos apenas reforça a ideia de que provocá-lo pode constituir o maior e último erro que cometemos em vida.


 A sua personalidade sociopata pode ser identificada na sequência inicial, onde Wong reconhecido como aldrabão por um parceiro de jogo, solta a fúria da pior maneira, assassinando-o de forma brutal. Depois de provocar um incêndio para apagar os indícios do crime, evade-se de Hong Kong por Macau, assumindo uma nova entidade. A estória avança até 1986, com a ilha em polvorosa após a descoberta de membros humanos numa praia. Após a realização de diversas diligências a polícia chega à conclusão que os restos humanos pertencerão à mãe do antigo dono do restaurante “Oito Imortais” que é dado como desaparecido juntamente com a mulher e os cinco filhos. Com sucessivas pistas a apontarem a ligação do restaurante ao crime e o comportamento cada vez mais bizarro de Wong, nada podia preparar a força policial para uma estória com contornos tão perversos. “8 Immortals Restaurant” interessa-se mais pelos crimes que a investigação policial, sendo sobre esta que recaem os momentos de alívio cómico. Excentricidade dos cineastas, um momento de revelação de restos humanos, acaba por ser uma das oportunidades para injectar um pouco de humor num instante de tensão.

O argumento baseia-se em crimes reais que chocaram Macau durante os anos 80, pelos requintes de malvadez com que Wong Chi Hang assassinou duas famílias desconsagrou os seus cadáveres. E na maior parte, estes factos são apresentados tal como sucederam. A película introduz elementos muito interessantes que têm vindo a ser propagandeados atualmente sob a forma de “inédito”, nomeadamente, uma narrativa conduzida em grande parte pelo ponto de vista do assassino com todos os detalhes grotescos que isso implica. Pertence à “Categoria III”, um sistema de rating vigente em Hong Kong que postula que apenas pessoas com 18 anos de idade ou superior podem visionar, alugar ou assistir em sala de cinema aos filmes com essa classificação. Conhecido pela violência extrema e cenas de sexo explícitas, é um género muito procurado e ao qual, os cineastas locais não procuram fugir pois, sobretudo em casos onde o orçamento é reduzido e a qualidade bastante baixa, pode servir de chamariz. “8 Immortals Restaurant” é conhecido como um dos exemplos superiores desta classificação mas não poupa o espectador.  Anthony Wong apresenta um desempenho assombroso. O seu Wong Chi Hang é vil, é asqueroso, é aterrador. Tido pelo público como um homem simpático e acessível, que também encarna ocasionalmente em cinema, ele transfigura-se totalmente nesta personagem. Sem próteses ou qualquer outro acrescento para modificar as suas feições, a sua entrega é de tal modo impressionante que a sua fisionomia se altera para a de um homem desagradável e perigoso. As cenas em que Wong esquarteja as suas vítimas, seja um porco ou um ser humano, são arrepiantes. Atentem sobretudo à cena em que Wong elimina uma família inteira. Há algo de tão perigosamente amoral naquele personagem que corremos o risco de confundir a ficção com o real. E sem restrições de classificação, pouco ou nada é deixado para imaginação. Mesmo filmes que se afirmam de “extremos” e “irreverentes” não são capazes de gerar imagens tão provocantes ou obscenamente repulsivas como este. Para o aficcionado de terror “8 Immortals Restaurant – The Untold Story” é a prova de fogo. Ideal para apaixonados por estórias verídicas e viciados em desafiar os seus limites de tolerância. Três estrelas e meia.

Realização: Danny Lee e Herman Yau
Argumento: Wing-kin Lau e Kam-Fai Law
Anthony Wong como como Wong Chi Hang
Danny Lee como Chefe Lee
Emily Kwan como Bo
Julie Lee como Pearl
Fui-On Shing como Cheng Poon
Parkman Wong como Bull

Próximo Filme: 407 Dark Flight 3D, 2012

domingo, 7 de abril de 2013

"Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi, 2005)



Quanto quilómetro é necessário percorrer até se obter perdão? Até onde somos capazes de ir para sermos perdoados? O “para sempre” apenas existe até que uma das partes teimosas em oposição decidir que a dor da inexistência de relacionamento é mais penosa que a existência de uma relação complicada.

Takata (Ken Takakura) é um velho casmurro que apenas põe o orgulho de lado quando a nora Rie (Terajima Shinobu) lhe diz que Kenichi (Kiichi Nakai), o filho dele, se encontra doente. O rancor de muitos anos de desavenças e anos sem qualquer contacto ainda não abandonou Kenichi e este recusa-se a ver o pai que veio de propósito a Tóquio para o ver. Quando Rie diz a Takata que Kenichi sofre de cancro em estado terminal ele agarra-se ao único objecto que tem do filho, um documentário que ele realizou na vila remota de Lijian, na China. Kenichi filmou Li Jiamin, um cantor de ópera local que lhe prometeu que na sua próxima visita lhe cantaria uma obra pela qual tinha especial interesse. Com a vida do filho por um fio, Takata toma a inesperada decisão de viajar pela China rural para encontrar o cantor e filmá-lo a cantar a obra que Kenichi nunca terá oportunidade de assistir em pessoa.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma desilusão para quem espera um filme grandioso de Zhang Yimou. Na verdade ele tornou-se tão conhecido nos últimos dez anos pelos épicos wuxia como “Hero” (2002) ou “The House of the Flying Daggers (2004) que muitos esqueceram obras como “Raise the Red Lantern” (1991), existindo até casos em que há uma cisão declarada entre os preferem a filmografia de cariz mais espectacular e os que preferem a sua câmara mais comedida. A grandiosidade de “Riding Alone for Thousands of Miles” reside nas paisagens de tirar o fôlego e na representação dos actores que envolve longas sequências de momentos “Lost in Translation”. É que Takata chega a uma altura da viagem em que é acompanhado por um guia que sabe muito pouco japonês para o compreender e todos os outros não o compreendem de todo. Por isso, as cenas alternam entre o falar sem ser compreendido ou apenas em parte e as tentativas de explicação ao estranho senhor japonês que veio à China ver um simples cantor rural. Takata é um homem sem tempo e quanto mais se embrenha na paisagem chinesa mais terá de lidar com pessoas que estranham as suas intenções e que se refugiam nas burocracias para não ferir as leis e sensibilidades locais. E os processos atrasam e Takata, sem conseguir fazer-se entender, tem de recorrer à lisonja e ao suborno para conseguir obter algum tipo de consentimento, que ainda há valores universais.
As expressões de incompreensão, frustração e cansaço constituem os momentos mais realistas da película, os viajantes mais do que todos decerto compreenderão. No entanto, Yimou recusa-se a que a população chinesa se aproveite de Takata. A sua viagem não é de roubo ou decepção, é uma viagem de muitos quilómetros na China e no interior de um homem.
“Riding Alone for Thousands of Miles” é uma estória intimista, simples. A narrativa conta a aventura de um pai que redescobre um modo de se ligar ao filho e que embarca numa viagem que o faz repensar as acções dos dois e, com a maturidade da idade perdoar e ser perdoado. Yimou escapou ao cliché da “mudança nos sentimentos por causa de um evento grave”. A personalidade não muda. Takata continua tão teimoso como nos instantes iniciais da película, os motivos é que se alteraram grandemente. Enquanto há vida não há urgência e agora, que Kenichi está prestes a desaparecer do mundo dos vivos, Takata dedica-se com o mesmo fervor de quem evitou o filho durante anos, a estabelecer um ligação emocional com ele. Mas esta estória não é apenas a de Takata e de Kenichi, é também a estória de um pai e um filho chineses, cujas vidas são tocadas quando o cidadão senior japonês decide visitar uma aldeia remota, aproximando também os dois países. Três estrelas e meia.

Realização: Zhang Yimou
Argumento: Zhang Yimou, Jingzhi Zou e Bin Wang
Ken Takakura como Takata
Kiichi Nakai como Kenichi (voz)
Terajima Shinobu como Rie
Jiamin Li como Li Jiamin
Jiang Wen como Jasmine
Lin Qiu como Lingo
Zhenbo Yang como Yang Yang

Próximo Filme: "Gantz", 2010

domingo, 17 de março de 2013

"Mad Detective" (San Taam, 2007)



Quando se pensa que o conceito de detective já se esgotou eis que surgem cavalheiros como Johnny To (“Election, 2005), Ka-fai Wai (Fulltime Killer, 2001) e Ching Wan Lau para dar um brutal acordar à minha parva ilusão. Filmpuff Maria, ainda não vistes nada.
“Mad Detective” é um conceito simples: é um detective… que é louco. Ponto. Quer-se dizer, quando o superior se reforma o pessoal vai tomar uns copos com ele, ou prega uma daquelas partidas que nunca mais irá esquecer. Não é assim tão normal cortar-se a orelha e oferecê-la ao chefe como prova de afeição. Digo eu. O infeliz detective Bun (Ching Wan Lau) é forçado a abandonar a carreira até ali brilhante e enclausura-se em casa com a mulher May (Kelly Lin). Até ao dia em que um caso insolúvel bate à porta e Ho (Andy On) o polícia inexperiente recorre ao veterano. O que ele vê é um homem ainda mais desligado da realidade mas que ainda tem os instintos aguçados. Poderá ele forçar Bun a embrenhar-se de novo numa investigação policial a custo da pouca sanidade que lhe resta? O que vos parece?
Como se costuma dizer, há um método para a loucura e a de Bun não parece totalmente desprovida de sentido. Bun entra na pele dos criminosos e replica todos os seus passos de modo a reconstituir os seus crimes mas o mais fascinante é a sua capacidade de ver as personalidades dos que o rodeiam. Imaginem o suspeito rodeado de pessoas que parecem nada ter em comum com ele, excepto o facto de serem uma das partes da sua psique fracturada. Cada atributo forte corresponde a um “corpo” diferente que pode ser desde uma criança a um bruto de 1,90m de altura. Quem sabe se não tenho uma sueca loura e alta dentro de mim? Parvoíces à parte “Mad Detective” é interessante estudo da psique humana. Dos outros e da Bun, sendo que a deste último está muito mais próxima do ponto de ruptura do que a dos “normais”. Apesar dos momentos cómicos gerados por tal improbabilidade, a figura de Bun nunca é alvo de paródia. Piedade talvez mas é impossível rir de Bun. Ele é um homem só. Tem uma capacidade que o torna capaz de grandes feitos, impossíveis para outras pessoas mas que o afastam cada vez mais da humanidade e o torna um recluso da sua própria mente. Como não compreender a tristeza e o sentimento de impotência dos que o amam pela sua inevitável descida à loucura? O foco não é a investigação cuja conclusão linear, apenas o caminho, esse sim, exige atenção redobrada. E o novato que o acompanha tem a complexidade suficiente para não ser abafado de cada vez que Bun surge em cena e esperamos mais um dos seus desvarios. As actuações de ambos são impressionantes, particularmente de Lau que não recorre aos maneirismos habituais de quando se interpreta uma personagem do género. O recurso ao corpo para enfatizar os estados mentais tem por base a realidade mas hoje em dia é um lugar-comum e admitamos que nem todas as pessoais agem desse modo.

To e Wai não trataram “Mad Detective” com abandono, como se “Mad Detective” estivesse destinado a ser mais um daqueles filmes de investigação policial que se perdem no limbo do esquecimento. Não. Permanece bem depois de ter terminado como todos os e se’s que acompanham as questões apresentadas de modo mais ou menos explícito. O nosso comportamento é conduzido pela personalidade que toma conta de nós naquele momento? Existe apenas um “eu” ou o nosso “eu” é constituído por diversas entidades que guerreiam entre si, numa luta constante pelo controlo até à nossa morte? Até que ponto é que devemos controlar as nossas habilidades extraordinárias para nos inserirmos no padrão? Apenas não esqueçamos uma questão: na sua loucura, Bun nunca esquece o motivo pelo qual persegue o criminoso. A despeito do comportamento errático distingue o bem do mal, talvez até melhor que os que não sofrem de maleitas da mente. Três estrelas e meia.
Realização: Johnny To e Ka-fai Wai
Argumento: Ka-fai Wai e Kin-yee Au
Ching Wan Lau como Detective Bun
Andy On como Inspector Ho
Kelly Lin como May
Flora Chan como May
Ka Tung Lam como Ko

Próximo Filme: "Dark Water" (Honogurai mizu no soko kara, 2002)
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