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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"Blair Witch" (2016)


Na lista de sequelas que ninguém queria que acontecessem "Blair Witch" há-de estar lá no topo. A sério. Se têm dito que a fariam em 2000/2001 talvez a expectativa fosse grande. Em 2016 é apenas estar a espancar um cadáver. Se já não existe um sopro de vida naquele corpo para quê insistir? A única parte compreensível do processo é a associação ao projeto de nomes como Adam Wingard e Simon Garrett. Dois nomes jovens e promissores que muito devem ao género de found footage ou não estivessem envolvidos na antologia “V/H/S” e a respectiva sequela. Se na altura, “V/H/S” pareceu adiar a morte ou pelo menos dormência do género, “Blair Witch” é a velhinha resignada que sabe que já não há espaço para novos truques. Onde “Blair Witch Project” foi uma espectacular inovação, termos de fundação das raízes do subgénero, a utilização de um micro-orçamento e de uma manobra de marketing genial e, isto entenda-se que a qualidade do filme não foi e não continua a ser consensual, “Blair Witch” é tudo o que já feito antes e nada traz de novo.

Passados dezassete anos após o desaparecimento de três estudantes algures numa floresta americana é encontrado um vídeo com que se acredita ser uma das últimas imagens de Heather (Heather Donohue) em vida. Obcecado com o acontecimento que marcou para sempre a sua vida, James (James Allen McCune) decide embarcar numa expedição em busca da irmã que então perdeu. Apesar do cepticismo quanto à possibilidade de a encontrar viva, Lisa (Callie Hernandez), Peter (Brandon Scott) e Ashley (Corbin Reid) decidem acompanhá-lo para fechar em definitivo esse capítulo da sua vida. Ao grupo de amigos juntam-se ainda Lane (Wes Robinson) e Talia (Valorie Curry) que encontraram o vídeo que espicaça James a embrenhar-se na floresta.
A partir desse momento torna-se bastante óbvio que Simon Barrett e Adam Wingard estudaram com especial cuidado “The Blair Witch Project” (1999), desde o abuso da câmara aos tremeliques e abanões violentos à sequência de ocorrências estranhas que não é muito diferente do que sucede no filme original, ainda que o grupo seja (apenas) um pouco mais diversificado. James é um homem assombrado pelo momento em que perdeu a inocência. Ele e o velho amigo de infância Peter assistiram e ajudaram às buscas iniciais. Lisa pretende aproveitar a tragédia pessoal de James para realizar um documentário. Lane e Talia cresceram com as lendas da bruxa Blair mas mais do que empatia para com os desaparecidos, desejam conhecer a verdade por trás das estórias de terror. Peter está ali para dar apoio ao amigo ainda que considere que estão ali à procura de fantasmas. Para a namorada Ashley é uma viagem de campismo com amigos. Todos têm motivos muito próprios e a maioria não é particularmente simpática. Depois de êxitos entre o público e a crítica como “You’re Next” e “The Guest”, voltaram aos personagens detestáveis de “Tape 56” e, onde, com a maior sinceridade, mal se podia esperar que tivessem mortes lentas e dolorosas. Depois, claro, as personagens fazem tudo quanto podem de mais idiota que se possa esperar incluindo não tomar as precauções de calçado necessárias para impedir ferimentos debilitantes e que possam infectar longe da civilização. Afastar-se do grupo sobretudo se é noite escura e, por fim, o cliché de todos os clichés, separarem-se. A acepção de que a força se encontra nos números poderá passar por mentira num filme de terror pois não são muitas as vezes que tal se viu acontecer. As novidades encontram-se no aparecimento da Bruxa (mas com atenção), se não, podem perdê-la de vista e lapsos temporais. Bem, eles podem mesmo existir ou será apenas mais uma ilusão da bruxa? O final é porventura o que menos relevante “Bair Witch” tem. Desde os créditos iniciais que existe uma noção de que o “final é um novo começo”. Uma perspectiva circular subjacente à própria razão da existência do found footage. As filmagens existem para ser encontradas e um novo grupo de pessoas vá em busca do que quer que causou aquele incidente, colocando-se numa nova situação de perigo. Duas estrelas.


Realização: Adam Wingard
Argumento: Simon Barrett  
James Allen McCune como James
Callie Hernandez como Lisa
Corbin Reid como Ashley
Brandon Scott como Peter
Wes Robinson como Lane
Valorie Curry como Talia

Próximo Filme: "The Autopsy of Jane Doe" (2016)

domingo, 15 de dezembro de 2013

"V/H/S", 2012


Quem acompanhou o ruído gerado em torno de “V/H/S”, quase poderia pensar que esta antologia de terror trouxe algo de novo ao já testado género. Quase. Outros exemplos podem ser amplamente verificados neste blogue, através da etiqueta criada para o efeito. Quando muito, um estilo amador de câmara no ombro prevalente a todas as curtas e a surpresa por alguém ainda utilizar as bem velhinhas cassetes VHS (Video Home System). O mesmo país que gerou o brilhante “Creepshow” (1982) tem memória curta e é de modas pelo que o mais certo é V/H/S transformar-se noutro milagre da multiplicação de redundâncias à la “Saw” ou “Paranormal Activity”. Podem esperar, no mínimo, por uma terceira e quarta entradas (já existe uma sequela).

“Tape 56”
Um grupo de bandidos que gosta de filmar as façanhas criminosas que incluem o vandalismo e o assédio sexual e disposto a qualquer atividade que lhes dê a ganhar o próximo troco, é agora contratado para entrar numa casa e recuperar uma cassete VHS. Lá encontram um velho morto e em frente um leitor de cassetes. Enquanto o resto do bando se dedica a recolher todas as cassetes que encontra, um deles fica para trás e decide visionar uma delas sozinho…


“Amateur Night”
Shane, Patrick e Clint são três amigos pouco espertos que decidem alugar um quarto de hotel para uma noite de loucuras e filmá-las (claro). O grupo acaba por retornar com duas jovens, Lisa que está demasiado alcoolizada para levar os avanços sexuais de Shane até ao fim e Lily uma estranha rapariga que não faz segredo de admirar Clint. À medida que a noite avança os acontecimentos revelam-se inesperados e perigosos para o grupo de foliões.

“Second Honeymoon”
Sam e Stephanie são um casal que se faz à estrada para uma segunda lua-de-mel. Num parque de atracções Stephanie recebe a previsão astral de que irá brevemente reencontrar um amor perdido. Uma noite, uma estranha bate à porta do motel onde alugaram quarto a pedir boleia. Sam recusa e fecha-a do lado de fora. Nessa noite alguém entra no quarto do jovem casal e além de os roubar, prega-lhes umas partidas muito feias…


“Tuesday, the 17th”
Um grupo de amantes da natureza decide acampar. Apenas Wendy não parece estar muito entusiasmada com a aventura, recordando-se a cada nova atividade que encetam de acidentes ocorridos há algum tempo que vitimaram outros amigos. Então, qual estória saída de um conto de terror Wendy conta-lhes como um assassino matou os seus amigos numa excursão de campismo o ano passado. A ficção torna-se realidade quando alguém começa a persegui-los com intenções malévolas.

“The Sick Thing That Happened to Emily When She Was Younger”
Emily conversa com o namorado James que se encontra noutro país através de webchat. Ela está sozinha e cada vez mais enervada. Barulhos, portas a ranger e a silhueta de uma criança a atravessar corredores levam-na a crer que a casa está assombrada. A somar aos truques de uma mente hiperactiva e assustada juntam-se as memórias de um acontecimento de infância que a deixou traumatizada. À distância James nada pode fazer para a ajudar.

“10/31/98”
Um grupo de amigos veste-se a rigor para uma festa de Halloween. O problema é que não sabem onde é. Sem querer entram numa casa onde pensavam que se ia realizar a festa e exploram-na para encontrar os foliões. Nada os podia preparar para o que iriam encontrar no seu lugar.



domingo, 16 de junho de 2013

"Paranormal Activity 2: Tokyo Night" (Paranômaru akutibiti: Dai-2-shô - Tokyo Night, 2010)


No princípio era o verbo, a palavra e depois a rima,
que provocou reacções como se fosse uma enzima.
No princípio era a tesão, a fúria e a sofreguidão,
depois veio a calma, procura do saber e a satisfação.

Da Weasel in Iniciação A Uma Vida Banal - O Manual 

Perdoem-me se comparo o “Paranormal Activity” a qualquer sensação parecida com prazer e bem-estar (na verdade não peço, não).  Se os da Weasel podem ir beber ao Evangelho de São João, não me parece desproporcional utilizar tais termos para o mais recente fenómeno do cinema de terror. Ele era o “melhor filme de terror da década”, ele era “arrepiante”, ele era a frescura por oposição aos anos de desgaste do subgénero torture porn, ingenuamente conduzida pelos criadores de “Saw” e o Eli Roth. E se acredito fortemente, que o sucesso de “Paranormal Activity” se deveu em parte a reboque do facto de as pessoas estarem sequiosas por uma nova experiência de terror, isto não o torna menos eficaz. A estória de um casal simpático acossado por forças invisíveis, que podia ser nosso vizinho, bebe-se de um trago ao contrário do sadismo exagerado de assassinos temíveis e sociedades secretas que engenham armas de tortura inacreditáveis. Isto, sem mencionar a “nova vaga” do cinema de terror francês (que já é nova há muitos anos) e o cinema japonês que já por aí anda há bastante tempo, sem lhe atribuir nomes sexy.
Eis pois, que o “Paranormal Activity” (2007) tem sucesso e logo surge a sequela japonesa não oficial, “Paranormal Activity: Tokyo Night” (2010). Não fosse estranha a mera colocação da hipótese de realização de uma sequela japonesa, que o percurso costuma ser inverso, Japão/EUA -, temos ainda produção e argumento em tudo similares, ou como diria a minha avozinha, “De boas intenções está o Inferno cheio”.
A pobre Haruka (Noriko Aoyama) regressa a Tóquio depois de umas férias nos EUA, onde teve um acidente de viação que a deixou com as pernas partidas. Sobre para o irmão mais novo Koichi (Aoi Nakamura) que está completamente obcecado com a mais recente aquisição para realizar filmagens tomar conta da convalescente. Assim que se instala para o caminho da recuperação Haruka começa a dar por objectos fora do lugar, barulhos estranhos, o sentimento de que não está só… E quer a sorte que os irmãos habitem um dos países com mais videovigilância do mundo. Estão a ver o mito do japonês com a máquina fotográfica?
Ora, se o ponto de partida é inteligente (o acidente de viação de Haruka tem muito que se lhe diga) é o desenvolvimento que fracassa. Sucede a mesma sequência de acontecimentos que vitimizam Katie e Micah do filme original. Numa análise fria Tokyo Night seria uma versão superior se fosse o primeiro filme na ordem cronológica já que o cineasta Toshikazu Nagae opta por livrar-se dos planos que minavam o ritmo de “Paranormal Activity”, e em que não acontecia nada, sem eliminar a tensão remanescente. Concebem a ironia de um filme japonês tomar a decisão de eliminar excedentes em prol do ritmo? Também a dupla de protagonistas é forte tendo bastante experiência em cinema e televisão e emulam com facilidade a naturalidade dos actores da película americana. Esta coisa de contracenar como se não o estivesse a fazer é o maior achado de sempre. Outro aspecto de nota é os personagens principais serem irmãos. Relembra-me de certo modo do “Jeepers Creepers” (2001) de cujo choque (o Darry não!), até hoje, ainda não recuperei. O foco no ângulo amoroso sobre o de laços familiares acaba por se tornar um elemento de falsidade no cinema. Desde quando é que vemos primos em 2º grau? Ou um tio e sobrinho afastados, por exemplo? Um pormenor técnico remotamente interessante é o recurso ao splitscreen (divisão do ecrã), que por momentos dá a ilusão de sermos voyeurs de uma experiência a decorrer em tempo real. De resto não há um elemento dissonante, um grito de desafio aos antecessores “Paranormal Activity” e “Paranormal Activity 2”, algo que chegue ao âmago das audiências e explique porque é que esta versão era necessária e acrescenta algo sobre o anterior. Ok, o destinatário principal é a população japonesa mas faziam alguma coisa diferente não? É mais do mesmo que conduziu à saturação de sagas anteriores, como o “Sexta-feira 13”, “Halloween”, “Nightmare in Elm Street”, “Saw”, etc, cujo sucesso inicial redunda sempre num remastigar orgíaco cíclico do pecado original. E a audiência? Amorfa, cansada, que procura algo mais do que a satisfação de encontrar o que reconhece de aventuras anteriores. No princípio era o hype. O fim? Só Deus sabe como termina. Duas estrelas e meia.

Realização: Toshikazu Nagae
Argumento: Toshikazu Nagae e Oren Peli
Noriko Aoyama como Haruka
Aoi Nakamura como Koichi

Próximo Filme: “Toilet 105”, 2010

domingo, 3 de junho de 2012

"Haunted Changi", 2010



Nos anos 30 foi construído um grande edifício em Changi, na Singapura. Na altura, Singapura estava tomada pelos britânicos que consideraram a colina o local ideal para construir um comando militar central. Com a agressão Japonesa, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, o quartel foi desmantelado e acabou por se tornar um hospital de campanha, com muitos militares e civis a serem lá tratados. Diz que não foi só isso que por lá se passou e que muitas pessoas acabaram por ser torturadas e até alvo de experimentação por parte do povo invasor. Após a saída do exército japonês, Changi voltou a tornar-se um hospital e depois quartel militar após o que foi finalmente fechado e deixado ao abandono.
Ultimamente, o hospital no topo da colina, qual filme ou banda-desenhada, recorde-se por exemplo o asilo de Arkham no universo do Batman, tem sido palco de vandalismo por parte de arruaceiros e mendigos, provocando uma maior degradação no já envelhecido edifício.
Com uma estória tão rica e lendas sobre bunkers subterrâneos e câmaras de tortura escondidas, que os locais sabem na ponta da língua como se de uma qualquer coscuvilhice se tratasse Changi é o perfeito cenário para um filme de terror.

Uma equipa de jovem cineastas decide realizar um documentário sobre o Hospital pesquisando bibliografia sobre o tema, entrevistando os locais e… visitando as instalações. Eis, onde a ideia corre mal, a “equipa de filmagens vai filmar edifício assombrado e nunca mais retorna. Por tremenda sorte, o equipamento foi encontrado e, o que estamos a ver são as filmagens do que se passou por lá”. Recordam-se disto de um lado qualquer não é? Refresco-vos a memória: “Blair Witch Project”, “Grave Encounters”, “Haunted House Project”… Portanto já estão a ver onde isto vai dar. O problema é que “Haunted Changi”, ao contrário do desastre “Haunted House Project”, tinha potencial. Os actores são naturais e não houve necessidade de inventar estórias visto que estas são parte integrante do imaginário local. É infinitamente mais difícil tentar convencer um público de estórias de assombro quando não há dados factuais. No caso de Changi, não só as estórias existem, como o medo colectivo, transmitido entre gerações perpetuou a noção deste lugar como malévolo. A completar a moldura está o próprio hospital, metade destruído, metade vandalizado, que não convida à visita dos mais sensíveis.
Ora, Changi podia ter dado o documentário perfeito. Infelizmente, Andew Lau e companhia decidiram que ainda fazia falta mais um falso documentário, na paisagem dos filmes de assombrações.  E de facto, “Haunted Changi” começa numa nota intrigante, com a narração do historial do lugar e das entrevistas aos locais, sempre intercalados com fotografias e filmagens do lugar. É, curiosamente, no exterior do cenário dignos dos sonhos molhados dos cineastas de terror, que ocorrem os melhores momentos do filme. Porque, quando eles entram no hospital, não há dados novos que possam recolher verdadeiramente significativos. Só paredes e soalhos sujos e tectos caídos. As paredes não contam uma história melhor que a de arquivos ou da sabedoria popular e ninguém vai afirmar que, por muitos anos que passaram e inúmeros ocupantes, ainda há segredos por desvendar. Como tal, surge o argumento do fantasma, mais fraco, a cada novo filme. Posto isto, noventa por cento é paisagem e dez por cento, explora os nossos medos mais profundos. Medo do escuro? Labirintos intermináveis? Impressão de outra presença na mesma sala? Medo de ver surgir alguma coisa inumana a cada nova esquina que se dobra? Farid, Sheena e Audi são, a maior parte do tempo credíveis, mas não podemos ansiar pelo que não existe. Retirando duas ou três cenas assustadas nada acontece de importante para nos importarmos. Quanto a Andrew ele devia ter um pouco mais de noção. Sendo realizador e exigindo destes uma performance que lhes é por vezes, impossível, comporta-se com todo o exagero teatral que se pede que um actor de cinema reprima. A sua actuação é desfasada, desconcertante e alucinante. Infelizmente, esta é depois acentuada pelo péssimo trabalho de maquilhagem. Dificilmente teriam feito pior e atendendo ao baixo orçamento, é embaraçoso descobrir que a edição e fotografia, duas áreas-chave em qualquer obra são superiores a uma caracterização simples dos actores. Se retirarmos um certo estado melancólico acentuado pela fotografia, à qual a movimentação do sol não é alheia e, que torna o documentário “real”, Changi sofre com inúmeras falhas estruturais e um número desgastado que o público já conhece de cor. Para os cidadãos de Singapura talvez faça sentido, mas perde-se no vasto mercado internacional onde existem alternativas mais bem concretizadas. Duas estrelas.

Realização:  Andrew Lau
Argumento:  Farid Azlam, Sheena Chung e Audi Khalis
Andrew Lau como Andrew
Farid Azlam como Farid
Sheena Chung como Sheena
Audi Khalis como Audi

Próximo Filme:  "The Yellow sea" (Hwanghae, 2010)

quarta-feira, 14 de março de 2012

"Troll Hunter" (Trolljegeren, 2010)

ATENÇÃO, trailer com spoilers!


Quando o género found footage definha em termos criativos e já não há paciência para fantasmas, monstros, bruxas e demónios eis que surge uma nova esperança sob a forma de um troll. Não é uma comédia nem é anedota. "Troll Hunter” é um filme sobre trolls feios, brutos e maus. 

A Escandinávia alberga um folclore tão rico que dá para alimentar filmes durante algumas décadas. Nenhuma criatura possui tanta magia e ao mesmo tempo foi tão pouco explorada, fora do seu lar, como o troll, essa besta primitiva milenar que habita cavernas, montanhas ou florestas de vegetação alta. Ele só pensa em comer, defecar e dormir. Nestes aspectos, não é muito diferente das outras criaturas do reino animal. Nisto, entra a mitologia, o troll caça durante a noite e dorme durante o dia num qualquer buraco obscuro. Os raios de sol não podem entrar em contacto com a sua pele, caso contrário, transforma-se em pedra. É por isso que as crianças não têm o que temer durante o dia e não se devem aventurar fora de casa após o crepúsculo. A pouca razão do troll possui vai para a sua aversão aos cristãos. O simples farejar de um põe-no doido, fora de si. A crença cristã está além da sua compreensão. É natural que a uma criatura egoísta e, ocasionalmente, devoradora de homens, o sacrífico e a compaixão façam confusão.
A narrativa inicia-se com o aparecimento de um número invulgar de ursos mortos. Um grupo de estudantes universitários suspeita de caça ilegal e decide realizar um documentário sobre o sucedido. A equipa, liderada pelo inquisitivo Thomas (Glenn Erland Tosterud) depressa tropeça numa estória mais interessante do que à partida se podia esperar. Se os ursos estão a ser atacados por um urso de outra espécie, maior, por que é que as feridas contradizem a teoria? Se os animais são o alvo de caçadores ilegais, por que é que estes não levam troféus? E mais estranho ainda, por que andam agentes governamentais a rondar os locais dos ataques? O documentário conhece grandes desenvolvimentos quando os estudantes começam a seguir uma carrinha peculiar que surge com frequência, junto dos cenários de crime. Quando finalmente se acercam do condutor as suas convicções são abaladas. Ele é Hans (Otto Jespersen), um caçador de trolls. Eles existem na Noruega e são eles os autores dos ataques recentes. Os estudantes dividem-se entre a incredulidade e o gracejo. Não deve existir muito mais naquela estória do que uma explicação racional. Um urso perdido com certeza anda a provocar todos aqueles estragos. Provavelmente será melhor regressar à universidade com o pouco crédito que ainda têm, antes de se tornarem a anedota do campus. Então, o excêntrico convida-os para uma caçada de trolls. Apenas Thomas acredita que vale a pena continuar a seguir Hans.
Por estapafúrdia que a ideia da existência de um troll da Noruega seja, esta imagem não é mais irrealista que um pocong indonésio ou um pontianak malaio. Cada região, sua superstição. E “Troll Hunter” é tratado com um cuidado tal, seja pela adaptação do folclore escandinavo e uma atenção aos pormenores elevada, que a narrativa se distancia do absurdo e surge com um mínimo de credibilidade. O caçador é um homem de meia-idade experiente, que vive como um nómada. O seu dever é assegurar que as pessoas desconheçam a existência dos trolls. Por que não? Eles já cá andam há tanto tempo quanto o ser humano e são tão estúpidos que, mantidos à distância, dificilmente causarão algum problema. Mas ele está tão saturado e é tão solitário que estar rodeado de jovens entusiastas é um mal menor. A sua frieza é calculada, um mero artifício para esconder a satisfação de ser seguido, admirado até. Admiramo-lo pois claro. Como não admirar quem vive da caça de uma besta gigante, sem ninguém para o apoiar, sem saber se irá regressar? “Troll Hunter” é humor, sátira e terror num só pacote. Øvredal oferece-nos todas as emoções do terror de uma caçada inesperada, como se de um qualquer animal selvagem e perigoso se tratasse, com a dose certa de humor de casa de banho. Isto, enquanto ridiculariza os crédulos, que acreditam nas estórias que o Governo lhes conta. É o desejo de segurança, de conforto e ignorância consentida que lhe dá, ao Governo, a liberdade de fazer o que ele quiser com a sua liberdade. Podiam ser trolls, podia ser outra coisa qualquer. Em simultâneo, a narrativa não possui grandes soluções. É mais um conjunto de buracos que deixamos passar, por tão entretidos que estamos. Uma linha de alta tensão em círculo? Quem se importa com isso? E como dizia o Mike Soonian do “All Things Horror”, no outro dia, os trolls terão sido criados em imagem gerada por computador, mas fariam um Jim Henson orgulhoso. Não posso concordar mais. Já estou à espera de um found footage sobre fadas. Três estrelas e meia.


Realização: André Ovredal
Argumento: André Ovredal e Havard S. Johansen
Otto Jespersen como Hans (caçador de trolls)
Glen Erland Tosterud como Thomas
Johanna Morck como Johanna
Thomas Alf Larsen como Kalle

Próximo Filme: "Tumbok", 2011

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Lake Mungo", 2008

A querida, precoce Alice de 16 anos era a princesinha dos olhos dos seus pais. Ela foi abençoada com todas as qualidades que os pais extremosos vêem nos filhos. Linda, estudiosa, sociável e até já tinha namorado. Ela não seguia ninguém, ela é que era a rapariga popular, uma líder natural. Um dia, durante um piquenique familiar, foi nadar e não voltou mais. Assim, começa o pesadelo de qualquer pai. Mas a morte é apenas o início. Meses depois da sua morte, Alice parece tão presente como quando estava viva. Os Palmer estão numa profunda depressão e os indícios de Alice nos vislumbres, nos cheiros e nas impressões em tudo quanto tocou em vida, são demasiado fortes para ignorar. Os pais estão por demais fragilizados e mandam exumar o corpo. “É Alice. Ela morreu. Ela ainda está connosco.” Matthew (Martin Sharpe), o único filho sobrevivente dos Palmer, decide montar câmaras na casa e captar o que acreditam ser as manifestações de Alice, além-vida. O que descobrem deixa-os chocados. Eles irão descobrir que Alice, a sua querida Alice, escondia segredos e podia não ser a menina que todos julgavam.
Está dado o mote para o falso documentário de Joel Anderson. Insisto que suspendam por um momento as evidentes associações mentais a “Blair Witch Project” (1999) e “Paranormal Activity”(2007) e entrem neste esquema de mente aberta. A obra de Anderson está mais perto de Lynch em “Twin Peaks” (90-91) do que dos filmes de found footage anteriormente mencionados. Não é por acaso que a família se chama Palmer e muito menos coincidência será que acompanhemos o rumo dos que a rodeavam, como forma de obter o retrato psicológico de Alice. Ela não é nenhuma Laura mas estava tão perdida quanto ela. Do mesmo modo se pode encontrar semelhanças em “Shutter” (2004), com o mesmo fervor da esperança de “um fantasma dentro da máquina”. Em última análise, são estas duas fontes de inspiração, simultaneamente, as suas maiores forças e fraquezas. “Lake Mungo” deseja ser um filme de fantasmas ou um drama familiar sobre a perda?
 “Lake Mungo” não é um filme feito a partir de um vídeo que foi encontrado relatando fenómenos do paranormal que afectaram todos os envolvidos para nunca mais serem encontrados… Esse tema já era, por favor. A narrativa de “Lake Mungo” foca-se nos que sobrevivem a Alice e ao modo de lidar com a sua morte. Filmado estilo documentário para televisão, assistimos ao desmoronar e tentativa de reconstrução de uma família que sofreu uma perda inimaginável. São efectuadas entrevistas aos pais, irmão, amigos e conhecidos de Alice que vão descrevendo os seus últimos passos e estado de espírito antes do acidente. Estes momentos sérios, emocionais até, sobretudo após as declarações da mãe June (Rosie Traynor), são intercalados com os vídeos caseiros onde se vê uma Alice alegre. Existe mais do que uma reviravolta no argumento, incluindo a entrada em cena de um médium com um papel mais relevante do que à partida se supunha. Steve (Ray Kemeny) é capaz de ser o médium mais realista alguma vez retratado em tela. E ele ajuda a desvendar o mistério que envolve Alice do modo mais terreno possível. Mas tudo isto é tolerável. Noutro filme, o cineasta podia cair na tentação de exagerar mas, Joel Anderson, não se afasta um milímetro do estilo documentário, por oposição a um qualquer pretensiosismo cinematográfico. O elenco, composto sobretudo por desconhecidos é globalmente bom. Todos eles desempenham os papéis mais difíceis para um actor: representar que não estão a actuar. A naturalidade dos desempenhos surge tão fácil que qualquer pessoa que não saiba que “Lake Mungo” é um filme, julgará estar a ver um documentário real. Rosie Traynor é a maior força do filme, por todas as reviravoltas e subenredos cada vez menos credíveis, a sua June Palmer, que alterna entre aturdida e dormente é um grande retrato de uma mãe em sofrimento. Evita todos os tiques e os lugares-comuns associados a tão grande emoção. Traynor transmite uma calma e, por vezes, uma ausência, aquela de quem se perde no horizonte e não consegue, ainda hoje, retirar sentido do que sucedeu. E por fim, a tragédia, por realizar que não conhecia a filha como julgava, que a sua menina se sentia perdida e por ter falhado na sua protecção. Todas aquelas falhas e todos os “e se” com que nos deparamos quando já é tarde demais.
A acompanhar o elenco sólido está um trabalho magnífico de sonoplastia e do compositor Dai Peterson, cuja subtileza contribui grandemente para a construção da tragédia.Esta é apenas acentuada pela sugestão de assombração, embora a película reúna, durante os 87 minutos de duração, uma aura misto de assustador e desconcerto. “Lake Mungo” não é um filme fácil. A morte de uma adolescente assombrada pelos seus próprios demónios, não é nenhuma matiné da tarde. O epílogo pode mesmo provocar o ressentimento ou até revolta da audiência perante as opções do cineasta. Um conselho: façam uma introspecção sobre o que valorizam em cinema. Desejam finais felizes ou finais que vos façam reflectir? Quatro estrelas.

Realização: Joel Anderson
Argumento: Joel Anderson
Rosie Traynor como June Palmer
David Pledger como Russel Palmer
Martin Sharpe como Matthew Palmer
Thalia Zucker como Alice Palmer
Steve Jodrell como Ray Kemeny

Próximo Filme: "The Cut" (Haebuhak-gyosil, 2007)

domingo, 8 de maio de 2011

"Sacred" (Keramat, 2009)

Tema musical principal de "Sacred", interpretado por Poppy Sovia. Na impossibilidade de encontrar um trailer legendado em inglês, deixo-vos o videoclip da canção com imagens do filme.

Vim aqui e abri a página do blogger pronta para usar uma série de palavrões para descrever "Sacred" mas tive o bom senso de me acalmar, fechar tudo e resistir à tentação urgente de escrevinhar em papel. Às vezes é preciso deixar as ideias amadurecer. E já decidi. Não mudei de ideias. Um milímetro que fosse. Agarrem-se às cadeiras que esta vai doer. Já nada é sagrado. Lembram-se de "The Blair Witch Project" (1999)? Na altura, o primeiro filme foi inovador, um blockbuster, lá com aquela câmara aos tremeliques que, pessoalmente, não me convence mas resulta. Eram três miúdos numa floresta a fazer um documentário. Quanto ao segundo filme... Alguém se lembra do segundo? Pois. Hey, ganharam dinheiro para não precisarem de trabalhar mais um dia que fosse. Passaram dez anos. Alguém deve ter pensado, "bem, a malta provavelmente já se esqueceu, embora para a floresta filmar umas cenas porreiras". Not cool, dude.
Adiante, temos direito a uma equipa de filmagens, que vem de Jacarta para Bantul filmar qualquer coisa sobre uma rapariga que não tem uma perna e depois arranja uma prótese e o resto não interessa. Entretanto, a pobre Migi Paramita (idem), que entra no filme e no filme dentro do filme, coitada, adoece e começa a apresentar um comportamento cada vez mais estranho.
Numa situação normal, esta seria uma sinopse ligeiramente interessante, excepto nada de especial acontece. A película é tão aborrecida que dei por mim a bocejar e a olhar para o relógio. Ora, quando alguma coisa acontecia mesmo, também não dava para perceber porque o raio da câmara não sossegava! Mas sim, sei que é suposto a câmara transmitir amadorismo e atribuir mais realismo à história, blá, blá, blá...
Muitos filmes têm histórias inverosímeis, no entanto, por tecnicismos vários, qualidade dos actores, etc, lá conseguem apresentar um produto final aceitável. Em "Sacred" nem isso se consegue. Alguns dos personagens são detestáveis. Dei por mim a querer saltar para dentro do écran e querer estrangular duas mulheres. Eu adoro ver mulheres que são fortes e não se deixam intimidar facilmente por oposição à típica mulher submissa da primeira metade do século passado. Mas, destas duas, qual a pior? Uma era histérica, sempre aos gritos com toda a gente e a outra não parava de chorar. Na minha cabeça só ecoava a música "M m m my sharona" Get it?
Além disso, todos os acontecimentos que se desenrolam a partir de certa altura são totalmente desnecessários e evitáveis. Tinham eles de fazer aquilo? Eram obrigados a seguir aquele caminho? Não e não. Eu sei que não teríamos filme mas teria sido tão melhor assim... O realizador, (Monti Tiwa) que também faz de cameramen Cungkring (agora é que não o perdoo mesmo) fez os seus actores sofrer. No filme nota-se, não se preocupem. Segundo o que li, a equipa perdeu em média 5 a 10 kilos. O sofrimento não é representação, é real. Ah, a película ainda tem espaço para um shaman, preocupações ecológicas e o tremor de terra ocorrido no ano de 2006 em Bantul... Notem que não gostei do filme. Apenas não acredito que seja representativo do cinema Made in Indonesia. Agora, que classificação lhe dou? Um terço de estrela? Um quinto? Um décimo? Olhem, é mau. Vejam por vossa conta e risco.




Realização: Monti Tiwa
Argumento: Kazuo Umezu (manga), Hirotoshi Kobayashi (argumento)
Elenco:
Poppy Sovia (idem)
Migi Paramita (idem)
Sadha Triyudha (idem)
Miea Kusuma (idem)
Dimas Projosujadi (idem)
Diaz Ardiawan (idem)

Próximo Filme: "One Missed Call" (Chakushin Ari, 2003)
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