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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

"Shaolin Soccer" (Siu lam juk kau, 2001)



Neste período de conturbação social e com uma ansia de escapismo crescente, (a alternativa é a depressão) a magia do cinema permite-nos esquecer, pelo menos, por alguns momentos as amarguras da vida. Ora como nem todos têm 6€ para pagar em bilhetes de cinema e, ainda menos têm acesso a convites VIP, vivam as cópias piratas e streaming online. Isto (não) foi um desabafo senhores que regulam estas coisas.
Um desabafo seria talvez admitir a necessidade de assistir a películas inócuas como modo de descansar a retina de governantes, que nem se conseguem a eles próprios convencer da legitimidade dos argumentos que apresentam e, pôr-me a ouvir discos tipo nostalgia, por que já não há paciência para Micki Minajs a assassinar a música.
Valham-nos os “tipos muito engraçados do kung fu” que parecem fazer coisas impossíveis com o corpo – aquela flexibilidade senhores, aquela flexibilidade! E mal não fará se juntarmos ao kung fu uma boa dose daquela pandemia tão bem conhecida do sexo feminino, chamada futebol. Para os mais fervorosos fãs, não, o Benfica não faz nenhuma aparência mas não se preocupem que “Shaolin Soccer” não podia ser mais divertido nem menos polémico. Stephen Chow é Sing, um artista de artes marciais tornado cantoneiro que procura um modo de globalizar o modo de vida shaolin. Ele não é propriamente inteligente senão já se teria apercebido há muito que a sua “perna de aço” e o seu talento inato para jogar futebol podiam tornar real o seu sonho. E como o destino destas coisas, (também lhe podem chamar conveniências de argumento), Sing é aconselhado por Fung (Ng Man Tat), um senhor que nos seus tempos áureos como jogador de futebol era apelidado de perna dourada até a ver quebrada por culpa do companheiro de equipa e óbvio vilão Hung (Patrick Tse Yin). Na linha do amor do ponta-de-lança encontra-se uma mocinha tímida, Mui (Zhao Wei) que faz pão com auxílio do seu magnífico domínio da arte do Tai Chi. Mui representa a estória clássica de rapariga feia vira quase Miss Universo. E que transformação, por entre borbulhas, crostas, cicatriz, cabelo tipo óleo de fritar e, pouco faltou para postulas e bubões. Os senhores da maquilhagem divertiram-se bastante a tornar a bela Zhao Wei feia.


Mas como dizia só temos dois personagens para uma equipa de futebol pelo que temos oportunidade de assistir ao divertido recrutamento e sessão de treinos dos antigos companheiros monges de Sing. Entre os companheiros encontram-se um verdadeiro cabeça dura que é um homenzinho mais cobarde e um “mãozinhas” que passava por clone do Bruce Lee, a que não é alheio o fato-macaco amarelo exactamente igual ao que a lenda do jeet kune do vestiu em “Game of Death” (1972). Todos juntos formam uma dream team, que se torna uma séria candidata ao titulo de melhor equipa do campeonato do mundo. Essa possibilidade deixa Hung a tremer, pelo que recorre sem embaraço às suas técnicas preferidas: batota. Os jogos são qualquer coisa de fabuloso. A equipa shaolin praticamente não chuta a bola, recorrendo a todo o tipo de acrobacias aéreas e à ajuda do computador para colocar a bola dentro da baliza adversária. Francamente? Alguém está à espera que a equipa maravilha perca o jogo?
“Shaolin Soccer” não tem grande estória, do início ao fim é fácil perceber que a fusão shaolin/futebol são apenas uma pretexto para apresentar uma sucessão de gags hilariantes, uns após os outros. Aos momentos de especial comicidade não é alheia a presença especial das estrelas Karen Mok e Cecilia Cheung como capitãs da “equipa do bigode”. Também as brincadeiras com comida por parte do “pequeno” irmão e a transformação física extrema de Mui estão qualquer coisa de fantástico. No meio desta paródia, a moral reside em qualquer coisa como ser perseverante e ter fair-play, que no final os justos serão recompensados. Por fim, fica a sensação que Stephen Chow nos pregou uma grande partida. De facto, pelo número de críticas e, pelas reacções por esse mundo fora ao filme duns tipos do kung fu que jogam futebol, até por quem não aprecia artes marciais é demonstrado que se calhar “Shaolin Soccer” não é assim tão inocente e cumpre para a posteridade o objectivo naif e fantástico de Sing: disseminar o kung fu pelo mundo. Três estrelas e meia.


Realização:  Stephen Chow
Argumento:  Stephen Chow, Chi-keung Fung, Stephen Fung, Wei Lu e Kang-cheung Tsang
Stephen Chow como Sing (Perna de aço)
Zhao Wei como Mui
Man tat Ng como Fung (Perna dourada)
Patrick Tse Yin como Hung (Treinador da Equipa Malvada)

Próximo filme: Sessão Especial Motelx

domingo, 19 de agosto de 2012

"Waterboys" (Wota Boizu, 2001)

Encontram facilmente clipes com legendas em inglês

Quem não adora uma boa estória de pessoas que contra marés e tempestades consegue vingar no mundo do desporto profissional? Não, a sério. Quem não gosta? Existe um amor universal por filmes de cidadãos vulgares que apesar de oprimidos e ridicularizados por competidores mais fortes e poderosos, acabam por encontrar a força dentro de si para vingar sobre todos os obstáculos. É o final feliz que as estórias da vida real não têm. Funciona como uma espécie de compensação para uma ausência experienciada numa vida não ficcional. E vá, aquela estória que deixa uma lágrima no canto do olho e, um pouco mais contentes com a nossa existência na terra durante breves minutos.
Waterboys junta os ingredientes certos para uma hora e meia de diversão que não parece um desperdício de tempo de vida (vide “Disaster movie” (2008), “Date Movie” (2006). Suzuki (Satoshi Tsumabuki) é o último sobrevivente da equipa de natação desfalcada do liceu, que é como um peixe na água e sente que pode fazer algo mais no meio aquático. É ele que vai liderar a revolução na escola de rapazes conservadora e juntar o grupo de rapazes que irá formar o grupo da escola de… natação sincronizada! Sato (Hiroshi Tamaki) é um fala-barato com uma afro (!), que não consegue levar nenhuma actividade até ao fim e, como tal, nenhum dos colegas o leva a sério; Ohta (Miura Akifumi) é o típico miúdo pele e osso que mantém uma obsessão pouco saudável com a prática de exercício físico; Kanazawa (Koen Kondo) é um génio com fobia da água e Saotome (Kaneko Takatoshi) é um rapaz delicado cuja prontidão na resposta aos pedidos de Suzuki faz muitos colegas duvidar da sua orientação sexual.
Suzuki encontrava-se só na equipa de natação da escola, quando a chegada da nova e jeitosa professora Sakuma (Kaori Manabe) fez despontar o interesse de dezenas de colegas. Isso e a possibilidade de impressionar as raparigas de uma escola feminina no festival de Verão. Mas quando a professora Sakuma revela a intenção de criar uma equipa de natação sincronizada masculina, apenas os cinco alunos impopulares parecem apostados em seguir a sugestão.
Com a revelação de que está grávida a professora Sakuma retira-se de cena e deixa os cinco jovens a depender de si próprios. Expostos ao ridículo perante os colegas e com um director que se opõe de modo veemente à iniciativa, parece não existir alternativa senão desistir. Mas Suzuki chegou a uma altura de vida em que desistir já não vai chegar. Indiferente aos que troçam dele e decidido a seguir o sonho até o fim, pede a um treinador de golfinhos (Naoto Takenaka) que os treine.
“Waterboys” tem os seus momentos de gargalhada fácil como o momento em que uma sala inundada de testosterona se esvazia à velocidade da luz, assim que os moços descobrem as verdadeiras intenções da professora, o esquelético Ohta é descoberto a praticar os exercícios de um vídeo de treino vestindo uma tanga minúscula, a professora vai ostentando a barriga de grávida bem à vista de todos alheada da sua condição, e basicamente todas as cenas em que um Sato com uma afro gigante tenta demonstrar seriedade. Os momentos de humor do filme são entrecortados com alguns exageros das personagem do treinador de golfinhos, um Naoto Takenaka, claramente a levar a piada demasiado a sério. Ele que transporta a mesma fórmula de comédia para o filme “Shall we dance?” (1996), a versão japonesa e original! Seria demasiado fácil levar a estória para um campo homoerótico e fazer das personagens, jovens efeminados, enfim, confundir um desporto associado ao universo feminino com a homossexualidade. Foi um caminho que Shinobu Yaguchi felizmente não trilhou. Ora algo me diz que seria demasiado fácil para Hollywood pegar na estória e ir pelo caminho da comédia sexual, como tantas vezes acontece. No máximo, temos actores em tronco nu bastantes vezes, devidamente justificadas pelo argumento para agradar ao público feminino (ou masculino), sem este se sentir culpado por isso (piscadela ao Taylor Lautner). “Waterboys” remete mais para a comédia de uma velha Hollywood de subversão das regras e do género mas com boas intenções. Na verdade, os 90 minutos caminham para o momento especial da grande performance em que os nossos rapazes encontram a verdadeira coragem, todas as promessas são cumpridas e os detractores são obrigados a engolir as suas palavras. Ah e, já referi que nos sentimos bem a seguir? Três estrelas.

Realização: Shinobu Yamaguchi
Argumento: Yasushi Fukuda e Shinobu Yamaguchi
Satoshi Tsumabuki como Suzuki
Hiroshi Tamaki como Sato
Miura Akifumi como Ohta
Koen Kondo como Kanazawa
Kaneko Takatoshi como Saotome
Kaori Manabe como professora Sakuma
Naoto Takenaka como treinador de golfinhos

E por que também ficámos imbuídos do espírito juntamos uma lista de dez filmes para deixar aquele sorriso nos vossos rostos.

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