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domingo, 29 de dezembro de 2013

"My wife is a gangster 2: The Legend Returns" (Jopong manura 2: Dolaon jeonseol, 2003)

A película está disponível online com legendas em inglês

Após o enorme sucesso de “My Wife is a Gangster” uma sequela teria de aparecer mais cedo ou mais tarde. Assim, volvidos dois anos, Eun-jin (Eun-kyung Shin) continua a gangster mais dura e temerária de todos. Após um confronto num telhado Eun-jin sofre uma queda que a deixa sem memória e a arrasta para uma vida muito diferente. Ela trabalha como moça de entregas num restaurante ao mesmo tempo que tenta descobrir a sua verdadeira identidade. Quem não parece muito feliz com essa possibilidade é Jae-chul (Jun-gyu Park) o dono do estabelecimento que vai tentando, sem grande sucesso, introduzir-se no coração e na cama de Eun-jin. Entram uns gangsters que querem arrasar o comércio tradicional para construir um centro comercial no local e revela-se a oportunidade ideal para Eun-jin (re)descobrir a sua vocação. Ele há coisas que nunca se esquecem e ser perito em artes marciais é algo que é capaz de não se perder da noite para o dia.

A estória, não é muito mais que a súmula de uma dezena de filmes anteriores, porque isto de escrever um argumento original dá muito trabalho. E não sucede sem alguns erros essenciais. Para os menos atentos, o titulo “My Wife is a Gangster”, implica que Eun-jin seja casada. No primeiro filme a vítima, perdão, o felizardo era Soo-il (Sang-Myeon Park), um solteirão que não sabia no que se estava a meter quando aceitou participar num casamento arranjado. Na sequela, este papel foi curiosamente eclipsado, não sendo referidas sequer as circunstâncias que ditaram o seu afastamento. O que significa que Eun-jin será divorciada. Cabe então a Jae-chul o papel de “marido”, sendo que as preferências de Eun-jin continuam tão vincadas como antes: “Que ninguém tente um contacto romântico ou o mais certo é levar um tabefe”. E a verdade é que ela não está fadada para muito melhor pois o dono do restaurante é tão pouco atraente quanto o anterior “parceiro” e este revela uma predilecção por tentar o contacto íntimo de cada vez que Eun-jin se encontra adormecida. Porque alguém iria achar semelhante comportamento romântico escapa-me por completo. Felizmente Eun-jin é uma mulher feroz e está mais do que à altura de impor um não, já que a alternativa seria a violação. Ao menos o pobre coitado do filme anterior era marido de Eun-jin, sendo que este se aproveita da amnésia dela para trabalhar a troco de um tecto e porventura ter alguém que o ajude com a filha adolescente. Junte-se pois a exploração laboral à lista de qualidades de Jae-chul.

Eventualmente Eun-jin recupera parte da memória e se é verdade que não há glamour associado à vida do crime, a alternativa, a de ser tratada quase como uma pessoa com uma deficiência mental não é muito melhor. Porquê sujeitar-se ao servilismo quando já foi tanto mais? Se em “My Wife is a Gangster” as personagens já estavam perigosamente perto do caricato, na sequela, isto é por demais evidente. Até Eun-kyung que oferecia ao papel uma dose de realismo credível à gangster dura mas sem noção dos factos da vida parece agora forçada e infeliz na personagem. Com o sucesso do primeiro filme, é como se tivesse entrado em curso um processo de infantilização das personagens e da narrativa até à linearidade. Pois, obviamente, se a narrativa for mais fácil de seguir, as piadas mais básicas e próximas da sexualidade ou do humor de casa de banho as audiências irão com certeza encontrar mais pontos de referência e como tal, afluir às bilheteiras. Ah, a ingenuidade.
As cenas de combate são o mais próximo de resgate de película embora as acrobacias sejam humanamente impossíveis. Aí entra o trabalho de arame que mantém a artificialidade constante do menino. Nem com uma breve aparição de Zhang Ziyi “My Wife is a Gangster” atinge a redenção. Quando muito soa a truque barato para capitalizar no sucesso (na altura em forte ascensão) da actriz chinesa. Boa. Pois precisam de toda a ajuda possível. Duas estrelas.

 Realização: Heong-sun Jeong
Argumento: Hae-cheol Choi e Heong-sun Jeong
Eun-kyung Shin como Eun-jin
Jun-gyu Park como Jae-chul
Se-jin Jang como Sang-eo Baek
Hyeon-kyeong Ryu como Hi-hyun Yun
Hyeon Ju como Gosachae
Mi-ryeong Cho como Eun-bang Geum
Jun-yong Choi como Jun-man
Seung-wook Kim como Wu-bung
Tae-hoon Kim como Tae-kyung
Hyeon-jeong Seo como Hyo-jeong

Próximo Filme: "Deranged" (Yeongasi, 2012)

domingo, 5 de maio de 2013

TOP Saga “Whispering Corridors” (1998-2009)


Trailer de "Whispering Corridors" (1998)

Duas belas tardes, nos idos de março (notem bem a referência cinematográfica, hã?), muni-me das armas essenciais de qualquer cinéfilo que se preze: chocolate, uma manta, lencinhos renova, que isto nunca se sabe quando a lágrima se forma ao canto do olho e decidi-me a visionar a saga de terror coreano “Whispering Corridors”.

“Whispering Corridors” é um dos primeiros clássicos do final dos anos 90 que contribuíram para a insanidade temporária ao redor do j-horror e k-horror. A saga gerou cinco filmes, o último dos quais estreou apenas há alguns anos (2009) e, provavelmente encerrou um dos capítulos mais famosos do cinema de terror sul-coreano. Impressões: as estudantes de liceu são bastante desenvolvidas em termos de físico (ou isso ou já contratavam actrizes mais novas para os papéis, só um pensamento), contem com uma percentagem de 0,00000000000123% de testosterona neste filme, toda a gente a dada altura pensa em matar-se ou chega mesmo a suicidar-se, os colégios femininos são um inferno e os tipos que trataram do marketing dos filmes são uns génios. Se desejam descobrir em que se baseiam estas impressões sigam sem demoras para o TOP Saga “Whispering Corridors” do Not a Film Critic.

1) “Whispering Corridors 2” – Memento Mori (1999): Min-ah é uma colegial demasiado curiosa para seu próprio bem que encontra o diário esquecido de uma colega de turma. Ao invés de o devolver ela dedica-se a explorar cada página que foi decorada como se de um tesouro se tratasse por Shi-eun e Hyo-shin de quem corre o rumor de que estão envolvidas romanticamente. Quando Hyo-shin salta do telhado da escola para a morte, Min-ah e as colegas começam a ser alvo de eventos sobrenaturais cada vez mais aterrorizantes. Conseguirá Min-ah descobrir a ligação entre o diário e o fenómeno antes que seja tarde demais?

2) “Whispering Corridors” (1998): O último ano de secundário inicia-se com uma tragédia. Park, uma professora a quem as alunas chamavam pouco afectuosamente de “Velha Raposa” é encontrada morta por enforcamento, na escola por duas alunas. Jae-yi é a típica rapariga tímida em quem ninguém repara até ao último ano e Ji-oh é a jovem artista cheia de talento que os professores conservadores adoram odiar. Elas encontram numa sala de aulas desactivada o local onde estudar e criar arte sem ninguém as incomodar. Diz-se pela escola que o local é assombrado pelo fantasma de uma antiga aluna que morreu ali 9 anos antes e que esse evento poderá estar relacionado com a morte da professora Park.

3) “Whispering Corridors 4: Voice” (2005): Young-eon passa os dias a treinar canto com a professora ou se deixa ficar até bem tarde de noite, no estúdio da escola. Um dia ela ouve um barulho e ao investigar, acaba por ser assassinada com uma pauta de música. Ela transforma-se num fantasma condenado a vaguear os corredores da escola até conseguir alcançar um qualquer tipo de resolução que lhe permita passar para o outro lado. A sua única esperança é a melhor amiga Sun-min que parece ser capaz de a ouvir do além. Recorrendo às últimas memórias antes da morte e a investigação no mundo dos vivos de Sun-min tentam descobrir quem está por trás da sua morte.

domingo, 13 de janeiro de 2013

“Zatoichi” (Zatôichi, 2003)



É difícil levar uma pessoa a sério quando a primeira memória que temos dela é de a ver pular e vociferar na série “Takeshi’s Castle”. Em Portugal a série foi transmitida no 3 canal com o nome “Nunca Digas Banzai”. O nome profissional do Takeshi Kitano à época era Beat Takeshi. Repito, como podia uma pessoa levá-lo a sério?

Eis que uma pessoa cresce, torna-se adulta, busca filmes a oriente e descobre que Takeshi reservava o lado sério para as actividades de representação e realização, onde optou por material mais taciturno. “Zatoichi” é uma obra revivalista da série de filmes imortalizada entre os anos 60 e 70 pelo actor Shintaro Katsu. A série tinha como herói Zatoichi, um massagista cego, que escondia uma aptidão para a luta com espada que só revelava quando se encontrava perante situações de injustiça. Kitano recuperou o personagem tomando para si os papéis de realizador, actor e argumentista. Ao invés de tentar emular o Zatoichi mais clássico de Shintaro, Kitano empresta-lhe a sua visão própria, o motivo mais notório, um cabelo curto de um louro platinado contrastante com as longas melenas negras tradicionais.
“Zatoichi” inicia-se com o personagem deambulando por entre uma localidade pobre, na qual os aldeões são explorados até ao último centavo por gangues mafiosos que não hesitam em destruir, pilhar, expropriar e matar para atingir os seus fins. Zatoichi cruza-se com Oume (Michiyo Ohkusu), uma aldeã que luta para sustentar a casa, já que o sobrinho Shinkichi (Taka Gadarukanaru) estoira os escassos recursos no jogo. O massagista cego ajuda-a a carregar um fardo e a mulher deixa o desconhecido pernoitar na sua casa, pela gentileza. Numa localidade acossada Oume confia na bondade do massagista. Ele é um homem de poucas palavras mas rapidamente provoca impressão na comunidade, a habilidade para o jogo e os reflexos de fenomenais de samurai não escapam ao olhar dos vilões que se prestam a dar-lhe uma lição. Mas Zatoichi esconde mais do que a vista alcança. Depois de uma vintena de filmes bem cotados, a última coisa que Kitano necessitava era de copiar o que já existia e foi isso mesmo que evitou. A palavra que melhor descreve o seu Zatoichi é subtileza. Há um afastamento consciente do protagonista da acção. Ele só serve para atar as pontas. A narrativa flui naturalmente sem a influência de Zatoichi, como se por algum motivo predestinado os dados já tivessem sido lançados. Ele só intervém quando parece já não existir resolução para os problemas que o rodeiam. Porque apesar da aparência indiferente ele preocupa-se com os desamparados, a marca de um samurai honrado, com ou sem visão. O samurai Hattori (Tadanobu Asano) é um samurai que aceita um trabalho para pagar os medicamentos da mulher doente. Asano surge também ele comedido no papel de antagonista com uma aura tão dual quanto a de Zatoichi e irá revelar-se o seu adversário. Zatoichi apesar de herói oculta um lado negro, enquanto Hattori, apesar da bondade intrínseca não pode evitar trilhar o caminho que escolheu. Mas assim que são tomadas determinadas decisões não há como lhes escapar.
Os problemas, onde eles existem encontram-se no ritmo lento deliberado e na utilização do computador para recrear os efeitos de sangue. Tendo por base tempos antigos e uma história antiquada salpicos de sangue apenas soam a preguiça. A intenção poderá ter sido, à semelhança do cabelo dourado, conferir um toque de modernismo à partitura. Esse momento está guardado para o momento musical final. É também possivelmente uma estória demasiado clássica. Já a vimos antes em “Seven Samurai” (1954) e “13 Assassins” (1963 e 2011) e em bastantes outros filmes desde então. No entanto, resulta. “Zatoichi” é mais um sinal de que por vezes menos é mais. Quatro estrelas.

Realização: Takeshi Kitano
Argumento: Takeshi Kitano
Michiyo Ohkusu como Oume
Tadanobu Asano como Hattori Gennosuke
Taka Gadarukanaru como Shinkichi
Daigoro Tachibana como Geisha Osei
Yuuko Daike como Geisha Okinu



Próximo Filme: “The Cabin in the Woods”, 2011

domingo, 9 de setembro de 2012

"A Tale of Two Sisters" (Janghwa, Hongryeon, 2003)



Janghwa, Hongryeon, que se pode traduzir qualquer coisa como "Flor Rosa, Lótus Vermelha", é a estória de duas irmãs que retornam ao lar após receber alta da instituição onde estavam internadas após a morte da mãe, para encontrar a nova madrasta Eun-joo (Jung-ah Yum), já lá a viver. Segue-se uma luta de poder pelo único elemento masculino da família disfuncional. A madrasta recebe Soo-mi (Su-jeong Lim) e Soo-yeon (Geun-young Moon) com deferências exageradas, imediatamente percebidas como falsas e, Soo-mi a mais velha e líder natural apressa-se a deixar claro que despreza as atenções que lhes são dirigidas.
A rejeição do novo elemento da casa, bem patente na personagem de Soo-mi, quando um dos pais volta a casar não é incomum. Na verdade estas relações não são se não um híbrido de simbiose, com a madrasta a desdobrar-se em comportamentos que a fazem parecer melhor do que na realidade é para atingir a harmonia familiar ou, pelo menos, a paz podre, enquanto se esforça para demonstrar ao marido que está a fazer tudo ao seu alcance para criar laços com as filhas de uma relação anterior.
No outro lado do espectro encontra-se Soo-mi que se recusa a reconhecer a nova madrasta, dando-lhe a entender que nunca será aceite. A madrasta nunca poderá substituir a sua mãe e, ter este pensamento sequer, é uma ofensa à sua memória. Soo-mi não se coíbe de deixar bem claro este pensamento à madrasta e ao pai Moo-hyeon (Kap-su Kim), que vê como um homem fraco. Ele devia ter sido capaz de resistir à solidão e à tentação, em honra de um amor anterior, puro e que lhe deu os dois bens mais preciosos que tem. Como pode ele negar o sangue por uma intrusa? Ela é melhor que ele por causa dessa rejeição extemporânea. Mas se Soo-mi sobressai como uma adolescente impulsiva e até malcriada, a madrasta não fica aquém de uma bruxa má. Soo-mi quer o pai só para ela e a irmã e Eun-joo quer que o marido demonstre a sua autoridade e a prefira sobre a filiação. Esta guerra que raramente ultrapassa o campo das palavras extravasa para o mundo físico quando Eun-joo começa a descarrega a sua frustração na frágil Soo-yeon. Quanto mais Soo-mi se recusa a dobrar a língua mais Eun-joo abusa Soo-yeon. Quem quebra primeiro? Quem ganha o controlo da casa e o amor de Moo-hyeon?
“A Tale of Two Sisters” baseia-se numa estória do folclore coreano, durante a dinastia Joseon denominada Janghwa, Hongryeon. O filme é uma adaptação livre pelo que o único perigo é o de reconhecermos notas simbólicos nesta ode à desarmonia familiar, provocada pela chegada de um novo elemento. Jee-woon Kim (“I Saw the Devil”, “Doomsday Book”) demonstra nesta obra um domínio da imagem e da cor apenas semelhante à de um pintor. Jee-won Kim pinta um quadro surrealista que não é perceptível na totalidade numa primeira visualização. Cada momento está carregado de simbolismo e não surge pelo prazer aleatório de se pintar uma imagem “bonita”. Onde se encontra então o factor medo? “A Tale of Two Sisters” é como a Mona Lisa. Um quadro perfeito em termos técnicos que esconde segredos sob a pintura. Além das implicações de uma família à beira da ruptura, onde Jee-woon joga com flasbacks que desorientam tanto a personagem principal como a audiência, o que não seria possível se não fosse suportado por tão espantosa actuação e o factor O, de onryo, faz a sua aparição habitual. Em 2003, o onryo era relativa novidade para o público ocidental e ainda teria um impacto superior. No entanto, “A Tale of Two Sisters” sobrevive de tensão palpável a todo o momento entre os familiares. As acusações que eles desejam fazer a todo o momento, os segredos mal escondidos, o complexo de Édipo, a síndrome de bruxa má mal disfarçado, o abuso de crianças, o desabrochar da sexualidade… “A Tale of Two Sisters” é um compêndio de tudo o que já vimos antes em termos do sobrenatural mas desconstruído de um modo que o onryo é a corporização de problemas mal resolvidos dos vivos. E com isto acabei talvez de fazer a maior revelação do filme. Parece demasiado fácil não é? Se virem “A Tale of Two Sisters” umas cinco vezes sim… “A Tale of Two Sisters” e obra-prima do k-horror não aparecem na mesma frase por acaso. Quatro estrelas.
Realização:  Jee-woon Kim
Argumento:  Jee-woon Kim
Kap-su Kim como Moo-hyeon Bae
Jung-ah Yum como Eun-joo
Su-jeong Lim como Soo-mi Bae (Janghwa)
Geun-young Moon como Soo-yeon Bae (Hongryeon)

Próximo Filme: "Shaolin Soccer" (Siu lam juk kau, 2001)

domingo, 26 de agosto de 2012

"Natural City" (2003)


É natural que todas as atenções se virem para um filme quando o marketing faz anunciar um “Blade Runner” moderno. É uma herança muito pesada para honrar quando se trata do FILME para muitos e, invariavelmente, figura dos nos top’s de melhores filmes de sempre ou do género da ficção científica. Se bem que a ideia de um “Blade Runner” moderno se afigura interessante, a incapacidade deste filme em chegar às mesmas alturas não é mais do que uma constatação de uma expectativa prévia, inclusive de quem não é parte imparcial no caso.
“Natural City” desenrola-se no ano 2080, numa altura em que os cyborgs estão ao serviço do ser humano para serviços que variam entre o trabalho mais árduo ao prazer. Para o Homem ainda resta trabalho como o policiamento da população, no qual se incluem R (Ji-tae Yu) e Noma (Chang Yun), por estes dias mais ocupados a combater cyborgs que de algum modo conseguiram escapar à sua programação e viraram "rebeldes" e o tráfico destas entidades. Típico dos humanos: mesmo com tudo controlado não conseguem deixar de ser desconfiados. E é confiança a palavra-chave. A amizade entre os dois homens é abalada pela paixão avassaladora de R pela cyborg bailarina Ria (Rin Seo). Apesar de não ser vista com bons olhos a relação é tolerada, até ao momento em que R se torna trapalhão e começa a deambular dentro e fora da lei, associando-se a personagens duvidosos como o excêntrico Dr. Giro. Ele recorre mesmo ao próprio tráfico que combate, tudo para salvar Ria da morte certa: os seus 3 anos de validade estão quase a terminar. Onde é que já vimos isto? Na sua corrida contra o tempo, R torna-se cada vez mais desesperado e desconectado da realidade, negligenciado os deveres policiais que permitem a Cyper (Doo-hong Joo) um cyborg perigoso, aproximar-se de uma importante base de ADN. Entretanto, o Dr. Giro apresenta-lhe a solução na pele da prostituta Cyon (Jae-un Lee), mas o que terá de fazer para salvar a sua Ria implica ir muito além de uma ofensa menor.
“Natural City” é francamente artificial. Qualquer oportunidade é boa para recorrer ao ecrã verde. As imagens são de tirar o fôlego e com uma qualidade superior até a alguns filmes de grande orçamento americanos, onde se atreveram a ser preguiçosos com a imagem digital. Provavelmente o título do filme advém de uma grande noção de ironia de Byung-shun Min. Mas é nos actores que a sensação de artificialismo é mais evidente. R é frio e quando não o é, limita-se a ser um asno. Infelizmente, sintomas clássicos da paixão, R parece perder todas as faculdades mentais, tomando as decisões mais desafortunadas. Decisões que, como é óbvio, não se limitam ao microcosmos que criou, a bolha de R + Ria onde ele é feliz e, o exterior pode arder à sua volta que ele não será mais indiferente. R passa toda a duração da película num estado depressivo, tem atitudes reprováveis e, não é o facto de estar prestes a perder a amada que o vai tornar mais simpático. Onde o Deckard de Ford era apenas lacónico, R é detestável. E o que ele vê em Ria é um mistério já que ela tem a personalidade de uma planta. Ela passeia pelo ecrã parecendo bonita mas sem contribuir alguma coisa para a sua causa. Se ela desaparecer não fará grande falta ao mundo, entendem? A Rachael da Sean Young era sofisticada, inteligente, respirava sensualidade por todos os poros. A audiência queria que ela sobrevivesse. Quanto a Rin Seo, o seu papel não tem substância suficiente para que possamos afirmá-lo mas, Ji-tae Yu, actor de “Oldboy” e “Into the Mirror” tem capacidade dramática mais do que suficiente para um papel tão inferior.
Salvam-se Cyon (Jae-un Lee) e Noma (Chang Yun) que supostamente servem de apoio à narrativa central. Os restantes cyborgs não possuem emoção, não têm presença humana que justifique a sua continuidade, não são replicantes. Numa análise fria são objectos. É aqui que “Natural City” diverge naturalmente de Blade Runner. Existe uma ausência de humanidade nos personagens humanos e cyborgs que tornam o conflito inócuo. Somos rapidamente confrontados com a inexistência de um cyborg à semelhança de um Roy Batty (“Blade Runner”), não teremos direito a meia dúzia de falas imortais. “Natural City” é fantástico em termos visuais mas, 70% do tempo é um melodrama, à boa moda coreana. Os fãs fervorosos de “Blade Runner” não têm motivos para perder o sono, o trono continua seguro. Mas um sucessor merecia mais. Não acham? Duas estrelas

Realização: Byung-chun Min
Argumento: Byung-chun Min
Ji-tae Yu como R
Jae-un Lee como Cyon
Chang Yun como Noma
Lin Seo como Ria
Eun-pyo Jeong como Croy
Doo-hong Joo como Cyper

PS: O trailer faz um excelente trabalho a esconder os problemas do filme. Parece melhor do que é.

Próximo Filme: "Shall we Dansu?", 1996

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

"Ong Bak: The Thai Warrior" (Ong bak, 2003)



Levar uma cotovela na cabeça não deve ser lá muito agradável. Pensado melhor, uma joelhada no abdómen também não. Mas é assim a meios que espectacular de observar, sobretudo se o realizador recorrer à técnica de “vamos repetir esta cena quatro vezes em slow motion, de ângulos diferentes”. Com estes artifícios existe a forte possibilidade do filme ser equiparado a um “série B” mas e, daí, também pode ser comparado ao John Woo (“Face off” e “Red Cliff”), o que, como podem imaginar, não deve ser lá muito aborrecido.

“Ong Bak: The Thai Warrior” decorre na longínqua Tailândia. Não naquela das praias paradisíacas e vida de reis mas na pobre vida rural onde a devoção pode (acredita-se), fazer toda a diferença. Tal como por terras portuguesas, os pescadores rezam pela santinha para que o mar não os engula e lhes permita trazer sustento para as famílias, na Tailândia, ora-se pelo “Ong Bak”, para que este os abençoe com uma terra fértil. Curioso mundo onde, de uma Europa ocidental a um sudeste asiático, as orações a diferentes divindades revelam a esperança de um destino similar. Tudo depende da bênção dos deuses e, quando a cabeça do Buda (“Ong Bak”) é roubada, a aldeia cai em desgraça. Sem uma divindade a quem prestar o culto os terrenos irão tornar-se inférteis e toda a vida morrerá. Ting (Tony Jaa) um jovem simples e devoto promete seguir os ladrões devolver o “Ong Bak” aos seus legítimos donos. O resto é história, quer dizer, não há grande estória, ele vai para a cidade, tropeça numa rede de tráfico de antiguidades, os ladrões descobrem que se meteram com o homem errado e o mundo (re)descobre o Muay Thai. 
“Ong Bak: The Thai Warrior” surge numa altura de relativa acalmia face ao mundo das artes marciais. Tirando os mais conhecidos como Jet Li e Jackie Chan e, com o desaparecer das velhas glórias dos anos 80, “Ong Bak: The Thai Warrior” surge extraordinário e supera as expectativas dos mais fervorosos fãs do cinema de acção. Tony Jaa é um grande atleta, como atestam as inúmeras cenas de luta e perseguição pelas ruas da cidade de Banguecoque. Ele são corridas desenfreadas, nas quais Jaa faz mortais como quem respira e, vejam só a coincidência, aterra em torneios de luta livre clandestinos. Mas ele não se desvia um milímetro do seu objectivo, nem pensar. Apenas uma questão o motiva: recuperar a cabeça do Buda e trazer de novo a prosperidade para a aldeia. Ele não luta à mínima provocação. Ele evita ao máximo demonstrar as suas habilidades atléticas excepto se vir situações de injustiça. Ele não suporta ver mulheres a ser fisicamente atacadas. Seria até de pensar que ele não fuma, não bebe e evitará até perder a virgindade antes do casamento. Tal é a pureza. Claro que depois dá pontapés, joelhadas, cotoveladas, murros incapacitantes e mortais mas só em último caso. Por muito agradável o pensamento que um homem que domina tal disciplina não é um vicioso. Não se deve estar mais longe da verdade. Ninguém é perfeito e, custa-me, mais uma vez, fazer de um homem tal modo superior em termos físicos, a todos os outros, um puro. É assustador pensar que uma pessoa com tal poder não é boa de coração mas, o inverso seria sempre mais interessante e, uma escapadela aos facilitismos de argumento. E já que menciono facilitismos, Ting tem um número de falas só comparável ao Arnold Schwarzenegger. Para apimentar um pouco a estória, visto que Jaa não prima pelo carisma, o seu personagem reencontra George (Petchtai Wongkamlao), um velho conhecido da aldeia que foi para a cidade ganhar a vida de um modo não tão honesto quanto isso. Ele conhece ainda uma miúda que é capaz de ter a voz mais irritante que já se ouviu em película. Imaginem o som de unhas a riscar um quadro… Agora, imaginem que estão a ouvi-lo num cinema com a melhor qualidade de som… Mas a mocinha, Muay Lek (Pumwaree Yodkamol) é praticamente inofensiva, uma santa de boca fechada. O melhor actor do trio improvável é, provavelmente Wongkamlao, que deve ter o maior número de falas no argumento. Face às limitações de Jaa como actor, hey o homem já é sobrehumano, que mais querem?! E à voz de Yodkamol, nem seria de esperar outra coisa. 
O que a audiência pode esperar são: cenas de acção intensas sem cablagem à vista, muito estremecer pelos pobres duplos e uma perseguição de “Tuk Tuk” (táxis de três rodas), pela cidade. Toma lá John Woo! E ainda um jovem com uma capacidade de reacção explosiva reminiscente (sim, eu atrevo-me a proferi-lo), de um Bruce Lee. Três estrelas.


Realização: Prachya Pinkaew
Argumento: Prachya Pinkaew, Panna Rittikrai e Suphachai Sittiaumponpan
Tony Jaa como Ting
Petchtai Wongkamlao como George
Pumwaree Yodkamol como Muay Lek

Próximo Filme: "Don't be afraid of the Dark", 2010

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Into the Mirror" (Geoul sokeuro, 2003)

O que se passou neste filme foi mais na linha de "Olha que truque giro" do que propriamente, "Sujei as calças", com o terror, estão a ver? Este thriller sobrenatural de Sung-ho Kim que também escreveu o argumento foi o tal que inspirou não tão vagamente assim o filme "Mirrors" (2008), com Kiefer Sutherland e o inferior "Mirrors" 2. Em "Into the Mirror", o ex-polícia Yeong-min (Ji-tae Yu) é obrigado a pedir ao tio emprego no seu centro comercial, depois ter sido expulso da força no seguimento de uma situação de reféns que terminou com o seu parceiro a ser assassinado à sua frente. Atormentado pelo passado, Yeong-min refugia-se no álcool e numa existência solitária. É um caso óbvio de arte a imitar a vida real no caso de Kiefer Sutherland. Bom casting! Adiante, num cargo claramente inferior às suas capacidades, o agora segurança de centro comercial passa os dias a visualizar as câmaras da loja. Uma noite, uma funcionária deixa-se ficar até tarde para se dedicar a pequenos roubos e na manhã seguinte é encontrada morta. Isto dá origem a uma investigação policial que leva Yeong-min a cruzar-se com um antigo colega que o despreza. Com uma segunda morte a suceder em menos de nada e a pressão do seu tio para reabrir o centro comercial, Yeong-min é obrigado enfrentar as suas inseguranças. Na resolução deste caso, estará a sua redenção e a realização de que afinal, Yeong-min ainda é um bom polícia.
Ah e tal, tudo bastante seguro, prevísivel até, no entanto, há uns pontos que me atormentam deveras. Desculpem lá qualquer coisinha, mas qual é a pessoa que fica num centro comercial, durante a noite, sozinha? Mais, quem é que depois de ver e ouvir vislumbres e sons estranhos ao invés de se dirigir à saída mais estranha ainda fica por lá? Ah e depois de roubar, os ladrões têm algum tipo de fetiche por exibir calmamente os objectos desviados? Pelos vistos... Yeong-min não é melhor. Durante mais de metade do filme, ele não faz nada de útil, excepto andar a sofrer pelos cantos. Ok, o passado atormenta-te, blá, blá, blá, agora recompõe-te e faz alguma coisa, sei lá, vigiar o centro que é para isso que és pago! Mesmo que a Yeong-min estivesse somente destinado o papel de segurança da loja, o seu desempenho é fraquissímo. Depois da segunda morte, Yeong-min devia ter sido logo despedido pelo tio. Se uma morte é má publicidade, duas demonstram uma inépcia gritante. Além disto, Yeong-min começa a mandar bitaites sobre o envolvimento dos espelhos nas mortes. Assumindo, que o absurdo é real, ele não apresenta provas que sustentem os seus argumentos nem faz mais do que deambular pelos corredores deprimido. Como se uma morte não fosse de suma urgência para ele acordar para a vida e ajudar a solucionar o caso. Por contraste, há o tal polícia que o despreza e que é suposto antipatizarmos mas com um herói tão mole é díficil dizer qual dos dois o pior. Atire-se para o meio um mistério sobrenatural e uma conspiração e temos a história do filme em linhas gerais. Infelizmente, os espelhos podiam ter tido um enfoque ainda maior.
Veja-se o titulo, "into the mirror", podia ter sido mais explorada a hipótese da existência de uma outra dimensão ou até uma fragmentação de personalidade. Não se pode dizer que a originalidade do argumento seja o ponto forte da história. O rítmo é lento, e podiam ter sido cortados uns bons 20 minutos de película que não servem para nada. O que o filme faz é deter-se demasiado no pathos de Yeong-min que é algo que se estabelece nos instantes iniciais do filme. Tudo o mais é bater no ceguinho. O melhor da película está nos efeitos criados em torno dos espelhos, com uma série de truques que servem alternamente as vezes de efeitos de infinito, profundidade e ilusões de óptica. Efeitos engraçados? Sim. Assustadores? Nem por isso. Para isso vejam o "Mirrors" com o Sutherland. Duas estrelas.

Realização: Sung-ho Kim
Argumento: Sung-ho Kim
Ji-tae Yu como Yeong-min Woo
Myung-min Kim como Hyeon-su Heo
Hie-na Kim como Ji-hyeon Lee / Jeong-hyeon Lee

Próximo Filme: "Coming soon" (Program na winyan akat, 2008)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"One Missed Call" (Chakushin Ari, 2003)

O filme "The Ring" (Ringu), saiu em 1998, (yep foi assim há tanto tempo), pelo já era tempo de perceberem que os telefones não trazem nada de bom. Ainda insatisfeitos, os cineastas sul-coreanos lá acharam que não era suficiente e que esta vaca ainda tinha umas tetas bem cheinhas para espremer e lançaram a sua própria interpretação com "Phone" (Pon, 2002). Em "One missed call" o aparelho continua a marcar uma sentença de morte mas o conceito é ligeiramente diferente. Se em "The Ring", as vítimas recebiam uma chamada a avisá-las que iriam dar o esticão final dentro de sete dias, neste último atendem o telemóvel e ouvem as suas últimas palavras antes de morrer. Cute, right? E não vale não atender o telefone, colocá-lo no silêncio, ou sequer ignorá-lo, que o emissor arranja sempre maneira de o fazer tocar, uma música infantilmente diábolica, non stop. Se não morrerem seja lá do que for, morrerão de enjoo da música. Uma vez tive um telemóvel que desligava e o alarme continuava a tocar. Isso não significa que estivesse assombrado. Ou será que estava? Adiante, se algum dos vossos amigos receber a chamada fatal, mais vale começarem a planear o vosso funeral! É que o fantasma é todo dado às tecnologias e consulta a lista telefónica para encontrar o seu próximo alvo. A sério. Nos dias de hoje nada como ser prático. Em "One missed call", os argumentistas não foram muito simpáticos, os personagens chegam a só ter apenas mais um dia até ao inevitável suceder. O que fariam se soubessem só tinham mais um dia de vida? Aqui é desperdiçado na esperança de o prolongar.
 
Esta aventura no mundo dos telemóveis assombrados é do grande Takashi Miike"Audition" (Ôdishon, 1999) para citar apenas um. O nome acaba por criar expectativas. Tal como estas são criadas estupidamente, quando se fala no James Cameron (ver "SANCTUM"). É um daqueles casos, em que o cineasta terá de saber claramente que este não é um bom filme. Não é. E não será com certeza dos trabalhos de que mais se orgulhará. Ok, tem uns bons sustos, a história anda ali na linha da previsibilidade, algumas mortes originais (estúdio de televisão?), a ocasional rapariga de cabelo negro com ar de sonsa mas, para o realizador que é, sabe a pouco. É bonzinho vá. Apenas, não acrescenta nada ao cinema de horror e japonês em geral. E para Miike, é muito, muito pouco. Nada tem do horror, do choque, do pontapé nos testículos, (os leitores do sexo masculino que me perdoem a imagem gráfica), de "Audition". Infelizmente. A rapariga de longos cabelos negros tornou-se um cliché. Quando isto sucede, o impacto reduz-se substancialmente. Em termos técnicos nada a apontar, ocasionalmente, a câmara aponta para um ângulo tão estranho que sabemos que ali vai acontecer qualquer coisa. Quer dizer, os fantasmas não têm as limitações físicas dos vivos. Paredes, tectos, armários, é uma festa. A actriz principal (Kô Shibasaki), também tem uma presença bonita e não compromete. Para quem gosta de J-horror e não importa de ver uma variação dos filmes acima citados, é uma boa aposta. Para os restantes é um profundo bocejo. Duas estrelas, bem espremidas de cinco.


Realização: Takashi Miike
Argumento: Yasushi Yakimoto, Minako Daira
Elenco:
Kô Shibasaki como Yumi Nakamura
Shin'ichi Tsutsumi como Hiroshi Yamashita
Kazue Fukiishi como Natsumi Konishi

Próximo Filme: "Dorm" (Dek Hor, 2006)

sábado, 9 de abril de 2011

"Acácia" (Akasia, 2003)

"Acácia" é um filme com uma premissa interessante mas que acaba por se perder e nunca ganha um rítmo ou acção interessantes. A história desenrola-se à volta de um casal Choi Mi-sook (Hye-jin Shim) e Kim do-il (Jin-geun Kim), que adoptam Kim Jin-seong (Oh-bin Moon), um menino de seis anos devido à incapacidade de conceberem um filho. Quando Mi-sook, inesperadamente, engravida, Jin-seong sente-se rejeitado e começa a demonstrar um comportamento cada vez mais bizarro, alienando os pais adoptivos, num processo que culmina com o seu desaparecimento misterioso. Os desempenhos parecem forçados e só o pequeno Oh-bin Moon se revela interessante sem ser isento de falhas. A minha grande crítica vai para Choi Mi-sook que parece, desde o início, ter sido forçada a alguma coisa. Tiveram de ser o sogro e o marido a convencerem-na a adoptar uma criança. É o amor de Mi-sook pelas artes, a única coisa de parece gostar, profundamente, em todo o filme que a une a Jin-seong. Quando vê os desenhos maduros de Jin-seong, algo lhe diz que é aquele o menino que deve adoptar. Aí vemos uma ténue ligação maternal que nos dá esperança de que a relação floresça. A partir desse ponto parece que Mi-sook se acomoda, o que vai fazendo ao longo do filme, até quando descobre que está grávida.
A reacção, ou melhor, ausência de reacção de Mi-sook, provocam danos irreparáveis na relação. Jin-seong não tem comportamentos tipicos, mas o que queriam quando o menino está só no mundo? Talvez a criança não seja assim tão estranha como pensamos e Mi-sook seja mesmo fria e não deseje realmente ter filhos. A própria mãe de Mi-sook, uma das personagens mais malvadas que vi nos últimos tempos, sem apontar uma pistola ou uma faca a alguém, faz questão que o menino de 6 anos saiba que ele não é neto dela e não pertence àquela casa, indo mesmo a ponto de sugerir que o casal devolva a criança ao orfanato. Que faz Mi-sook? Nada. Não admira que a criança se agarre a um mundo de fantasia no qual uma árvore é a sua verdadeira mãe. Ainda menos é de admirar que ela desenvolva comportamentos rebeldes e de atrito contra o irmão recém nascido Hae-sung (um dos bebés mais adoráveis a gracejar o écrãn, não duvidem). Mais uma vez, Mi-sook é inepta como mãe. Não compreende o sofrimento e grito de atenção da criança, não é capaz de mandar cortar a árvore nem de o mandar para o quarto para pensar naquilo que fez por um mês, sem a nintendo! Apenas se aliena mais da criança o que vai contribuir para o fim previsível de Jin-seong.
No meio da acção, está a Acácia, uma árvore decrépita que se encontra no jardim do casal a fazer não se sabe bem o quê. Se tivessem uma árvore morta no quintal, provavelmente já a teriam mandado cortar, digo eu. O menino é estranho, preferindo o mundo dos desenhos e desenvolve uma relação bizarra com a Acácia. De acordo com Jin-seung, numa noite chuvosa a sua mãe verdadeira saiu e transformou-se numa árvore percebem? É a única explicação dada na película para a estranha ligação afectiva entre o menino e a Acácia. Por mim, a mãe dele até podia ser um banco de jardim. E as constantes visões da árvore que enchem todo o écran com som a preceito são pouco eficazes. Dei por mim a aguardar pela cena em que um Mark Wahlberg em tronco nu nos diria com ar sério: "há algo nas árvores." Não sendo fã de sobrenatural por dá cá aquela palha já desesperava por que algo acontecesse. Qualquer coisa! Divago. Todo o pathos que se desenvolve com o desaparecimento de Jin-seong é pouco convincente. Não houve a vinculação que seria expectável da mãe para com ele. Por isso, não se percebe o sofrimento e a loucura exagerados ao quadrado, que a levam, aliás, a negligenciar o segundo filho. E o fim, embora prevísivel, é confuso. É como se os cineastas tivessem chegado à conclusão que os sustos não eram eficazes e precisavam de enfiar ali mais alguma coisa, tudo ao mesmo tempo. Não crítico a lentidão das falas nestes filmes. É uma questão cultural. Nos filmes asiáticos os actores tendem a falar na medida certa. Só assim se percebe o sentido de urgência muitas vezes presente nos filmes americanos. Critica-se sim, a ausência de cenas eficazes e que contribuam para nos levar a algum lado. E a Ácácia, o elemento fulcral do filme é a suprema falha. As tentativas de demonstrar o lado maternal da árvore, o súbito ganhar de vida não enchem as medidas. Lá está, já esperava que ela se levantasse, falasse e fosse embalar o Jin-seong. Nada. Assim, o filme é triste, previsivel e ficamos a pensar em tudo o que não devia ter falhado. Duas estrelas, muito puxadas, por que tentei gostar do filme, em cinco.

Próximo filme: "The Child's Eye" (Tungngaan, 2010)
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