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segunda-feira, 6 de abril de 2015

"Lost on Journey" (Ren zai jiong tu, 2010)


Ano novo, aquela altura maravilhosa em que muitos aproveitam para visitar a santa terrinha e rever os parentes que não viram durante todo o ano. Fruto da preguiça, comodismo ou se preferirem indiferença, há quem considere fazer uns meros 20 km um sacrifício e vá adiando a viagem. Ele há feriados católicos, nacionais, locais, um sem fim de oportunidades para visitar os parentes. Excepto se forem talvez cidadãos chineses. Muitos não se podem dar ao luxo de umas férias, outros não se permitem descansar e apenas resta apenas o período do ano novo. Trabalhar a milhares de quilómetros da terra natal nem sempre é opção e regressar é uma autêntica aventura. Todos os anos as filas de automóveis que ultrapassam inúmeras localidades, contos de viagens de comboio esgotadas fazem as manchetes dos jornais e ilustram o desespero de quem tem uma única chance para retornar a casa. Li Chenggong (Xu Zheng) e Niu Geng (Wang Baoqiang) encontram-se neste fluxo migratório gigantesco e fazem uma parelha improvável. Li é um homem de negócios arrogante que mantém uma vida dupla. Ele tem uma jovem amante perto de si, enquanto a mulher cuida da família na distante província de Hunan. Ele nunca sentiu remorso pelo seu comportamento até à data mas sente que deve regressar a casa nesse ano.  A paciente esposa Meili (Zuo Xiaoqing) começa a acusar o desgaste de um marido que pouco mais faz do que enviar dinheiro para casa e é estranho para a própria filha. Niu Geng é típico bom coração. Um pouco tonto, torna-se amigo de qualquer um e pela sua boa natureza é também de igual forma, enganado. O motivo da sua viagem é menos agradável. Também ele vai a Hunan mas para recuperar  dinheiro de um trabalho que lhe é devido. Dois percursos, um destino. As  suas personagens são as congéneres chinesas dos brilhantes Steve Martin e John Candy, este último e para infelicidade das audiências de todo o mundo já falecido em "Planes, Trains and Automobiles" (1987). O primeiro representa a classe alta, todo o pragmatismo e desafecto  pelas questões emocionais, o segundo possui a humildade descomprometida de uma classe social mais baixa e uma alegria pela vida e crença na sorte inabaláveis. Este último personagem perde algo da tragédia e da solidão tão evidentes no personagem do Candy. É mais indolor ser-se divertido e despreocupado certo? A película continua também presa aos lugares comuns do filme dos anos 80. Porque é que o rico tem de ser presunçoso e até degradável? Qual é o problema de se ter uma vida planeada e de possuir ambição? Por outro lado, custa a crer que ainda no século XXI se associe a pobreza de espírito a uma condição social mais baixa. Por outras palavras, Niu Geng surge como um pobre coitado que tem de ser ajudado pelo mais inteligente Li. No campo do amor e da vida familiar é o último que tem algo a aprender com simplório Niu Geng.

As aventuras por que passam são improváveis e confirmam até à última vírgula a "Lei de Murphy": tudo o que poderá ocorrer de errado irá acontecer. Assim, a parelha improvável consegue perder transportes, enfrentar desastres climatéricos,  encontrar acidentes e ser roubado. Os personagens vivenciam o desespero e impotência que milhões de pessoas atravessam durante o período da maior migração do mundo. Sem ser original, as situações são transportadas para a realidade chinesa de um modo credível e toca apenas ao de leve em alguns problemas sociais de modo a nunca perder a comédia de vista. "Lost on Journey" sobrevive da força da química de Xu Zheng e Wang Baoqiang e para quem recordar com nostalgia o filme de John Hughes. Três estrelas.
O melhor:
- Afinidade com a estória
- Excelente casting da dupla principal
- Factor Nostálgia
- Bom aproveitamento da cultura em que se insere.

O pior:
- Alguns momentos "Lost in Translation"
- Um desvio para ajudar os mais necessitados

Realização: Wai Man Yip
Argumento: Juan Wen
Baoqiang Wang como Geng Niu
Zheng Xu como Chenggong Li
Zuo Xiaoqing como Meili
Li Man como Manni

Próximo Filme: "Audition" (Ôdishon, 1999)

domingo, 18 de janeiro de 2015

"Body of Water" (Syvälle salattu, 2011)

Boa sorte para conseguir encontrar um trailer decente com legendas, pelo menos, em inglês.
Era uma vez um pobre moleiro que ao encontrar o rei exagera as qualidades da filha de modo a captar o interesse deste e chega a contar uma estória fantasiosa em como a moça consegue transformar palha em oiro. Decidido a dar uma lição ao moleiro, o rei manda fechar a jovem num quarto cheio de palha que terá de transformar em oiro, como declarado pelo pai, ou será executada. Durante a noite, a rapariga desesperada pela insensatez do pai e a expectativa de morte iminente, é visitada por uma criatura mágica que lhe propõe uma troca: ele fará a tarefa por esta, desde que ela lhe dê o seu colar. No dia seguinte, o rei fascinado perante a boa execução da tarefa dá-lhe ainda mais palha para fiar em oiro. À noite e perante novo apelo da rapariga chorosa o visitante continua o trabalho a troco de um anel. Pela manhã, o rei promete casar-se com ela, se esta transformar uma quantidade ainda maior de palha em oiro. Nessa noite, a rapariga, em pânico e sem mais nada com que negociar com o pequeno ser, acede a entregar-lhe o seu primeiro primogénito se ele a auxiliar uma última vez. Como bem saberão, a rapariga desta estória de encantar torna-se rainha e dona de grandes riquezas e o ser com quem firmou o pacto, Rumpelstilskin. Neste conto com final feliz, a rapariga aprende um ensinamento antigo mas sempre actual: ter cuidado com quem se faz um negócio e a não prometer aquilo que não se pretende dar em troca! “Body of Water” alia parte do imaginário dos irmãos Grimm ao folclore finlandês, em particular, do Nakki um espírito que atrai as crianças que se debruçam em parapeitos e margens demasiado próximas da água para a morte. Apenas mais uma estória criada como advertência para os perigos em que incorrem as crianças marotas que desobedecem aos pais.

Julia Mannerla (Krista Kosonen) é uma advogada que foi contratada para deter a destruição de um lago que deverá dar lugar a uma central de energia. Há muitos anos Julia morou naquele local com os pais antes de se mudar para Helsínquia. As memórias de infância não são agradáveis pois coincidem com o período em que a mãe adoeceu, dando lugar a uma mulher instável que nem reconhece os familiares a melhor parte do tempo. Julia tem ainda uma relação difícil com o pai mas ela é obrigada a apoiar-se neste pois está a divorciar-se e o filho Niko (Viljami Nojonen) ainda não tomou real consciência das consequências da separação dos pais. Como é de imaginar, o timing para a defesa de uma causa ambiental, num sítio que lhe traz memórias de eventos tristes, em pleno Verão e a braços com um filho menor não poderia ser pior. Ademais, a recepção dos habitantes do lago Hallow é hostil. Eles recordam-se de uma antiga família Mannerla que morou ali antes e da qual não guardam nem saudades nem simpatia mas se calhar, a chegada de uma advogada da capital que vem de repente dizer-lhes como viver, quando o lago nunca constituiu uma fonte de riqueza é demasiado atrevimento. Quanto a eles o lago pode desaparecer para todo o sempre, a protecção do ambiente é totalmente secundária perante a possibilidade de uma indemnização e um emprego estável. Para aumentar o stress de Julia, o local onde está alojada de modo temporário com o filho é a antiga escola primária, agora degradada e cuja canalização tem vontade própria. Entre o risco de uma inundação e infiltrações que colocam em causa a própria qualidade do ar que respiram, o lago não faz muito pela sua defesa. Niko encontra-se no seu estado mais desobediente e desafiante e insiste em aproximar-se dele, a despeito das ordens da mãe.
As semelhanças de “Body of Water” com o mais recente “The Babadook” (2014) quedam-se pelo desespero de um mãe cujo mundo ruiu à sua volta, com ela a assistir e sem nada poder fazer para o deter. A maior riqueza, a única que lhe resta é o filho. E a sua perda fará desabar o que resta das suas forças e sanidade. “Body of Water” tem um desenlace cuja explicação só é possível se considerarmos o receio dos argumentistas de que a audiência pudesse ficar de algum modo angustiada e, por outro lado, a manutenção do status quo da “existência de uma reviravolta” somente porque hoje em dia, já não é cinematograficamente aceitável que a narrativa seja linear. Como se a existência de uma reviravolta garantisse o efeito choque. Além disso, “Body of Water” sofre com uma personagem principal que tem uma história de fundo muito bem desenvolvida mas depois toma as decisões mais idiotas que se possam imaginar. Quando se realiza o teste da empatia, na pele de Julia poucos tomariam as decisões desta personagem. Restam os aplausos para a cinematografia que apoia a hipótese fantástica que é colocada em cima da mesa sem nunca esquecer as agruras da vida real. Duas estrelas e meia.

Realização: Joona Tena
Argumento: Pekka Lehtosaari, Joona Tena e Mikko Tenhunen
Krista Kosonen como Julia
Kai Lehtinen como Leo
Viljami Nojonen como Niko
Peter Franzén como Elias
Risto Aaltonen como Lantto
Kari Hietalahti como Koskela
Terhi Panula como Saara

O melhor:
- A personagem de Júlia
- Inspiração no folclore local
- A banda-sonora


O pior:
- Previsibilidade da estória mata o potencial e a possível excitação da audiência

Próximo Filme: "Macabre" (Rumah Darah, 2009)

domingo, 14 de dezembro de 2014

"The Sylvian Experiments" (Kyofu, 2013)


“Que raio é que acabei de ver?” foi a primeira reacção após o termino do filme. Para meu e vosso mal, esta única frase não serve como crítica de cinema e explica muito pouco pelo que vou forçar-me a tentar extrair um sentido coerente desta película japonesa.
“The Sylvian Experiments” abre com uma cena em que pacientes do que aparenta ser um hospital são submetidos a uma experiência bizarra que envolve brocas, cérebros expostos e choques eléctricos. A cena seguinte revela que afinal estes acontecimentos já sucederam há algum tempo e é agora um casal quem assiste aos eventos sobre a forma de documentário. Talvez seja um daqueles registos históricos um pouco aborrecidos que convém não ser exibidos ao grande público durante muitos e muitos anos, se é que o serão de todo. Eis que Etsuko (Nagisa Takahira), a mulher do casal, se apercebe que as duas filhas menores assistiram (a que parte, não se sabe ainda) ao filme. O que é assim um bocado chato.
Por fim (e calma que não passaram sequer dez minutos), temos um grupo de estanhos que seguem numa carrinha que estaciona num local isolado, junto a uma floresta. O que vão eles fazer perguntam vocês? Snifar umas linhas de coca? Uma orgia? Jogar Trivial Pursuit? Não. Fizeram um pacto suicida. Fixe. Por esta altura já terão dando uma pancada seca na cabeça e estarão a censurar-me pela sobre-exposição. Mas não, ainda não sabem nada. Miyuki (Yuri Nakamura) uma das raparigas que desistiu de vier era uma das crianças que apanharam os pais a ver filmes porcos (sangue e miolos, entenda-se), como tínhamos visto uns minutos antes e agora a outra, Kaori (Mina Fuji) está perturbada com o desaparecimento da irmã e decide armar-se em pseudo detective. Ela fala com a polícia, pernoita na casa dela, contacta com o namorado desta e nos intervalos alucina com luzes brilhantes. A partir daí o significado desvanece-se numa névoa. “The Sylvian Experiments” é pois uma daquelas bestas ambíguas que levantam mais questões do que apresentam respostas e polarizam opiniões. Herdeiro de “Ringu” (1998), “Ju-on” (2000) e outros sucedâneos mais antigos, “The Sylvain Experiments” afirma-se como um animal diferente. A ligação com um objecto como intermediário na ligação entre o mundo espiritual e o dos vivos (uma casa ou um telefone, por exemplo), não é visível mesmo que aborde, como sempre, os temas da vida e sobretudo da morte. Um caminho possível seria a exploração do sulco lateral do cérebro, também conhecido como a fissura de Sylvius, que lhe confere, afinal o titulo anglo-americano mas este território é logo afastado. Entre as piores ideias também não se encontraria o enfoque no sentimento de perda de Kaori trilhando a infância das duas irmãs, a relação difícil com a mãe e o evento que motivou o seu distanciamento. No entanto, até esta linha de pensamento é estéril.
O mais próximo de um vislumbre de significação advém da obsessão de uma médica com a vida após a morte (mini flashback de “Martyrs” de 2008). Se bem que até esta nunca esboça um motivo para a obsessão. O resto do elenco está ainda mais perdido. Miyuki poderá ou não ser uma suicida relutante e Kaori que afirma desejar encontrar a irmã não se parece importar com os avanços amorosos do namorado desta. Como não surgissem respostas, quer do rumo da investigação quer, mediante o recuso à analepse para fornecer algum insight para o desejo mórbido de Miyuki em pôr termo à própria vida, resta uma Kaori apagada. A personagem de Mina Fuji é capaz de ser a personagem feminina mais fraca desde a estreia do primeiro Ringu, já lá vão 16 anos. Isto, a despeito de ela ser apresentada como a única luz num quotidiano cinzento. A realização opta pelos tons cinza no que se refere ao resto do mundo, mas irrompe de cor quando Kaori interage com os outros. Com ela o mundo ganha cor. Mas até aqui os apontamentos de cor são pessimistas, pois a cor privilegiada para enfatizar o contraste é o encarnado, longamente associado em cinema com a morte. Fuji precisa de toda a ajuda que lhe possam dar pois Kaori marca os momentos mais enfadonhos da pelicula. Kaori é uma detective que pouco faz de concreto. Se a início colabora com a polícia, logo se esquece deles perante uma primeira pista. Alia-se de modo cego ao namorado daquela e sem pudor acede às investidas amorosas deste. Ela é ineficaz, ele é ineficaz, a polícia é ineficaz. São todos ineficazes juntos. Um possível drama familiar descamba numa teia difícil de descortinar, com estórias de vampiros, virgens suicidas, recordações de meninice agridoces e alucinações que são atirados a eito para o caldeirão. E o final não é mais que o embuste típico dos cobardes. “The Sylvian Experiments” mais se assemelha à confluência de dois ou 3 argumentos que por si só se calhar tinham mais poder que a amálgama que daí resultou e que carecia de uma edição séria. Lamento não conseguir alcançar na sua total extensão a significação que me era pedida mas confesso que me perdi a meio da aborrecida viagem. Duas estrelas.

Realização: Hiroshi Takahashi
Argumento: Hiroshi Takahashi
Yuri Nakamura como Miyuki
Mina Fuji como Kaori
Nagisa Takahira como Etsuko

Próximo Filme: "The Protector" (Tom Yum Goong, 2005)

domingo, 14 de setembro de 2014

"71 into the fire" (Pohwasogeuro, 2010)


Todos os países padecem de momentos menos felizes, uma espécie de loucura colectiva que leva a que irmãos combatam entre si, traumatizando gerações inteiras. No meio destes eventos surgem histórias de coragem, façanhas enaltecidas pelos que foram favorecidos por elas e cujos pormenores negativos são propositadamente obscurecidos de modo a alimentar um sentimento patriótico nas gerações futuras. “71 into the Fire” é baseado numa estória verídica que decorreu durante o conflito coreano (1950-1953), na qual 71 estudantes com pouca ou nenhuma formação militar aguentaram durante 11 horas, uma escola em Pohang, ponto estratégico fulcral para os invasores norte-coreanos da companhia 766.

A narrativa apresenta Seung-hyeon Choi como Jang-beom Oh, um estafeta aterrorizado que é colocado na posição ingrata de líder dos estudantes que são largados numa pequena escola para raparigas em Pohang. Depois de falhar espetacularmente num primeiro confronto com o inimigo, ele recebe o voto de confiança do Capitão Seok-dae Kang (Seung-woo Kim) para guardar a escola que, à partida não deverá constituir um alvo importante para o exército norte-coreano. As circunstâncias mudam e os 71 jovens mal preparados e com poucas munições encontram-se perante um exército arrogante, numa manifestação de força e sem qualquer apoio daqueles que os destacaram para a posição. “71 into the Fire” foca-se mais na batalha interior de Jang-beom se erguer à altura da situação como convém e inspirar os camaradas para a batalha das suas vidas. Desde o início a sua liderança é questionada pelo delinquente Gap-jo Koo (Sang-woo Kwon) e os que este recruta para o seu "lado". Para ele não existe um verdadeiro sentido de causa, o mundo é um lugar aterrador, onde é cada um por si. Não existe lugar para heroísmo ou sentimentalismo. Se calhar é o personagem mais realista em toda a película. Mas felizmente, a história faz-nos recordar que há lugar a milagres quando as pessoas se juntam para combater as forças do mal (o que quer que elas sejam). Gap-jo Koo cai na armadilha de se aproximar dos camaradas que atravessam a mesma situação e nos momentos críticos, revela-se o anti-herói que os setenta companheiros de desventura merecem e a bomba de oxigénio perfeita para Jang-beom descobrir a força que lhe faltava para os liderar.

Se a primeira metade do filme se arrasta, são os últimos momentos antes do embate que melhor demonstram o que aqueles jovens deverão ter sentido antes do embate. Num momento eram crianças, no outro os seus olhos assustados mostravam-nos como Homens. A reconstituição histórica sofreu uma influência óbvia de filmes mais realistas como “Saving Private Ryan”(1998) o que certamente o eleva acima do mero instrumento de propaganda baseado em factos reais. O elenco é também competente sendo que o mais conhecido será o cantor pop T.O.P. (Seung-hyeon Choi) que no papel de um introvertido e pouco confiante líder não compromete, demonstrando até que com tempo e experiência terá muito mais a dar no campo da 7ª Arte. Uma jogada de mestre, pois atrai as fãs do “cantactor” sem alienar quem procura um filme mais sério. O final é o standard do género com explosões, discursos inflamados e acrobacias de cortar a respiração. O prazer adiado por vezes sabe melhor e no caso em questão, fora ele mais tardio e “71 into the Fire” perdia o motivo de interesse. De facto, as tácticas para ganhar tempo e o confronto directo só pecam por escassez. “71 into the Fire” não é original mas cumpre a promessa de uma estória empolgante que poderá agradar quer a sul-coreanos quer a um público internacional. Três estrelas.

Realização: John H. Lee
Argumento: Man-hee Lee, Dong-woo Kim e John H. Lee
Seung-hyeon Choi como Jeong-beom Oh
Sang-woo Kwon como Gep-jo Koo
Seung-woo Kim como Seuk-dae Kang
Seung-won Cha como Moo-rang Park

Próximo Filme: "Life After Beth" (2014)

domingo, 13 de julho de 2014

"Cyrano Agency" (Sirano: Yeonaejojakdo, 2010)


Cyrano era aquele que se escondia nas sombras e entoava o seu amor para que alguém menos nobre que ele conquistasse a rapariga dos sonhos de ambos. Era alguém que deixava a insegurança advinda da sua fealdade (um nariz proeminente é algo assim tão feio?), disfarçar-se de altruísmo e intrometer-se na sua felicidade. Ele subestimava-se a si próprio e ao objecto da sua afeição. A sua Roxanne iria apaixonar-se por alguém com a bênção de Cyrano e ela iria viver feliz para sempre.


A agência Cyrano foi criada por Byeong-hoon (Tae-woong Uhm) e a trupe de actores Min-yeong (Shin-hye Park), Jae-pil (Ah-min Jeon) e Cheol-bin (Cheol-min Park) que lutam para manter o teatro onde faziam performances aberto. Para o salvar, nada melhor do que utilizar o talento para a representação e formar uma agência para através da decepção unir corações solitários à sua alma gémea. Eles revelam-se talvez melhores nesta linha de negócio do que a anterior e em breve são contactados pelo desajeitado Sang-yang (Daniel Choi) que quer conquistar a belíssima mas ferida Hee-joong (Min-jung Lee). A equipa entra em acção e transformam Sang-yang num solteiro elegível e desejável mas tudo se complica quanto Tae-woong descobre que o alvo do estratagema por ele desenhado é Hee-joong, um antigo amor, por quem ainda nutre sentimentos bem vivos. Byeong-hoon pensa que encontrou a oportunidade perfeita para se reconciliar com Hee-joong e resolver o que ficou por terminar, mas terá de enfrentar a desconfiança da equipa, em particular, da esperta como uma raposa Min-yeong. Entretanto, o cliente mantém-se às escuras relativamente às verdadeiras intenções de Byeong-hoon. “Cyrano Agency” apresenta algumas camadas mais que a estória retratada no cinema, entre outros, por Gérard Depardieu e Steve Martin. Desta feita é Byeong-hoon o Cyrano e Hee-joong a sua Roxane sendo que o fantasma entre ambos não reside em algo tão superficial quanto o nariz dele mas o passado. A relação falhada deixou feridas abertas e tanto Hee-joong como Byeong-hoon não conseguem manter uma relação no presente. É a chegada do novo pretendente que precipita a necessidade de resolução em Byeong-hoon, cujo historial amoroso é desvelado em flashbacks. Ao contrário do material que homenageia Sang-yang não é de modo algum inferior ao seu oponente. Ele é desajeitado sim e talvez não possua a carreira ideal mas os sentimentos por Hee-joong são reais e tenta compensar a ausência de inteligência no plano do amor com os serviços da agência. No entanto, a sua personagem nunca se demonstra pouco mais do que uma peça no jogo de Byeong-hoon. É pois na personagem de Hee-joong que reside a maior surpresa. Pela primeira vez, Roxane é mais do que uma donzela à espera de ser salva. Ela é inteligente e sabe o que quer. Não se deixa enlevar apenas porque criaram as condições para tal, ela deixa-se enlevar porque reconhece algum mérito em Sang-yang e sabe que chegou a altura de voltar a abrir o coração magoado. Min-jung Lee é a verdadeira heroína de “Cyrano Agency”. A sua interpretação fabulosa é uma bofetada para os que colocam a comédia abaixo do género dramático, no que à excelência dos desempenhos diz respeito. Com os olhos conta um milhão de histórias. Eles irradiam curiosidade, dúvida, determinação, enlevo, dor, desilusão e esperança renascida como um feliz arco-íris. Não sobra é muito para os restantes actores trabalhar. De facto Cheol-bin e Jae-pil que constituem peças fundamentais da engrenagem (eles permitem, através dos seus conhecimentos técnicos a montagem das cenas mais improváveis) e Min-yeong (Shin-hye) que tão bem contrapõe Byeong-hoon têm um papel diminuto para o seu potencial.
Pausa dramática de Byeong-hoon
A dada altura, numa espécie de moral antecipada são apresentados os efeitos da interferência dos actores na vida das pessoas e da sua predisposição para aceitar qualquer cliente mas nem assim, é colocada em causa a sua boa-vontade e dedicação. Alguns dos personagens querem salvar o teatro, outros apenas perseguem o amor. Como sentir antipatia por eles? Isto é ainda mais acentuado pela ausência de um verdadeiro vilão. As relações são complicadas, as pessoas podem sair traumatizadas mas ao final, mesmo que fora de cena, todos acabarão por ter um final feliz. Enquanto este não chega, divirtam-se com a encenação dos engenhosos estratagemas de sedução pela equipa. Até Cyrano teve eventualmente sorte. Três estrelas.
O melhor:
- Os planos engenhosos da agência Cyrano;
- Representação de Min-jung Lee e Tae-woong Uhm
- Divertido e comovente em doses equilibradas

O pior:
- A fraca utilização do extenso elenco
- Duração excessiva

Realização: Hyun-seok Kim
Argumento: Hyun-seok Kim
Tae-woong Uhm como Byeong-hoon
Min-jung Lee como Hee-joong
Daniel Choi como Sang-yang
Shin-hye Park como Min-yeong
Ah-min Jeon como Jae-pil
Cheol-min Park como Cheol-bin

Próximo filme: “Chantahly, 2012”


PS: O sucesso de “Cyrano Agency” foi tão grande que até deu origem a uma série com o mesmo nome. Se quiserem ver mais dos engenhosos planos da Agência Cyrano procurem a série televisiva disponível online.

domingo, 25 de maio de 2014

"Just another pandora's box" (Yuet gwong bo hup, 2010)


São fãs de “Red Cliff” (2008-2009), “A Chinese Odissey” (1995), “Titanic” (1997) ou mesmo salpicos de “The Matrix” (1999)? Não se preocupem que “Just Another Pandora’s Box” apresenta todas estas estórias, ao mesmo tempo. Batidas, não mexidas.

“Just Another Pandora’s Box” é um produto que podia ter sido manufacturado e cospido pela máquina de Hollywood. A única diferença é que o humor, regional, dificilmente poderá apelar a quem desconhece algum dos filmes reinterpretados nesta produção cantonesa.

Qing Yise (Ronald Cheng) é um bandido com um péssimo timing. Ele consegue enganar uma deusa para lhe roubar uma espada mística que decerto lhe irá valer um bom preço no mercado negro, mas comete o erro de a desembainhar mediante o embuste de outro Deus. Rose (Betty Sun) acorda para um Qing a empunhar a espada e jura persegui-lo para todo o sempre quer este queira ou não. É que ela jurou unir-se àquele que fosse capaz de a desembainhar. E aqui teríamos um bom título alternativo para o filme ("Perseguição sem Tréguas"?) já que Qing foge de Rose como o diabo da cruz, agindo até como se ela fosse hedionda (ela é das actrizes chinesas mais bonitas da actualidade). E aí reside parte da piada. A piada remanescente encontra-se nos inúmeros gags que atravessam eras e eventos históricos como a célebre batalha de Red Cliff, sempre com Qing a tentar escapar-se da Deusa carente, por entre aparições de personagens locais míticos como o feroz guerreiro Guan Yu. Após salvar o filho de Liu Bei (Yuen Biao) e inadvertidamente entregar a caixa mágica que lhe permite viajar no tempo ao vilão Cao Cao (Guo De-Gang) Qing vê-se forçado a colaborar com a longa lista de personalidades históricas para conseguir regressar ao seu próprio tempo. Dizem até os créditos iniciais que Jackie Chan, Stephen Chow, Jet Li, Chow Yun-Fat, Maggie Cheung, Zhang Ziyi e a Angelina Jolie, recusaram todos participar no filme. Se depois disto ainda estiverem à espera de um filme com algum grau de seriedade preparem-se para uma grande desilusão.

O elenco não chega para as inúmeras oportunidades de comédia que quase se atropelam umas após as outras. Quase que para evitar que a audiência perca o sorriso, são apresentados gags sucessivos, a ver se algum cola. Por outro lado, ninguém pode levar a sério grandes actores se estes surgirem em pouco mais que uma cena. Quando estivermos refeitos do choque já terá sido apresentado novo actor famoso / starlet / ídolo do cantopop actual. Melhor conselho que o de (re)ver os clássicos em que se baseia não existirá. Se bem que o facto de “Kung Fu Panda’s”, “Matrix” e “Titanic” (a personagem feminina até se chama Rose, duh!) e outros que tais surgirem em catadupa ajudam a uma melhor compreensão de que coisa estranha se encontra a passar no ecrã, mas estaria a mentir se considerasse que estes chegam para o efeito. Se tanto, no conjunto da película, estas cenas constituem os momentos mais fracos de “Just Another Pandora’s Box” pois fogem do nicho popular e mitologia locais em que a película se encontrava para tentar agradar a uma audiência mais vasta que por essa altura já desistiu do filme.
“Just Another Pandora’s Box” é aquele tipo de comédia auto-referencial que conhece as audiências que está a tentar atingir e nem sequer se preocupa em ser um pouco original. Para quê mexer em fórmula vencedora? Vale pelos cenários e pelas caras conhecidas que de estória tem muito pouco. Duas estrelas.

Realização: Jeffrey Lau
Argumento: Jeffrey Lau
Ronald Cheng como Zhao Yun
Betty Sun como Rose
Gigi Leung como Emaixadora do Turquestão
Athena Chu como Nuvem Roxa
Eric Tsang como Zhuge
Bo Huang como Zhou Yu
Yuen Biao como Liu Bei
Guo De-Gang como Cao Cao
Yi Huang como Xiao Qiao
Lik-Sun Fong como Guan Yu

Próximo Filme: "Dark Skies" (2013)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Pocong Rumah Angker, 2010

Sugestão: Saltem o trailer e passem directamente à visualização com legendas em inglês no youtube

Se não existir mais nenhuma característica redentora da generalidade do cinema de terror indonésio, que ao menos se aprecie a inocência. Quando se valorizam as narrativas ultra-complexas que redundam em estórias absurdas (ainda que tenhamos relutância admiti-lo), há que dar espaço às falsas narrativas que não são mais que uma sucessão de eventos repetidos, num movimento circular com enfoque nos corpos dos intervenientes, no gag que puxa a gargalhada e enfim, no terror.
Zak e Pung são dois rapazes desmiolados que decidem realizar filmagens durante a noite (óbvio!) na casa assombrada local para o jornal da escola. Haverá algo mais emocionante que uma casa assombrada? (Não respondam). Estes estarolas, com pouco ou nenhum jeito para seduzir o género feminino conseguem atrair as colegas de turma Joanna e Debbie para o seu projecto e não tarda, todos se vêem alvo de manifestações sobrenaturais. Pocong Rumah Angker não deixa nada para a imaginação e significa literalmente, pocong (fantasma enrolado num sudário) numa casa assombrada. Por isso, não é de estranhar que ao fim de segundos tenhamos a primeira aparição que surge sob a forma de uma bailarina de Jaipong, de um pocong e ainda anciões versados na arte de combater as trevas. Para aqueles lados há imensos peritos em combater aparições inesperadas. Não se preocupem. “O que foi retirado deve ser devolvido” e só assim terá “descanso eterno” e coisas que tais. Mais fácil de falar do que fazer com uma trupe que tem como cabecilha Zak, que desconfio, empresta mais de si ao papel do que conseguiu descarnar a sua personagem. Pocong Rumah Angker é “Zakocêntrico”, disso não restam dúvidas. A personagem confunde-se com o actor com o mesmo nome e aproveita para qualquer oportunidade para improvisar dando lugar a cenas involuntariamente engraçadas pois, enquanto Zak dispara falas de cabeça, os restantes actores tentam desesperadamente manter-se nas personagens. Não faço ideia o que passou pela cabeça do realizador, se deu instruções para os actores seguirem o “show de Zak” ou se acreditou na magia em directo e deixou a película rolar. Uma aposta arriscada se querem que vos diga pois com 77 minutos de duração, não há muito sumo para se espremer. Surpreendente é o número de piadas sexuais e alusões homoeróticas, para bem da comédia claro, num país que se crê muito conservador. Existe de tudo, desde piadas com testículos e erecções à possibilidade de ósculos entre homens e partilha de cama… Enfim, tudo o que se podia esperar do cinema coreano e das comédias sexuais americanas, à la “American Pie” (1999), que se encontram atualmente num estado comatoso.
Diz que Pocong Rumah Angker é de terror e é aí que os problemas se agravam. Desde o início que a assombração é posta a descoberto e, além de uma ocasional aparição não se pode dizer que os fantasmas sejam muito assustadores. A maquilhagem horrenda assemelha-se a um disfarce de Halloween que correu mal. Já para não mencionar o styling exactamente igual ao de filmes anteriores. Ora, onde é que já vimos mulheres de cabelos desgrenhados com aparência atemorizante? A verdadeira tragédia reside no não aproveitamento da única ideia criativa que poderia elevar Pocong Rumah Angker a um patamar superior. Por momentos, há um laivo de reflexão, de tragédia escondida que poderia impactar em definitivo os nossos tontos personagens e depois, demasiado rápido, desaparece, para dar lugar aos pocong, aos kuntilanak (espíritos), às casas assombradas, num eterno movimento circular. Que ninguém diga que os espectadores não gostam de previsibilidade. Uma estrela e meia.

Realização: Koya Pagayo
Argumento: Ery Sofid
Zaky Zimah como Zaky
Donita como Joanna
Pamella Bowie como Debbie
Krisna Patra como Ipung
Radith

Próximo Filme: “Dead Sushi” (Deddo Sushi, 2012)

domingo, 30 de junho de 2013

"Toilet 105" (Hantu Toilet 105, 2010)



Sou toda por casas-de-banho assombradas. Porque não? Se nos dizemos fãs do género de terror temos de ser destemidos. Mesmo que isso signifique ver películas para adolescentes indonésios com uma visão de comédia e de terror muito próprias. Como seria de esperar os valores estão bastante arreigados à religião pelo que o facto de uma rapariga andar com as pernas nuas é motivo suficiente para a considerar uma vadia.
A sudeste nada de novo, Marsya (Coralie Gerald) muda-se para uma nova escola onde é recebida com muito entusiasmo pelos rapazes e rejeitada pelas miúdas populares residentes que não estão habituadas a que lhes façam frente. A adaptação não é fácil visto que a pobre Marsya é alvo das partidas das rufias, ao mesmo tempo que é cortejada por Okta (Ricky Harun)o fraco galã de serviço anterior namorado de uma das rufias da escola. Como impedir que a nova miúda se tornasse num alvo? A dificultar a adaptação está ainda o facto de Marsya começar a ter todo o tipo de encontros sobrenaturais sempre que vai ao quarto de banho. Com os encontros a intensificar-se e a notícia de que Adelia, uma antiga aluna desapareceu, Marsya decide investigar o caso.
“Toilet 105” devia vir com um aviso: “Se for da opinião que os adolescentes são criaturinhas irritantes não veja este filme”. E na verdade, é um conjunto de estereótipos universais irritantes. A miúda nova é gira, humilde e reúne toda uma série de qualidades; o engatatão de serviço tenta seduzir a novidade da escola; as miúdas populares são giras e más para os colegas e o mundo dos adultos está quase à margem do dos miúdos. Se conseguirem viver com a convencionalidade dos personagens e da narrativa não será uma experiência demasiado penosa. “Toilet 105” não é das piores experiências de terror a sair da Indonésia. Tem a favor o facto de não ter um orçamento tão baixo como outros conterrâneos. E o elenco está claramente vocacionado para uma audiência mais jovem, com actores ainda com bastantes anos de aprendizagem pela frente e humor local. Uma das críticas mais injustas que se podem fazer após o visionamento de um filme de origem geográfica e cultural longínqua é a de que não tem sentido de humor. Quem é o crítico para julgar, sem qualquer tipo de referência anterior o que apela à gargalhada de outros? O espirito da casa-de-banho 105 é um dos pontos fracos da película. A caracterização deixa bastante a desejar. Ainda assim é exibido em qualquer oportunidade. A subtileza não é o forte dos cineastas mas não é como se cabos de arame estivessem visíveis (Karak, 2011). Este também é um daqueles casos em que o título do filme não deixa margem para duvidas: “Toilet 105” não é para ser levado a sério. Desde a “Moaning Myrtle” da saga Harry Potter, que não se encontra espírito capaz de incutir o receio por fantasmas de casa-de-banho. Quem consegue bater uma adolescente choramingas?

Longe de mim implantar ideias erróneas na cabeça dos meus ricos leitores mas fica a sensação que “Toilet 105” surgiu com o intuito de se fazer um filme sobre uma casa-de-banho assombrada e que a estória veio depois. Já agora, alguém é capaz de me explicar porque é que o espírito parece tão interessado em assombrar casas-de-banho de rapazes e de raparigas? Se, como um dos personagens questiona a dada altura, a aparição está ligada ao local onde faleceu, porque é que esta não se queda por um único sítio? Claro que a casa-de-banho traz algumas ideias de assombração interessantes, digamos que um urinol e uma cena à “Ring” (1998) é muito engraçada. Isto, se pretendermos sorrir. Se a ideia for ficarem aterrorizados irão ficar desiludidos. Mas e daí, não teriam escolhido um filme como o nome “Toilet 105”! Uma estrela e meia.

Realização: Hartawan Triguna
Argumento: Ve Handojo e Melody Mucharansyah
Coralie Gerald como Marsya
Ricky Harun como Okta
Aming Sugandhi como Satpam
Indra Birowo como Senhor Wahyu
Suti Karno como Senhora Endang
Leonil Tikoalu como Ical
Rizki Putra como Rio
Navi Rizki como Viola

Próximo Filme: “Blind” (Beul-la-in-deu, 2010)

domingo, 16 de junho de 2013

"Paranormal Activity 2: Tokyo Night" (Paranômaru akutibiti: Dai-2-shô - Tokyo Night, 2010)


No princípio era o verbo, a palavra e depois a rima,
que provocou reacções como se fosse uma enzima.
No princípio era a tesão, a fúria e a sofreguidão,
depois veio a calma, procura do saber e a satisfação.

Da Weasel in Iniciação A Uma Vida Banal - O Manual 

Perdoem-me se comparo o “Paranormal Activity” a qualquer sensação parecida com prazer e bem-estar (na verdade não peço, não).  Se os da Weasel podem ir beber ao Evangelho de São João, não me parece desproporcional utilizar tais termos para o mais recente fenómeno do cinema de terror. Ele era o “melhor filme de terror da década”, ele era “arrepiante”, ele era a frescura por oposição aos anos de desgaste do subgénero torture porn, ingenuamente conduzida pelos criadores de “Saw” e o Eli Roth. E se acredito fortemente, que o sucesso de “Paranormal Activity” se deveu em parte a reboque do facto de as pessoas estarem sequiosas por uma nova experiência de terror, isto não o torna menos eficaz. A estória de um casal simpático acossado por forças invisíveis, que podia ser nosso vizinho, bebe-se de um trago ao contrário do sadismo exagerado de assassinos temíveis e sociedades secretas que engenham armas de tortura inacreditáveis. Isto, sem mencionar a “nova vaga” do cinema de terror francês (que já é nova há muitos anos) e o cinema japonês que já por aí anda há bastante tempo, sem lhe atribuir nomes sexy.
Eis pois, que o “Paranormal Activity” (2007) tem sucesso e logo surge a sequela japonesa não oficial, “Paranormal Activity: Tokyo Night” (2010). Não fosse estranha a mera colocação da hipótese de realização de uma sequela japonesa, que o percurso costuma ser inverso, Japão/EUA -, temos ainda produção e argumento em tudo similares, ou como diria a minha avozinha, “De boas intenções está o Inferno cheio”.
A pobre Haruka (Noriko Aoyama) regressa a Tóquio depois de umas férias nos EUA, onde teve um acidente de viação que a deixou com as pernas partidas. Sobre para o irmão mais novo Koichi (Aoi Nakamura) que está completamente obcecado com a mais recente aquisição para realizar filmagens tomar conta da convalescente. Assim que se instala para o caminho da recuperação Haruka começa a dar por objectos fora do lugar, barulhos estranhos, o sentimento de que não está só… E quer a sorte que os irmãos habitem um dos países com mais videovigilância do mundo. Estão a ver o mito do japonês com a máquina fotográfica?
Ora, se o ponto de partida é inteligente (o acidente de viação de Haruka tem muito que se lhe diga) é o desenvolvimento que fracassa. Sucede a mesma sequência de acontecimentos que vitimizam Katie e Micah do filme original. Numa análise fria Tokyo Night seria uma versão superior se fosse o primeiro filme na ordem cronológica já que o cineasta Toshikazu Nagae opta por livrar-se dos planos que minavam o ritmo de “Paranormal Activity”, e em que não acontecia nada, sem eliminar a tensão remanescente. Concebem a ironia de um filme japonês tomar a decisão de eliminar excedentes em prol do ritmo? Também a dupla de protagonistas é forte tendo bastante experiência em cinema e televisão e emulam com facilidade a naturalidade dos actores da película americana. Esta coisa de contracenar como se não o estivesse a fazer é o maior achado de sempre. Outro aspecto de nota é os personagens principais serem irmãos. Relembra-me de certo modo do “Jeepers Creepers” (2001) de cujo choque (o Darry não!), até hoje, ainda não recuperei. O foco no ângulo amoroso sobre o de laços familiares acaba por se tornar um elemento de falsidade no cinema. Desde quando é que vemos primos em 2º grau? Ou um tio e sobrinho afastados, por exemplo? Um pormenor técnico remotamente interessante é o recurso ao splitscreen (divisão do ecrã), que por momentos dá a ilusão de sermos voyeurs de uma experiência a decorrer em tempo real. De resto não há um elemento dissonante, um grito de desafio aos antecessores “Paranormal Activity” e “Paranormal Activity 2”, algo que chegue ao âmago das audiências e explique porque é que esta versão era necessária e acrescenta algo sobre o anterior. Ok, o destinatário principal é a população japonesa mas faziam alguma coisa diferente não? É mais do mesmo que conduziu à saturação de sagas anteriores, como o “Sexta-feira 13”, “Halloween”, “Nightmare in Elm Street”, “Saw”, etc, cujo sucesso inicial redunda sempre num remastigar orgíaco cíclico do pecado original. E a audiência? Amorfa, cansada, que procura algo mais do que a satisfação de encontrar o que reconhece de aventuras anteriores. No princípio era o hype. O fim? Só Deus sabe como termina. Duas estrelas e meia.

Realização: Toshikazu Nagae
Argumento: Toshikazu Nagae e Oren Peli
Noriko Aoyama como Haruka
Aoi Nakamura como Koichi

Próximo Filme: “Toilet 105”, 2010

domingo, 21 de abril de 2013

"Secret Sunday" (9 Wat, 2010)


Há qualquer coisa de mágico na câmara de Saranyoo Jiralak que se encontra algures entre o naturalismo digno de um National Geographic e o programa de viagens dedicado ao turismo religioso. A sensação permanente de voyeurismo intruso é o que distingue “Secret Sunday” de um documentário. As cenas de jovens citadinos cheios de estilo a irromper por entre os raios de sol que acariciam as paredes de templos milenares trazem a certeza de arte. Estátuas, fotografias, animais, as árvores de uma floresta, até o pneu de um automóvel… Ajudam a contar a viagem de uma vida para um casal e o monge a quem deram relutantemente boleia.

“Secret Sunday” (não me perguntem a razão de ser do nome porque até ao momento ainda não percebi), cujo título na Tailândia é 9 wat, literalmente, nove templos, narra a estória de Nat (James Alexander Mackie) e a sua namorada Phoon (Siraphan Wattanajinda) que se propõem a a percorrer nove templos em sete dias para expurgar o mau karma de Nat a conselho da mãe deste. A senhora, uma budista devota, acredita que o filho está rodeado de energias negativas e que ele deve procurar o caminho da religião para alcançar a salvação. Nat acede a fazer a viagem mais pelo desejo de férias do que por uma crença profunda nas convicções da mãe. Já Phoon questiona mas não recusa a sugestão pois não é ateísta além de que tem as suas próprias preocupações egoístas. O seu caminho cruza-se com o de Sujitto (Pradon Sirakovit) um monge budista que parece saber algo mais sobre o que está a afligir o casal do que eles próprios e que também está ligado ao passado de Nat... Este podia ser o início perfeito de uma viagem de descoberta para um ateu, uma agnóstica e um crente mas 9 wat, a despeito da óbvia ligação religiosa trilha outros trajectos. “Secret Sunday” é um road-movie com um mix de thriller sobrenatural. Phoon é a protagonista e com razão já que à sua presença magnética, se juntam um styling espectacular, nomeadamente o cabelo curto pintado de louro platinado e roupas saídas da última colecção primavera/verão que a fazem sobressair entre a multidão tailandesa. A sua personagem representa a oportunidade perfeita para apresentar a jovem moderna, independente e um pouco promiscua na tela. Phoon representa uma imagem indesejável para a jovem tailandesa tradicional, escapando à caracterização da maioria das personagens femininas que pululam os ecrãs do país, puras, crentes e respeitáveis. No entanto, é deixado para o julgamento do espectador se Phoon surge como uma manobra arriscada de trazer uma personagem um pouco mais colorida para o grande ecrã ou, se o sofrimento da jovem decorre do seu comportamento pouco convencional.
Nat e Sujitto, até ao último quarto de hora de filme praticamente não apresentam qualquer conflito, com a agravante de que Nat nunca demonstra mais do que um feitio irascível e qualidades de boy toy que explicam o inicio da relação e o seu potencial de fim. Nat recusa terminantemente a existência da divindade enquanto o monge aceita cegamente a sua existência, pelo que a sua maneira de ver o mundo nunca é, até ali, questionada. É Phoon quem se apercebe das nuances e sofre por causa disso. Isto não quer dizer que qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade se aperceba de espíritos a olhar por cima do ombro ou de outras coisas que não existem no plano real. Não, isso já faz parte do filme. E também aí se encontram as maiores fraquezas de “Secret Sunday”. A introdução do sobrenatural é absolutamente desnecessária. Muitas das cenas são assustadoras ou quedam-se lá perto mas era perfeitamente plausível que Phoon e Nat fossem atormentados (apenas), devido ao passado e aos segredos que guardam. As suas motivações e medos também podiam ser conduzidos pela fase de vida em que se encontram. Já estão juntos há algum tempo e pode ter chegado a altura de explorar se a sua relação deverá ter continuidade ou se esta união deixou de fazer sentido. Uma road-trip onde uma série de peripécias os leva a questionar o percurso de vida e o futuro que pretendem seguir. Mas considerando o mercado tailandês o elemento terror possui um tal nível de atracção que leva a que sejam produzidos muitos filmes direccionados para esse tipo de público e, com bastante frequência, sejam produzidos muitos que pecam pela falta de qualidade. É por isso, lamentável, que no meio dessa montanha de obras, gemas como esta permaneçam por descobrir. Três estrelas e meia.
Realização: Saranyoo Jiralak
Argumento: Saranyoo Jiralak
James Alexander Mackie como Nat
Siraphan Wattanajinda como Phoon
Pradon Sirakovit como Sujitto


Próximo Filme: "Forbidden Siren" (Sairen, 2006)

PS: Não fui eu que vos disse que este filme está disponível, na integra, no youtube com legendas em inglês.

domingo, 14 de abril de 2013

"Gantz" (Gantz: Zenpen, 2010)



Cenário: Acordam numa sala com pessoal que não conhecem de lado nenhum e com uma enorme bola preta onde surge uma mensagem que diz que 1) Existem aliens e 2) têm vinte minutos para matar o alien cuja imagem surge no ecrã. A primeira reacção deve ser qualquer coisa entre um: “tenho de largar as drogas!” e beliscar-se para acordar. Mas e se não acordarem e chegarem à conclusão que o cenário é real, que não é uma brincadeira de mau gosto e que se querem permanecer vivos têm de atirar a matar? Que tal isto para programa de diversão nocturna? Kei Kurono (Ninomyia Kazunaru) e Masaru Kato (Kenichi Matsuyama) são dois amigos que morrem atropelados por um comboio após tentar salvar um homem bêbado que caiu nos carris do metro. A bola negra transporta-os para a sala e dá-lhes uma nova oportunidade mas não está longe de ser um pacto com o diabo. A nova vida tem um preço: têm de matar aliens e a cada nova morte recebem pontos. A recompensa por atingir os 100 pontos é a possibilidade de esquecer o que passaram e não mais voltar àquela sala ou ressuscitar um dos muitos que já morreram antes deles a combater as criaturas invasoras. Aparte o segredo da sala que lhes irá, eventualmente, custar a vida (admitamos que os aliens são cada vez mais rápidos, furiosos e maiores), têm uma vida e entes queridos que não querem deixar sozinhos. Kato tem um irmão mais novo que não quer deixar entregue a assistentes sociais e Kei torna-se alvo das cada vez mais óbvias investidas românticas de Tae Kojima (Yuriko Yoshikata).
Assim a meios que a morte pode ser um impedimento no reatar de ligações familiares e românticas. Sobretudo, no que diz respeito a Kato e Kishimoto (Natsuna) que se conhecem na sala do Gantz.
“Gantz” é um dos melhores filmes resultantes de adaptações de anime e mangá, dos últimos anos. Se não conhecerem a mangá ou o anime, como era o meu caso, mesmo assim irão sentir que não estão a perder informação preciosa. “Gantz” tenta apelar ao máximo número de faixas etárias possível, sacrificando pelo caminho, carradas de nudez e de sexo. Também o protagonista deixa de ser um tarado sexual para passar a ser apenas um sujeitinho arrogante, com manias de grandeza a quem é ensinada uma grande lição. É uma adaptação digna de quem conhece bem o público-alvo.
As cenas de acção, nomeadamente, de perseguição e combate aos extra-terrestres são as mais interessantes e, se quisermos dar largas ao pequeno malvado que existe dentro de nós, pode-se sempre fazer apostas sobre quem chegará ao fim de mais uma caçada. As cenas de acção são tão competentes que a série com actores reais chegar ao pequeno ecrã não seria de menosprezar. Imaginem se a cada novo episódio tivessem um grupo de cidadãos “destacados” para matar o alien du jour? Como é óbvio a perfeição não existe e as cenas iniciais começam por ser irritantes já que os escolhidos são tão incompetentes que cometem todos os erros possíveis para se deixar ferir, matar ou negligentes a ponto de deixar colegas morrer. “Gantz” não está isento de dilemas morais. Matar um ser vivo, mesmo que este não pertença ao mundo como o conhecemos apresenta-se um problema para a maioria dos escolhidos. E não é como se tivessem grande alternativa: se quiserem viver têm de matar ou esconder-se bem. Temo que esta última opção não deixe de acarretar um alto grau de risco. Se calhar poderíamos alegar preocupações humanistas e que a morte seria um fim mais digno mas creio que isso não estaria longe da hipocrisia. Além disso, há pais, irmãos, namoradas…quem consegue resistir ao apelo da vida? E depois há os psicopatas e aqueles cuja ilusão de poder os faz regredir aos estádios mais primários da existência humana: vale tudo para não sobreviver. Mas ao invés de se restringir a uma luta selvática pela sobrevivência “Gantz” “agarra” as personagens principais como Kei e Kato, jovens imaturos e que pouco sabem da vida e fá-los crescer, tornar-se os heróis que nunca quiseram ser e reconhecidos por poucos, até há muito provavelmente breve morte. Nesse sentido, “Gantz” não é apenas um filme sci-fi de acção desmiolado. Obrigada, as audiências do século XXI agradecem. Três estrelas e meia.


Realização: Shinsuke Kato
Argumento: Yosuke Watanabe e Hiroyia Oku (autor da banda-desenhada)
Ninomyia Kazunari como Kei Kurono
Kenichi Matsuyama como Masaru Kato
Yuriko Yoshikata como Tae Kojima
Natsuna como Megumi Kishimoto
Taguchi Tomorowo como Suzuki Yoshikazu
Kensuke Chisaka como Ayumu Kato


Próximo Filme: "Secret Sunday" (9 wat, 2008)

domingo, 31 de março de 2013

"Death Bell 2" (Gosa 2, 2010)



Um dos slogans para este filme podia ser: “adolescentes idiotas continuam sem saber dominar regras básicas de sobrevivência”. Isso, ou então é um universo qualquer em que não vêem filmes de terror. Podiam ver o “The Cabin in the Woods” (2011), por exemplo, a ver se aprendiam algumas coisinhas. Desculpem alguma coisa mas custa-me ver a juventude reduzida a uma cambada de ignorantes sem inteligência ou artificio. Se o futuro se reduz a uma juventude com as capacidades intelectuais equivalente à dos personagens deste filme a Coreia do Sul espera uns próximos anos complicados.
“Death Bell 2: Bloody Camp” trilha o mesmo caminho do antecessor: um slasher onde os alunos de uma escola são carne para canhão, com a promessa de mais sangue e mortes ainda mais elaboradas. A estória deste filme não tem ligação à do filme de 2008, dando apenas uma piscadela de olhos aos eventos anteriores. Tae-yeon (Seung-ah Yoon), a estrela da equipa de natação da escola é encontrada morta na piscina. Suspeitando que a rapariga se atirou da prancha superior, as autoridades declaram a morte acidental. Entretanto, a meia-irmã dela Se-hee (Jiyeon Park), que também frequenta essa escola passa um mau bocado às expensas de Ji-yoon (Ah-jin Choi) e as suas amigas. Após o assassinato da professora de natação, os alunos descobrem que estão encurralados na escola e sem hipótese de ajuda do exterior. A única hipótese de sobrevivência reside em serem capazes de solucionar quem é o assassino e o seu motivo… Como ali parece não haver duas pessoas com mais de dois neurónios entre elas, as mortes sucedem com alguma frequência. Mais por culpa da sua própria inabilidade do que por uma inteligência extraordinária do assassino. Eles dedicam mais tempo às quezílias de miúdos que não têm mais nada que fazer e a tomar atitudes desprovidas de sentido como separar-se e apontar o dedo aos que percepcionam como mais fracos. Do género: “pode ser que o assassino esteja mais interessado em apanhá-lo do que a mim” ou “se o assassino for atrás dela dá-me tempo para fugir”… Não ficam extremamente orgulhosos da humanidade nestas alturas?
“Death Bell 2: Bloody Camp” sofre sobretudo por ser a sequela de um filme francamente superior à maioria dos filmes de terror que andam por aí. Esta sequela é um esforço desleixado. Não aprenderam nada com o primeiro filme que tinha uma estória minimamente compreensível, um par de protagonistas sólidos e com quem se simpatizava com facilidade e encenação das mortes bem construída. Em “Death Bell” sofria-se com antecipação de uma próxima vítima cuja entidade nunca era óbvia. A tensão era crescente e desde que a semente era plantada até ao golpe final era um martírio, não só pelos requintes de malvadez mas pela incapacidade de prever se estudantes e professores seriam capazes de juntar esforços com sucesso para salvar a vítima. “Death Bell 2: Bloody Camp” afasta desde logo a possibilidade de união entre os estudantes, tornando a tarefa de todo em todo mais simples para a mente malévola por detrás dos crimes e menos excitante para os espectadores. O enredo é muito mais intricado e faz ainda menos sentido que o primeiro filme. Só no último quarto de hora é que finalmente se compreendem os porquês da trama. Por essa altura, não só a probabilidade de acreditarmos no que estamos a ver é diminuta como já nem interessa.
Os personagens são em demasia e demasiado desinteressantes, malcriados e insolentes. Jiyeon Park que interpreta a única personagem com quem nos devíamos identificar é terrível no papel de Se-hee. Onde a representação do filme anterior era respeitável, aqui está ao nível de alunos do primeiro ano do curso de representação que foram lá parar por engano. A sua presença não é de todo inocente. Ela é considerada jeitosa na Coreia do sul e é membro do grupo de k-pop T-ara. Se bem se recordam, em “Death Bell”, a companheira de banda Eun-jung Ham era uma personagem-chave. A diferença está em que enquanto esta última é uma boa actriz, Jiyeon, bem… E eu adoro um bom golpe de marketing como o próximo, quando resulta. É um tédio. Um slasher que é um tédio? Sim, leram aqui primeiro. Duas estrelas.
Realização: Seon-dong Yoo
Argumento: Hye-min Park, Jeong-hwa Lee e Gong-ju Lee
Ah-Jin Choi como Ji-yoon
Jeong-eum Hwang como Eun-su Park
Chang-wuk Ji como Soo-il
Su-ro Kim como Seong-sang Cha
Hyeon-sang Kwon como JK
Bo-ra Nam como Hyeon-a
Eun-binPark como Na-rae
Ji-yeon Park como Se-hee
Un-son Ho como Jung-bum
Seung-ah Yoon comoTae-yeon
Shi-yoon Yoon como Kwan-woo

Próximo Filme: "Riding Alone for Thousands of Miles" (Qian li zou dan qi, 2005)
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