1. “Psycho” (Bernard Herrmann, 1960) – Nada como apostar numa das composições mais consensuais e reconhecíveis de que há memória. Quantos de vocês, quando ouvem esta música não começam a gesticular feitos loucos, recriando o movimento de esfaquear alguém?! Não? Ok. Essa é a popular e tantas vezes parodiada cena da morte de Marion Crane (Janet Leigh), até àquele momento considerada a protagonista de “Psycho”. Se a morte por si só é considerada chocante (mataram a Marion?!), o efeito é exacerbado pela música inquietante mas subtil que a antecede e não fazia prever tal evento. A audiência tinha-se afeiçoado à personagem pelo que seria de esperar que esta a ser retirada de cena, o fosse com elegância e suavidade. Nada podia estar mais longe da verdade. Os violinos tornam-se golpes afiados, rápidos e furiosos e Marion tem uma morte bárbara, angustiante. Se Hitchcock nos fez afeiçoar à protagonista, Herrmann retirou-a de cena com ferocidade.
2. “Rosemary's Baby” (Krzysztof Komeda, 1968) – Em termos de construção, a música parece pouco complexa. O instrumental parece datado e apenas sobressai o canto de Rosemary. Mas haverá momento mais ternurento do que aquele em que uma mãe embala o seu bebé? É pouco importante que ela tenha um tom bonito ou sequer angelical. O factor de atracção é antes a inocência, ingenuidade até, quanto ao ser que carrega. Um momento que seria de extrema felicidade torna-se pois o exacto oposto e marca o tom dramático da estória pois a música brinca com o receio de todos os pais de que o seu filho possa não ser “perfeito”.3. “The Exorcist” (Mike Oldfield, 1973) – “Tubular Bells” está para “The Exorcist” como “Lux Aeterna” está para “Requiem for a Dream”, sendo que curiosamente, a actriz Ellen Burstyn contracena em ambos. Qualquer das músicas é fenomenal por si própria e qualquer uma delas é reconhecível como “a música daquele filme que posso não me lembrar de imediato qual é, mas tenho a certeza que é do cinema”. No caso de “The Exorcist” apesar de parecer feito à medida, “Tubular Bells” do já editado álbum de Mike Oldfield foi apenas um dos temas que encontraram para colmatar a ausência de música. Ela é nota dissonante numa película onde a orquestra predomina. Tal como é nota dissonante, a menina-criança que irrompe num comportamento destructivo, nada característico do que seria expectável de uma pessoa com aquela idade e muito menos de um ser humano.
4. “Jaws” (John Williams, 1975) – Uma rapariga desnuda decide nadar à tardinha. Daí a pouco ela é sacudida como se de uma boneca de trapos se tratasse. Não vemos mais do que indícios do que a possa ter atacado abaixo da linha de água. Também não precisamos. Como é que se faz uma pessoa ter medo de estar dentro de água? Trauteia-se “Duuun dun duuun dun dun”. Se o som é erradamente considerado minimalista, o efeito é supremo. Contam os (mais) adultos que no verão após estrear “Jaws” as praias estavam vazias. O medo da água e do que está lá debaixo era tão grande que houve até quem tivesse medo de se sentar na sanita. Ora, como é que alguém acha que um tubarão seria capaz de chegar a uma sanita, quanto mais morder-lhe o traseiro naquele momento tão delicado, escapa-me. Mas e daí, o medo não é racional. É este o legado de “Jaws”.
5. “Suspiria” (Goblin, 1977) – Não sei o que dará um mix de sonhos, drogas, nostalgia, terror, idade média, rock e indiferença com o que outros poderão pensar, mas imagino que seja algo parecido com a banda-sonora de “Suspiria”. A produção da banda italiana Goblin é reconhecível, sem ser uma produção barata e representa ainda aquilo que muitos compositores de filmes de terror gostariam de ser: livres. Se existe a sensação que um filme de terror está limitado na selecção de música e, a maioria das películas divide-se entre a orquestra ou o rock/pop com algumas escolhas dúbias, “Suspiria” demonstra que é possível juntar um sintetizador e murmúrios muito rock sem perder impacto ou se ser rotulado de zombaria.
