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domingo, 8 de março de 2015

"Ghost House" (Gwishini sanda, 2004)


Entramos naquela casa e é amor à primeira-vista. Esquecemos o que penámos, ao procurar em casas excessivamente pequenas, excessivamente caras, distantes da família e do trabalho a que pudéssemos chamar lar. É aquela. Todos os defeitos parecem menores ou de resolução fácil e as paredes falam connosco: “compra-me, compra-me”. Alguns dias depois da mudança ou ainda durante as inevitáveis obras chegamos à conclusão que existe uma infiltração ou a madeira tem bicho. A casa enganou-nos bem.
Pil-gi (Seung-won Cha) tem um problema parecido… mas com um fantasma! Depois de anos de itinerância que lhe tomaram toda a juventude, Pil-gi consegue cumprir a promessa de ser dono da sua própria casa, no leito de morte do pai. Esta é também uma boa notícia para a namorada Soo-kyung (Tae-young Son) que está ansiosa por oficializar a relação e quiçá viver para cuidar do lar de ambos. Quem não fica nada satisfeita com o assunto é Yeon-hwa (Seo-hee Jang) a anterior inquilina que não quer deixar um pormenor insignificante como a morte a impedir de expulsar o novo proprietário. Se a premissa soar a um filme que já viram é porque este existe. “Just Like Heaven” (2005) é a película americana com uma Reese Withersoon mais açucarada que o costume, que junta os elementos ainda mais saudosos de “Il Mare” (2000). O primeiro é uma comédia, o segundo é uma comédia dramática, o terceiro é um dramalhão e vale a pena assistir a qualquer um deles desde que aceitem a sua improbabilidade. Em “Ghost House” a situação insólita é aproveitada para gerar comédia situacional. Yeon-hwa tenta por exemplo, sabotar a organização da nova casa e Pil-gi responde com cerimónias religiosas para tentar expulsar o poltergeist. Todas as tentativas falham de forma miserável. Ele recorre até à ajuda de um psíquico. Fantástico como é sempre tão fácil encontrar alguém com um conhecimento tão… especializado. Além de que, como é habitual neste tipo de filmes, há toda uma série de ataques que geram reacções igualmente agressivas até que por fim, as partes se reúnem para discutir umas tréguas e descobrir que é bem mais o que os une que aquilo que os separa. Mais adiante, surge ainda um interesse pouco escrupuloso que está até acima dos proprietários para que se avance com a construção de um hotel naquele local. Que original.

“Ghost House” funciona num registo muito leve, tanto que poucos minutos após o filme todo o seu conteúdo já se terá evaporado da memória. Seung-won Cha está perfeito no papel de rapaz com bom coração que só quer que as coisas corram bem mas está sempre no lugar errado à hora errada. É, no entanto, perfeito para o fantasma que lhe advém pois é o seu coração de manteiga que irá permitir ao fantasma encontrar algum tipo de resolução. Apesar de um prólogo que demonstra as tribulações de Pil-gi e o pai, uma equipa unida contra o mundo não nos é dada a conhecer a luta de Pil-gi para comprar a casa. De súbito, ele é um homem com uma vida amorosa e trabalho bem-resolvidos. Então por que não haveria de ser dono da sua própria casa? Além disso, teria sido simpático perceber como Pil-gi se apaixonou por aquela casa em particular. Não escolhesse aquela habitação não teria de lidar com fantasmas inconvenientes. Quanto a Seo-hee Jang, ela não lhe fica atrás no que respeita a despertar sentimentos de empatia embora não tenha talvez tanto com que trabalhar, pois a sua presença gira em torno da sua preciosa casa e do amor que lhe está associado. A estória estende-se uns bons vinte minutos mais do que seria desejável. Se os gags funcionam bem na primeira metade do filme, passado o receio do fantasma o desfecho devia ter sido antecipado para evitar o cansaço. Duas estrelas.

O melhor:
- As tentativas da fantasma para expulsar Pil-gi da casa
- As galinhas

O pior:
- Longa Duração
- Os mauzões que querem destruir a casa com o objectivo de ali construir um empreendimento
- Efeitos especiais de qualidade duvidosa

Realização: Sang-jin Kim
Argumento: Hang-jun Jang e Jae-yeong Jang
Seung-won Cha como Pil-gi
Seo-hee Jang como Yeon-hwa
Hang-Seon Jang como Jang Kil-bog
Tae-yeong Son como Soo-kyung
Moo-sik Yun como pai de Pil-gi

Próximo Filme: "Lost on Journey" (Ren zai jiong tu, 2010)

domingo, 23 de março de 2014

"Kung Fu Hustle", 2004

Aquele momento em que se torna muito difícil negar o estereótipo de “todos os chineses praticam Kung Fu”. 

Agora que já consegui a vossa atenção com esta provocação, deixem-me contar-vos como “Kung Fu Hustle” foi realizado por Stephen Chow, o mesmo realizador do inesquecível “Shaolin Soccer” (2001). Mesmo aqueles que não apreciam futebol encontraram um motivo de encanto em “Shaolin Soccer”, onde monges empregam o seu talento extraordinário para o Kung Fu num jogo de futebol contra uma equipa de super-atletas dopados. Passada na cidade de Xangai dos anos 30,“Kung Fu Hustle”, apresenta uma dupla de pequenos criminosos liderados por Sing (Stephen Chow) que aproveita a recém-criada fama do gangue do Machado para tentar extorquir os moradores de um bairro ainda intocado pela chegada dos vilões. Oportunidade perfeita para dar um golpe certo? Errado, os moradores não só sabem defender-se como se revelam superiores aos capangas de Sum (Danny Chan), o líder do gangue e os dois pequenos criminosos vêm-se no meio de uma guerra com um resultado imprevisível.

Para quem viu “Shaolin Soccer”, “Kung Fu Hustle” é mais do mesmo no que toca ao humor a tempos, demasiado regional para audiências estrangeiras e nas artes marciais exageradas ao cubo. Os actores são capazes das manobras mais arriscadas, não tanto devido à formação na arte da luta como por todos os artifícios cinematográficos que podem ocorrer a quem deseja fazer dos confrontos uma hipérbole. Apenas não esperem cenários bucólicos ou sentimentais como as de “Hero” (2002) e “Crouching Tiger, Hidden Dragon (2000) que fizeram as delícias de audiências por todo mundo.

Mas “Kung Fu Hustle” não é uma completa paródia. Estreia-se com cenas de violência gratuita e morte, onde os ricos e poderosos tudo podem contra aqueles que nada têm. São meros veículos para a obtenção de mais riqueza e cujo sofrimento é indiferente. E contra poucas ou nenhumas perspetivas de melhoria de vida, juntar-se ao gangue, soa, apesar de tudo a uma hipótese viável e mais segura para obtenção de algum tipo de estatuto. Não é como se os bandidos fossem muito diferentes do empresário de inícios do século XXI, a questão é que a sua acção, violenta e condenável como é, sempre se realiza às claras, por contraste com uma grande mão invisível que tudo destrói, através de manobras de bastidores alheias ao capital alheio.
O que eles talvez não esperassem foi que encontrassem oposição num pequeno bairro suburbano. Estas questões sucedem nas entrelinhas, pois o cenário é dominado por sequências tão díspares quanto uma senhoria de rolos na cabeça (Yuen Qiu) e cigarro soldado ao canto da boca que espanca o marido (Yuen Wah) por causa das suas escapadelas românticas. E quando falo em espancar não digo estas palavras com leveza. Mas a maioria das cenas têm uma tal leveza de espirito que é impossível levar a sério os confrontos entre os moradores. Aliás, “Kung Fu Hustle” funciona melhor dentro do perímetro do bairro, no qual, os habitantes se encontram mais preocupados com a sua vidinha do que no se passa lá fora. Revelar mais seria tirar a piada a “Kung Fu Hustle”, por isso, sentem-se, encostem-se e desfrutem de fantásticas cenas coreagrafadas por Yuen Woo-ping, o mestre milagreiro por trás do cinema de kung fu de Hong Kong desde finais dos anos 70 e “Matrix” (1999) assim como a referências tão fantásticas como a esses filmes que poderão ou não conhecer, velhos golpes de artes marciais reimaginados no séc. XII e… os “Looney Tunes”. Três estrelas.
O melhor:
- O casal de senhorios
- Recriação dos anos 40,
- A coreografia das cenas de artes marciais

O pior:
- Demasiado artificialismo em algumas das lutas
- Cartoon autêntico. Ainda indecisa sobre se isso será bom ou mau.

Realização: Stephen Chow
Argumento: Stephen Chow, Huo Xin, Man-keung Chan e Kan-cheung Tsang
Stephen Chow como Sing
Danny Chan como Sum
Yuen Wah como Senhorio
Yuen Qiu como Senhoria
Bruce Leung como “A Besta”
Xing Yu como Coolie
Chiu Chi-ling como Fairy
Dong Zhihua como Donut
Lam Chi-chung como Bone
Eva Huang como Fong

Próximo Filme: "Tower" (Ta-weo, 2012)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

"Swing Girls" (Suwingu Gāruzu, 2004)


Um conto de raparigas preguiçosas, rebeldes e em alguns casos delinquentes que se viram para o Swing. Entenda-se do jazz e não do divertimento para adultos. E este é um blogue sério. Não há cá dessas coisas. Excepto aqui e aqui.

“Swing Girls”, supostamente baseada em factos reais (não são sempre?), inicia-se com o desencantamento de uma adolescente Tomoko (Juri Ueno) que descobre durante a escola de Verão o gosto pelo jazz e depois tenta, por meios próprios, prolongar e aperfeiçoar a experiência. Ok, não é assim tão linear: quem não optaria por visitas de estudo com a banda ao invés de aulas de matemática? Pelo caminho, Tomoko recruta amigos como Yoshie (Shihori Kanjiya), Sekiguchi (Yukia Motokariya) e Nakamura (Yuta Hiraoka), todos eles a atravessar a fase do desabrochar na adolescência. Um acto irreflectido de rebelião resulta numa pequena revolução quando a Tomoko que nunca leva nenhum empreendimento até ao fim, percebe que está rodeada de uma dezena de raparigas também elas à espera de algo que as faça romper com o aborrecimento. Assim, as raparigas da recém-formada banda de swing da escola que nem sequer sabiam tocar um instrumento decidem, habilmente empurradas pela líder nata Tomoko, entrar num concurso de bandas escolares. O seu mentor trapalhão é o professor Ozawa (Naoto Takenaka). Se viram “Waterboys”, não estranhem a sensação de déjà vu, Takenaka está mesmo a repetir o papel. Quando já se fez um gazilião de filmes e se interpretou tudo quanto existe, o que é repetir um personagem?

Se há coisa de que podem acusar “Swing Girls” é de ser previsível. As piadas são percepcionadas a quilómetros de distância, mas nunca caiem no erro da rudez ou do impróprio. Shinobu Yaguchi, que também escreveu o argumento de “Waterboys” e Junko Yaguchi têm sensibilidade suficiente para atingir jovens adolescentes sem os tratar como mentecaptos (inserir piada com o Adam Sandler) ou recorrer à vulgaridade fácil (inserir nova piada com o Adam Sandler). Os momentos musicais, (qualquer desculpa é boa para ouvir Glen Miller), têm a benesse de a equipa de actores ter aprendido a tocar instrumentos para desempenhar o papel. Tanto que após o tremendo sucesso de bilheteira fizeram uma digressão mundial onde tocaram os temas do filme. “Swing Girls” também é ajudado pelo facto de os jovens actores serem, na maioria naturais e demonstrarem potencial. Não é por acaso que os quatro jovens actores principais apresentam carreiras tanto prolíficas como premiadas.
“Swing Girls” faz pelo jazz o que “Waterboys”, fez três anos antes pela natação artística. Realizado em 2004, podia ter sido rodado este ano. A alienação da juventude é um dos grandes problemas do século XXI. Há muitas, demasiadas ocupações, no entanto, muitos jovens optam por permanecer em casa a ver televisão ou presos ao computador. Parece não existir paixão. E se existe, ela encontra-se enterrada debaixo de camadas de possibilidades. Há material mais do que suficiente para que todos os anos surja uma película com a mesma temática: rapazes que aprendem a costurar, raparigas que se dedicam ao kickboxing… e pelo caminho aprendem aquilo que adoram fazer na vida. A imaginação é o limite. Três estrelas.

Realização: Shinobi Yaguchi
Argumento: Shinobi Yaguchi e Junko Yaguchi
Juri Ueno como Tomoko
Yuta Hiraoka como Nakamura
Shihori Kanjiya como Yoshie Saito
Yuika Motokariya como Kaori Sekiguchi
Naoto Takenaka como Ozawa

Próximo Filme: “Tiyanaks”, 2007

domingo, 17 de fevereiro de 2013

"Casshern" (Kasshan, 2004)


Se sobreviveram aos primeiros minutos de filme, os meus parabéns. Pertencem àquele grupo especial de pessoas com elevado grau de tolerância pelo que é “estranho”. “Casshern” é a adaptação de um anime dos anos 70, que cresce sobre o material original, em suma um super-herói e lhe acrescenta temas modernos como a destruição da biodiversidade pelo ser humano, a espiral de dor e morte como resultados inevitáveis da guerra, a desconfiança pelo que são as experiências laboratoriais em seres vivos e a inteligência artificial. E se isto já não parece pouco, polvilhe-se um pouco de romance para agradar a todos. Definitivamente, as palavras fácil e linear não se aplicam em “Casshern”. Agora, esplendor visual…
Com um orçamento de 6,6 milhões de dólares, Kiriya Kazuaki fez todo o tipo de experiências com o seu rato de laboratório, “Casshern”. Não há um momento aborrecido em termos estéticos nesta película: da cinematográfica, aos cenários e guarda-roupa, há sempre bastante para onde olhar. Ora, se esse truque é capaz de resultar em desviar o foco de atenção dos defeitos, não é menos verdade que tal nível de detalhe não é aconselhável com pessoas com deficit de atenção. Mas passemos à estória… Tetsuya (Yusuke Iseya) é um daqueles homens que não têm grande sorte na vida: o pai enlouqueceu, a mãe foi raptada e, mesmo antes de se casar com a bela Luna (Kumiko Aso) foi morto na guerra. Ah, esqueci-me de mencionar que ele morreu? Sim, o protagonista morre no início do filme. Não têm com que se preocupar, que o pai dele é um génio que criou as “neo células”, que lhe concedem o dom de uma nova vida e uma série de outros poderes. Antes de Tetsuya a experiência é testada em cadáveres cujo regresso à vida assusta os militares e conduz a um massacre da centena de mutantes. Boa. Como se não bastasse a vida no planeta Terra estar assolada por males como a Guerra, a poluição e as máquinas a revoltar-se contra os seus criadores, agora, existem também, mutantes assassinos. Tetsuya pertence a esta nova estirpe mas permanece ligado à Terra pelo mais provável dos sentimentos: o amor pela noiva que deixou. Ele torna-se Casshern, um Tetsuya melhorado que irá salvar a mãe das garras dos seus captores e no final ficar com a rapariga da sua vida. Pelo menos é esse o plano. Ou esboço de plano que o pobre Casshern, durante mais de metade do filme não sabe o que está a fazer. Assim como Luna, que surge sempre bela e um pouco alheada do que se passa à sua volta. Ela passeia-se pelo ecrã, conferindo mais um motivo de apreciação estética que uma personagem mais interessante que, digamos, um mosquito.
“Casshern” é sobretudo a estória do nascimento de um herói. Assistimos a relances de uma vida pré-guerra, à morte, segundo nascimento, a tomada de consciência de um valor sobre-humano completo com uma armadura especial e meia dúzia de vilões com agendas mais ou menos maléficas. E para que não subsistam dúvidas sobre quem são os vilões, a narrativa está pejada de simbologia nazi e da antiga URSS. Porque pronto, há alturas para ser subtil e outras para vago. Se há grande motivo de interesse, este não se encontra na narrativa. As possibilidades que o argumento apresenta são tão descabidas e exigem uma enorme tolerância e uma grande dose de imaginação que a recompensa está mesmo na imagem. Foram utilizadas diversas técnicas incluindo o recurso a técnicas de animação, sendo que os momentos de acção estão relegados, sobretudo para cores como o preto e o branco. Eis que saltamos de cena e temos cores em abundância, verdadeiro atentado aos epilépticos. São camadas e camadas de estilos, que se desdobram em cenas díspares das anteriores, com a coesão a residir sobre os ombros dos actores, cenários e uma banda-sonora que acredito, continuará a ser identificável por muitos anos. “Casshern” é um sonho artístico, uma obra de arte onde o estilo vence sobre o conteúdo. Mas mais do que lamentar uma estória que sofreu em detrimento dos efeitos especiais, urge reflectir sobre as fronteiras do cinema. Se elas praticamente já não existem, se quase tudo é possível por que é que tanto filme sofre uma desinspiração absoluta? Duas estrelas e meia.
Realização: Kiriya Kazuaki
Argumento: Kiriya Kazuaki, Dai Sato e Shotaro Suga
Yusuke Iseya como Tetsuya Azuma/Casshern
Kumiko Aso como Luna
Akira Terao como Kotaro Azuma
Kanako Higuchi como Midori Azuma
Toshiaki Karasawa como Burai

Próximo Filme: "Hello Ghost" (Hellowoo goseuteu, 2010)

domingo, 14 de outubro de 2012

"Zebraman", 2004



Ao fim de cinco minutos já sabemos que o Shin'ichi Ichikawa (Shô Aikawa) é um pobre coitado digno de pena. A palavra “falhado” parece estar escrita na testa dele. É um solitário que não tem o respeito de ninguém, nem mesmo dos próprios alunos que não lhe reconhecem a autoridade. O próprio filho, um puto magricela sem espinha dorsal, também está destinado à perseguição implacável dos colegas de turma até ao final do percurso escolar. Pouco o ajuda que o pai seja professor na mesma escola que ele. Estão bem a ver o filme? Se o Ichikawa lhes der más notas, os colegas descarregam no filho. A filha dele não é muito melhor. Acabada de sair da adolescência leva a vida que quer, sem repreensão dos adultos e muito provavelmente prostitui-se para suprir os gostos mais requintados. Para completar o trio infeliz que constitui a família de Ichikawa está uma mulher que o desautoriza à frente dos filhos e o impede de tomar decisões com a sua personalidade dominante.
Como é não havia ele de se refugiar num mundo de fantasia, onde existem super-heróis que lutam contra a injustiça, essa mesma que ele conhece demasiado bem. A obsessão de Shin'ichi recai sobre uma série de televisão que nunca teve grande sucesso, injustamente esquecida: “Zebraman”. O final do dia é o único alívio. Refugia-se no quarto e admira o fato costurado por ele, enquanto fantasia, ir além daquelas paredes e percorrer as ruas da cidade, combatendo os maus e conquistando o reconhecimento que lhe falta dentro de casa.
Quando finalmente se aventura na cidade Ichikawa adquire a coragem que lhe falta como professor falhado e sucede na luta contra um vilão. Entretanto, Shinpei (Naoki Yasukoshi) um pequeno numa cadeira de rodas é introduzido na sua turma e cedo descobre que também ele nutre admiração pelo Zebraman e, ao contrário de todos os outros, vê através da personalidade sensível do professor. Shinpei e a sua mãe Kana (Kyoka Suzuki) completam a vida dupla de Ichikawa, um homem desesperado por afecto. Um retrato negro das relações familiares que se vai tornando cada vez mais alegre com o passar dos minutos e se torna algo completamente diferente.
Zebraman podia ser qualquer herói não fosse o facto de encarnar um animal muito menos sinistro que um morcego ou uma aranha. Quem tem medo de uma zebra? Onde está a complexidade do animal da savana africana que se serve de riscas para confundir os predadores? Onde é que uma zebra cria temor num vilão? Por outro lado, o facto de o homem criar uma vida dupla, na qual encontra um “filho” e uma “mulher” substitutos, apesar de nunca se consumar uma relação com esta última, pode ser condenável e alienar parte da audiência. O encontro entre as duas “famílias” deve ser qualquer coisa de desconfortável. Não é suposto “Zebraman” ser uma paródia? A partir da segunda metade do filme, quando finalmente se “esquece” a verdadeira família de Ichikawa e a cruzada como “Zebraman” começa a tomar forma, torna contornos muito semelhantes aos da velhinha série dos “Power Rangers” mas sem a narrativa totalmente inócua e açucarada. Fazer de alienígenas os vilões também contribui para nos distanciarmos de toda a seriedade inicial. Ainda mais quando nos apercebermos que os efeitos especiais deixam muito desejar. Sobretudo os pequenos aliens fazem lembrar o videoclipe dos anos 90 “Blue” dos Eiffel 65, que na altura parecia muito boa ideia mas hoje em dia ninguém se atreve a cantar em público, por medo de ser alvo de chacota. Quando o herói por fim se veste de zebra, não há como o levar a sério. O único país do mundo onde talvez se pudesse levar “Zebraman” a sério é o Japão, local onde as jovens se vestem de Lolitas e homens crescidos se vestem de bebé anseando que lhes troquem a fralda. Só lá é que Miike, um realizador mais conhecido por filmes ultra-violentos podia fazer um filme adequado a toda família apesar das disfunções mal disfarçadas. Três estrelas

Realização: Takashi Miike
Argumento: Takashi Miike
 Shô Aikawa como Shin'ichi Ichikawa
Naoki Yasukoshi como Shinpei Asano
Kyoka Suzuki como Kana Asano

Próximo Filme: "Warriors of the Rainbow: Seediq Bale", 2011

quinta-feira, 24 de maio de 2012

"Prayer Beads - Omoinotama Nenju (Okano Masahiro 2004) - "Echoes"



Boas ideias há muitas. Agora, quando se fala em concretização… Veja-se o caso da série “Masters of Horror”, tem alguns episódios excelentes e depois tem outros… menos bons. “Prayer Beads” é um conceito nipónico mais antigo. Nove episódios constituem a série, nove contas para um rosário. Por que o nome da série, será algo como contas de reza, contas de um rosário. Ora o que isso tem que ver com os temas explorados é uma consideração só ao nível dos grandes intelectuais que eu só vejo ali tentativas mais ou menos aleatórias de assustar o espectador em meia hora.
Os episódios têm pouca ou nenhuma ligação entre si pelo que a análise deste sétimo episódio – relaxem, é inócua. “Echoes” é a conta número 7, o número da perfeição? Não. Decerto existirão melhores episódios. Um casal de idosos descobre parte do cadáver da neta e parte para a cidade à descoberta do que provocou a sua morte. Desde logo, um gazilião de interrogações: como é que a partir de um membro adivinham que é Yumiko? Como sabem que ela foi assassinada? Como é que encontram logo o rasto dela na cidade? Que pode um casal de velhotes fazer a esse respeito? Não desesperem pelas respostas que elas não tardam em ser apresentadas, embora pareça a meia hora mais longa da vossa vida. Ecos da vida além da morte? Ecos de mentes com uma ligação muito especial?
Infelizmente não causa grande ressonância na nossa própria mente. O sentimento é de tristeza e até indiferença perante tudo quanto sucede. Apesar de uns quantos efeitos engraçados para quebrar a falta de ritmo e de cor. Céus, que fotografia mais desinteressante. Mais que não seja é um pequeno retrato pedagógico sobre o fosso entre a velhice e a juventude. No japão existe uma cultura de reverência e respeito perante os mais velhos, cultura essa que se tem desvanecido perante uma juventude cada vez mais desafiante. E eles, que pouco ou nada sabem, são superiores em termos físicos e zombam das relíquias de um passado onde as suas não se faziam ouvir.
Apenas não esperem demasiado de uma série de televisão com poucos meios. Os efeitos especiais são tão maus quanto parecem e a representação idem. Algures, os actores olham para o horizonte como se o seu olhar quisesse ou tivesse de facto algo para dizer. Uma mentira, visto que o argumento é fraco, vazio de estória disfarçada em diálogos sem consequência e instantes cheios de nada. É diferente, claro. Vale pelo prazer de criticar as opções das séries de baixo orçamento. Mas passado pouco tempo a estória eclipsa-se da memória. Não é memorável, e muito menos faz perder o sono. Talvez seja aconselhada a não fãs de terror. Duas estrelas

Realização:  Naoki Kusumoto
Argumento:  Naoki Kusumoto
Kei Sato
Michino Yokoyama
Takashi Youki
Mieko Konya
Joe Odagiri

Próximo Filme: Curta #3: "Unholy Women -  The Inheritance" (Uketsugu Mono, 2006)

domingo, 11 de março de 2012

"Doll Master" (Inhyeongsa, 2004)

 
Comecemos por esclarecer uma questão. Quando se assiste a um filme de terror, é suposto que este assuste. Sobressaltos, arrepios, tapar a cara com as mãos e espreitar por entre as frestas… Bem, queremos tudo aquilo a que temos direito (ou o nosso dinheiro pagou). Por isso, é no mínimo frustrante que tenhamos de aguardar, digamos, 45 minutos para termos direito a algo que se assemelhe ao de leve a terror. Ainda mais, quando esse filme tem o bonito nome de “Doll Master”. Bonecas. Aterradoras e assassinas como convém. Quem estiver à espera de um novo Chucky coreano prepare-se para ficar desiludido. O único laivo de inteligência em “Doll Master” é a escolha da temática. O medo de bonecos, ventríloquos, mais ou menos animados, de cera, plástico, etc, ou a automatonofobia é bastante comum. Recordo-me do momento em que finalmente decidi ver “Doll Master”. A primeira imagem que surgiu no meu cérebro foi a de uma amiga que tinha um medo irracional das bonecas de porcelana com olhos de vidro. Ela dizia-me sempre que “não gostava de olhar para elas por que as sentia a olhar para ela de volta”. Como se elas tivessem alma e estivessem, calmamente, a avaliar a dela. Já sentem arrepios? Deduzo pois, que o argumentista não tenha efectuado uma pesquisa demasiado árdua, sobre esta fobia tão interessante. O melhor que conseguiu cozinhar foi uma estória pateta. 
Os créditos iniciais demonstram um artista que no seu enlevo por uma jovem mulher, criou uma boneca em tamanho real à sua semelhança. Mais ninguém acha isto esquisito? Entretanto, um dia a sua musa surge morta, assassinada. Logo o artista, um homem estranho e um forasteiro é acusado pela população da vila de ter cometido o acto. Ele é sumariamente acusado e condenado à morte. Diz que desde então, a boneca é avistada sobre o seu túmulo, como que a velar por ele. Mas nesta estória dos tempos modernos, é Galateia que persegue o Pigmalião. Uma Galateia capaz de cometer homicídio por ele...
Muitos anos passam e cinco estranhos são convidados para servir de modelo a uma criadora de bonecas. Como não podia deixar de ser, o atelier encontra-se num casarão no meio da floresta. Nada de suspeito, portanto. O grupo compreende Hae-mi (Yu-mi Kim) uma escultora, Tae-seong (Hyeong-tak Shim) um modelo masculino e Yeong-ha (Ji-young Ok) uma jovem com uma relação pouco saudável com o seu boneco Damian. Mais alguém encontra aqui uma coincidência engraçada com o nome Damien de “The Omen” (1976)? A terminar o grupo estão Sun-Young (Ka-young Lee) uma jovem desmiolada e o fotógrafo Jeong-ki (Hyeong-jun Lim) com um autocolante na testa onde se pode ler “predador sexual” (esta última parte inventei).
Os primeiros momentos do encontro são passados a explorar a mansão e a conhecerem-se melhor. Muito ao estilo de “The Haunting” (1999). Depois são apresentados à criadora de bonecas, a senhora Im (Bo-young Kim), uma mulher meio estranha, confinada a uma cadeira de rodas. Se até aqui, ainda não tivessem soado alertas, agora são sirenes. Entretanto, Hae-mi também encontra por lá a cirandar uma tal de Mi-na (Eun-kyeong Lim), uma moça com um vestido encarnado infantil. Ela parece deslocada do cenário e recorda a protagonista de algo bem longínquo, nos confins da memória, que não se sabe até à reviravolta final, o que é.
“Doll Master” torna-se consistentemente mais surreal e mais complicado a cada nova cena. Por quanto o final fosse previsível a um quarto de hora do visionamento, estão sempre a surgir novas complicações dispensáveis para a conclusão da película. Ou como se costuma dizer, para disfarçar a ausência de uma estória sólida. Hae-mi é uma das mais infelizes heroínas que já tive oportunidade de ver em cena. Quando os companheiros começam a perecer, ela entra num “choque histérico” que lhe tolda o raciocínio e lhe reduz em muito a capacidade de reacção. A sua contraparte, Tae-seong é pouco menos apelativa. É demasiado fácil compreender que a sua agenda nada tem que ver com uma carreira de modelo. No campo das actuações só Mi-na pontua. Excelente no papel de uma boneca viva que alterna entre o diabólico e o inocente. De facto, foi criada uma boneca articulada, tendo como modelo a actriz. A semelhança entre as duas é extraordinária. E devia ter sido ela a obter o maior tempo de ecrã. Se provas faltassem, veja-se que a boneca com o nome da personagem "Mi-na", esgotou pouco depois da estreia do filme. As bonecas articuladas de “Doll Master” fizeram ressurgir o interesse de colecionadores. Notem bem como foram feitas para excêntricos, as bonecas têm direito a nome, data e local de nascimento, acessórios e casas como se de pessoas verdadeiras se tratassem. 
“Doll Master” apenas tem uma morte particularmente macabra e logo de uma das personagens mais cómicas em todo o filme. É pouco, muito pouco e tardio. Convenhamos que ter bonecas em tamanho real, penduradas de candeeiros e na cabeceira da cama seja um bocadinho perturbador. Mas não se entusiasmem, que o clímax é… anti-climático. Tanta espera/desespera, por nada. No preciso momento em que algo importante sucede a uma das personagens, o realizador corta a cena. Não há goodies para ninguém. Yong-ki Jeong deve ter medo de realizar um verdadeiro filme de terror e adiou ou cortou tudo o que podia tornar “Doll Master” aterrador. O que não falta em “Doll Master” são preliminares, pena que a conclusão seja tudo menos excitante. Uma estrela e meia. 
Realização: Yong-ki Jeong
Argumento: Yong-ki Jeong
Yu-mi Kim como Hae-mi
Eun-kyeong Lim como Mi-na
Hyeong-tak Shim como Tae-seong
Ji-young Ok como Yeong-ha
Hyeong-jun Lim como Jeong-ki
Ka-young Lee como Sun-Young
Ho-jin Chun como Choi Jin-wan (curador)
Bo-young Kim como Senhora Im (a artista)


Próximo Filme: "Troll Hunter" (Trolljegeren, 2010)

domingo, 11 de dezembro de 2011

"Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004)


Se não fosse um horror seria uma tragédia. Na Coreia do Sul é comum os actores fazerem carreira em séries de televisão. Alguns nunca chegam a entrar na grande tela. Nem é preciso, a não ser que queiram chegar a uma audiência ainda maior. Lá, as séries merecem um respeito que noutros sítios não se lhes reconhece. Têm qualidade, não constituem um mero veículo para se conseguir uma carreira no grande ecrã. Conduzir uma série em televisão é fazer carreira. Como tal, compreende-se que os filmes coreanos comportem uma componente dramática muito forte. É-lhes inato. Não é pois de espantar que que vários actores de “Ouija Board” tenham experiência televisiva em séries dramáticas prévias ao filme. Se querem saber um pouco mais sobre o universo televisivo sul-coreano, perguntem-lhe a ela. Poucos sabem tanto sobre a televisão asiática nomeadamente, Coreia do Sul, Japão e China e, ainda por cima, em língua portuguesa. No que me diz respeito, creio que participar no filme “Ouija Board”é um downgrade na carreira de um actor. Ninguém precisa de mais um filme sobre mortas despenteadas no currículo. O realizador e argumentista Byeong-ki Ahn tem no seu percurso vários filmes, adivinhe-se lá, sobre moças mortas de cabelo desalinhado. O seu melhor esforço foi “Phone” (2002), que até vai ser alvo de (mais) um remake em Hollywood. Ele descobriu a fórmula do sucesso e limita-se a replicá-la a cada novo projecto. O resultado é um filme tão pouco original que tive de parar o visionamento três vezes, tal o efeito de sedativo. Tenho uma teoria, rebuscada talvez, que o objectivo dos filmes de terror é provocar insónias e não curá-las, mas é apenas a minha opinião.
“Ouija Board” situa-se na província, para onde uma mãe e a filha Yu-jin (Se-eun Lee) oriundas de Seul se mudam. Ali, a jovem citadina torna-se rapidamente o alvo preferido das rufias de serviço. Deve ser por ela ter vindo da grande cidade, estão a ver? Ou se calhar são os grandes, expressivos olhos de Yu-jin a causa de tanta inveja. Enfim, é aquele grupinho muito popular mas que, por algum motivo, ninguém grama. Algures, a lógica de Yun-jin lhe diz que a melhor forma de se livrar dos maus-tratos é lançar uma maldição sobre as vilãs. Reportar aos pais ou aos professores o comportamento vil das meninas? Alguma vez? Não. O mais racional é invocar um espírito maldito para fazer o trabalhinho sujo. Yun-jin reúne-se com outras colegas vítimas de bullying e improvisam uma espécie de jogo do copo (a tal Ouija Board). Yun-jin, qual médium experiente, avisa-as para não abrirem os olhos pois algo de mau pode suceder só que ela própria acusa a pressão do momento e comete esse erro. Elas conseguem invocar com sucesso um espírito e que resultados obtêm! Soubera eu uns anos mais cedo… Infelizmente, o espírito é assim a meios que excessivo, já que as rufias começam a surgir mortas com sacos na cabeça, queimadas até ao irreconhecimento. Digo eu, que não era caso para tanto mas se calhar o que está a suceder às meninas más, não tem nada que ver com o bullying que Yun-jin e as colegas sofrem nos dias de hoje. Entretanto, existe um par de professores simpáticos que querem fazer algo para ajudar as alunas. No entanto, estão de mãos atadas face a um conselho directivo irredutível. Também não ajuda muito o facto da professora nova Eun-ju Lee (Gyu-ri Kim), se enganar em plena aula e chamar In-suk Kim (Yu-ri Kim), uma aluna que já não é vista há 30 anos. Junte-se um segredo terrível e temos o típico filme sobre um espírito vingativo.
A história está pejada de influências anteriores: invejas, abuso, preconceito, sexo… Os personagens dividem-se entre os estereótipos habituais: a rapariga inocente, o professor compreensivo, rufias e os personagens com um passado misterioso. Está lá enfiada toda a última década do cinema. Quando isso sucede o factor medo evapora-se. Mas o grande problema da película nem é Byeong-ki Ahn. Ele repete a fórmula mágica por que o público-alvo ainda não se cansou do género: leiam-se adolescentes em idade escolar. A audiência identifica-se com as personagens de uniforme que tropeçam na magia negra. Muito me admiro se depois da sessão de cinema muitos jovens não tiverem ido experimentar o jogo do copo. E não se pode censurar Byeong-ki Ahn por dar à sua audiência o que ela quer. O género carece urgentemente de ser revitalizado. Infelizmente, isso não acontecerá à custa dos repetidos apelos de cinéfilos. Os “Ouija Board” por esse mundo fora, só irão desaparecer quando a população virar as costas ao género e preferir sucedâneos mais bem cozinhados. Até lá, perseguirei estóica (cof cof) por entre os inúmeros fantasmas vingativos para vos dar a conhecer os melhores filmes de terror coreanos. Duas estrelas.

Realização: Byeong-ki Ahn
Argumento: Byeong-ki Ahn
Se-eun Lee como Yu-jin Lee
Gyu-ri Kim como Eun-ju Lee
Yu-ri Lee como In-suk Kim
Seong-min Choi como Jae-hun Han
Próximo Filme: "Sector 7" (7 Gwanggu, 2011)

domingo, 4 de dezembro de 2011

"R-point: Ghost Squad" (Airpointeu, 2004)

Vietname, 1972. Inferno na terra. Gerida e mantida por razões políticas, como sempre são as grandes guerras, encontra-se num impasse. O tenente Tae-in Choi e o soldado Kim aproveitam um momento de pausa nas hostilidades para irem às prostitutas em Nha Trang. Num momento de distracção o inimigo ataca e Kim acaba por ser morto. Entretanto, é recolhido um soldado ferido gravemente em R-point, cujo pelotão estará todo morto. Ele encontra-se num estado de delírio e os seus superiores não conseguem retirar um sentido das palavras desconexas. O quartel-general recebe uma transmissão que indica que os soldados podem ainda estar vivos e decide enviar um grupo de homens para desvendar o seu destino.
O superior de Choi dá-lhe a oportunidade de se redimir se cumprir esta última missão depois do descuido em Nha Trang. Ele e outros 8 soldados são enviados para R-point, uma zona rural inóspita onde têm desde logo uma recepção “calorosa” por parte do inimigo. Eles atingem uma rapariga vietnamita e abandonam-na para morrer dos ferimentos. Mais tarde, encontram uma gravação antiga que fala de um massacre de vietnamitas por chineses, que os largaram num lago e construíram um templo sobre o local para trazer harmonia ao local. Cedo voltam a encontrar um novo aviso: “Quem tem sangue nas mãos, não regressará vivo”. Um a um, os soldados começam a experienciar fenómenos pouco naturais. Os avisos antigos e a súbita realização de que poderão não estar sozinhos começa a ter efeitos perversos na moral dos soldados. É curioso, por que, ali estão eles, no meio de uma guerra. Muitos já terão tido a sua experiência de combate, terão visto cenas que o ser humano comum não consegue sequer imaginar e, no entanto, encontram um novo medo no desconhecido. O terror advém do inesperado e não num qualquer batalhão inimigo que se esconda na selva.
Os soldados são estereótipos que já vimos noutros filmes: o novato, o homem de família, o que tem extensa experiência de batalha… Contudo, as personagens-tipo não afectam o desenrolar da trama, pelo contrário, facilita a distinção entre os soldados do pelotão e a escolha dos nossos favoritos. “R-point” empresta alguns dos seus elementos a belos filmes de guerra como “Platoon” (1986) e “Saving Private Ryan” (1998). Oferece uma perspectiva humanista dos soldados e não como meras máquinas de morte. É também um exercício de reflexão sobre a guerra e o valor da vida humana. Justifica-se enviar para a morte um conjunto de soldados para salvar outros que provavelmente já não estarão vivos? “R-point” evita colocar-se de um dos lados da guerra. Existem apenas soldados no meio de uma guerra e que lutam pela sobrevivência. Alguns ainda têm a vida toda pela frente, outros têm família para a qual querem voltar. O que o argumentista e realizador Su-chang Kong não nos deixa esquecer é que estes homens não são peões inocentes. A situação desesperada em que se encontram vai testar a confiança que colocam na unidade e a disciplina. Todos eles pecaram de algum modo e o temor que os atinge traz a descoberto as suas falhas. À medida que os acontecimentos espiralam fora de controlo, os soldados vão-se tornar mais desconfiados e paranóicos, trazendo a lume o que de melhor e pior guardam dentro de si e, por fim, ditar os seus destinos. Su-chang Kong aproveitou ainda para lançar achas para a fogueira, ao não deixar de fora apontamentos como as intenções colonialistas, imperialistas, de controlo político e económico dos povos chineses, franceses e americanos sobre o território vietnamita. É como se o Vietname fosse uma terra de todos e de ninguém, em que cada povo vai surgindo à vez para reclamar a sua parte. Não considero justo incluir “R-point” no género do K-horror visto que é primeiramente, um filme de guerra. Também não esperem muito gore e os poucos momentos que impressionam pessoas mais sensíveis não estão muito realistas. Sangue de groselha? Valha-nos o argumento, as personagens distintas e o cenário da selva cambojana onde foi rodado. Com todos esses pontos fortes, no final fica uma sensação de vazio, de que faltou algo. A trama não é concluída de modo satisfatório. Os filmes asiáticos são conhecidos por deixarem perguntas por responder mas “R-point” merecia um desenlace mais forte. O motivo da assombração não é clarificado. Se no final alguém vos perguntar porque sucederam acontecimentos terríveis em R-point respondam com um simples “Porque foram para a guerra”. Três estrelas.

Realização: Su-chang Kong
Argumento: Su-chang Kong
Woo-seong Kam como Tenente Tae-in Choi
Byung-ho Son como Sargento Chang-rok Jin
Tae-kyung Oh como Sargento Young-soo Jang
Wong-sang Park como Sargento Cook
Seon-gyun Lee como Sargento Park
Jin-ho Song como Sargento Oh
Byeong-cheol Kim como Cabo Byung-hoon Joh
Kyeong-ho Jeong como Cabo Jae-pil Lee
Yeong-dong Mun como Cabo Byun
Ju-bong Ji como Capitão Park

PS: Há alguns anos que persiste o rumor de que Zhang Yimou pretende realizar o remake de R-Point, em terras americanas. Mas por esta altura não se sabe se o projecto continua na mesa.


Próximo Filme: "Bloody Reunion" aka "To Sir with Love" (Seuseung-ui eunhye, 2006)

domingo, 24 de julho de 2011

"Three...Extremes - Curta #3: Box" (Saam gaang Yi, 2004)

"Box" é a última supresa de "Three...Extremes" e para mim, a menos extrema no sentido literal do termo. Isto surpreendeu-me, ou não fosse o realizador Takashi Miike. A narrativa centra-se em Kyoko que em criança (Mai Susuki), tinha uma irmã gémea Shoko (Yuu Susuki), que com ela fazia um número circense de contorcionismo. O número, conduzido pelo seu próprio pai, consistia em enfiarem-se em caixas pequenas, das quais desapareciam e surgiam, no seu lugar, rosas. Mas elas são iguais apenas na aparência. Shoko tem a preferência do pai e como se sugere, o seu amor incestuoso. Kyoko não consegue lidar com esta situação e um simples acto de criança vai desencadear acontecimentos terríveis. A  Kyoko (Kyoko Hasegawa), adulta é consumida pela dor do seu passado e sonha todas as noites que está a ser enterrada numa caixa, na neve. Mas será que é apenas um sonho? A história é um pouco confusa, como uma peça surreal, na qual temos de encontrar um significado sob a superfície. Muitas cenas não serão entendidas de imediato, somente após uma reflexão. A acção alterna o sonho com a realidade de um modo que podemos não conseguir encontrar a fronteira entre eles e até confundi-los. Depois de "Dumplings" e "Cut", "Box" soa a peça que pertence noutro puzzle pois ainda é mais contida de que "Cut".
 
A ligação entre as irmãs poderia ter sido melhor explorada, o facto de serem gémeas não justifica tudo. Quantos irmãos não têm más relações? Também o facto de Shoko ser a filha favorita não é explicado. Apenas se assume que existe um fio invisível e inquebrável que une as irmãs a ponto de uma ruptura poder ser desastrosa. Conseguimos empatizar com Kyoko e percebê-la só que sabe a poucochinho. Pessoalmente, queria mais. Mas é na cinematografia que a curta ganha pontos e ultrapassa largamente "Cut". Gostos. Não se discutem, lamentam-se. "Box" traz uma estética que concebo (ingenuamente dirão), mais próxima do horror. Toda a qualidade de sonho, a imagem e a narrativa surreal, funcionam muito bem. A árvore velha que domina a paisagem branca de neve parece uma pintura. Entretanto, esta cena orgânica exterior vai alternando com as cenas de circo numa estética que faz lembrar, por momentos, a época dourada dos circos itinerantes de freak shows, durante a Grande Depressão. Também a máscara veneziana representa um misto de mistério e de sedução que acentua o sonho. Belíssimo. Por fim, somos assaltados pela realidade fascinante que motiva o "remexer" do subconsciente de Kyoko: o facto de que ela e Shoko estarão juntas para sempre.
Em última instância, "Box" sempre é uma curta e exigir mais no seu tempo de duração seria difícil senão mesmo impossível. Miike sempre pensa "outside the box" por isso, leva "apenas" quatro estrelas.



Realização: Takashi Miike
Argumento: Haruko Fukushima e Bun Saikou
Elenco:
Kyoko Hasegawa como Kyoko 
Atsurô Watabe como Yoshii / Higata
Mai Susuki como jovem Kyoko
Yuu Susuki como jovem Shoko

Próximo Filme: "Cinderella" (Sin-de-re-lla, 2006)

domingo, 12 de junho de 2011

"Three..Extremes - Curta #2: Cut" (Saam Gaang Yi, 2004)

Depois de "Dumplings", segue-se "Cut", num registo mais contido. Embora, "Cut" mostre mais que o anterior, sugere muito menos. É muito menos extremo. Opiniões. E a premissa nem é má. Um realizador interpretado por Byung-hun Lee, que é uma paz de alma no set e trata a todos com igual bondade e educação é raptado da sua casa por um figurante. Esse personagem é completamente chanfrado e embirra com o realizador por ele ser bom. Pois. Isso mesmo. Rico, bem casado e sucedido, não tem direito a ser boa pessoa. Enfim, a inveja é uma coisa muito feia. Como tal, o louco arrasta para a sua "vendetta" a mulher do pianista e uma criança desconhecida. Ele propõe um desafio a Lee que de desafio não tem nada pois que é forçado a isso, se ele não estrangular a criança, ele cortará os dedos da sua mulher, um a um, enquanto ele não agir. Notem o requinte de malvadez: a mulher do realizador é pianista... Não só lhe arranca os dedos como o seu sustento. Ouch. Mas ele é louco e com os loucos não dá para argumentar. Na sua insanidade ainda espera que o realizador se lembre dele, a ele que é um mero figurante, entre centenas de pessoas. Ah, um pormenor que a mim arrepia os pêlos da nuca é o realizador ser raptado de sua casa para o estúdio que é uma réplica exacta da sua casa! Não é espécie de violação de privacidade? Deve ser só de mim.  Quanto à atmosfera propriamente dita, acho o início mais forte que o final, talvez também por ainda estar imbuída do espírito de "Dumplings". A cena do rapto está bem conseguida até ao momento em que ele acorda no estúdio. A partir daí perde-se alguma da atmosfera psicológica e que se nota também no ambiente físico. O estúdio, réplica da casa do realizador, apresenta cores vibrantes que contrastam com o assunto negro.  É revelador da dicotomia que é o figurante, uma personagem louca e divertida ao mesmo tempo. Talvez por isso, não fui capaz de o levar a sério, mesmo quando ele ameaçava o casal. Quanto ao realizador, não convence enquanto homem bom por demais, nem mesmo quando finalmente, confessa os seus segredos mais obscuros. Não existe ali um verdadeiro ponto de ruptura o que acaba por ditar um fim igualmente inconsequente.  Apreciei apenas o facto de "Cut" terminar, de certo modo,  como começou, vampires anyone? Sendo uma fã de Park e de Lee, não pude deixar de pensar que este filme me parecia desfasado do contexto de "Dumplings" (é o mal de se verem as curtas por uma determinada ordem) e mesmo da temática: extremos! Dá vontade de dizer, "corta e passa à próxima". Por isso, leva umas comedidas três estrelas.


Realização: Chan-wook Park
Argumento: Chan-wook Park
Elenco:
Byung-hun Lee como Realizador
Won-hie Lim como Figurante
Hye-jeong Kang como Mulher do Realizador

Próximo Filme: "Senjakala", 2011

domingo, 22 de maio de 2011

"Three...Extremes - Curta #1: Dumplings" (Saam Gaang Yi, 2004)

"Dumplings" é a contribuição chinesa para a trilogia de curtas de horror "Three...Extremes" sequela de "Three" (Saam Gaang, 2002). Esta experiência do horror asiático junta os realizadores Fruit Chan, (Hong Kong - China),  Park Chan-Wook (Coreia do Sul) e Takashi Miike (Japão) que apresentam entre os três, obras como "Don't Look Up" (2009), "Thirst" (2009) e "13 Assassins" (2010). Uma colaboração de sonho portanto. Ou se preferirem, um grande pesadelo assustador.


Bem, que podiam tirar do título "Extremes", que com estes realizadores acaba por se tornar redundante. O primeiro filme da trilogia é "Dumplings" que não deixa margem para dúvidas. Marca desde logo um tom brutal e divide a audiência. Este é um filme que se ama ou se odeia, de extremos, a bem dizer. É provocador, obsceno, repugnante, perturbador, desconcertante, chocante e outros tantos adjectivos na mesma linha. A premissa é simples: Li (Miriam Yeung Chin Wah), uma senhora de meia idade visita a "Tia" Mei (Bai Ling) para que esta lhe faça um dos seus famosos "dumplings", uns bolinhos de massa, que supostamente têm propriedades rejuvenescedoras. Estes bolinhos são muito famosos na China sendo confeccionados com carne, peixe, legumes, o que quiserem, a massa é a base. Inicialmente, Mei pergunta a Li quantos anos lhe dá, ao que esta responde 30. É muito mais velha e como ela diz e bem, ela é a melhor publicidade dela própria. Mei, mete-se na cozinha e começa a fazer os seus bolinhos mágicos: tritura, pica, amassa, coze como uma verdadeira fada do lar. Claro que a higiene é muito má, mas é cozinha caseira. Os produtos de fumeiro e os queijos não são feitos nos ambientes mais assépticos, no entanto, são bons que se farta não são? O pior é mesmo o ingrediente secreto de Mei (que não vou revelar) embora, ela não faça questão de o esconder, até faz gala disso. Afinal, não se trata aquilo de atingir a suprema beleza? Não é apenas uma transacção comercial? À mera menção do ingrediente alguns hão-de estremecer na cadeira, outros mesmo hão-de parar o visionamento do filme. Muitos, não olharão para bolinhos de massa cujo conteúdo desconhecem com os mesmos olhos... Mas o que me impressiona mesmo é a reacção, ou melhor ausência de reacção de Li, perante os bolinhos de cor rosa bebé. A sua indiferença é perturbadora. Nem mesmo o nojo de meter os bolinhos na boca sabendo aquilo que são a detém. Vêmo-la mastigar, ouvimos o conteúdo a estalar nos seus dentes e a ser sorvido... Criaturinha amoral. Faz pensar sobre a sanidade mental da personagem. A beleza vale perder a alma? E quando voltamos a vê-la, Li parece resplandecente, sem qualquer exagero de maquilhagem, apenas uma abordagem brilhante da câmara e a capacidade de representação de Chin Wah. Quanto à "Tia" Mei é refrescante, parece indiferente ao problema moral que os seus bolinhos acarretam e vai angariar os seus ingredientes como uma comum dona de casa vai à mercearia. O horror de Chan funciona muito melhor pela via da psique do que pela demonstração. Tem algumas imagens terríveis mas o que a audiência adivinha e antevê, por si só, é bem capaz de mexer com os seus sentimentos e estômagos. Ele semeia e instala desde logo uma sensação de desconforto para as curtas seguintes. E por isso, vale ouro. Quatro estrelas.



Realizador: Fruit Chan
Argumento: Lilian Lee (Pik Wah Li)
Elenco:
Bai Ling como Mei
Miriam Yeung Chin Wah como Senhora Li
Tony Leung Ka Fai como Senhor Li

Próximo Filme: "Noroi -The Curse" (Noroi, 2005)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"Shutter" (2004)


"Shutter" é um filme que talvez seja mais conhecido pela versão americana, protagonizada pelo Joshua Jackson ex-Dawson Creek - ele fez outros filmes mas "The Skulls" não pode ser considerado um filme ou pode? Na altura estive tentada a ir ao cinema vê-lo mas algo deve ter acontecido e acabei por não ir. Ainda bem, por que assim pude ver primeiro a versão original de 2004, na que foi a minha primeira incursão pelo cinema tailandês.
Eu, que não gosto muito de surpresas, pesquisei antes o que se diz sobre o cinema tailandês e por entre as lamentações, elogios e sorrisos rasgados haviam críticas à forma como os filmes coreanos e japoneses eram imitados, na técnica e no conteúdo, de modo incompetente. Ora, gosto de conhecer os dois lados da história e, considerando, que o cinema tailandês não terá os meios que a Coreia do Sul e o Japão, o que encontrei foi uma agradável surpresa.
É provável que ao ver o trailer se pense que é mais um filme com uma rapariga de longo cabelo negro despenteado pronta a aparecer nos sítios mais esquisitos e a pregar-nos um susto com direito a saltar da cadeira. Pois. É isso e muito mais.

A película é realizada por Banjong Pisanthanakun e protagonizada por Ananda Everingham (Tun) e Natthaweeranuch Thongmee (Jane). Ananda é ao que parece "Johnny Depp asiático", titulo que já antes fora atribuida ao actor chinês Tony Leung e com tal presença bonita e agradável a audiência do sexo feminino quase que está disposta a perdoar-lhe quaisquer transgressões. Similarmente, a actriz principal foi votada, pelos leitores tailandeses da FHM como a quinta mulher mais sexy do mundo de 2006. Por isso, temos à partida dois actores com os quais a audiência simpatiza e que acabam por se revelar competentes nos papéis atribuidos. A história em si, apresenta alguns dos "velhos" clichés à la "The Ring" (Ringu, 1998) e "The Grudge" (Ju-on, 2003) mas, anos depois, os sustos continuam eficientes e ainda surgem novas formas de abordar a figura fantasmagórica. No caso, a assombração revela-se através de uma máquina fotográfica. Asseguro-vos que não voltarão a olhar para uma máquina fotográfica da mesma maneira. Este objecto funciona como um terceiro olho ou um sexto sentido que revela o que os olhos humanos sozinhos não conseguem descobrir. Por esta altura talvez comecem a pensar: "Então para que é que utilizam a máquina? Se estivessem quietinhos fariam melhor figura." Respondo com um simples, "porque é humano." A curiosidade é uma das características humanas mais vincadas. Sabemos que algo que não deveria estar, está e sabemos que vamos ver algo de que não gostamos, mas não conseguimos resistir ao impulso. É um pouco como a criança marota a quem foi dito para não mexer no que não deve e que sabe que a sua infração terá consequências desagradáveis.
"Shutter" pode ser quebrado com facilidade em três fases cruciais: a cena inicial no jantar de amigos, os instantes seguintes no carro e depois a busca para a revelação/absolvição. Ao longo do filme há uma sensação latente de que algo está errado, mas não se percebe bem o quê. É por este motivo, que o jovem casal, (mais Jane do que Tun), assombrado desde a fatídica noite do jantar se envolve numa missão detectivesca para descobrir a motivação do fantasma e fazê-lo regressar de vez para o mundo dos mortos.Também é de destacar o modo como Tun trai, bem cedo no filme, que talvez saiba mais do que quer dar a conhecer. Em que nível não sabemos. Cabe-nos a nós, e a Jane, juntar as pistas e desvendar o mistério. No entanto, a maior desilusão é capaz de vir mesmo de Jane que apresenta a hipótese de assombração mais depressa do que qualquer pessoa sensata o faria na vida real. Além disso, a actriz demonstra demasiado desprendimento num momento de ruptura com Tun, um comportamento que não é típico de quem está apaixonado.

Na generalidade o que "Shutter" promete, cumpre. Gore, não há. As mortes são pouquíssimas. Há sim, cenas mais ou menos breves de sustos, que fazem a audiência tremer com os actores, como deve ser neste tipo de filmes. Hitchcock disse o que o que não vêmos é aquilo que mais assusta e, por breves instantes, a película segue essa premissa. As cenas no estúdio, na cama, na escada e os momentos finais do filme conseguem ser assustadores e susceptiveis de provocar insónias no mais corajoso dos espectadores. Na Internet Movie Database, o filme está bem classificado, com 7,2 estrelas em 10. "Shutter" não é uma obra-prima nem o pretende ser mas está, fundamentalmente, bem conseguido, pelo que leva um sólido quatro em cinco estrelas, aqui do Not a Film Critic.




Próximo filme: "Acácia" (Akasia, 2003).

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