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segunda-feira, 13 de julho de 2020

Suores Frios - "Anticristo – ou de como a depressão cinéfila pode ser um filme", por Samuel Andrade


Quando me foi proposto invocar um filme que, de algum modo, me tivesse causado singular impressão física após a sua visualização, nunca imaginei que tal tarefa se apresentasse tão custosa. Talvez por não ser, desde os meus “verdes anos”, pessoa particularmente impressionável por imagens em movimento projectadas no grande ecrã (“it's only a movie”, tal como Hitchcock bem ajuizava), não fui capaz, durante imenso tempo, de nomear um título que – e citando o repto do “convite” – “contenha um momento que te fez tremer, ter pesadelos, ou de que não conseguiste parar de pensar durante os dias seguintes ou, se fores mais para o “forte” te desconcertou”.

Honesta e curiosamente, na minha vida, tais sensações pareceram provir apenas de experiências televisivas: a saber, V (mini-série de terror e ficção científica, exibida em meados da década de 80) e as primeiras temporadas de Twin Peaks. De resto, o horror cinematográfico raramente me suscitou um inesquecível assomo de “agitação física”; obras como O Exorcista (The Exorcist) ou História de Duas Irmãs (Janghwa, Hongryeon) estão, definitivamente, entre os meus eleitos do género, todavia são filmes que me perturbam mais pelo teor implícito que revelam do que pelo seu grafismo.

Mas, de facto, e na minha idade adulta, há um filme que toca a (má) reacção pós-visionamento: Anticristo (Antichrist), de Lars von Trier. Saído do Festival de Cannes 2009 envolto em acalorada polémica, e o fruto da luta do realizador contra uma depressão que quase o incapacitou de trabalhar, Anticristo é veículo de terror – psicológico e sobrenatural – apropriadamente sombrio e grotesco, e um alvo fácil de escândalo mediático pela misoginia intensa e violência gráfica que patenteia.

Desde a sua sequência inicial, percebemos que von Trier não poupa nada nem ninguém. Filmada em extremo slow motion, somos confrontados com o êxtase de uma cena de sexo entre o casal protagonista (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, aqui somente designados como Ele e Ela), um momento de “distracção” durante o qual o bebé do casal cai, fatalmente, de uma janela aberta. Crivada pela mágoa, Ela sucumbe a profunda depressão, responsabilizando-se pela perda e encarando a calma do marido como insensibilidade. Ele, um terapeuta experiente, decide assumir o tratamento da esposa e, durante este processo, decide que a viagem a uma cabana isolada — apelidada de Éden — no meio da floresta ajudará à sua recuperação psicológica.

Assiste-se, de seguida, ao definitivo confronto físico e espiritual entre o casal que, rapidamente, evolui para a violência conjugal impiedosa, para um horror de índole realista e no sentido de uma “estética da agressão” que, na raia da pornografia, leva ao extremo a dicotomia sexo/morte.

A sua conclusão, de toada incerta e algo mística, apela sobremaneira à interpretação do espectador. Tenha sido por "o caos reinar", pelo subtexto(?) ou simplesmente pela violência, enfrentei um longo e profundo sentimento de mal estar: o filme não só me obrigou a desviar o olhar (lembram-se de não ser habitualmente impressionável?) perante “aquela” auto-mutilação da protagonista, como também me infundiu de uma depressão que se instalou nos dias seguintes, durante os quais, para o bem e para o mal, o filme simplesmente não me saiu do pensamento.


Samuel Andrade
filmSPOT (https://filmspot.pt/) & À Pala de Walsh (http://www.apaladewalsh.com)

domingo, 8 de janeiro de 2017

"Haunted Universities" (Mahalai Sayongkwan 2009)


Da Tailândia chega mais uma antologia de terror. Ênfase no “mais uma” que o país dos sorrisos reproduz antologias como Hollywood sequelas. Como é de senso-comum, quantidade nem sempre significa qualidade e, em comparação com os pares “Haunted Universities” encontra-se na parte inferior da tabela… “Haunted Universities” é composto por quatro segmentos diferentes mas que se encontram interligados através de Muay uma jovem que integra uma equipa de salvamento, que percorre as ruas da cidade de Banguecoque ao longo de uma noite numa ambulância.

“The Toilet” – Um pequeno traficante tenta enganar os seus fornecedores e ficar com as drogas e o lucro para si. Numa festa, é confrontado pelos bandidos e acaba por descobrir da pior maneira que é má ideia enganar pessoas metidas em negócios ilegais. Ele apanha uma grande tareia e a namorada, que não fazia ideia do negócio sujo do namorado, acaba por ser arrastada para a universidade onde ele terá escondido as drogas. É bastante tarde e os jovens impressionáveis demonstram receio ao calcorrear aqueles corredores, sobretudo perto da casa de banho das raparigas no quinto andar que se diz estar assombrada. Um dos bandidos não contente com a tareia e ameaças dirigidas ao casal decide arrastá-los e ao seu parceiro para o local para observar com os próprios olhos a assombração.

“The Elevator” – Caloira na universidade, Noknoi é uma descendente directa de um general ditador brutal. Lá entra em conflito com um líder de estudantes que faz questão de a recordar de uma matança que sucedeu num dos velhos elevadores da universidade, a mando do familiar desta. Para se libertar do assédio Noi aceita o desafio de entrar no infame elevador, cujas paredes estão tingidas de vermelho, para disfarçar o tom do sangue ali derramado.


“The Morgue” – Prasert é um aspirante a dentista que não suporta as aulas de anatomia em face do seu terror perante cadáveres e de assombrações. Tanto que é supersticioso ao ponto de usar um amuleto ao pescoço para se proteger. Em uma tentativa de recuperar pontos junto de uma professora depois de entregar o último trabalho após o prazo estipulado, voluntaria-se para substituir um auxiliar no hospital onde ela trabalha. Os problemas surgem depois de ser destacado para a ala mortuária. O “amigo” Joke tenta pô-lo à vontade e prega-lhe inúmeras partidas para que Prasert descontraia. Para azar de Prasert, durante essa noite, Joke prefere marcar um encontro romântico do que fazer o turno para recuperar as notas perdidas e deixa-o sozinho quando mais necessita.

“Stairway” – Sa (Anna Reese) está cansada depois de falar no chat com um desconhecido que termina dirigindo-lhe ameaças. Muay (Panward Hemmanee) mostra-se receosa mas a amiga tenta deixá-la descansada. Como é que o desconhecido iria saber onde elas moram? Se calhar nem vive no mesmo país… E sai para ir buscar comida. Muay, entretanto, decide ir descansar. Na rua, Sa é assediada por um grupo de homens que acaba por a deixar em paz depois de um homem bem-falante e ar respeitável se interpor entre eles. Sa acaba por aceitar a boleia deste mas as suas intenções podem não ser as melhores.

Os segmentos são bastante diferentes na direcção e no tom. Alguns seguem uma narrativa mais clássica no que diz respeito aos fantasmas e repetem inclusivamente cenas de sustos de filmes anteriores. Surpreendente nesta antologia é a sua crueza. É pouco habitual assistir a cenas com nudez e violência incluindo violência sexual. Apesar de o cinema tailandês não fugir a estes temas, sobretudo nos filmes de terror estes momentos são mais sugeridos do que explícitos e mais curtos, para dar ênfase a outros aspectos. Acaba por ser banal ver-se um cadáver, um fantasma ou um zombie, por exemplo, e não o processo da morte em si. Em “Toilet” o bad boy com aspirações a gangster leva uma tareia que seria caso para estar no mínimo em coma e uma caracterização mais condicente. A insistência da câmara neste momento é desnecessária e insólita. Passados alguns segundos, a persistência dos murros do gangster torna-se mórbida e gratuita. Tipo, acho que percebemos à primeira que o Jimmy (Atis Amornwetch) está a levar a lição da sua vida.
Porventura pretendiam prolongar um pouco mais esta curta? No geral “The Toilet” não convence podendo constituir motivo de desistência bem cedo na antologia. De modo curioso é a sequência que envolve um elevador onde os piores pesadelos dos personagens se tornam realidade, que se revela a mais interessante e assustadora de toda a curta. Tal sequência é até mais impactante que a da curta que se lhe segue e se chama… “The Elevator”. Esta, apresenta uma abordagem mais próxima da audiência tailandesa através do recurso à utilização de elementos históricos, como o confronto de estudantes com uma das ditaduras militares que perpassaram pelo país. Com algum potencial, “The Elevator” acaba por se perder numa estória romântica de que não necessitava. A tragédia da carnificina de estudantes no elevador de uma universidade e o encontro com uma descendente de um dos homens que orquestraram esse infeliz acontecimento deveria bastar. Também a actriz principal neste segmento ultrapassa os limites do aceitável na representação, tendo alguns momentos histriónicos que não deviam ter saído da sala de montagem. Mas como a maioria das curtas aqui presentes, transparece alguma falta de capacidade de edição por parte da realização.
“The Morgue” tem uma premissa insólita mas perde-se ao longo do caminho. Temos um estudante de um ramo da medicina com horror a cadáveres que é destacado para estar de guarda a uma morgue. A agonia de Prasert (Pangsit Piseesotgan) é prolongada em cenas contínuas em que não sucedem eventos que se revelem de facto assustadores. Talvez para Prasert. Estará tudo na cabeça dele? Porque as cenas arrastam-se de tal modo que provocam sonolência até aos mais corajosos. Em seguida, vem a última e mais brutal das curtas que compõem este “Haunted Universities” e serve como uma lição contra os perigos da internet. As duas personagens femininas tomam algumas atitudes que parecem escapar à lógica: num momento uma delas recusa boleia de estranhos para logo a seguir aceitar boleia de um outro estranho! A aparência deve ser mesmo tudo! Noutro momento, um intruso entra no apartamento e após assustar e ameaçar a estudante decide sair. O que faz a estudante que foi interpelada pelo estranho? Volta a dormir. É legítimo mas as prioridades estão um bocadinho trocadas não? Outro ponto que deverá levantar alguns pontos de exclamação é que “The Stairway” apesar de seguir duas estudantes numa noite que mudará as suas vidas para a eternidade, afasta-se, tal como “The Morgue” do tema da universidade assombrada. O título em inglês não faz justiça nem reflecte a realidade da antologia. Também as curtas se encontram interligadas mas em alguns casos, a ligação é no mínimo forçada. A conexão não é de todo orgânica, antes um pretexto, para contar estórias que de outro modo podiam não ver a luz do dia. Talvez tivesse sido melhor assim. Uma estrela e meia.

Realização: Bunjong Sinthanamongkolkul e Sutthiporn Tubtim
Atis Amornwetch como Jimmy
Pantila Fuglin como Pon
Panward Hemmanee como Muay
Prinya Ngamwongwarn como Jok (as Parinya Gamwongwan)
Ashiraya Peerapatkunchaya como Noknoi
Pangsit Piseesotgan como Prasert
Anna Reese como Saa

Próximo Filme: Blair Witch (2016)

domingo, 20 de março de 2016

"Teke-Teke" (2009)


Kana (Yuko Oshima) é uma estudante que acabou de perder a melhor amiga de uma forma brutal. Ela foi assassinada, tendo sido encontrada desmembrada. A sua morte impressiona Kana de tal modo que a instiga a investigar mais sobre o caso. Ela depara-se com o mito-urbano “Teke-Teke”, sobre uma mulher que teve uma morte muito violenta, ao cair para os carris de comboio e foi atropelada por um comboio que partiu o seu corpo em dois. Agora ela assombra as estações ferroviárias procurando fazer dos passageiros e transeuntes incautos as próximas vítimas da sua fúria cruel. O mito não só parecer encaixar-se na perfeição no modo como a amiga faleceu como se pega a Kana que se começa a sentir acossada. Se o mito for verdadeiro, Kana deverá decidir como agir com rapidez, pois que diz que quem trava conhecimento com a estória irá morrer dentro de três dias…

Se “Teke-Teke” faz recordar algo saído da escola de cinema de terror cabeludo de início do milénio, com o slogan imediatamente reconhecível “irás morrer em sete dias”, à cabeça não é por acaso. É aliás tão similar que se não soubesse diria ter sido realizado em 1998. Koji Shiraishi continua a ser recordado pelo seu “The Curse” de 2005, um dos melhores exemplos do subgénero do found footage antes deste se tornar particularmente intragável e irritante e por “Carved”, uma deambulação anterior por terrenos dos mitos urbanos. Com “Teke-teke” dá um passo atrás e vai buscar o que há, em simultâneo, de melhor e de pior no género de terror. “Teke-Teke” é um telefilme inspirado numa lenda local que vai buscar o retrato já tradicional da mulher como um ser monstruoso capaz de devorar e destruir tudo à sua volta, mesmo que não tenha um motivo grave para tal. Se não tiverem por hábito assistir a terror do sudeste asiático e/ou japonês, esta interpretação pode revelar-se interessante. Se este tipo de filmes forem tão óbvios para vós como respirar digamos que a ideia da mulher malévola é muito “fim de milénio”. Já era hora de a figura “mulher” deixar de ser percepcionada como rancorosa, vingativa ou odiosa mas parece que procurar novas soluções de vilões é como pedir ao cinema de terror japonês para se regenerar. Tarefa árdua.
Uma (!) das boas notícias é que “Teke-Teke” não fica o tempo suficiente para uma pessoa se cansar. São apenas cerca de 70 minutos de drama adolescente intermediado por ataques e perseguições. A equipa técnica percebeu que outro dos pontos positivos era a imagem forte do monstro, no entanto, a repetição desta aparição vezes demais porventura devida a limitações de orçamento, estraga o efeito que seria desejado. O maior foco de interesse de “Teke-Teke” constitui a própria lenda pelo que é muito estranha a decisão de a expôr ostensivamente no trailer. Ainda mais estranho se pensarmos que a lenda é conhecida pelo público japonês. O elemento surpresa não existe e se pensarmos nos parcos momentos de acção, pouco mais existe que a exibição de cadáveres. O factor medo talvez resida apenas nas mentes dos mais impressionáveis que não sofrem da dessensibilização advinda de anos a fio de sobre-exposição ao terror tão característico deste país. Restam actrizes jovens e bonitas que só ali estão pela popularidade pré-existente e pretendem demonstrar que possuem talento além dos atributos físicos e personalidades espirituosas que as colocaram no filme. A película necessita delas para atrair telespectadores e, ao mesmo tempo, elas utilizam este pequeno filme de terror, de um especialista é certo, como rampa de lançamento para uma carreira mais “séria”. “Teke-Teke” não é muito mais do que um conceito interessante produzido para consumo rápido e descartado como a tendência da semana. Dá para acreditar que até fizeram uma sequela? Duas estrelas.

Realização: Kôji Shiraishi
Argumento: Takeki Akimoto
Yuko Oshima as Kana Ōhashi
Mami Yamasaki as Rie Hirayama


domingo, 25 de janeiro de 2015

"Macabre" (Rumah Darah, 2009)

Grupo de amigos dá uma boleia a uma mocinha. O que poderia correr mal?

Estreado em Portugal por ocasião do MOTELx – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa em 2009, que se encontrava ainda apenas na 3.ª Edição, “Macabre” apresentou-se como uma das melhores obras saídas do prolífico cinema indonésio nesse ano. 

Em “Macabre” um grupo de amigos segue de carro para Jacarta para se despedir de dois deles: o casal Adjie (Ario Bayu) e Astrid (Sigi Wimala) grávida de 8 meses, que vão começar um novo projecto de vida na Austrália. A meio da viagem efectuam um desvio para convencer Ladya (Julie Estelle) a irmã de Adjie a colocar de parte as suas divergências antes de ele partir em definitivo para um novo país. O plano sofre um revés quando se deparam com Maya (Imelda Therrine) que lhes pede ajuda. Ela diz ter sido roubada e não tem boleia para casa. À chuva e na noite escura, o grupo oferece-se para a levar a casa. Agradecendo a generosidade, a jovem convida-os a tomar uma refeição com a família dela e refugiar-se do mau tempo. Apesar da relutância de alguns, eles acabam por aceitar e entrar. Lá dentro esperam-nos Dara (Shareefa Daanish) a mãe de Maya que parece não ter um dia mais do que 30 anos e os dois irmãos desta. Existe algo de desconcertante naquela família, algo que descobrirão muito em breve. É que a família de Maya gostou tanto deles, em particular da expectante Astrid que não tencionam deixá-los sair de casa… Nunca. Abriu a época de caça e os hóspedes são as presas!

Se “Macabre” parece a repetição de tantos outros slashers é porque não existe qualquer elemento surpresa. Os personagens são conhecidos na maior parte por constituírem os já habituais estereótipos do género como a sobrevivente final, o bom rapaz e o pervertido. Os vilões são maquiavélicos, aterrorizantes e são tão maus quanto seria de esperar de uma família de canibais! Eles gizam um plano para atrair as suas vítimas e quando a mãe Dara, qual chefe de um gangue organizado dá ordem para perseguir, atacar e dominar, vale tudo. A panóplia de armas utilizadas inclui armas como espadas samurai, serras eléctricas (uma homenagem a “The Texas Chainsaw Massacre” de 1974), jarros e tudo o mais que esteja espalhado pela casa que possa ser utilizado como arma mortal. E são ultra-resistentes. Para os eliminar é preciso nada menos que esfaquear, esquartejar, triturar, queimar, enforcar…

O cinema há muito que demonstrou que uma mulher grávida não está livre de perigo, vejam por exemplo “Inside” (2007) ou “Dream Home” (2010) e a pobre Astrid é prova disso mesmo com uma das cenas mais demoradas a deter-se na sua luta para defender a criança por nascer. Já Ladya é uma versão anterior da desenrascada Erin de “You’re Next” (2011), menos eficaz e mais dependente da sorte e dos seus amigos. Tanto ela como Arifin Putra que interpreta o psicopata Adam foram recentemente catapultados para a fama em “The Raid 2: Berandal” (2014) mas é Shareefa Daanish que rouba todas as atenções. Alguns poderão considerar a sua representação exagerada mas não irão ficar indiferentes.
Com olhos grandes, esbugalhados que sugerem a possibilidade de esta penetrar na alma das suas vítimas e extrair os pensamentos e desejos mais profundos da sua vítima e a pronunciação lenta, ponderada das palavras, Dara é inquietante. Aliás, cada aspecto desta personagem soa a uma nota dissonante logo a partir do momento em que a patriarca parece partilhar a idade da prole; vestimenta, cabelo e trejeitos de quem parece anunciar um estilo de vida antiquado; um olhar que não pestaneja e toda uma frieza e atitudes gélidas que sendo suspeitas, fariam visitantes “normais” atalhar caminho assim que tivessem oportunidade. Quando é apresentada a história da família, todos esses elementos desconcertantes encaixam no puzzle, incluindo as mais diversas peças e mobiliário espalhados pela casa.
“Macabre” é um autêntico banho de sangue. Imagino que se aquela casa tivesse sido palco de um massacre real, as pessoas que fazem a limpeza de tais cenários teriam muito trabalho pela frente. “Macabre” vem da Indonésia para provar que a tradição do slasher, ainda que possamos enumerar os lugares-comuns, continua a funcionar. Três estrelas.

Realização: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Argumento: Mo Brothers (Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto)
Shareefa Daanish como Dara
Julie Estelle como Ladya
Ario Bayu como Adjie
Sigi Wimala como Astrid
Arifin Putra como Adam
Daniel Mananta como Jimmy
Dendy Subangil como Eko
Imelda Therinne como Maya
Mike Muliadro como Alam
Ruly Lubis como Arman
Felicia A. Sumarauw como Bebé
Risdo Alaro Martondang como Sersan Syarief
Cansirano como Sony Samba
Roni Kribs como Petrus

Próximo Filme: "Blood Letter" (Thien Menh Anh Hung, 2012)

domingo, 19 de outubro de 2014

"Invitation Only" (Jue Ming Pai Dui, 2009)


Wade Chen (Bryant Chang) é o motorista de Yang (Jerry Huang), o presidente de uma grande empresa sediada em Taiwan, o qual inveja com todas as forças. Ele tem tudo o que o preguiçoso Chen gostaria de ter: rios de dinheiro, uma namorada supermodelo e carros de luxo. Um dia, Wade é apanhado a observar Yang a ter relações com Dana (Maria Ozawa) e este responde com um convite insólito. Wade é convidado a participar numa festa exclusiva onde pela primeira vez tem contacto com a vida da elite. Lá, ele explora ao máximo aquilo com que apenas poderia sonhar: jogar as apostas mais altas, conviver com os famosos, uma noite com Dana e até, a oferta de um carro desportivo. Parece bom demais não é? 
Só entra com convite
Wade e outros convidados são atraídos para uma sala onde descobrem que a sua presença ali faz parte de um plano malicioso. Eles foram convidados para constituir a sobremesa (figurativa) dos seus anfitriões. Aquilo é um jogo e eles não são os jogadores. Foram atraídos para a festa para os ricos e poderosos poderem dar azo à suas fantasias mais sádicas.
A senda de Wade encontra eco no próprio filme. “Invitation Only” é um primo invejoso das películas de torture porn. “Saw”, “Hostel” e outros que tais, são a óbvia inspiração de um filme que se apresenta com o slogan de “1.º Slasher Originário de Taiwan”. O engenho complexo de um e a luta de classes do outro são subaproveitados e amalgamados numa única noite de tortura. As classes baixas são humilhadas. Apresentadas como falsas e invejosas, visto que até encarnam entidades falsas para se enquadrar entre os ricos. Como se isso fosse importante. Note-se que é suposto odiarmos os ricos por brincarem com os indesejáveis pobres que são odiados apenas por pertencerem a uma determinada condição social. A qual, se calhar, nem sequer é controlada por eles. Mas tal é o argumento para que a audiência mantenha os níveis de adrenalina elevados. 

“Invitation Only” está cheia dos lugares-comuns do género pelo que afirmar que “Invitation Only” se desenrola na Europa ou na Ásia, é indiferente. No máximo, os actores asiáticos são tão maus ou piores que os actores originais que pretendem emular. Quase nunca algum dos personagens se assemelha a uma pessoa real pois, todos eles parecem, sem excepção, autênticas bestas. Isto leva-nos a questionar se tal não será, de certo modo, uma protecção dos argumentistas. Como se criar sentimentos pelas pessoas que irão morrer de forma horrenda fosse provocar aflicção junto das audiências. O que eles não sabem é que a simpatia pelos personagens pertence à fórmula que nos faz gostar de um filme. O orçamento é diminuto, os diálogos são atrozes, as personagens caricaturas e poucos aparentam saber o que estão a fazer. Apenas os momentos de tortura são eficazes embora, até esses, não sejam nada de original ou brutal por comparação com os procuram imitar. A cena de sexo gratuito com a actriz pornográfica Maria Ozawa também é capaz de agradar a quem gosta do seu terror com um pouco de erotismo. Mas se o motivo for a actriz, não há por que não ver directamente um “filme” dela a sofrer através do primeiro terço de filme para lá chegar. 
“Invitation Only” é como um convite indesejado. À primeira vista, o convite parece aliciante e alinhamos até que percebemos que fizemos asneira e é tarde demais. O filme é um desperdício de tempo e quando olhamos para o relógio chegamos à conclusão que já vimos metade. É impossível desistir agora. O fim? O terror da possibilidade de uma sequela. Uma estrela.

Realização: Kevin Ko
Argumento: Sung In e Carolyn Lin
Bryant Chang como Wade Chen
Maria Ozawa como Dana
Julianne Chu como Hitomi
Kristian Brodie como Warren
Jerry Huang como Presidente Yang
Vivi Ho como Holly

O melhor:
- As cenas de tortura
- Maria Ozawa (quando está calada)

O pior:
- Imita filmes que já não são muito bons e ainda faz pior
- Argumento é tão ridículo que darão por vós a rir-se da improbabilidade das situações
- Consegue ser um tédio


Próximo Filme: "The Theatre Bizarre", 2011

domingo, 6 de julho de 2014

Jeritan Kuntilanak, 2009

Deliciem-se...

Reina (Garneta Haruni), Ferry (Andrew Ralph Roxburgh), Bimo (Zaki Zimah), Vivin (Joanna Alexandra) e Lila (Furry Citra) são cinco estudantes que decidem aproveitar a ausência dos pais de Reina para passar uns dias de descanso no casarão da família. O ambiente entre eles não é o melhor. A animosidade de Reina para com Lila é evidente, já que ela suspeita que Ferry esteja interessado na rapariga ao contrário dela própria e que o sentimento possa ser recíproco. Se Ferry não tivesse convidado Lila, a viagem podia ter sido uma boa oportunidade para Reina o conquistar em definitivo. Os planos de diversão são arruinados a meio da viagem quando Lila tem um grave ataque de asma e o grupo acaba por levá-la para a única casa que encontram num raio de quilómetros. Escusado será dizer que a coincidência não foi a mais feliz e a casa se encontra mal-assombrada. Lila desaparece e, em pânico os estudantes acabam por fugir deixando para trás a rapariga. Eles firmam um pacto de silêncio sobre o caso mas Yunita (Julia Perez) a irmã da rapariga desaparecida não aceita esta decisão e pressiona-os para que estes a ajudem a encontrar Lila. De volta ao campus e com um segredo terrível dentro de si, eles começam a ser assaltados por visões aterradoras que correm o risco de transitar para o mundo real.

“Jeritan Kuntilanak” apresenta a sintomatologia clássica de “férias correm horrivelmente mal” com “créditos constituem o momento mais assustador do filme”, “Há resmas de Kuntilanaks na Indonésia” e “encontre o pior actor do elenco”. O filme é todo um affair de “não se percebe muito bem o que está a suceder”. Porque é que o carro avaria numa primeira fase levando os estudantes a refugiar-se na casa e depois na fuga este já arranca é um daqueles mistérios que só convêm porque se tratar de um filme de terror, onde tudo é perdoado. Errado. Porque é que os adolescentes não recorrem à polícia ou contam aos familiares que tiveram medo e deixaram Lila lá sozinha, pedindo para a irem socorrer é algo que me ultrapassa. Como eles (quase todos) voltam à vida normal, como se nada se tivesse passado, é muito estranho. Porque é que a meio da película, os personagens que a princípio possuíam o protagonismo quase desaparecem é outra questão. Como é que ainda há quem ache piada a Zacky Zimah e que este com 30 anos ainda faça o papel de um estudante é algo que me ultrapassa. Apenas a irmã e Vivin sofrem com o desaparecimento da rapariga, uma por motivos óbvios, a segunda devido sentimentos de culpa. Haja alguém que tenha algo parecido com empatia! Até Ferry, o potencial interesse amoroso de Lila perde o interesse logo após a excursão fracassada. O mínimo que uma pessoa apaixonada pode fazer é demonstrar preocupação pelo objecto amoroso não?
Onde “Jeritan Kuntilanak” sofre realmente é com a execução infantil. Não é como se a estória fosse fenomenal ou desse para esticar os músculos da representação do limitado elenco. No entanto, a sensação de que as cenas foram concluídas num único take é demasiado forte para negar. Isso e a prevalência de sons que se devem assemelhar a algo de incrivelmente assustador enquanto as actrizes em trajos menores rodopiam sobre si próprias como se de baratas tontas se tratassem. O elenco é assombrado durante o dia, enquanto dormem e, em quase todas as assoalhadas da casa. O ciclo é repetido até à exaustão: uma personagem é ameaçada vezes sem conta e depois passa à seguinte. O enquadramento das cenas chega a ser replicado ao pormenor. Até ao bocejo. “Jeritan Kuntilanak” podia ter ser sido criado por quaisquer maçaricos e se calhar, com melhores resultados. Mais assustador? Apenas pensar que isso produzirá algum efeito nas audiências mais cépticas e/ou habituadas a ver filmes de terror. Meia estrela.



O melhor:
- Esquece-se facilmente
- Noventa minutos de ocupação para quem não tem nada que fazer
- Pode ser bom... Se fingirem que é uma sátira

O pior:
- Não é suficientemente curto
- Execução técnica (a todos os níveis)
- Menção especial aos actores, umas lições de representação se calhar não lhes fazia mal
- Imaginação que é feito de ti?

Realização: Koya Pagayo
Argumento: Shinta Rianasari
Julia Perez como Yunita
Garneta Haruni  como Reina
Andrew Ralph Roxburgh como Ferry
Zaki Zimah como Bimo
Joanna Alexandra como Vivin
Furry Citra como Lila

Próximo filme: “Cyrano Agency” (Sirano; yeonaejojakdo)

domingo, 22 de junho de 2014

"The Forbidden Door" (Pintu Terlarang, 2009)


Vamos lá supor por um momento, que queriam iniciar-se nos caminhos do terror indonésio. A julgar pelos filmes aqui abordados anteriomente, e à excepção dos filmes de artes marciais de São Gareth Evans, é difícil não ficar com a impressão que o cinema de terror oriundo deste país é terrível. E a verdade é... Faça-se suspense… Vá, um pouco mais… É que não estão muito longe da realidade. A produção em série no seu pior encontra-se nos cinemas deste arquipélago. O filme de terror, a comédia e o mix destes dois géneros dominou, durante muitos anos o panorama cinematográfico do país. A fórmula é a mesma: um grupo de jovens estupidamente giros (quase todos), uma conveniente viagem ou visita de estudo, a ausência de adultos e/ou de qualquer sentido de responsabilidade e um monstro baseado numa das muitas lendas locais disponíveis. Acompanhe-se a fórmula por uma péssima execução técnica, incluindo um elenco tão capaz de proferir falas memorizadas como o cidadão normal, argumento que parece ter sido escrito por um estudante de liceu, montagem horrível, banda-sonora que é uma cópia dos 39583957405 filmes anteriores, caracterização e efeitos digitais que mais valia não se terem esforçado. Ainda estão comigo? Agora imaginem que “The Forbidden door”, é o oposto do que acabei de descrever.

Gambir (Fachri Albar) é um escultor cuja vida é radicalmente alterada quando a namorada Talyda (Marsha Timothy) engravida. Sem condições de criar um filho e ainda sem a bênção dos pais dela, ela faz um aborto. Enlouquecida pela dor, pede a Gambir que homenageie o filho morto, colocando o corpo numa das suas esculturas. Gambir acede e pouco tempo depois a situação é bem diferente. Eles encontram-se agora casados e as suas esculturas de mulheres grávidas fazem um sucesso tremendo. Mas por baixo da máscara de sucesso, Gambir tem o coração despedaçado. Ele nunca recuperou da perda do filho e isso trouxe-lhe problemas para a intimidade. É invejado por todos pela mulher linda e inteligente, mas impressiona-o a recém-formada frieza dele. Pior, é pressionado pela mãe para que lhe dê um neto. Como se não bastasse, ele começa a ver uma mensagem em todos os lugares de alguém a pedir socorro. Até onde o mistério o irá levar?

“The Forbidden Door” parece saído de um episódio da “Twilight Zone” para maiores de 18. A ajudar estão o décor retro e o ambiente artificial dos anos 50. O protagonista tem a cabeça num caos e age em conformidade. São todos à volta, e sobretudo Talyda, que se sentem demasiado seguros de si próprios. Os personagens instilam uma confiança que ninguém sente no mundo real. E se todos têm os seus problemas e frustrações, em “The Forbidden Door” tudo vai bem naquele aquário. O mundo deles é perfeito. E já que se fala em perfeição, a cinematografia é fora de série. As cores outonais são reminiscentes dos contos de fadas, com a dualidade que lhe é tão presente, de aparência bela mas esconde podridão. E não precisamos de ser confrontados com uma porta intrigante para chegar a essa conclusão. Aí reside um dos maiores pecados de “The Forbidden Door”, a previsibilidade. Curioso que filmes que estrearam em simultâneo que sofriam do mesmo mal obtiveram maior sucesso de bilheteira que “The Forbidden Door”. Outros dos problemas do filme são os vários finais que deixam a ideia de insatisfação ou pelo menos, a necessidade de um corte mais decidido assim como o tempo que demorou até chegar ao gore. Não sou de vender a minha verdade como incontestável e decerto que “The Forbidden Door” não agradará a todos, mas estranho que quando estreia um filme de execução e criatividade superiores seja deixado para trás, quando a qualidade média deixa muito a desejar. Custa mais pensar do que entregar-nos aos velhos vícios não é? Três estrelas.

Realização: Joko Anwar
Argumento: Joko Anwar e Sekar Ayu Asmara (livro)
Fachri Albar como Gambir
Marsha Timothy como Talyda
Ario Bayu como Dandung
Otto Djauhari como Rio
Tio Pakusodewo como Koh Jimmy
Henidar Amroe como Menik Sansongko
Verdi Solaiman como John Wongso
Putri Sukardi como Ibu


O melhor:
O elenco.
Cinematografia. O visual é fantástico.
Cenário.

O pior:
Vários Finais.
Rítmo lento.
Demora algum tempo até às primeiras gotas de sangue.

Próximo Filme: "The Neighbors" (Ee-oot Salam, 2012)

domingo, 9 de março de 2014

"Sawako Decides" (Kawa no Soko kara Konnichiwa, 2009)


Antes de “Mitsuko Delivers”(2011) houve “Sawako Decides” (2010), apenas um exemplo numa linha de filmes de Yuya Ishii, sobre mulheres pragmáticas com grandes decisões a tomar nas suas vidas. Uma das primeiras ideias que sobressaem aquando do visionamento de “Sawako Decides” e, para quem está familiarizado com “Mitsuko Delivers”, é que os títulos destas obras podiam ser trocados com facilidade. Enquanto Mitsuko passa uma película inteira a tomar decisões por todos e com implicações nessas mesmas vidas, mesmo quando não lhe é pedida tal ajuda, por entre “cool’s” e “ok’s”, Sawako (Hikari Mitsushima) finalmente apresenta resultados, se calhar, aquilo por que família e amigos esperaram durante 5 anos. Senão, vejamos, Sawako encontra-se no quinto trabalho em part-time em 5 anos, nos quais teve igual número de namorados. A mais recente conquista? Um divorciado com uma filha de 4 anos, que gosta de fazer crochet, recém despedido de um trabalho como designer de brinquedos.
E para fazer Sawako sentir-se ainda melhor, o tio Nobuo (Ryo Iwamatsu) liga-lhe constantemente para regressar à terra natal Kawaminami e tomar conta do negócio da família, já que Tadao (Kotaro Shiga), o pai dela tem uma cirrose em estado terminal. Como ela não tomasse nenhuma decisão, o namorado Kenichi (Endo Masashi) decide que Sawako irá responder ao apelo, independentemente, de quaisquer sentimentos dolorosos associados a esse regresso. Por muito interesseiro ou idiota que o namorado seja, a verdade é que a culpa reside em Sawako, incapaz de se comprometer, nas suas relações, no trabalho. É que ela não se acha nada de especial e, pela maior parte, também não acha ninguém extraordinário, as coisas são o que são e nada se pode fazer contra elas. Se não soubesse, diria que Sawako era portuguesa, tal a atitude de resignação. Tanto que, quando Sawako regressa e todos a acolhem mal, à excepção do tio e um trabalhador (porventura cioso de um trabalho que teme vir a perder), os nervos estão à flor da pele. Como é possível uma pessoa deixar-se espezinhar assim? Que trauma? Que sentimento de culpa?

Algures Sawako foi uma criatura com sonhos, que fugiu da terra natal com o capitão de uma equipa local para a grande cidade, onde a aguardava com toda a certeza a continuidade na fábrica familiar e uma vida rotineira, sem grandes variações ou entusiasmo. Não é imediatamente perceptível, e bem que podemos ficar na ignorância se o que os aldeões sentem é despeito por ter abandonado uma oportunidade segura e ademais a responsabilidade pelo negócio, ou o facto de ela ter tido coragem para largar tudo por uma vida de incerteza. Algo que eles nunca seriam capazes de fazer. Sawako não é capaz de o compreender, pelo menos não no início. O seu destino bem que pode ser aquele que a sua infância augurava, mas tem de ser Sawako a desejá-lo e a lutar por ele. E não os que a rodeiam a forçá-la a isso. Das duas uma, ou todos à sua volta são mestres manipuladores que desejam secretamente que Sawako tome as rédeas da fábrica ou Sawako é afinal, tão teimosa como o pai, do qual se distanciou tantos anos antes e irá tomar uma decisão que afectará toda a sua vida futura, apenas porque pode. A estória é bastante negra e a tempos deprimente. As imagens de uma Sawako no presente a emborcar cervejas encontram paralelo ali mesmo no quarto ao lado, no pai a morrer por causa de um fígado que já não consegue lutar contra os excessos do passado. E se ela é a personagem principal, que dizer do namorado que praticamente a abandona e à própria filha durante parte da película? Em “Sawako Decides” não sucede nada de extraordinário, de facto ficarão surpreendidos com a vulgaridade dos acontecimentos. Mas é esse o fulcro da questão: em que grau é que identificamos com pessoas e situações quotidianas, a tentar sobreviver. E mais perigosa ainda, a realização de que nem todos são especiais e estão destinados a fazer algo incrível. Quatro estrelas.

O melhor:
- Excelentes interpretações
- A vida real no seu pior melhor
- Momentos cómicos numa estória maioritariamente depressiva
- Argumento


O pior:
- Até os caracóis têm um maior sentido de ritmo,
- A ausência de reacção de Sawako pode ser irritante


Realização: Yuya Ishii
Argumento: Yuya Ishii
Hikari Mitsushima como Sawaka
Endo Masashi como Kenichi Arai
Ryo Iwamatsu como Nobuo
Kotaro Shiga como Tadao
Kira Aihara como Koyako Arai


Próximo Filme: "Epitaph" (Gidam, 2007)

domingo, 1 de dezembro de 2013

"Kiss me, Kill me" (Kilme, 2009)

Encontram facilmente o filme com legendas em inglês

A ideia da morte paira sobre ela desde que o homem por quem se apaixonou a rejeitou em definitivo. A morte paira sobre ele desde que aceitou um trabalho de assassino profissional. Eles vão encontrar-se quando ela o contrata para acabar com a miséria dela e o improvável acontece. Na morte, descobrem o amor. Ela, apesar de todos os esforços do assassino em mantê-la viva parece destinada a tentar de todas as maneiras possíveis levar até ao fim a missão de uma morte precoce. Quanto a ele, parece quase improvável que uma pessoa tão em controlo da vida profissional (afinal de contas ele mata pessoas!) seja tão desastroso na vida pessoal.

Jin-yeong Seo (Hie-jong Kang) está tão agarrada à morte que, se a inicio a sua casmurrice é digna de pena, torna-se irritante a partir do momento em que descobrimos o motivo por trás da sua decisão. Como pode uma rapariga nova agarrar-se assim à depressão? Já Hyeon-jun (Hyeon-jun Shin) vai além do habitual assassino profissional que descobre possuir sentimentos profundos acerca do seu alvo. Ele é uma personagem extremamente complexa, com motivos muito mais razoáveis para ponderar, ele próprio findar a sua vida. A mãe alcoólica é, de certo modo, uma versão mais velha de Jin-yeong, uma pessoa que desistiu e que é carregada pela vida, matando-se aos poucos mediante a droga da sua escolha, a bebida, que provoca, também ela, o adormecimento da psique de Hyeon-jun. Em última análise, Hyeon-jun escolheu aquela profissão porque tem problemas com a mãe. Ela é o seu modelo. E ele espera, inconscientemente talvez, que o trabalho que desempenha lhe traga a morte visto que ele não é capaz de o fazer. Mas chega de falar da morte, que este filme é sobre a vida.
“Kiss me, Kill me” apresenta personagens não muito simpáticos, apesar de nos fazerem rir entre sketches saídos de uma película puramente cómica. Depois do momento de gargalhada, lembramo-nos que um dos personagens tinha uma corda ao pescoço ou está rodeado de dezenas de latas de álcool vazias.
Duas almas sozinhas encontram-se e vivem felizes para sempre? Vejo pelo menos dois obstáculos: o facto de Jin-yeong não poder ficar sozinha muito tempo sob pena de tentar suicidar-se e esta ter pedido dinheiro a agiotas para encomendar a sua própria morte. Se sobreviver vai ter de pagar a dívida, com juros. Qualquer dos actores principais está à altura da tarefa de nos fazer compreender e apreciar, a seu tempo, personagens pouco acessíveis. E ainda bem que assim é senão, “Kiss me, Kill me” seria um affair bastante tedioso. Os filmes coreanos são conhecidos pelo ritmo vagaroso, mas este é o exemplo perfeito dessa crença. Se a audiência não estiver disposta a aguardar pela recompensa mais vale nem arriscar. A narrativa está ainda pejada de coincidências demasiado convenientes para ser verdade. Como se estivessem a adequar a realidade à ficção e não o contrário. O que podemos extrair destas opções é que “Kiss me, Kill me”, a despeito do enfoque num cenário negro tem alma de comédia romântica. E na verdade, não vejo como podia não apostar naquele ao fim de apenas um quarto de hora de filme. Não queria que a dor levasse a melhor sobre eles. Porque se até aqueles personagens têm hipótese de salvação, significa que há esperança para todos. Três estrelas.

Realização: Jong-hyeon Yang
Argumento: Jong-hyeon Yang
Hyeon-jun Shin como Hyeon-jun
Hie-jong Kang como Jin-yeong Seo
Hye-ok Kim como Yeo-kyeong Yun
Cheol-min Park como Man-su Lee
Seong-mo Jeong como Geum-su Na
Woo-chang Shim como Sang-bok Ahn

Próximo Filme: "King's Game" (Osama gemu, 2011)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

"Chaw" (Chawu, 2009)


É quase um ritual, quando se abordam filmes de monstros, mencionar o “Alien” (1979) e o “Predator” (1987). São clássicos e são, simplesmente o padrão de excelência para qualquer tipo com pretensões de cineasta que queria assustar o pessoal com uns fatos de borracha. A malta nova, se calhar, já está tão dessensibilizada que não encontra o factor M (Medo), nestas películas. Mas a verdade é que criar um filme com uma besta atemorizante, hoje em dia, é ingrato. É já se viu tudo e de todas as maneiras. Aqueles filmes constituem um marco, no que diz respeito aos alienígenas e, no campo dos animais temos tamanha variedade desde o tubarão (“Jaws”, 1975) passando por ovelhas (“Black Sheep”, 2006) até ao coelho (“Monty Python and the Holy Grail”, 1975). Parece que o desafio sempre foi o modo como as captar. Ora, estamos perante um jogo de vislumbres ora mostram-no assim que podem e do modo ostensivo possível. Os filmes que optam pela revelação célere tendem a optar pelo género da comédia negra e tentam dela capitalizar ao máximo. “Chaw”… é como um adolescente. A princípio sabe o que quer mas passado algum tempo confessa-se indeciso e, no fim, chega à conclusão que é uma criança grande e ainda lhe falta algo para a atingir a maturidade.

Depois de uma sequência inicial brutal (adorava deixar-vos aqui um spoiler mas tenho de me manter firme e rejeitar o engodo), que decidiram que “Chaw” seria uma comédia e, como tal, teriam de estupidificar o argumento e respectivos personagens. Os momentos de humor acabam por resultar na maior parte mas não deixa de ficar a sensação, durante bastante tempo de que algo não está certo. A mudança de rumo do horror à comédia é tão radical que uma pessoa não pode deixar de se interrogar o que poderia ter acontecido tivesse o material seguido noutra direcção.

Sammaeri é uma pequena agrícola onde o acontecimento mais excitante é a feira de produtos orgânicos. Isto é, até serem encontrados os corpos trucidados de alguns aldeões. Decididos a parar com a carnificina um grupo de cidadãos, polícias e mercenários junta-se para caçar a besta responsável pelo evento. Entre estes encontram-se Il-man Chun (Hang-seon Jang) que tem desejos de vingança por a neta ter sido uma vítima do que acredita ser um javali gigante, Kang-soo Kim (Tae-woong Uhm) um polícia de Seul “promovido” para ali e Man-bae Baek (Je-moon Yoon) que sonha com a glória da caça. Nenhuma das personagens é memorável, ainda que o elenco seja sólido. Temo que seja a velha armadilha dos personagens descartáveis. Talvez por isso, não sejam abençoados com inteligência acima da média ou se detenham no ecrã por tempo suficiente para que se crie uma afinidade. E a polícia coreana demonstra ad nauseam a sua completa impreparação e incapacidade para lidar com situações de emergência, aqui para boa conveniência do argumento. Que faria se fossem voluntários? Para os mais atentos “Chaw” tem uma estória muito similar a filmes como “Jaws”, sendo que existem as primeiras mortes, desvalorização ou, se preferirem, descrença dos responsáveis da localidade devido a época importante para a sua sobrevivência económica, a constatação do óbvio à medida que a contagem de mortos aumenta, a contratação de especialistas para resolver o problema que falham redondamente e, mais para o fim, o bom herói relutante apanha os cacos. Os políticos só vêem cifrões à frente, os polícias são uns incompetentes e o herói nunca tem um pingo de vaidade. Tão, refrescante… Quanto à ameaça propriamente dita e, nos intermeios de comédia com terror, o “monstro” não se revela poderoso o suficiente para entrar nos pesadelos do homem comum. Além de que enquanto, a memória colectiva da cena em que javalis comedores-de-homens atacam um homem em “Hannibal” (2001), não se esvanecer o “monstro” de "Chaw" parecerá sempre por comparação um marco menor. Mas lá está, a besta é grande, o número de vítimas é significativo e são jogados todos os lugares-comum que resultaram anteriormente. Veredicto: Se apreciam filmes com bestas assassinas, "Chaw" acerta nas notas todas mas não o vejam com esperanças de grande originalidade. Duas estrelas e meia.

Realização: Jeong-won Shin
Argumento: Jeong-won Shin e Yong-Cheol Kim
Tae-woong Uhm como Agente Kim
Yoo-mi Jung como Soo-ryun
Hang-seon Jang como Il-man Chun
 Je-moon Yoon como Man-bae Baek
Hyuk-kwon Park como Detective Shin
Gi-cheon Kim como Chefe dos aldeões
Sang-hee Lee como Chefe da Polícia
Seo-hee Go como “mãe” de Deok-gu
Hye-jin Park como mãe do agente Kim
Yeon-hwa Heo como Mi-young
Yoon-min Jung como Agente Park

Próximo Filme: "Bun Man: The Untold Story" (Bat sin fan dim ji yan yuk, 1993)

domingo, 5 de maio de 2013

TOP Saga “Whispering Corridors” (1998-2009)


Trailer de "Whispering Corridors" (1998)

Duas belas tardes, nos idos de março (notem bem a referência cinematográfica, hã?), muni-me das armas essenciais de qualquer cinéfilo que se preze: chocolate, uma manta, lencinhos renova, que isto nunca se sabe quando a lágrima se forma ao canto do olho e decidi-me a visionar a saga de terror coreano “Whispering Corridors”.

“Whispering Corridors” é um dos primeiros clássicos do final dos anos 90 que contribuíram para a insanidade temporária ao redor do j-horror e k-horror. A saga gerou cinco filmes, o último dos quais estreou apenas há alguns anos (2009) e, provavelmente encerrou um dos capítulos mais famosos do cinema de terror sul-coreano. Impressões: as estudantes de liceu são bastante desenvolvidas em termos de físico (ou isso ou já contratavam actrizes mais novas para os papéis, só um pensamento), contem com uma percentagem de 0,00000000000123% de testosterona neste filme, toda a gente a dada altura pensa em matar-se ou chega mesmo a suicidar-se, os colégios femininos são um inferno e os tipos que trataram do marketing dos filmes são uns génios. Se desejam descobrir em que se baseiam estas impressões sigam sem demoras para o TOP Saga “Whispering Corridors” do Not a Film Critic.

1) “Whispering Corridors 2” – Memento Mori (1999): Min-ah é uma colegial demasiado curiosa para seu próprio bem que encontra o diário esquecido de uma colega de turma. Ao invés de o devolver ela dedica-se a explorar cada página que foi decorada como se de um tesouro se tratasse por Shi-eun e Hyo-shin de quem corre o rumor de que estão envolvidas romanticamente. Quando Hyo-shin salta do telhado da escola para a morte, Min-ah e as colegas começam a ser alvo de eventos sobrenaturais cada vez mais aterrorizantes. Conseguirá Min-ah descobrir a ligação entre o diário e o fenómeno antes que seja tarde demais?

2) “Whispering Corridors” (1998): O último ano de secundário inicia-se com uma tragédia. Park, uma professora a quem as alunas chamavam pouco afectuosamente de “Velha Raposa” é encontrada morta por enforcamento, na escola por duas alunas. Jae-yi é a típica rapariga tímida em quem ninguém repara até ao último ano e Ji-oh é a jovem artista cheia de talento que os professores conservadores adoram odiar. Elas encontram numa sala de aulas desactivada o local onde estudar e criar arte sem ninguém as incomodar. Diz-se pela escola que o local é assombrado pelo fantasma de uma antiga aluna que morreu ali 9 anos antes e que esse evento poderá estar relacionado com a morte da professora Park.

3) “Whispering Corridors 4: Voice” (2005): Young-eon passa os dias a treinar canto com a professora ou se deixa ficar até bem tarde de noite, no estúdio da escola. Um dia ela ouve um barulho e ao investigar, acaba por ser assassinada com uma pauta de música. Ela transforma-se num fantasma condenado a vaguear os corredores da escola até conseguir alcançar um qualquer tipo de resolução que lhe permita passar para o outro lado. A sua única esperança é a melhor amiga Sun-min que parece ser capaz de a ouvir do além. Recorrendo às últimas memórias antes da morte e a investigação no mundo dos vivos de Sun-min tentam descobrir quem está por trás da sua morte.

quinta-feira, 14 de março de 2013

"Clash" (Bay Rong, 2009)



Caso não saibam o Vietname é uma das pérolas perdidas do oriente. Em mais sentidos do que um. Ainda muitos anos virão antes que este país não seja sinónimo de guerra e de uma muito mal sucedida invasão americana. Mas começa a dar passos importantes, nomeadamente na 7ª Arte, cujos esforços começam a ser reconhecidos como a nova vaga do cinema vietnamita. Ultimamente começam a surgir grandes épicos, enquanto os filmes de artes marciais se vão tornando cada vez mais sofisticados. Ainda não chegaram ao absurdo de Hong Kong que quase já não sabe coreografar sem recurso ao arame e ao ecrã verde. Aqui a acção é bruta e crua. Um dos grandes impulsionadores do género é Johnny Tri Nguyen, duplo, actor, sex symbol e especialista em diversos estilos de artes marciais como o vovinam e lien feng kwon. A acompanhá-lo em “Clash” está a belíssima Veronica Ngo que ostenta um ar de anjo ferido que a torna uma Phoenix (Trinh) perfeita.
Trinh é ameaçada por Dragão Negro (Hoang Phuc Nguyen), o mestre do crime que a retirou do mundo da prostituição infantil para a transformar na assassina perfeita. Isto é, até ela ter uma filha e desejar abandonar o ciclo de morte e destruição. Ele "convida-a" a realizar um último trabalho. Se o cumprir terá a tão desejada liberdade e a filha de volta. O objectivo é resgatar um portátil com informação importante. Não que isso conte muito para a estória, o que interessa são as diversas oportunidades de confronto entre a equipa de mercenários criada pela Phoenix e os vilões que constituem, invariavelmente, estrangeiros tais como franceses e chineses. A maior parte dos actores safa-se nas cenas de luta, a pontaria é que continua um desastre. É preciso disparar várias centenas de tiros até se acertar em alguém? Onde eles foram buscar armas com capacidade para tal carregamento é que gostaria mesmo de saber. Ah e as típicas cenas de confronto a três metros de distância em que sofás e cadeiras continuam a ser bons objectos de protecção contra projécteis...  Melhor mesmo só quando os vilões partem garrafas na cabeça da rapariga e ela nem pestaneja porque ela é assim tão boa. Bem, ninguém disse que “Clash” era perfeito, nem que o desfecho não se visse a milhas mas é divertido. E dá para perceber que os cineastas viram filmes de Hollywood e de Hong Kong, que depois “poliram” e caracterizaram com motivos vietnamitas. A cena entre a Phoenix e Quan (Nguyen) é tão “True Lies” (1994) que dói. Claro que há cenas universais como a boazona a fazer golpes de um qualquer estilo de luta que não sabemos qual é, nem queremos saber porque ela tem um decote que mostra uma parte generosa de pele. Também não se pode acusar os senhores de não saber o que estão a fazer.
O problema é que as cenas entre as lutas não são suficientemente ricas para suster a atenção. Veronica Ngo é boa o suficiente mas o vilão é tão ridiculamente mau e exagerado que as cenas entre os dois nunca ganham a seriedade dramática para dizer que “Clash” é um filme de artes marciais com densidade. O inevitável romance também não tem sumo para pôr a audiência a fazer mais do que suspirar pelo facto de se ter criado um dos casais mais estupidamente atraentes de sempre. Já era hora de um juntarem um homem maravilhoso a uma feia. Já era hora de a mulher mais bonita do escritório se apaixonar pelo careca gordo. Mas não, é impossível. Tudo, desde as relações ao cenário deve ser artificialmente bonito: a Phoenix deve perder tempo para colocar sombra para criar aquele efeito esfumado no olhar e o Quan deve aproveitar a primeira oportunidade para abrir a camisa e nos fazer contar os seus abdominais firmes e rijos. O único aspecto não fabricado de “Clash” consiste no cenário selvagem e virginal vietnamita. Se há coisa que me deixa furiosa é o facto de os artistas terem matéria-prima rica e não a saberem aproveitar, “Clash” deixou a vontade de os ver desbravar mais território, de ir mais além. Os actores não são nulidades, os cenários são maravilhosos e há ali pequenos apontamentos, nomeadamente, naqueles momentos em que a história dos personagens se cruza com a história simultaneamente rica e trágica do país. Isso e as artes marciais mistas. Duas estrelas.

Realização: Le Thanh Son
Argumento: Johnny Nguyen e Le Thanh Son
Thanh Van Ngo (Veronica Ngo) como Trinh/Phoeniz
Johnny Nguyen  como Quan
Hoang Phuc Nguyen como Hac Long
Lam Minh Thang como Cang
Hieu Hien como Phong
Truong The Vinh como Tuan


Próximo Filme: “Mad Detective” (San Taam, 2007)

domingo, 15 de julho de 2012

"Merantau Warrior" (Merantau, 2009)


Os ritos de passagem da adolescência à condição de adulto são qualquer coisa de extraordinário que só as culturas que os possuem podem compreender na totalidade. Nos países ocidentais, o mais parecido com “tornar-se homem” é capaz de ser a perda de virgindade. Entre as mulheres é mais ou menos consensual a identificação do surgimento da menstruação com uma superior maturidade emocional. De facto, é curioso verificar noutras culturas a existência de práticas temerárias como saltar sobre bois desencabrestados ou fazer tatuagens dolorosas em todo o corpo, com a afirmação da masculinidade. Na ilha de Sumatra, vinga, entre o povo Minangkabau a tradição do “Merantau”, que leva a que os rapazes abandonem o conforto do lar, à procura de experiência e sucesso que possam depois trazer para a comunidade. A ideia não é uma diáspora sem retorno, mas a importação de conhecimento que contribua para o crescimento e bem-estar da população Minangkabau.
No meio rural, entre os criadores de plantações de tomate, Wulan (Christine Hakim)  despede-se do filho mais novo, Yuda (Iko Uwais). Ela recorda-se bem das adversidades que o filho mais velho enfrentou e pede a Yuda que não siga a tradição. Ela acredita que o filho não precisa de cumprir o “Merantau” para demonstrar o seu real valor mas ele está decidido. Ele quer seguir as passadas do irmão que tanto admira e passar pelo mesmo que os seus antepassados antes de si. É um dever.O teste de Yuda inicia-se logo que chega a Jakarta. O sítio onde iria pernoitar foi demolido. Sem um tecto sobre a sua cabeça, com pouco dinheiro no bolso e pouco mais que a comida que a mãe embalou, a aventura ainda mal começou. Yuda é incapaz de permanecer impassível perante a injustiça então, quando vê Astri (Sisca Jessica), ser atacada por bandidos ele intervém. Sem o saber, intromete-se no caminho de uma rede tráfico de escravas sexuais e os criminosos não vêm com bons olhos interferências no seu ganha-pão.
Segue-se uma luta implacável entre um gangue e o jovem lutador de silat (artes marciais) pela rapariga. O gangue quer fazer de Yuda um exemplo e ele, só pretende resgatar Astri das garras dos criminosos. A narrativa é bastante standard: rapaz conhece rapariga; rapariga está envolvida com uns vilões e, qual cavaleiro andante, ele vai resgatá-la e vivem felizes para sempre. Mas “Merantau” não é uma estória com um final feliz. Certos pormenores revelam que por trás de uma estória simples se encontra uma boa direção de actores e coreografia de acção.
Christine Hakim, a veterana e galardoada actriz que interpreta Wulan, traz ao seu curto papel uma doçura maternal, estimável em qualquer parte do mundo. O Eric de Yayan Ruhian funciona como uma espécie de anjo negro. É ele, quem na viagem para a selva urbana de Jakarta, desfaz as ilusões de Yuda e o prepara para o duro choque com a realidade. É muito difícil vingar na capital, ainda mais sendo um jovem provinciano que desconhece a vida da cidade. Já a espevitada Astri é a vítima perfeita para o tipo de crime que é retratado. Abandonada pelos pais e com o irmão pequeno para cuidar, dança num clube duvidoso para se poderem alimentar. Sem alguém para a proteger, pouco faltará para a forçarem a prostituir-se e o irmão Adit (Yusuf Alia), acabar nas ruas a mendigar. Os bandidos dividem-se em dois tipos: os estrangeiros que pretendem “exportar” mulheres do arquipélago e os indonésios que as vendem. Destes, quais os piores?
Na verdade, Yuda é o único ser humano, em todo o filme, que se opõe a tal prática. Os que só vêm cifrões à frente não se compadecem do sofrimento alheio. Os restantes ignoram o que se está a passar ou fecham os olhos ao que está à vista… Qualquer dos três: o “louco” Yuda, Astri e Adit, podiam desaparecer que ninguém iria à sua procura. Resta desvendar se “Merantau Warrior” é um conto caucionário sobre a presença dos estrangeiros no país, se uma crítica à ausência de valores da selva urbana. É um jovem provinciano, ainda por corromper, que se insurge contra o crime e tenta salvar inocentes. É nesta reflexão que se encontra o assombro de uma estória aparentemente banal e na força explosiva do silat, a sua espectacularidade. As cenas são dotadas de um realismo impressionantes cuja edição é depois limada na colaboração seguinte de Uwais e Evans, “The Raid – Redemption”. Se intencional ou não, atentem, em particular, ao confronto final, que parece uma homenagem a “Who Am I” (1998), no qual, Jackie Chan defronta dois lutadores, no topo de um arranha-céus. A acção e o desenvolvimento da narrativa acabam por resultar como as mais-valias de “Merantau Warrior”, uma lufada de ar fresco que deverá agradar a fãs do género e a iniciados. Quatro estrelas.

Realização:  Gareth Evans
Argumento:  Gareth Evans
Iko Uwais como Yuda
Sisca Jessica como Astri
Christine Hakim como Wulan
Mads Koudal como Ratger
Yusuf Alia como Adit
Alex Abbad como Johni
Yayan Ruhian como Eric
Laurent Buson como Luc

Próximo Filme: "The Eye", (Gin Gwai, 2002)
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