quarta-feira, 13 de abril de 2016

“MONSTRA – A colheita de 2016” – Parte 1


Comecemos pelo momento de honestidade refrescante. Este ano não foi o mais profícuo em número de visionamentos da MONSTRA. Da parte competitiva calhou-me em sorte “The Boy and the Beast” (2015), “Kahlil Gibran’s The Prophet” (2014), “April and the Extraordinary World” (2014), “When Marnie was There” (2015), tendo-me sobrado “apenas” tempo para o Grande, Icónico, Inesquecível, Filme de Animação de uma Vida, “Spirited Away” (2001). Nota-se muito que o “Spirited Away” é um dos meus filmes de animação preferidos?! Por outro lado, os filmes que *vi alternaram entre o razoável e o muito bom, o que torna o balanço da edição de 2016 da MONSTRA, muito positivo.

“The Boy and the Beast” (2015)

Se poucos questionavam que Mamoru Hosoda era um dos melhores do cinema de animação japonês da atualidade, “The Boy and Beast” pouco fez para desmistificar essa ideia. Ren/Kyuta (Aoi Miyazaki/Shota Sometani) é um jovem revoltado com a perda da mãe e ausência do pai, que decide fugir de casa, de uma família estranha que mal conhece e entra num mundo novo sobrenatural. Porventura por ser tão peculiar quanto o mundo de deuses animais onde penetrou, acaba por aceitá-los com naturalidade, como se esse tivesse o seu lar desde sempre. Por sorte do Destino, Ren torna-se o filho adoptivo e discípulo de Kumatetsu (Koji Yakusho), uma besta que bem domina as Artes Marciais mas não o feitio difícil que o impede de concretizar o seu potencial máximo como Deus daquele lugar. Este par improvável acaba por crescer conjuntamente e melhorar com o tempo e Ren, agora Kyuta, quase esquece o mundo real, até que percebe que tem assuntos inacabados por resolver no outro lado. Esta obra não se desvia muito da obra anterior do realizador. Hosoda continua a preferir temas em torno das dores do crescimento e dos afectos, dos obstáculos a ultrapassar para realizar o potencial como ser humano e dos erros que se cometem no processo, como já abordado em “The Girl who Leapt Through Time” (2006) ou “Wolf Children” (2012). Tantos temas que às vezes nos perdemos no turbilhão de estórias que acompanham a narrativa principal. Se estas pouco fazem para a enriquecer, constituem mais momentos para a animação irrepreensível brilhar. A batalha final em particular fará as delícias dos que ainda ficam estrelinhas nos olhos, como se de crianças se tratassem. Uma vitória nos dias que correm, em que se questiona a capacidade das novas longas de animação de fazer sorrir ou profundamente comover. “The Boy and the Beast” é similar às obras anteriores de Hosoda, acessível a mais jovens mas sem alienar adultos, somente em dose superior. Podia por isso ser facilmente dividido em episódios e transposto para o pequeno ecrã. E se peca por excesso de ambição, seria um princípio de MONSTRA em grande.




*PS: Vi o “When Marnie Was There”, extra-festival.

Próximo: MONSTRA - A colheita de 2016 - Parte 2

domingo, 20 de março de 2016

"Teke-Teke" (2009)


Kana (Yuko Oshima) é uma estudante que acabou de perder a melhor amiga de uma forma brutal. Ela foi assassinada, tendo sido encontrada desmembrada. A sua morte impressiona Kana de tal modo que a instiga a investigar mais sobre o caso. Ela depara-se com o mito-urbano “Teke-Teke”, sobre uma mulher que teve uma morte muito violenta, ao cair para os carris de comboio e foi atropelada por um comboio que partiu o seu corpo em dois. Agora ela assombra as estações ferroviárias procurando fazer dos passageiros e transeuntes incautos as próximas vítimas da sua fúria cruel. O mito não só parecer encaixar-se na perfeição no modo como a amiga faleceu como se pega a Kana que se começa a sentir acossada. Se o mito for verdadeiro, Kana deverá decidir como agir com rapidez, pois que diz que quem trava conhecimento com a estória irá morrer dentro de três dias…

Se “Teke-Teke” faz recordar algo saído da escola de cinema de terror cabeludo de início do milénio, com o slogan imediatamente reconhecível “irás morrer em sete dias”, à cabeça não é por acaso. É aliás tão similar que se não soubesse diria ter sido realizado em 1998. Koji Shiraishi continua a ser recordado pelo seu “The Curse” de 2005, um dos melhores exemplos do subgénero do found footage antes deste se tornar particularmente intragável e irritante e por “Carved”, uma deambulação anterior por terrenos dos mitos urbanos. Com “Teke-teke” dá um passo atrás e vai buscar o que há, em simultâneo, de melhor e de pior no género de terror. “Teke-Teke” é um telefilme inspirado numa lenda local que vai buscar o retrato já tradicional da mulher como um ser monstruoso capaz de devorar e destruir tudo à sua volta, mesmo que não tenha um motivo grave para tal. Se não tiverem por hábito assistir a terror do sudeste asiático e/ou japonês, esta interpretação pode revelar-se interessante. Se este tipo de filmes forem tão óbvios para vós como respirar digamos que a ideia da mulher malévola é muito “fim de milénio”. Já era hora de a figura “mulher” deixar de ser percepcionada como rancorosa, vingativa ou odiosa mas parece que procurar novas soluções de vilões é como pedir ao cinema de terror japonês para se regenerar. Tarefa árdua.
Uma (!) das boas notícias é que “Teke-Teke” não fica o tempo suficiente para uma pessoa se cansar. São apenas cerca de 70 minutos de drama adolescente intermediado por ataques e perseguições. A equipa técnica percebeu que outro dos pontos positivos era a imagem forte do monstro, no entanto, a repetição desta aparição vezes demais porventura devida a limitações de orçamento, estraga o efeito que seria desejado. O maior foco de interesse de “Teke-Teke” constitui a própria lenda pelo que é muito estranha a decisão de a expôr ostensivamente no trailer. Ainda mais estranho se pensarmos que a lenda é conhecida pelo público japonês. O elemento surpresa não existe e se pensarmos nos parcos momentos de acção, pouco mais existe que a exibição de cadáveres. O factor medo talvez resida apenas nas mentes dos mais impressionáveis que não sofrem da dessensibilização advinda de anos a fio de sobre-exposição ao terror tão característico deste país. Restam actrizes jovens e bonitas que só ali estão pela popularidade pré-existente e pretendem demonstrar que possuem talento além dos atributos físicos e personalidades espirituosas que as colocaram no filme. A película necessita delas para atrair telespectadores e, ao mesmo tempo, elas utilizam este pequeno filme de terror, de um especialista é certo, como rampa de lançamento para uma carreira mais “séria”. “Teke-Teke” não é muito mais do que um conceito interessante produzido para consumo rápido e descartado como a tendência da semana. Dá para acreditar que até fizeram uma sequela? Duas estrelas.

Realização: Kôji Shiraishi
Argumento: Takeki Akimoto
Yuko Oshima as Kana Ōhashi
Mami Yamasaki as Rie Hirayama


domingo, 28 de fevereiro de 2016

"The Invitation" (2015)


“The Invitation” foi o último filme a ser exibido numa edição do MOTELx de 2015 que tinha sido pouco mais que morna. “Assassination Classroom” foi a adaptação de mangá divertida que não comprometeu, “We are still Here” fez as delícias dos fãs de um estilo retro e pouco mais houve que ficasse na retina. Eis que surgiu “The Invitation”, uma daquelas películas que surgem assim de mansinho, ninguém dá por elas e acabam por roubar o Show. Wow!

“The Invitation” faz o mesmo pelos jantares de amigos no género de thriller, o que “Coherence” fez em 2013, em Ficção Científica. Posto isto, não morrendo de amores por esta última obra que atua em formato “lume brando” até a um clímax inesperado, “The Invitation” não convidará muito ao visionamento.

Will (Logan Marshall-Green) e Kira (Emayatzy Corinealdi) dirigem-se para um jantar de amigos, quando sucede o inesperado. Eles atropelam um animal e Will acaba por ter de tomar uma decisão difícil. Com isto em mente, uma noite que já se adivinhava tensa torna-se ainda mais enervante. É a primeira vez que Will se reencontra com a ex-mulher Eden (Tammy Blanchard), 2 anos depois de um acontecimento penoso que transformou as suas vidas para sempre. Tanto Will como Eden prosseguiram as suas vidas românticas e o inesperado e estranho convite de Eden faz pensar que o Encontro servirá, em simultâneo, para sarar feridas e enterrar o machado de guerra. Eden reuniu os velhos amigos do casal para um jantar com o seu novo companheiro, o calculista David (Michiel Huisman) e a provocadora Sadie (Lindsey Burdge) cuja aparência parece gritar “vítima” de todos os ângulos. Os amigos parecem aceitar, pelo menos durante algum tempo, a explicação de Eden para a reunião após tantos anos sem se verem. Houve um acontecimento horrendo que precipitou o fim do casamento de Will e Eden, o casal perfeito e o consequente afastamento dos amigos. Eles aceitam com hesitação a renovada e sofisticada Eden, à excepção de Will. Ele conhecia-a, ele foi marido dela e aquela, simplesmente não é a querida e vulnerável Eden de quem se separou. Se calhar ele é que se perdeu na dor e na bebida, porque só ele consegue ver algo de muito estranho na atitude dela, de David, de Sadie e, mais tarde, na imponente e ameaçadora figura de Pruitt (John Carroll Lynch), o amigo que ninguém conhece.

“The Invitation” sobretudo da paranóia de Will. Já alguma vez experimentaram a sensação de estar num grupo e sentir que apenas vocês estão certos e, até podem, de facto, estar certos, mas ninguém acredita em vocês? O problema que se coloca perante Will e constitui a maior fonte de interesse para a audiência é que não se sabe se ele tem razão ou se estará apenas a imaginar coisas. “The Invitation” é um jogo de percepção que mantém o equilíbrio a todo o momento. Will tem mesmo motivo para achar que há algo de muito errado naquele jantar? Não serão as suas desconfianças apenas delírios de um louco? De cada vez que tomamos uma decisão relativamente à pespectiva certeira, surge nova pista para nos fazer mudar de ideias. “The Invitation” sucede devagar mas seguro, claustrofóbico, à medida que os convivas transitam entre as divisões da casa, comendo e bebendo, as personalidades mais desinibidas e a conversa começa a tocar nas feridas abertas. Os convivas agem como um grupo de amigos normal, com personalidades bem definidas e as suas “cliques”, de espírito aberto mas reserva suficiente para não ferir susceptibilidades, até à descontracção ou a agressão latentes se tornarem manifestas. Muitos destes estados de alma podem ser observados sem quaisquer palavras, através da paralinguística, tal como aqueles jantares desconfortáveis em que somos obrigados a participar umas poucas vezes na vida. “The Invitation” não é sobre o desenlace que apenas a poucos minutos do clímax se torna óbvio mas, sobre o caminho percorrido. Logan Marshall-Green assemelha-se a um Tom Hardy sombrio em versão indie, com excelentes resultados. A sua dor, desconfiança, paranóia e o instinto de sobrevivência, reunidos sob uma aparente calma contida, são um gosto de observar. De igual modo, John Carroll Lynch é a prova viva de como um actor secundário pode roubar a atenção das “estrelas” através de um brilhante e perturbadora interpretação… “The Invitation” não vai além do terreno da casa onde decorre o jantar de amigos mas não precisa de muito espectáculo para ser inquietante. Muito depois de terminar ficará num recanto da mente, a fervilhar. É fogo que arde sem se ver e esse é talvez o maior elogio que se lhe pode fazer. Quatro estrelas.

Realização: Kary Kusama
Argumento: Phil Hay e Matt Manfredi
Logan Marshall-Green como Will
Tammy Blanchard como Eden
Michiel Huisman como David
John Carroll Lynch como Pruitt
Emayatzy Corinealdi como Kira
Toby Huss como Dr. Joseph
Mike Doyle como Tommy
Michelle Krusiec como Gina
Karl Yune como Choi
Lindsay Burdge como Sadie
Marieh Delfino como Claire
Aiden Lovekamp como Ty
Jordi Vilasuso como Miguel
Danielle Camastra como Annie
Jay Larson como Ben

Próximo Filme: "Teketeke" (2009)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Março é Mês de Monstra


Diz que a Monstra - Festival de Animação de Lisboa está aí a rebentar e eu sou uma pessoa para não me deixar ficar (por casa). De 03 a 13 de Março, Lisboa (e não só) vão estar mais animados.  Em 2016 estamos em 32 salas, 61 escolas, 12 universidades. Vamos levar a MONSTRA e a MONSTRINHA a 10 cidades de Portugal e a mais duas dezenas nos cinco continentes. De Timor a Brasília, de Arras a Buenos Aires, de Berlim a São Paulo, de Maputo a Viena. Realizámos a quinta edição da MONSTRA em França. De 300 espectadores em 2002, ultrapassámos os 5.500 em 2016. São muitos números estão a ver? E este ano, a Monstra além da sempre interessante competição de longas-metragens, explora os lados dos inesperados balcãs. Mas independentemente disso, um dos meus filmes preferidos de sempre, quiçá, o mais-melhor-preferido "Spirited Away" (A Viagem de Chihiro) vai ser exibido na Secção "Históricos". Ouvem isto? É o som da criancinha que mora dentro de vós a rogar para que visitem a Monstra. Encontramo-nos lá.

domingo, 31 de janeiro de 2016

"Parasyte: Part I" (Kiseijuu, 2014)


Daqui a uns anos, talvez até meros meses, vou negar que alguma vez disse isto mas aqui vai: se há moda que precisa continuar é a adaptação de filmes a partir de mangá; se uma precisa de morrer é a divisão de filmes em duas ou mais partes.

“Parasyte: Part I” é só apenas um dos muitos filmes que nasceram numa banda-desenhada e passaram ao ecrã nos últimos anos com resultados variáveis. “Death Note” é um esforço incongruente e aborrecido; “Rurouni Kenshin” que teve uma estreia intrigante caiu a pique à medida que foram sendo geradas sequelas. Por entre mortos e feridos, “Gantz” e “Assassination Classroom” emergiram como os esforços mais interessantes ou divertidos.

Em “Parasyte: Part 1” a humanidade é alvo de uma invasão invisível a olho nu por alienígenas. Estes seres funcionam quais parasitas e introduzem-se nos corpos de seres humanos, tomando o controlo destes e adaptam os seus comportamentos com vista a passar despercebidos enquanto canibalizam outros homens. Shinichi (Shota Sometani) um aluno vulgar de liceu, torna-se, por acidente, na única esperança para salvar a espécie humana quando um dos parasitas fracassa a conquista do seu cérebro e apenas assume o controlo do seu braço direito. Shinichi atribui-lhe o nome literal de “Migi” e acaba por criar-se uma amizade insólita e inesperada entre o rapaz e o alienígena invasor, movida de início pela curiosidade mútua. Eles não podem sobreviver um sem o outro pelo que acabam por coexistir como um som. Shinichi distancia-se da mãe e da amiga Satomi (Ai Hashimato) após o conhecimento da realidade que afecta todos os seres humanos e Migi, por sua vez, começa a questionar a brutalidade da sua própria espécie parasítica. Entretanto, Ryoko (Eri Fukatsu) que começa a exercer a profissão de docente na mesma escola onde Shinichi estuda é possuída por um alienígena de elevado estatuto que pretende estudar os seres humanos no seu meio ambiente. Conhecimento significa poder. E conhecer o Homem tornará mais fácil a conquista da espécie.

“Parasyte” sucede na apresentação de uma estória absolutamente absurda que agrade aos fiéis seguidores da mangá e às audiências sequiosas de uma experiência diferenciada no que diz respeito às invasões extraterrestres. Pela primeira vez em algum tempo é conhecia a perspetiva do invasor. Não é apenas um ser terrível, impassível e impossível de demover na sua senda destrutiva. Ele é tão ou mais complexo que o Homem. Quer-se uma mente colectiva qual colmeia mas até ele quebra as hostes e questiona. Por seu turno, Shinichi enfrenta um dilema pior que o do adolescente normal. O jovem que nunca nada fez de extraordinário, tem agora um braço alienígena com quem comunica telepaticamente. Seria caso para internamento psiquiátrico se contasse a alguém, não? Também a personagem de Ryoko é intrigante. Não será um exagero assumir que se o Homem encontrasse uma nova forma de vida a iria estudar e dissecar em toda a medida para a conhecer. Chocante é a perspectiva de que quem o faz é um Ser invasor e o Homem é a Cobaia.
Desta feita, os efeitos digitais são um bom complemento da estória. Destacam-se, em particular, as sequências em que as pessoas são atacadas pelos parasitas. Mas nota-se, que estamos por fim chegados ao século XXI. Os valores de produção já não podem ser assim-assim. O argumento, o elenco, a cenografia, a trilha sonora, os efeitos inseridos em pós-produção entre outros aspectos técnicos são de qualidade média a superior. Há a nítida sensação que existe uma preocupação em não apostar no menor denominador de satisfação possível e que iria agradar de qualquer modo aos leitores da mangá. Se isto abre portas a que se considere, finalmente, a adaptação da BD como uma fonte viável e rentável de boas obras cinematográficas e, também abre todo um espaço de possibilidades para a atracção de públicos que à partida não teriam o menor interesse em ver estes produtos de Ficção. Três estrelas.

Realização: Takashi Yamazaki
Argumento: Hitoshi Iwaaki (manga), Ryôta Kosawa e Takashi Yamazaki
Shôta Sometani como Shin'ichi Izumi
Eri Fukatsu como Ryôko Tamiya
Ai Hashimoto como Satomi Murano
Sadao Abe como Migi (voz)
Kazuki Kitamura como Takeshi Hirokawa
Masahiro Higashide como Hideo Shimada
Tadanobu Asano como Goto
Miko Yoki como Nobuko Izumi
Jun Kunimura como Detective Hirama

Próximo Filme: "The Invitation" (2015)
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